Maycon Bezerra, MES-PSOL (BRASIL)

Não é possível compreender adequadamente o processo político que se desenrola hoje na Ucrânia sem levar em consideração, ainda que em seus traços mais gerais, o percurso histórico dessa nação em sua dramaticidade concreta. Uma história de lutas ininterruptas pela unificação e libertação nacionais contra a fragmentação e a dominação estrangeira, impostas desde o período do desmantelamento definitivo do Principado de Kiev e da invasão mongol, ainda no século XIII! Desde então, os ucranianos têm enfrentado a partilha de seu território e o saqueio de seus recursos naturais e humanos – além do silenciamento de sua identidade nacional – por parte de sucessivos e diferentes invasores estrangeiros.

Mongóis, poloneses, lituanos, austríacos, húngaros, romenos, alemães e, sobretudo no último século, russos, todos, em maior ou menor medida, participaram na longa história do processo de subordinação e opressão nacional do povo ucraniano, e todos, também em maior ou menor medida, tiveram de experimentar a tenacidade e a firmeza de propósito dos ucranianos em defesa da liberdade e da unidade de sua pátria. A experiência da “república cossaco-ucraniana” e sua rebelião contra a opressão cultural e o regime de servidão impostos pela monarquia polonesa, em meados do século XVII, demonstram claramente que a luta nacional do povo ucraniano está profundamente marcada na constituição de sua própria identidade e história.

A chegada do século XX, e o ciclo de “guerras e revoluções” que se abriu, encontrou, como sempre, a Ucrânia dividida: uma parte (ocidental) submetida ao Império Austro-húngaro e outra (oriental), à Rússia czarista. A I Guerra Mundial e, especialmente, o movimento revolucionário dos trabalhadores que depôs o czar na Rússia, e irradiou sua influência para a Europa central, deram novo impulso à luta pela unificação e emancipação nacional da Ucrânia. No processo revolucionário que sepultou o Império Russo e deu origem, em 1922, à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, não foi pequena a participação dos revolucionários ucranianos no combate por sua emancipação social, enquanto trabalhadores, e por sua emancipação nacional, como ucranianos. Fruto de uma acertada política dos revolucionários bolcheviques, devida ao insistente combate de Lênin ao chauvinismo russo dentro e fora do partido, a questão nacional ucraniana encontrou, nesse momento, sua mais avançada expressão nos trilhos da revolução socialista.

A importância da questão nacional ucraniana, em si mesma, e na relação com a revolução proletária européia e internacional, foi destacada e abordada de modo incisivo por Lênin, ainda em 1914, em uma dura polêmica com Rosa Luxemburgo e outros dirigentes socialistas que não compreendiam a necessidade da defesa do princípio da autodeterminação dos povos, em geral, e do ucraniano, em particular. “Formar um Estado nacional autônomo e independente segue sendo por enquanto, na Rússia, tão só um privilégio da nação russa. Nós, os proletários russos, não defendemos privilégios de nenhum gênero e tampouco defendemos este privilégio. (…) Assim, por exemplo, depende de mil fatores, desconhecidos de antemão, se à Ucrânia caberá formar um Estado independente. Como não queremos fazer ‘conjecturas’ vãs, estamos firmemente por aquilo que é fora de dúvida: o direito da Ucrânia a semelhante Estado. Respeitamos este direito, não apoiamos os privilégios do russo sobre os ucranianos, educamos as massas no espírito do reconhecimento deste direito, no espírito da negação dos privilégios estatais de qualquer nação” .

A Ucrânia na União Soviética 

Depois de um primeiro momento no qual a “política das nacionalidades” garantiu amplo florescimento da autonomia e da cultura ucranianas nos marcos da União Soviética (sem esquecer que a porção ocidental da Ucrânia, sob jugo polonês, não foi incorporada, nesse momento, à Ucrânia Soviética), o crescente autoritarismo centralista e grão-russo da burocracia instalada no Kremlin, que passou ao controle de Stalin, estraçalhou, sob botas, fuzis e fome, o avançado e intenso processo de “ucranização socialista” da sociedade e da cultura desse povo. Os ucranianos viram-se submetidos ao pior dos horrores impostos pelos expurgos e pela repressão genocida, que se abateu muito especialmente sobre os intelectuais, dirigentes e militantes partidários dessa “ucranização socialista”. É nesse momento, nos anos 1930, que se estabelece uma profunda ruptura entre o sentimento e as exigências nacionais ucranianas, por um lado, e a União Soviética como projeto, por outro lado. Com o extermínio do setor de esquerda da cultura e da política ucranianas, abriu-se o espaço para a hegemonia do nacionalismo reacionário, anti-semita, anti-russo, anti-soviético e visceralmente pró-nazista de Stepan Bandera (que hoje volta à tona) no movimento e no ideário nacional ucraniano.

É importante atentar para o que escreve Trotsky nesse momento sobre a questão ucraniana, no limiar do início da II Guerra Mundial, e em relação com sua crítica ao totalitarismo burocrático de Stalin na União Soviética. “Não sobra nenhum vestigio da anterior confiança e simpa¬tia das massas ucranianas em relação ao Kremlin. Desde o último ‘expurgo’ assassino na Ucrânia, ninguém quer, no Oeste, passar a formar parte da satrapía do Kremlin que continua levando o nome de Ucrânia Soviética. As massas operárias e camponesas da Ucrânia Ocidental, de Bukovina, dos Cárpatos ucranianos estão confusas: a quem recorrer? O que pedir? Esta situação desvía naturalmente a liderança para as camarilhas ucranianas mais reacionárias, que expressam seu ‘nacionalismo’ tratando de vender o povo ucraniano a um ou outro imperialismo em troca de una promessa de independência ficticia. Sobre esta trágica confusão, baseia Hitler a sua política na questão ucraniana. Dissemos em uma oportunidade: se não fosse por Stalin (por exemplo, a fatal política do Comintern na Alemanha), não havería Hitler. A isso se pode agregar agora: se não fosse pela violação da Ucrânia Sovié¬tica por parte da burocracia stalinista, não havería política hitlerista na Ucrânia” .

É certo que a retirada forçada das tropas de Hitler, imposta pelo Exército Vermelho, expandiu as fronteiras da Ucrânia Soviética, a ponto de agrupar em seus limites praticamente toda a nação ucraniana, também é certo que os nazistas e “banderistas” promoveram uma política de exterminio na Ucrânia ocupada (sobretudo contra poloneses, judeus e anti-fascistas). No entanto, tambem é certo que o massacre promovido anteriormente por Stalin não foi menos importante, e que sob os sucessivos mandos burocráticos da União Soviética, cristalizada como um Estado operário degenerado (na precisa definição de Trotsky), os ucranianos foram mantido sob uma asfixiante e violenta opressão nacional, e o que é pior, sob o demagógico – e hipocritamente repulsivo – simbolismo da Revolução de Outubro, do Socialismo e de Lênin. O desmantelamento da União Soviética, em 1991, e a consequente restauração do capitalismo na forma de um “capitalismo oligárquico” de poucos para poucos, possibilitou que viesse à tona um Estado nacional ucraniano unificado, pleno, no entanto, de contradições econômicas, sociais, políticas e identitárias herdadas do passado e reatualizadas no presente, sobretudo, pela pressão do neo-imperialismo russo, de um lado, e do imperialismo europeu e estadunidense, de outro.

No que se refere à Peninsula da Criméia, pertencente à Rússia desde o século XVIII, e pivô – no século XIX – da guerra desse país contra o Império Otomano, trata-se de uma região de grande interesse estratégico, que há muito sedia a frota militar russa do Mar Negro, sua saída para o Mar Mediterrâneo. Com a morte de Stalin, em 1953, abriu-se um processo político que levou ao poder Nikita Krushev. O novo líder da União Soviética deu início a um conjunto de “reformas” voltadas a recompor o equilíbrio político interno, abalado por pressões inúmeras resultantes da “descompressão” do arranjo dependente da figura autocrática de Stalin. É nesse contexto que, em 1957, Krushev, de origem ucraniana, doa como um “presente” a Criméia – de população predominantemente russa – à Ucrânia, como uma forma de aliviar as pressões separatistas surgidas no período. Essas pressões eram demonstração prática do persistente sentimento nacional dos ucranianos e do ambiente asfixiante sob o qual se encontrava esmagado na União Soviética.

Rio de Janeiro, 7/3/2014

  1. V. I. Lênin: “O direito das nações à autodeterminação”. 1914
  2. L. Trotsky: “A questão ucraniana”. 1939