VENEZUELA: Crise econômica, incerteza política e nova referência

mAREA BANDEIRAS

Editorial #12

Equipe Operativo Nacional de Marea Socialista

 

  1. Como enfrentar a crise a crise econômica. Segundo o Bank of America (BOA), cujo representante para a zona andina da América Latina, Francisco Rodríguez, é um assíduo visitante das abóbodas do Banco Central da Venezuela, teria acordo no alto governo sobre algumas medidas econômicas a adotar, entre elas, o aumento da gasolina a seu preço de custo de produção, além disso da unificação do sistema cambial, embora até a data de seu último informe ainda não houvesse uma decisão concreta sobre o tamanho da desvalorização do bolívar. Ou seja, a que nível seria levado a relação bolívar-dólar em um tipo de câmbio unificado dual.

O informe também ratifica, segundo o BOA, a intenção do governo de continuar cumprindo com os pagamentos da dívida externa. Ainda que isso obrigue a uma nova diminuição das importações. Produzindo-se este último, agregamos, o desabastecimento seria ainda mais agudo.

Finalmente o informe assinala que: ainda que estas medidas estivessem no “caminho correto”, nada assegura que elas resolverão a crise. Além disso, destaca a necessidade de liberar todos os preços internos entre outras medidas.

Por outro lado no site Prodavinci, financiado pelas Empresas Polar, o economista-sênior da Ecoanálitica, José Luis Saboin, uma das consultoras preferidas da MUD,insiste no mesmo sentido, quando diz: “creio que as ideias esboçadas são bastante acertadas (entre elas aumento da gasolina e unificação do tipo de câmbio, entre outras)”. Para agregar depois três propostas que recomenda: a) eliminar os controles (de preços e de câmbio) e devolver/leiloar empresas nacionalizadas. b) Acudir aos mercados de crédito internacionais (explicitamente o FMI). c) Eliminar subsídios de gasolina e eletricidade e acudir o Banco Mundial para fazer “eficientes” os programas sociais. [i]

Entretanto num artigo publicado na quarta-feira, 9 de fevereiro, no Rebelión.org, tomado do periódicoÚltimas Notícias, o economista norte-americano, antigo amigo do Governo Bolivariano, Mark Weisbrot (alinhado com o ministro Jesús Faría), em uma ordem inversa e com outras fontes de financiamento, assinala os mesmos pontos para, “recompor a economia venezuelana”. Propõe: a) a atribuição de bônus de forma massiva para compra de alimentos e remédios para o povo mais necessitado protegendo-o do ajuste e dá como exemplo os pobres dos Estados Unidos (fazer eficientes os programas sociais com assessoria do BM diria Saboin). b) Unificar o tipo de câmbio (igual a Saboin) só que para ele, o financiamento seria obtido sem ir ao FMI, com a liquidação dos ativos venezuelanos no exterior, cifra que somadas às reservas representariam, segundo ele (60 bilhões de dólares).  c) Eliminar controles de preços principalmente da gasolina. E um quarto ponto que fala de incentivar a produção.  [ii]

Como é possível ver, assessores de ambos os espectros políticos, a MUD e o Governo chegaram a um menu de ajuste antipopular, comum, e estão em sintonia com um dos principais Bancos que maneja a dívida externa venezuelana. E ainda que com matizes no discurso e na forma de financiar o ajuste, os dois afirmam que nossa gente sofrerá e que é preciso aliviar o acesso aos alimentos e remédios para tratar de evitar uma explosão social. Os dois falam de eliminar os controles de preços internos uma vez imposto o aumento da gasolina e os dois afirmam que o financiamento para a unificação cambial deve ser realizado com perda de soberania econômica, num caso recorrendo ao FMI e ao BM, que evidentemente comprometem os ativos do país, e no outro liquidando diretamente os ativos do país para cumprir com o pagamento da dívida já que não se propõe o contrário.

Estas são as medidas, que segundo assessores de ambos os lados, se espera que o presidente Maduro anuncie. Sendo assim, como viemos alertando, será produzindo uma nova transferência descomunal de renda a setores privilegiados contra o povo que vive do seu trabalho. Que, lamentavelmente, ao contrário de “recompor a economia”, vai lhe aplicar um acelerador para a crise abrindo espaço para um ajuste cada vez maior, até conseguir o objetivo do grande capital, o controle total e absoluto sobre a renda petroleira e a sua distribuição.

Por isso, desde Marea Socialista, insistimos em que há outra solução para deter esta crise: a) Desmontar o desfalque à Nação mediante uma auditoria pública e cidadã que permita identificar os responsáveis, castigá-los exemplarmente e recuperar (ainda que possa ser parcial e progressivamente) os dólares roubados da nação (CRBV artigo 116). b) suspender os pagamentos da dívida soberana até estabilizar a economia. c) Por como primeira prioridade do uso dos dólares da Renda petroleira, apoiados num orçamento nacional em dólares, no abastecimento essencial e o ingresso do povo que vive de seu trabalho. d) Uma verdadeira reforma tributária que peite aos que mais têm, os bancos e os grandes capitais e alivie o povo que vive de seu trabalho de impostos regressivos como o IVA. Neste marco é possível mitigar o impacto que terá o aumento da gasolina e começar a desenhar um plano produtivo real que inicie pela produção agrícola.

  1. Incerteza política: Saíra antecipadamente Maduro? Como demonstramos mais acima teria um acordo básico entre a MUD e o Governo/PSUV, nas medidas, para nós equivocadas, para enfrentar a crise econômica. No entanto nos últimos quinze dias se instalou a matriz de opinião de que a única forma de resolver a crise é saindo do Maduro já que este não atua. A pressão neste sentido está crescendo. E esta pressão pode ocupar o centro do cenário político porque o debate não somente o apresenta a MUD, senão que é um segredo a vozes que desde as próprias cúpulas do chavismo se avalia essa possibilidade.

Este debate, do qual o povo que vive do seu trabalho é um espectador sem direito a opinar, ocupado como está em fazer filas por horas e em render o salário que se desfaz como água e sal, adota distintas formas. Desde a pressão aberta para uma negociação política (pacto), como pede em seus últimos artigos José Vicente Rangel [iii], até a chantagem descarada do professor Heinz Dietrich em seu escrito intitulado Venezuela: los militares entre la espada y la pared[iv], onde sinteticamente diz que os militares teriam que substituir o governo, mesmo que não queiram fazê-lo e logo fracassem.

Seja como sugestão ou chantagem, a pressão pela saída de Maduro obedece em primeiro lugar a interesses de cúpulas. E também ao temor de que, ao prolongar-se a situação ou que, ao aplicar as medidas na aparência já acordadas, se dê um auge na confrontação popular pela péssima situação na qual se encontra o povo que vive de seu trabalho. Povo que como poder constituinte deveria ter a palavra.

A incerteza política, a possibilidade de uma tentativa de interrupção constitucional por parte de setores das forças armadas, de consequências imprevisíveis, as ameaças da Assembleia Nacional de encurtar o mandato presidencial, de convocar o referendo, ou a pressão até uma renúncia, e inclusive a sinalização desde Miraflores, na boca do Constitucionalista Herman Escarrá de eliminar a Assembleia Nacional devem ser entendidos neste marco de disputa nas alturas. E, sobretudo, do terror que sentem as cúpulas frente a uma resposta popular que se torne, para eles, não-administrável uma vez que comecem a aplicar as medidas.

  1. Organizar o descontentamento e construir uma nova referência política.

Para os mais humildes e para os setores médios e assalariados, este ano ameaça em ser muito mais difícil do que foi em 2015. O desabastecimento seguiu aumentando e alguns indicadores assinalam que a inflação de janeiro rondou os 30%. O racionamento elétrico e de água potável, por efeito climático, se somam a uma situação por si insustentável. Sem acrescentar a isso o crescimento em espiral do flagelo da violência delitiva e a ausência do Estado. A vida cotidiana se torna um calvário que alimenta o descontentamento e o mal humor popular.

Segundo estudos privados e informes que recebemos de nossos camaradas, diariamente se produzem distúrbios nas filas e na chegada dos caminhões de abastecimento. Os maus-tratos nos locais de fornecimento de produtos regulados e não-regulados está chegando ao limite da paciência, e a irrupção e generalização dessa nova forma de saída individualista que representam os bachaqueros, agregam uma cota extraordinária de tensão a ponto de transbordar-se.

É necessário orientar esse descontentamento contra os corruptos e especuladores que provocam esta situação e reclamar sobre isso às cúpulas políticas para que se ocupem de facilitar soluções urgentes aos problemas imediatos de abastecimento e carestia. Organizar esse descontentamento é uma primeira tarefa.

Porém, a mais importante das tarefas é a construção de uma nova referência política. O debate no chavismo está aberto. O 6/D colocou o preto sobre o branco um novo fenômeno político na base do processo: uma parte fundamental dos eleitores do processo se abstiveram ou votaram nulo, sendo uma ínfima minoria a que votou pela opção da MUD.

Esse fenômeno é a expressão do rechaço às cúpulas do PSUV e aos partidos do GPP. No entanto não aderiu à direita. Hoje milhares de quadros do chavismo estão desorientados porque os debates sobre estes temas se fazem em sua maioria a portas fechadas. As instâncias criadas, como o Congresso da Pátria, nascem sequestradas pela cúpula e não despertam nenhum entusiasmo nem aportam soluções verdadeiras. A direção fracassada do partido e o governo se encerram e desta maneira se afasta ainda mais do que foi sua base social, na busca de preservar seus privilégios.

A construção de um novo ator surgido do chavismo crítico, desse chavismo que alertou da derrota, do que segue propondo soluções em sintonia com as chaves do Processo, dos que fomos e somos perseguidos pelas cúpulas, é a tarefa principal do momento. As mulheres e os homens que iniciaram o caminho para a conquista justiça social, estão ali e sabem o que já não toleram das cúpulas, mas sobretudo sabem o que querem. Ajudemos a dar-lhe nova forma, organização e conteúdo a esse sonho.

[i] Tres recomendaciones para surfear el colapso cambiario; por José Luis Saboin García.http://prodavinci.com/2016/02/09/actualidad/tres-recomendaciones-para-surfear-el-colapso-cambiario-por-jose-luis-saboin-garcia/

[ii] Recomponer la economía venezolana. Mark Weisbrot.http://www.rebelion.org/noticia.php?id=208701&titular=recomponer-la-econom%EDa-venezolana-

[iii] Dialogamos o nos matamoshttp://www.aporrea.org/actualidad/a221757.html

[iv] Heinz Dietrich, Venezuela: los militares entre la espada y la paredhttp://www.aporrea.org/actualidad/a222502.html

 

Dejá un comentario

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos necesarios están marcados *