Ayla Akat

Camila Souza*

Lutadoras reais. As mulheres curdas desafiam as noções pré-concebidas do papel das mulheres na sociedade, sobretudo das mulheres orientais entendidas como sujeitos passivos em meio ao confronto, como vítimas oprimidas sem resistência. Recentemente esse debate tem ganhado espaço na mídia com a divulgação das fotos de várias mulheres vestidas para a guerra segurando suas armas. Fotos que circularam pelo mundo e impactaram muitos. Na sociedade patriarcal, como podem as mulheres liderarem o combate contra o Estado Islâmico? Quem são elas? Como chegaram a ocupar esse posto?

Primeiro é preciso dizer que, embora para a grande mídia o debate seja recente, as mulheres curdas já estão engajadas na luta armada por décadas. Lideram uma verdadeira revolução social contra a ordem patriarcal da sociedade por meio da governança igualitária de gênero e um movimento popular-feminista, como afirma a pesquisadora e ativista curda Dilar Dirik. Paralelamente à luta por defender seu território, uma luta existencial contra o Estado Islâmico, se iniciou o curso de uma revolução social que deu às mulheres curdas uma reputação como importantes atores políticos e igualmente capazes de tomar decisões.

Atualmente, além da luta contra o Estado Islâmico e o regime de Assad na Síria, as mulheres curdas também lutam contra regimes considerados opressivos, como da Turquia e do Irã. De fato, há em curso uma revolução social que vem transformando a consciência de milhões de curdos sobre o papel das mulheres na sociedade. Conhecer para aprender com essa experiência é um dever de todas as organizações de esquerda no mundo. No centro da luta contra o Estado Islâmico estão as mulheres armadas na linha de frente para defender seu povo.

Frederico Henriques, sociólogo e colaborador da Secretaria de Relações Internacionais do PSOL, esteve no Congresso do Partido Democrático dos Povos (Halkların Demokratik Partisi – HDP), da Turquia e realizou uma entrevista com Ayla Akat, uma das primeiras parlamentares Curdas da Turquia e da coordenação da KJA. Ayla concedeu uma longa entrevista direto da sede do Congresso Livre das Mulheres, logo abaixo transcrita por Frederico apresentamos os principais pontos dessa entrevista.

História do Movimento de Mulheres no Curdistão

“O sistema parlamentar na Turquia sempre foi muito complicado. Seja a clausula de 10% dos votos para o partido ter representação no congresso, seja uma sociedade com o patriarcado extremamente forte foram problemas para a entrada dos Curdos e das Mulheres na vida politica institucional no pais. A forma mais tradicional para essas forças era trabalhar como independente e conseguir algumas cadeiras. Na historia politica recente houve um grande marco para as mulheres, a eleiçao de Leyla Zana em 1994. Sua atuação foi tão marcante que ganhou o Prémio Sakharov (prêmio criado em 1985 pelo parlamento Europeu para homenagear pessoas ou organizações que dedicam a sua vida ou ações para a defesa dos direitos humanos e a liberdade).”

“Mas concomitante a essa atuação parlamentar as mulheres começaram a construir organizações da vida social, como a Organização Patriótica mulheres e as mulheres começaram a debater uma plataforma geral para os anos 2000. Nós começamos a nos organizar sobre um programa que reúne sob vários temas da política, de questões sociais e de ideologia. No entanto, os encontros com outras mulheres estavam apenas ligados a agendas específicas como 08 de março ou o 25 de novembro, mas foi apenas após 2003 que nos conseguimos nos unir em organização mais estável. Apesar de já termos conseguido eleger em 1999 três prefeitas em nossa regiao, o salto se deu com a criaçao do Movimento Democrático das Mulheres Livres (DOKH) em 2003. Essa organização começou como uma estrutura guarda-chuva, e assim realizar as diversas experiências juntas.”

“Em 2002, quando houve a eleição geral na Turquia nas listas e em todo o Curdistão do Norte havia sempre uma mulher candidata. Estes foram os desenvolvimentos que foram abertos para todos até organizámos DOKH nossa organização. Até 2015, janeiro de 2015, continuamos a trabalhar sob a égide da DOKH, durante este tempo, tivemos muitas melhorias e começamos a ser fortes, especialmente no parlamento e administrações locais.”

“E na administração local, estamos tendo sucesso, porque primeiro tínhamos três prefeitas em 1999, em seguida, em 2012, tivemos 14 prefeitas, mas agora desde 2014, temos prefeituras codirigidas em todo o Curdistão, ou seja, 105 prefeitas. Nós tivemos o mesmo sucesso no parlamento, em 2007, tínhamos 8 mulheres parlamentares, mas chegamos a 2015 com 40% das candidaturas eleitas pelo HDP são mulheres, assim temos 23 mulheres no nosso partido como parlamentares.”

Organização KJA

“Em janeiro de 2015, nós decidimos que o DOKH já tinha cumprido a sua missão e que agora precisaríamos de um congresso que não representasse apenas as mulheres curdas, mas todas as mulheres da região, as diferentes identidades, crenças ou ideias devem estar sob um mesmo teto. Porque no Curdistão não há apenas povo curdo ou mulheres curdas, mas há também armênios, árabes e outros, além do mais há pessoas de diferentes matrizes religiosas como povo muçulmanos, cristão, judeu, por isso temos essa complexidade.”

“O importante é que não há nenhuma fronteira ou geografia da violência contra as mulheres e a discriminação, isso nos faz mover juntas, é por isso que no início nós dissemos-lhe que somos mulheres de um território, mas do mundo. E eu deveria responder a isso, não somos apenas um congresso que lida com as questões políticas como o parlamento ou a administração local, mas ao mesmo tempo nós temos toneladas de organizações da sociedade civil, sob a nossa custódia. Temos muitas mulheres de associações, mulheres de solidariedade, e também temos cooperativas econômicas, entre outras.”

“Além de tudo isso, estamos muito organizadas nas associações ou instituições, nos organizamos em cada distrito, bairros, distritos das províncias, em cada território nós temos nossos próprios cônsules e coordenação. Se você vem para a nossa organização, temos um conjunto constituído por 120 mulheres, um conselho executivo que consiste 46 pessoas, uma coordenação que tem 11 pessoas e também temos a nossa porta-voz que muda a cada 6 meses. Nosso congresso é a organização que coloca lutando na frente em todas as partes. Eu sou parte da coordenação e responsável pela diplomacia na KJA. Temos também a Jinha, estamos na agência de notícias de mulheres, única auto-organizada no mundo. Elas estão trabalhando em condições muito difíceis, nos últimos dias muitas jornalistas, eles foram levados sob custódia.”

“Acreditamos que a constituição que é uma constituição monolítica deve passar por mudanças, ou melhor, uma nova constituição para fortalecer o sistema parlamentar democrático.

Em 2011, sob responsabilidade do parlamento turco houve uma comissão para elaborar uma nova constituição, e eu era uma dos três deputados que estava responsável por esta mudança. Dentre as nossas exigências estava a aceitação do curdo como segunda língua, proposta de autonomias democráticas, respeito a todas as religiões e etnias.”

Ideologia

“Nós, mulheres curdas estamos organizadas de uma forma especifica e autonoma. Podemos dizer que temos sido guiadas nos últimos quatro anos pela nossa auto determinação, auto-organização e, claro, tivemos de pagar um alto preço por ter todo um sistema contra a nossa luta. Em nossas instituições existem espaços de discussão com os homens, mas não são prioritários. E em todos os lugares e todas as instituições estamos a trabalhar com os nossos camaradas homens e temos algumas medidas para agir com estes homens. Por exemplo, se um homem tiver implementado a violência contra a mulher, não importa, pode ser sua esposa ou a qualquer mulher na rua, podemos dizer que este homem não pode trabalhar conosco ou, ao mesmo tempo, se eles têm um casamento polígamo, eles não podem trabalhar com a gente. Essas regras são válidas para todos os lugares do nosso trabalho, por exemplo, no nosso partido político ou em nossa vizinhança, não importa.”

“É nos dada a luta da mulher como central. Na medida em que a família é dominada pelos homens, o trabalho é dominado pelos homens e o Estado é dominado pelos homens, nossa luta é contra o patriarcado. Nosso lema é se as mulheres não são livres, a sociedade não pode ser livre.
Nos temos apoio dos homens. O mais importante apoio e do Sr. Ocalan, nos lhe identificamos como companheiro das mulheres Eu fui uma das poucas pessoas a visitar o Sr. Ocalan, e assim como ele fez com a sra Sra Leyla Zana. Ele nos incentivou a formar as organizaçoes de defesa dos direitos das mulheres, assim como nos colocou no centro da negociaçao de paz.”

Curdistão sírio e a Guerrilha

“Na verdade, estamos muito bem conscientes das consequências que a imagem de duas mulheres curdas diferentes, desde 2014, no mundo. Existem duas imagens de mulheres curdas.
Uma que foi atacada pelo Estado Islamico da Siria e do Iraque (ISIS), elas não estavam organizadas, não poderam se defender e foram violadas, outras sequestradas, mortas ou vendidas nos bazares. E tudo isso acontecendo bem na frente dos olhos de todo o mundo. O mundo só assistiu o que aconteceu lá. Diferente do que aconteceu em muitas cidades do Curdistao Iraquiano, as mulheres de Kobane e de Rojava (Curdistao Sirio) se organizaram e tinham conciencia da importancia da sua liberdade. O ISIS desejava fazer a mesma coisa, mas não aconteceu. A mulher em Rojava e as mulheres daqui, no Curdistão do Norte, têm muito em comum. Nos alimentamos a partir da mesma ideologia liberdade.”

“Muito antes de Kobane, muitas mulheres já estavam na luta armada. Caso não fossemos para a luta, muitas de nós já teriamos sidos capturadas ou violentadas. Somos contra romantizar este tipo de enfrentamento, não podemos mais ser consideradas como vitimas ou fardos deste processo. O que a historia tem mostrado é que sempre somos as primeiras a ser atacadas e se não nos defendermos ninguém o fará. Por mais que haja diferença entre as mulheres Curdas, nos sabemos que não podemos acatar estas diferenças. Apenas juntas podemos enfrentar o patriarcado e parar o fascismo. E mais, mesmo que a guerra acabe nossa situação vai continuar se não continuar lutando. Veja ontem que uma mulher foi estuprada às 3 horas da manha no meio da rua de Istambul.
Também somos contra nos tornamos objetos materiais. Vide o que acontenceu com as combatentes de Rojava que se transformaram em símbolos em revista de moda, enquanto a nossa luta contra o patriarcado não foi divulgada.”

“Nossas mulheres so tem duas opções. Ou elas vão fazer auto-defesa,para defender-se para manter-se viva e resistindo, ou será morta ou violada. Elas não têm muitas opções. Se não resistimos seremos apenas vítimas, nada mais. Assim, podemos dizer que nós somos a parte que está resistindo e vamos continuar nesta resistir. Ok, em suma, posso dizer que temos tido uma herança desta luta, mas a nossa luta não é só para as mulheres curdas que é para a mulher no Oriente Médio e no mundo. E nós sabemos que nossas irmãs no Brasil, podem tomar partido conosco. E assim, nós saudamos a luta da mulher no Brasil.”

A auto-organização que levou ao fortalecimento da revolução social que as mulheres curdas constroem contra o patriarcado, fortalece a luta das mulheres em todos os países. A nossa luta muda o mundo, pois ela enfrenta os poderosos, os reacionários, os fascistas, colocando a mulher no centro dos debates da política e ao lado da classe trabalhadora e dos povos oprimidos. Para honrar elas que são as inimigas mais temidas do Estado Islâmico, precisamos construir uma grande campanha contra o ataque aos direitos humanos e a prisão de curdos, jornalistas e intelectuais pelo governo fascista de Edorgan e também pela volta da negociação de paz, a fim de restabelecer a ordem de antes de Junho de 2015, como também pelo fim do isolamento total de Öcalan e sua libertação.

É fascinante e inspirador desvendar a revolução das mulheres entre os curdos. Que a nossa geração cresça tendo como exemplos essas mulheres guerreiras que são líderes na história de seu povo. E que as lutadoras mulheres se tornem cada vez mais um elemento natural da nossa identidade. Juntas, a nossa luta muda o mundo.

(*) Militante do movimento Juntas! e Diretora Executiva de Relações Internacionais da UNE.