A luta do Tigre, por Ernesto González

Apresentamos este texto que foi publicado na Revista Movimento n.° 2 (janeiro-fevereiro de 2005) editada pelo MES, como parte dos materiais exibidos nesse boletim especial. O artigo de Ernesto González se apresentou no momento que se completava 18 anos da morte de Moreno e, paralelamente, no início de um ano chave para a afirmação do PSOL, que buscava sua legalização. Conquista que foi obtida com muito suor e abnegação no dia 15 de setembro desse mesmo ano. Como apoio e estimulo a nossa construção González afirmou:

“Se Hugo (Nahuel Moreno) vivesse, estamos convencidos de que estaria na expectativa de seu desenvolvimento e oferecendo toda colaboração com a tremenda tarefa que vocês decidiram empreender. Pessoalmente, espero que esta matéria contribua no mesmo sentido e que ajude à superação da crise de atomização e dispersão do trotskismo em escala nacional e internacional”.

Temos orgulho de sermos parte dos fundadores do PSOL que reivindicam essa tradição e que não sucumbiram ao PT e tampouco capitularam aos aparatos.  Levamos adiante as bandeiras da esquerda socialista brasileira em tempos adversos. O texto de Ernesto González dialoga justamente com esse prisma: Moreno e a construção de uma organização socialista em tempos difíceis.

Transcrição: Stefany Eva

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Por Ernesto González*

Em 25 de janeiro de 2005, completam-se 18 anos da morte de nosso companheiro e amigo Nahuel Moreno (Hugo Miguel Bressano). E nos parece acertado fazer um sintético balanço do que nos aconteceu durante este período, para tirar conclusões e propor uma perspectiva futura, como melhor comemoração ao criador e sustentador da “Corrente Morenista” dentro do trotskismo em escala nacional e internacional.

Apesar do extraordinário crescimento e desenvolvimento do trotskismo do fim da segunda guerra mundial, hoje em dia estão sofrendo uma crise importante. O desmoronamento do stanilismo iniciado 1989/91 em lugar de favorecer nossa consolidação, ajudou a sua dispersão e heterogeneidade. Em lugar de uma só organização centralizada e eficiente em nível mundial proliferam os aparelhos e as frações que recamam ser o “centro ortodoxo” do “verdadeiro trotskismo”. Está dispersão se refletiu, de uma ou outra maneira, em cada pais. A Argentina deve ser o caso mais notório. Não só existem perto de dez grupos ou partidos que se reconhecem como trotskista, as, entre os que nos reivindicamos da “corrente morenista”, há mais de vinte grupos, ainda que alguns deles sejam formados por quatro ou cinco companheiros. Um absurdo!

Para superar a divisão

Por isso é que hoje queremos colaborar na homenagem a Hugo lembrando alguns dos aspectos mais brilhantes de sua trajetória que têm a ver com esta luta por impedir ou superar esta nefasta tradição da permanente divisão das forças trotskistas, junto com o secretarismo e o dogmatismo, que predomina na maioria de suas organizações.

Ainda em vida, o partido já tinha feito a auto-crítica de seu [de Nahuel] passado sectário com respeito ao peronismo nos seus primeiros anos de vida, o que o tinha impedido de estabelecer um diálogo real com a vanguarda do movimento operário peronista, apesar de que, no inicio, tinha trabalhado com ela na criação de vários sindicatos como o têxtil, o metalúrgico e o da carne, especialmente, onde tinha se fortalecido Cipriano Reyes.

Essa retificação, que começou a ser feita a partir de 1952, deu um enorme salto em 154 quando decidimos formar parte do Partido Socialista da Revolução Nacional (PSRN). Embora o objetivo tivesse sido poder aproveitar a legalidade desse partido, o fato de a ampla maioria do peronismo o considerar parte do movimento nos permitiu uma maior integração. O Partido dos Dickman (pai e filho), com poucos militantes, ajudou-nos a ocupar um espaço geográfico bem amplo, também foi assim no espectro político. Foi por isso que quando se produziu o golpe de 1955, a chamada “Revolução Libertadora” nos declarou ilegais. Atuando na ilegalidade, mas publicamente como Federação da Província de Buenos Aires, ligamo-nos muito estreitamente à vanguarda da chamada Resistência Peronista.

O MAO

Produto desta orientação propiciada, fundamentalmente, por Nahuel Moreno, o MAO (Movimento de agrupamentos Operários) começou sendo um acordo revolucionário entre duas correntes: os militantes trotskistas e os ativistas próximos a nós que surgiram na luta contra a ditadura e nas eleições sindicais contra os gorilas.

O partido qualificava, então, o MAO como uma organização “centrista revolucionaria”, por não defini-la como revolucionaria, já que não adotava o programa trotskista em sua totalidade, mas tampouco era uma organização centrista já que não claudicava nem a patronal nem as direções burocráticas e seus aparelhos, pelo contrário, todo seu programa era de luta intransigente contra eles.

O MAO se propunha como uma “ponte” para superar a atrasada consciência política da vanguarda operaria (que seguia dentro das fileiras peronistas), vendo a necessidade mais imediata na luta pela independência política da classe e a formação de uma direção revolucionária. Daí essa classificação, que marcava seu caráter contraditório e dinâmico.

No comitê central do Ex-PSRN-POR, conhecido também como Palavra Obrera pelo nome de seu periódico, em uma reunião de agosto de 1957, sintetizava assim os objetivos da orientação que fundamentava a criação do MAO: “(…) primeiro, ampliar a atividade do partido dentro da classe: segundo, promover e levar os ativistas sindicais e as tendências classistas a uma atividade política independente, revolucionária.”

Recordava, além disso, que no inicio da atividade se expuseram três possibilidades de desenvolvimento para esta experiência. A primeira era que existisse um importante grupo de ativistas sindicais de classe. Então, o MAO iria ampliando-se paulatinamente e, por bastante tempo, não poderia seu caráter “centrista revolucionário”. Mas, neste caso, considerava-se que poderia ocorrer uma segunda possibilidade: se prevalecessem esses ativistas, e se eles tivessem sucesso, o MAO poderia transforma-se em uma “frente política de classe”, mas deixaria duma tendência classista.

A terceira possibilidade era de que não existisse uma importante camada de ativistas e numerosas tendências de classe, em cujo o MAO só seria uma etapa intermediaria em nossa organização, justificada porque esses militantes, embora pequenos em número, seriam muito mais numerosos e teriam mais ligações com a classe do que nós. Para o Comitê Central, qualquer das três variantes era progressista. Finalmente, assinalou-se que a resposta a qual dessas alternativas se daria na realidade, estaria determinada pela ascensão do movimento operário e não por nossa habilidade tática. (Ver 2° Tomo “O trotskismo e internacionalista na Argentina”. Págs. 162 e 163).

Fazendo um primeiro balanço da experiência nesses dois meses, essa mesma reunião do Comitê central chegava à conclusão de que até o momento se estava produzindo a terceira variante:

“O MAO é hoje um acordo de classe revolucionário entre nós e setores de vanguarda simpatizantes peronistas do movimento operário”. Em julho de 1957 o MAO deu a conhecer seu Manifesto Programático.

Entrismo no peronismo

No segundo volume de “O trotskismo operário e internacionalista da Argentina”, dizíamos que a experiência iniciada com a criação do MAO- Palavra Operaria, levou, ao longo de 1957, a uma recolocação de toda nossa tática para os ativistas operários peronistas. O eixo do problema era se a tendência classista que tentávamos construir podia desenvolver-se de “fora do peronismo operário” ou se nesse momento passava pela participação dentro dos agrupamentos operários peronistas.

Isto significava encarar uma tática entrista no peronismo de características muito particulares. Desde 1954 nosso partido vinha considerando o movimento peronista como a expressão da resistência de distintos setores sociais – uma parte da burguesia e a pequena burguesia, apoiando-se na ampla maioria da classe operaria – à submissão do país ao imperialismo ianque. A esse respeito mão tínhamos nenhuma ilusão: tratava-se de um movimento nacional dirigido pela burguesia. Não o considerávamos um partido revolucionário, nem um partido da classe operaria. A política de entrar no PSRN, a ação contra os golpes gorilas e contra a “Libertadora”, e a criação do MAO foram passos apoiados nessa caracterização, orientados a procurar que os trabalhadores construíssem uma política independente da burguesia.

Essa nova orientação, para a direção do EX-PSRN-POR era o resultado de que “(…) a falta de uma vanguarda numerosa fez do MAO a fração trotskista do peronismo, rodeada de ativistas embora escassos em número, mas com a característica de estar agora dentro do movimento peronista (…) A tarefa fundamental segue sendo: Formação da tendência de classe, e dotá-la a de uma política independente (…) Nosso lugar de trabalho fundamental é: a integração nos agrupamentos sindicais peronistas e o trabalho sobre o bloco (peronista) das 62” (Ver Tomo 2 de “O trotskismo operário e internacionalista na Argentina. Págs. 279/280).

Escolhemos estes dois exemplos para comemorar o 18° aniversário do desaparecimento de Nahuel Moreno por causa do pedido feito pelos companheiros do PSOL para uma nota na revista Movimento. Nos parece correto resgatar esses dois exemplos, com a intenção de que ajudem no desenvolvimento da própria experiência que vocês estão empreendendo ao romperem com o PT e iniciarem a tarefa de reagrupamento de várias tendências ou grupos políticos dentro do Brasil.

Se Hugo vivesse, estamos convencidos de que estaria na expectativa de seu desenvolvimento e oferecendo toda colaboração com a tremenda tarefa que vocês decidiram empreender. Pessoalmente, espero que esta matéria contribua no mesmo sentido e que ajude à superação da crise de atomização e dispersão do trotskismo em escala nacional e internacional.

ernesto gonzales

 

*Ernesto González tem 80 anos. Começou sua atividade política em 1952, na corrente fundada por Nahuel*Moreno. Quando fomos solicitar-lhe esta nota, nos lembrou sorridentemente do seu primeiro encontro com Moreno. Ele e outros recém ingressados como professores de História da universidade La Plata, tinham uma bolsa para prosseguir seus estudos na França e procuravam por alguém que já estivesse por lá para obter algumas informações. Então apareceu Moreno. As informações começaram pela França e acabaram na política, na luta dos trabalhadores e no socialismo. Porque em vez de viajar para a França, pouco depois, Ernesto começou a sua militância no sindicato da carne, na região de Avellaneda. Com o passar dos anos, começou a construir um dos pilares da corrente revolucionaria que Moreno encabeçou. Desde então, viveu todas suas vicissitudes e seus diferentes períodos. Nos últimos anos, uma parte da sua militância esteve dedicada a escrever a história viva do trotskismo na Argentina, dos quais há três tomos publicados. Sobram palavras para dizer para a Revista Movimento, porque ele é a pessoa mais indicada para falar e homenagear Moreno em nossas páginas.

(*) Nahuel (Tigre, em araucano)

 

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