Diário de Viagem – A crise no oriente médio e o papel do povo curdo

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Congresso do Partido Democrático dos Povos (HDP) – Turquia

Frederico Henriques*

Em dezembro, nós do PSOL fomos convidados a participar do Congresso do Partido Democrático dos Povos (HDP) na Turquia. O turbilhão político e social que se passa na região carrega contornos de barbárie com a crise dos refugiados e o ISIS, e recebe de seu povo uma resistência que abre caminhos como a luta dos Curdos em todo o oriente médio/ mesopotâmia, fazendo da região o centro da geopolítica mundial.

Acompanhar o principal evento político deste partido que retirou a maioria de Edorgan no parlamento em junho de 2015, foi o motivo de nossa viagem no final de janeiro deste ano.

Ao chegarmos na capital turca, Ancara, após 26 horas de viagem, o cansaço não era nada comparado à expectativa de partilhar de um momento único com companheiros tão diversos. Os últimos meses foram marcados pelo ascenso fascista, com ataques sistemáticos ao HDP, às populações Curdas turcas e da Síria e contra toda e qualquer oposição ao governo. Fazia-se necessário cada vez mais a auto-organização, em especial dos curdos e dos mais críticos ao regime, de forma mais geral.

Por conta disso, fomos escoltados para o ginásio onde aconteceria o evento. Também houve revistas e limitações de trânsito.

Dentre os vários encontros com companheiros da galicia, catalunha, os bascos, aquele que mais me chamou atenção foi a delegação dos curdos do Iraque, não apenas pela expressiva numerosidade, mas por não haver uma mulher sequer entre seus dez membros. Isso me lembrou o quão diferentes são os Curdos do sul (Iraque) e do norte (Síria e Turquia).

No ginásio a primeira impressão que tive foi da grandeza que nos aguardava. Milhares de pessoas lotaram o espaço. O espírito aguerrido e as palavras de ordem tomavam todo o evento que ao final saiu com uma chapa unificada em defesa da retomada das negociações de paz e mais autonomia para os territórios além da democracia, de fato, para a Turquia.

Todo o processo de opressão e ataque aos direitos humanos, longe de enfraquecer estas iniciativas, fortaleceram a certeza da construção de um novo modelo para o oriente médio a partir da insurgência de um povo que luta por mais democracia e direitos.

Em seguida tivemos uma longa e boa conversa com a presidenta do HDP, Figen Yüksekdag, que para além de dividir as impressões do avanço dos elementos autoritários e violentos do governo,  discorreu sobre a guerra comunicacional contra a oposição e os Curdos. Dentre os acordos firmados no congresso, está a campanha de divulgação dos ataques de Edorgan e a luta do povo no Curdistão do Norte. No início da noite participamos junto com toda a delegação internacional e a executiva do HDP de um jantar, no qual pudemos dar uma saudação presentear nossos anfitriões com a bandeira do nosso partido.

O dia seguinte foi de importantes entrevistas e conversas com camaradas da Turquia. Logo no início, conversei longamente com o vice-presitende do HDP, Alp Altinörs, que contou sobre a história do partindo, o levante de Gezi, a luta em em Kobane e as zonas liberadas no Curdistão do Norte. Em seguida fui conversar com os camaradas do Partido da Solidariedade e Liberdade (ODP), que o companheiro Thiago Aguiar já vem mantendo relações desde sua visita no país logo após o levante de 2013. Universidades, trabalhadores e a perseguição da oposição foram a marca da nossa conversa.

No dia seguinte, logo pela manhã peguei uma carona com dois vereadores do HDP e partirmos para Diarbaquir, mais conhecida pelo curdos como Amed. Já no aeroporto da capital do Curdistão o clima frio e os inúmeros aparelhos de segurança dão a toada do ambiente que rodeia a cidade. Logo na saída do aeroporto um grande número de prédios demonstra o crescimento econômico que a cidade passou durante o período que o governo aceitou o cessar fogo e parou de atacar os curdos em especial o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e suas milícias de autodefesa. Para além do turismo desta cidade milenar que rodeia o rio Tigres, havia muita expectativa com a zona de livre comércio com a Síria que se implantaria antes da guerra civil estourar no país vizinho. O aeroporto novo e os investimentos do governo federal preparavam o terreno para que Amed, como a maior cidade do sudeste turco, fosse um importante entreposto comercial. A noção de desenvolvimento no entorno do aeroporto logo vai se perdendo conforme vamos entrando na cidade. A pobreza e a informalidade encontrada nada se diferencia de outros países pobres do oriente médio e norte da África.

O hotel que fiquei estava muito próximo da divisa com a área de conflito. O entorno não estava muito diferente do Egito há cinco anos. Barreiras de contenção, policiais e pessoas andando com muita pressa criavam um ambiente de tensão ao redor das muralhas e da praça que divide a zona sul do resto da cidade. Meu primeiro impulso, após me acomodar no hotel, foi dar uma volta pela cidade, passar para a área de conflito e registrar um pouco da destruição que vem passando esta região da cidade. Infelizmente na volta deste espaço fui abordado por um policial que pediu meu telefone e exigiu que eu apagasse todas as fotos que havia feito da região. Sem as fotos da zona de conflito resolvi apenas dar uma volta na praça no entorno das muralhas, mas o susto do estrondo de duas bombas explodindo em cima dos prédios ali perto reforçaram a necessidade de voltar para o hotel.

No hotel entrei em contato com meu anfitrião na cidade, Ramazan Tunç, que me encontrou a noite num café a cinco quadras do hotel. Neste primeiro encontro ele me apresentou um conjunto de entrevista que faríamos no dia seguinte e destacou um pouco do clima de toda a região. Chegando ao quarto passei a noite preparando as entrevistas ao som de algumas rajadas de tiros ao longo de toda a noite.

O dia seguinte começou com uma ótima conversa no Congresso Livre das Mulheres (KJA). Debatemos sobre a história do movimento de mulheres na Turquia e no Curdistão, o fortalecimento de sua organização e atuação nas mais diversas áreas e por fim sobre a situação das mulheres em ambientes de guerra. A dirigente Ayla Akata Ata nos avisou que viria ao Brasil em maio e que gostaria de estreitar muito a relação conosco. Em seguida fui para o Congresso Democrático das Sociedades de Amed (KCD) que apresentou de forma detalhada a situação de Abdullah Öcalan, líder independentista curdo que está preso há dezesseis anos e desde junho sem comunicação. Não dá para não comparar com a situação de Mandela na África do Sul, ainda mais agora que o advogado do principal líder Sulafricano também assumiu o caso. Logo após realizei conversas na Associação de Advogados, no Partido Regional Democrático (partido curdo que unificou com o HDP), o Partido Democrático dos Povos de Amed e o Instituto de Direitos Humanos local. Além de entender bem a situação de todo o Curdistão, fiquei impressionado com a compreensão geral da geopolítica mundial, assim como as mais diversas experiências de democracia direta e participação. Porto Alegre foi citada diversas vezes. Apesar das movimentações junto aos Estados Unidos e Rússia, eles tem plena dimensão dos limites da relação com estas potências imperialistas na região, porém existe a necessidade da negociação para conter o massacre que se derrama na região.

Antes de voltar ao hotel Ramazan deu alguns telefonemas e pediu para que eu saísse o quanto antes do hotel. Já no início da noite mudamos para um hotel de confiança e mais afastado do conflito. Durante a noite soube que haviam capturado oito membros das milícias de autodefesa e os conflitos estavam se intensificado. É impressionante as raízes e a capilaridade do movimento Curdo, que vão muito além das milícias como a imprensa notícia. Movimentos sociais, parlamentares, prefeituras, setores da iniciativa privada e as mais diversas organizações atuam de forma sistemática conjuntamente.

No dia seguinte logo cedo parti de volta para Istambul. Após me acomodar no centro histórico da cidade, que no início de janeiro havia tido um ataque assumido pelo ISIS, fui à parte nova do lado europeu dar uma entrevista para o jornal Birgün, o único jornal diário de oposição. Incrível a densidade da entrevista. Eles conheciam tudo sobre a Operação Lava Jato, manifestações à crise econômica e tudo mais que estava acontecendo no Brasil. Sem dúvida o levante de 2013 aprofundou a relação entre os dois países. No início da noite encontrei os colegas do ODP e fomos nos encontrar no restaurante de um dos poucos sindicatos independentes da Turquia, a associação dos engenheiros e arquitetos. Depois de uma longa conversa sobre as investidas do governo após 2013 e o impacto da guerra da Síria no país, pude conhecer um pouco mais da realidade da esquerda turca. Por fim, eles me convidaram para participar de uma marcha de trabalhadores demitidos que haveria na manhã seguinte.

Acompanhei então, desde o início da tarde, uma marcha de trabalhadores demitidos devido à crise econômica que atinge o país a mais de quatro anos. Desde 2009, o governo de Erdogan vem avançando sobre as centrais sindicais e federações de trabalhadores, hoje em dia menos de 10% dos trabalhadores estão organizados de forma independente e quatro federações. O ato estava bem reduzido com duas centenas de participantes, o que refletia bem a situação do país. Dentro das organizações presentes o que chamou minha atenção foi a organização do Partido Republicano do Povo (CHP), o maior partido de oposição alinhado à social democracia europeia, que dirigia o ato apesar de envelhecido.

No último dia de viagem fui caminhar e conhecer Istambul. É impressionante como o peso da herança histórica, que em determinados momentos é positivo (como o caso de kemalismo em reivindicar uma nação), hoje se depara a partir da crise curda a necessidade de debater sobre os diversos povos que compõe a Turquia. A escalada da violência no território turco, assim como os atentados, fazem com que o futuro fique muito incerto e um clima de tensão tome conta do ar. Os apontamentos de ocupação terrestre no território sírio com o objetivo de derrotar Rojava e as alianças ocultas de Edorgan com o ISIS dão o tom do maior conflito do século XXI. Mais do que nunca é fundamental a solidariedade internacional e a denúncia da ascensão do fascismo nessa região.

Volto ao Brasil carregado de experiências e apreensão de que um novo mundo que está a surgir e nós definitivamente não podemos ficar indiferentes a isso. Todo apoio aos companheiros turcos e curdos. Liberdade para Öcalan. Em defesa de Rojava e da revolução Curda.

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