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PORTUGUÊS

Por Roberto Robaina

O Brasil encerrou um ciclo político cuja marca foi o pacto da Nova República costurado entre os partidos que ganharam força na luta contra a ditadura militar. Neste ciclo o PT foi o partido hegemônico do movimento dos trabalhadores e da juventude. O ciclo novo que está sendo aberto está indeterminado e há uma luta em curso pelo seu sentido, cuja polarização é indicada, por um lado, pelo que irrompeu no levante juvenil e popular de junho de 2013 e, por outro lado, pelo seu simulacro, a marcha de 15 de março de 2015.

O regime político burguês sustentado pelo PSDB no governo e pelo PT na oposição, e depois com o PT no governo e o PSDB na oposição (o PMDB sempre esteve no governo), foi fraturado durante o levante de junho. Foi tal levante que produziu o fim de um ciclo em que o PT dirigiu o movimento de massas. Sem formular desta forma foi o nosso equivalente ao “que se vayan todos” que marcou a política argentina em dezembro de 2001. De modo que, assim como não se pode entender a política argentina sem este marco, como não se pode entender a Venezuela sem o caracazo de 1989, não se pode entender o Brasil sem 2013
O levante de 2013 teve antecedentes: greves das obras de construção das usinas de Jirau e Santo Antônio em 2011, e sobretudo a poderosa greve dos bombeiros do Rio de Janeiro que derrotou o governo Cabral do PMDB. Tal efervescência social teve sua gênese no desdobramento da crise econômica mundial de 2008 e no rastilho de pólvora das revoluções árabes, dos indignados espanhóis, na juventude portuguesa e norte-americana. Mas quando finalmente explodiu, em junho de 2013, provocou uma mudança que segue impedindo a estabilização política da dominação burguesa. O regime trata sempre de se recompor, mas não tem sido fácil. E agora, com a crise econômica, está recomposição tem sido mais dura e custosa.

O trabalho para desmontar o levante de junho foi o sinal de igual da ação das direções do PT e dos partidos tradicionais da burguesia. Trabalharam com este objetivo durante todo segundo semestre de 2013 e todo ano eleitoral de 2014. O descontentamento popular, entretanto, seguiu. Depois das eleições, onde Dilma ganhou o segundo turno tratando de polarizar contra as medidas econômicas que um governo tucano aplicaria no caso de vencer, para aplicar logo em seguida estas mesmas medidas, a insatisfação ganhou novamente as ruas. Desta vez, porém, era na forma de um simulacro. A espontaneidade não era mais a marca das ações. Nem a radicalismo de esquerda. As forças de direita estavam no comando. Não era mais junho, mas sua negação.

Olhando para trás, portanto, vemos que a tentativa de liquidar os efeitos de junho de 2013 tiveram várias formas. A repressão foi a mais pesada. Ela uniu governos do PT e do PSDB. Mas teve também os dirigentes petistas que condenaram o junho de 2013 por produzir e supostamente fortalecer perspectivas fascistas. Teve a Globo tratando de desviar e restringir os protestos ao enfrentamento à corrupção em geral, buscando separar esta pauta das bandeiras sociais e anticapitalistas. Todos os partidos do regime da Nova República, durante meses e meses buscaram abafar junho, roubar e/ou desviar seu significado. Dilma durante o segundo turno das eleições fez seu discurso à esquerda para que as forças de junho a apoiassem e fossem por ela canalizada. A Globo e setores da classes dominante aproveitaram o desencanto com o estelionato eleitoral de Dilma para capitalizar para seus propósitos as energias do protesto. Neste caso, porém, produziu uma ação de rua de massas que tem o sentido oposto.

O que afirmamos aqui é o seguinte: a grande disputa estratégica do pais será entre junho de 2013 e seus efeitos contra seu simulacro de 15 de março de 2015. A atual conjuntura de polarização PT e PSDB, impeachment ou não, deixa nublado que esta é a verdadeira disputa sobre o futuro.

São dois processos cujas direções apontam para caminhos diferentes, e até opostos, disputando os rumos deste novo ciclo, embora o ano de 2015 — e os primeiros meses deste ano — mostrou que além da bifurcação há pontos de contato entre os que se identificam mais ou menos com cada uma destas mobilizações.

A velha divisão entre esquerda e direita no Brasil está longe de ser superada. Se junho indicou o despertar de forças que se inclinam para a esquerda, o 15 de março de 2015 foi o despertar pela direita. Então que pontos de encontro podem ter? O ponto de encontro entre os dois processos de mobilização cujas bases sociais são diferentes tem sido a luta contra a corrupção. Sem este ponto as mobilizações estimuladas pela direita política não teriam tido base de massas. Ainda que tal identidade seja por óbvio insuficiente para justiçar qualquer participação de forças de esquerda em tais mobilizações, já que não alteraram o caráter essencial dos protestos, dado por sua direção, não há dúvida de que cabe às forças que ligaram sua sorte à defesa da perspectiva aberta no país pelo levante de junho de 2013 disputar as bases sociais indignadas com o governo federal. Disputa, claro, parte da classe média que aderiu aos movimento de rua com eixo no impeachment, na qual se incluem muitos que agiram acreditando que estavam na mesma trilha aberta em junho de 2013. E ainda mais necessário é disputar os setores populares que mesmo não tendo participado do 15 de março de 2015, e suas ações seguintes, como o 13 de março deste ano, simpatizam com as mesmas, mais concretamente os setores populares que são pelo impeachment de Dilma e estão furiosos com o PT. Não disputar estes setores significa aceitar que o novo ciclo político tenha como marca central um simulacro do que foi junho de 2013: o 15 de março de 2015. Ou então, apenar tentar reproduzir e manter no tempo o que a vida já deixou para trás: o papel progressista do PT.

Para disputar o significado do novo ciclo político temos a necessidade de uma série de políticas e iniciativas. Mas sem segurar com firmeza a bandeira anti-corrupção estaremos derrotados nesta disputa. Trata-se de uma exigência, portanto, não apenas porque foi uma das bandeiras do levante de junho mas também porque contribui para ampliar a base social dos que militam pela continuidade das marcas daquele acontecimento. Caso contrário, seria entregar esta bandeira às forças políticas que negam junho de 2013 e tomam seu simulacro de 15 de março como o acontecimento fundador do novo ciclo que o país está começando a trilhar. Seria entregar a bandeira nas mãos da direita, em suas distintas variantes, quase todas elas, aliás, marcadas pela corrupção.

A luta contra a corrupção (que foi fortalecida em junho de 2013 com a aprovação no Congresso de leis que serviram para aprimorar as investigações) e a defesa da LavaJato, ademais, semeiam o enfrentamento contra os governos burgueses que se preparam nas conspirações dos palácios, do parlamento e das corporações midiáticas. Afinal, estes setores querem abafar a operação que ameaça os agarrar pelos calcanhares. Os partidos da ordem, para estabilizar o regime democrático burguês fraturado desde junho de 2013, precisam, repetimos, esvaziar e reduzir os impactos da operação LavaJato no ato seguinte a uma eventual queda do governo petista.

Aliás, há duas operações para abafar a operação: uma encabeçada por Lula; a outra dirigida pelo PSDB de Aécio, co-dirigida pela Globo. Lula aceitou ser ministro porque havia logrado convencer ao PMDB ligado a Renan de que ele, Lula, não ficaria esperando um milagre e atuaria para liquidar o problema. Com Aécio tendo entrado no noticiário a partir da delação de Delcídio a oposição de direita se enfraqueceu, fortalecendo a hipótese do plano de Lula dar certo. O impeachment caminhava para ser derrotado. Derrotado o impeachement as próprias corporações iriam pressionar pela normalização da política para seguir seus negócios. Até a Globo teria que ceder. A liberação das gravações desorganizou o plano Lula.

O plano Aécio pressupõe o impeachment. A partir daí os capitalistas, neste caso animados, dirão “basta de crise política e confusão, aos negócios!”. A Globo tratará de dizer que o auge da LavaJato já foi atingida, que Dilma até já caiu. Assim irá tirar a LavaJato do centro do noticiário. Ou seja, os dois blocos de poder querem terminar com a LavaJato, mais cedo do que tarde. Contra estes dois objetivos o apoio a LavaJato é uma necessidade. Não estamos aqui chamando a depositar confiança na justiça tal como a mesma atua no Brasil. Nem tampouco desconsideramos os problemas na operação Lava-Jato apontados por muitos juristas, advogados, intelectuais e militantes. Vladimir Safatle escreveu criticando duramente Sergio Moro. Seus argumentos são sólidos. Mas o foco nosso está concentrado na defesa de que a operação continue. Até na exigência que ela continue.

Assim, a defesa das demandas do povo, dos direitos dos trabalhadores e dos jovens, do movimento camponês, dos direitos civis em geral não podem deixar de ser combinada com a exigência da continuidade da LavaJato e do combate contra à corrupção, marca dos regimes burgueses, tanto da ditadura militar quanto da Nova República.

Devemos precisar o que se refere à defesa da Operação Lava-Jato: há um impressionismo em setores de esquerda, que tomam a OLJ como um processo essencialmente a serviço da “direita”; na verdade, a OLJ deve ser pensada a partir do seu conteúdo e da repercussão que tem em amplas massas. A profundidade da OLJ revela as entranhas do poder como nunca o país pode assistir. Os principais capitalistas brasileiros, as megaconstrutoras foram desnudadas. O fato do núcleo dos donos das empresas com OAS, Odebretcht, Camargo Correia, Queiroz Galvão está detido em Curitiba é realmente uma novidade política em toda a vida republicana brasileira. Nunca os corruptores tinham sido tratados da mesma forma que o corruptos.

Este núcleo — das empreiteiras que dominam o oligopólio da “logística” do país- controlam grandes fatias do investimento e do orçamento público desde o período dos governos militares. Porém, a OLJ conseguiu também organizar de forma consistente, até aqui, a relação promíscua entre o núcleo financeiro e o núcleo “político”. Desvelou para milhões, o esquema sórdido das castas que governam num ciclo que começa na liberação dos recursos públicos- via BNDES, estatais e outros- em contratos superfaturados, relacionando com o esquema de financiamento de partidos, líderes e com uma representação absurda de quase uma centena de deputados e senadores eleitos- dos três mais influentes partidos do país, o PT, PMDB e o PSDB. Uma investigação que chegou nos presidentes das duas câmaras legislativas do país- Renan Calheiros e Eduardo Cunha.

Como comentou o deputado Chico Alencar em sua rede social

“Em nota, PSDB diz que Alckmin, Aécio e Aluízio Nunes Ferreira ficaram “satisfeitíssimos” com a recepção que tiveram em ato de protesto contra o governo. Só que foram hostilizados como “oportunistas” e aos gritos de “Lava-Jato” e “Merendão” na av. Paulista.

Marta Suplicy, agora no PMDB de Cunha e cia, foi escorraçada. Suspeito que o que mais cresce é o PDP: Partido dos Desencantados com a Política. Com esse tipo de política corrupta, hipócrita, capturada pela grana das grandes empresas, afirmo. Mudar tudo é preciso, mas os partidos do condomínio do sistema não querem.”

Nossa convicção é de que, se somos capazes de intervir com audácia, a esquerda autentica pode disputar a direção do movimento de massas e construir uma nova hegemonia entre as forças sociais dos trabalhadores e da juventude.

Neste momento o impasse acerca do impeachment não está resolvido. Uma parte da burguesia fez a opção pelo impeachment. Se em dezembro tal opção havia se enfraquecido, agora, quando fechamos esta revista, tudo indica que finalmente o impasse será rompido e o impeachment parece o mais provável. A base política desta opção foi o fato de que o PT se mostrou incapaz de controlar o movimento de massas. Para quem tinha dúvidas, junho de 2013 provou. E Sarney e Delfim Netto sempre disseram que o governo do PT teria com resultado final a destruição da esquerda. Sarney escreveu isso para justificar sua política de apoio ao PT já em 2003. Sua posição era de que o PT faria dois mandatos e depois a situação se normalizaria, com a esquerda terminando. Delfim falou que o PT era útil para salvar o capitalismo. Demorou mais do que os dois mandatos, mas finalmente uma parte da burguesia quer um governo normal, sem intermediários, sem ideologias que eles consideram confusas.

Do ponto de vista econômico, a base do impeachment foi a crise, e a ruptura da aliança da indústria com o governo. Os setores burgueses da indústria seguem exigindo proteção do governo, ou pediam, porque já assumiram a impotência do governo e a crise bateu as portas de tal forma que agora há uma pressão de uma parte desta indústria para que exista sua integração – dos que puderem – nas cadeias globais de valor.

A hipótese do impeachment tinha ficado mais distante, mas…

Num primeiro momento em que a pauta do impeachment foi posta com mais força, em dezembro de 2015, a chefia da operação acabou nas mãos de um político que expressa a decadência da política burguesa, Eduardo Cunha. Os métodos golpistas de Cunha não conseguiram ir adiante. Os ecos das forças democráticas da luta contra a ditadura, ainda presentes no Brasil, se fizeram ouvir. E as manobras de Cunha foram barradas no STF. É possível que o STF tenha se movido menos pelos ecos do passado e mais pelo temor no futuro que poderia explodir com a tentativa de um golpe paraguaio. Nós do PSOL já tínhamos escolhido nosso lado, decidido a enfrentar Cunha e seu impeachment, embora nossa posição, expressa por Luciana Genro, era que o país necessitava de uma renovação, ainda que fosse pela via limitada das eleições gerais.

A partir da decisão do STF a possibilidade do impeachment voltou a se afastar. Mas a crise política seguiu. Quando este artigo estava sendo escrito a ISTOÉ publicava a Delação Premiada de Delcídio do Amaral. Tudo indicava uma aceleração do descontrole político, da crise e um aumento enorme das possibilidades da queda do governo. Mas desta vez sem o comando de Cunha. O isolamento do governo parece total e irreversível. A erosão da legitimidade do mandato presidencial parece ser quase completa, para dizer o mínimo. Com exceção de duas, todas as seções da OAB se posicionaram pelo impeachment.

A posição que defendemos tem sido a realização de eleições gerais. É uma política para construir espaços democráticos, apostar no empoderamento do povo. Sabemos que eleições não representam uma saída em si mesmo para a crise, ainda mais enquanto os trabalhadores não tem força nem organização para ditar os rumos do país. Mas não aceitamos Temer de presidente e não nos somaremos na defesa de um governo antipopular cujos planos são de continuar atacando os trabalhadores. Em outro texto desta revista desenvolvemos mais nossa posição.

Tendo consciência de que não temos força por ora de ser uma alternativa nacional de massas e, sobretudo, um alternativa de poder, sabemos que é preciso uma política nacional correta e uma capacidade de acelerar experiências e dar saltos políticos na construção desta esquerda.

Para acumular forças é preciso aumentar o oxigênio democrático do país, que vem sendo reduzido pela combinação do caráter burguês da atual democracia, pela traição e a decepção do PT e pelas políticas burguesas de ataque aos direitos do povo e ao movimento operário, incluindo aí os setores reacionários que se erguem contra todas as pautas dos direitos civis. Aumentar o oxigênio democrático e portanto os espaços para a construção de uma política de emancipação exige romper a polarização entre PT e seus aliados por um lado e PSDB, Rede Globo e seus aliados por outro. Até então unidos na defesa do regime da Nova República, agora disputam entre si e com métodos similares. Ambos querem bloquear os efeitos políticos democráticos e de esquerda que tratam de emergir neste novo ciclo aberto no país desde junho de 2013. Não à toa todos estes partidos e seus governos enfrentaram junho e usaram até mesmo as forças de repressão para reprimir o movimento de massas.

A ruptura desta polarização abrirá um novo mapa, cujas coordenadas irão se definindo na disputa no interior deste espaço novo. A questão agora é expandir o espaço desta nova possibilidade. E de nossa parte desenvolver uma posição de esquerda anticapitalista e revolucionária. Nossa sorte, socialmente, está ligada à capacidade de luta da classe trabalhadora e da juventude.

As novas coordenadas da Esquerda

Durante uma de suas palestras no Fórum Social temático, ocorrido em janeiro, Boaventura de Souza Santos, diante de uma pequena plateia presente no confortável e amplo auditório Dante Barone na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, perguntou onde estavam as pessoas de Porto Alegre. Se o público em geral era pequeno, composto também por pessoas vindas de outros estados, de fato era ainda menor a assistência dos de Porto Alegre. A pergunta de Boaventura buscava demonstrar que nos últimos 15 anos a esquerda sofreu um grande retrocesso. Sua constatação era verdadeira, mas como nestes casos, se nosso objetivo não se limita a interpretar o mundo mas também a levar adiante a luta por transformá-lo, a compreensão necessita também uma orientação para a ação. Para tanto seria útil obter mais informações do que estava ocorrendo na cidade.

Um dia antes, durante a noite, o plenário Ana Terra na mesma capital estava lotado para assistir a palestra de uma ativista curda falando da revolução do Curdistão. No calor de dezembro, menos de um mês antes, cerca de 300 mulheres de Porto Alegre se reuniram em praça pública para discutir com Luciana Genro a luta das mulheres e o direito à cidade. Luciana Genro, que em toda sua trajetória foi definida como radical por toda a burguesia e identificada como de extrema-esquerda no período que militou no PT, obteve, quando candidata a presidente da república pelo PSOL em 2014, mais de 7% da votação em Porto Alegre. Cada pessoa que deu este voto sabia que suas chances eram remotas ou mesmo inexistentes. Agora, nas primeiras pesquisas sobre as eleições municipais para prefeitura, Luciana Genro tem cerca de 19% das intenções de voto, em segundo lugar. Em primeiro lugar nas pesquisas estava Manuela D´Avila, principal nome público do PCdoB. Manuela renunciou à candidatura no final de fevereiro.

As eleições municipais podem se constituir num primeiro momento de disputa de massas de emergência de forças ligadas a este novo ciclo político. O PSOL terá nela uma janela de oportunidade. Longe de sermos triunfalistas, a vitória de Luciana Genro na eleição municipal de Porto Alegre não será nada fácil, é claro. Mas o novo não é que seja difícil. O novo é que seja possível. E para muitos até provável. Esta mesma possibilidade está aberta no Rio de Janeiro, com a campanha de Marcelo Freixo, e em Belém, com a campanha de Edmilson Rodrigues, que completam as três prioridades do PSOL, para não citar todas as inúmeras candidaturas competitivas que o partido terá nas eleições de outubro.

Esta dimensão do novo que Boaventura não percebeu ainda, e por isso segue trabalhando com as coordenadas da esquerda anterior, uma esquerda que governou para os interesses do capital durante mais de uma década. Não quero dizer que esta esquerda não tem experiências e processos de construção e de elaboração dos quais devemos aprender. Tem, seguramente, não apenas de seus erros, suas falências, mas também de seus acertos. Boaventura também tem também muito a ensinar. Há, aliás, importantes parcelas que ainda militam no PT, militantes e quadros dirigentes que querem ser parte de uma esquerda autentica e o projeto de impulsionar esta recomposição deve contar com eles. A questão é por onde passa esta recomposição, qual sua estratégia, em que processos se apoia, que programa defende.

A ideologia do progresso no capitalismo está desmoronando

Uma das premissas mais falsas daqueles que defendem que os governos do PT foram progressistas é a ideologia de que 40 milhões de pessoas saíram da pobreza e se incorporaram na classe média. Se isso de fato tivesse ocorrido o apoio popular aos governos do PT estaria ainda muito forte, apesar da crise atual e malgrado toda a corrupção. Mas considerar que renda familiar de 1600 reais até 3000 reais pode ser considerada renda de famílias que se incorporam à classe média é algo que beira o cinismo. Boaventura infelizmente é um dos que sustenta que o recursos estatais, distribuídos na forma de política compensatórias, como o Bolsa Família, “fez com que camadas passassem da pobreza para a classe média de uma forma sem precedentes” (JC 25.01.2016). Se tivesse dito que milhões saíram da miséria para a pobreza tal afirmação seria respeitada, mas a falta de proporção é gritante.

Agora o Brasil está retrocedendo até mesmo nas conquistas sociais obtidas. É a confirmação da tese de Leon Trotsky de que o capitalismo dá com uma mão e tira com a outra. Depois de afirmar que o Estado tinha a possibilidade de tributar os ricos, Boaventura, desta vez corretamente, definiu que isso não ocorreu porque os “governos não colocaram em pauta este ideal e aceitaram a ideologia das agências de crédito e do Fundo Monetário Internacional”.

Doam com uma mão e tiram com a outra

O fato é que as ideologias burguesas e reformistas foram golpeadas com a eclosão da crise econômica, a maior da história do país. A demagogia do ex-presidente Lula, dizendo que a crise mundial do capitalismo iniciada no final de 2007 chegava, no Brasil, apenas como uma marolinha, desmoronou. E com ela a ideologia defendida por setores burgueses, líderes do PT e até alguns dirigentes políticos à esquerda do PT, de que os chamados países emergentes estavam descolados da crise mundial. Os efeitos maiores não foram imediatos, mas sua força e persistência têm sido pesados.

O país estagnou em 2014 e teve recessão em 2015. Mais do que isso: teve depressão, com a queda do PIB de quase 4% e de projeção de mais de 3% de queda em 2016. Não há quem arrisque dizer quando os investimentos capitalistas ganharão fôlego, nem quando o PIB voltará a crescer, mas já 2017 também está indicado como ano cuja estagnação será a marca. Em 2015 a queda chegou a 8% da produção industrial, superando o pior resultado, de 2009, quando o recuo foi de 7,1% (Valor Econômico, 12 de janeiro). E são as opções econômicas dos governos petistas que promoveram um “processo de desindustrialização”. Como também disse Boaventura “tudo foi canalizado para o agronegócio e a mineração, com consequências sociais fortes”.

A queda da produção industrial em 2015 tem sido generalizada. O setor utiliza apenas 74,6% de sua capacidade instalada e o setor de bens de capital se retraiu em 25,1% de janeiro a novembro, revelando a queda brusca dos investimentos. O rendimento médio do empregado da indústria caiu 12,5% em novembro de 2015 em comparação com o mesmo mês de 2014. A queda do poder aquisitivo se soma com o desemprego, que, em março, ameaça chegar a 10 milhões de trabalhadores, além do descaso com a saúde e a educação pública. Tudo somado levou ao desmoronamento da ideologia de que o PT, associado ao capitalismo brasileiro, poderia levar a uma melhoria constante, ainda que paulatina, do nível de vida e de cultura dos brasileiros.

Tal situação provocou desilusões em milhares de ativistas. Mais grave é a decepção de milhões de pessoas que acreditaram no PT. Tal desilusão carrega a construção de um novo movimento de esquerda, com dificuldades novas, não vividas pela experiência do próprio PT. O desabamento do PT foi nossa queda do muro de Berlim. Desta forma, assim como a queda do muro e o colapso do socialismo real provocaram uma crise na consciência de esquerda e um cenário mundial sem projetos alternativos de nenhum tipo ao domínio do capital durante as últimas duas décadas do século XX (o bolivarianismo indicou uma possibilidade nova, ainda que estejamos vendo agora também seu esgotamento), com o colapso do PT é inegável que a esquerda brasileira atravessa e atravessará dificuldades e obstáculos. Mas aqui há duas vantagens. A primeira é a existência, prévia ao colapso do PT, do PSOL. A segunda, ainda mais importante, é que o Brasil não experimentou apenas estas desilusões, mas também um dos maiores levantes juvenis e popular dos últimos 50 anos: o levante de junho de 2013. Este levante foi a marca mais importante do final do ciclo aberto com a fundação do PT e com a campanha das Diretas Já. E provavelmente da abertura de um novo ciclo de recomposição da esquerda e das forças anticapitalistas.

Uma alternativa de esquerda se forja sendo fiel a junho de 2013

A eventual queda do governo federal parece ser o plano central da maioria da classe dominante. Em parte tanto o PSDB quanto o PMDB planejam controlar o poder e usá-lo para abafar a operação LavaJato, contando, é evidente com a cumplicidade da mídia corporativa. É difícil saber se o juiz Sérgio Moro se resignará diante desta política e, caso tente manter a força e a eficácia da operação, se logrará romper o cerco da aliança contra-revolucionária da impunidade. De qualquer forma, a crise econômica continuará e a exigência burguesa dos planos de ajuste levarão ao choque do governo com o movimento de massas, mais cedo do que tarde. Os governos estaduais desta aliança, como o de Alckmin em SP, Beto Richa no Paraná, Sartori no RS, e tantos outros, já sofrem questionamento nas ruas. Alguns, como o do PSDB de Beto Richa, com investigações judiciais avançadas em seu encalço.

Para a esquerda socialista os desafios serão enormes. Diante da falência do PT e do governo Dilma, a tarefa estratégica segue sendo a construção de um projeto de esquerda coerente e com influência de massas. Neste sentido é importante ter sempre junho de 2013 no radar, nas coordenadas da nova configuração da política que esta pulsando. E as disputas pelos governos municipais são instrumentais nesta direção. Quando Boaventura pergunta pelo público de Porto Alegre vale lembrar que aqui foram os primeiros palcos de junho. E para aqueles que acham que a direita está muito forte, ganhou as ruas, devemos dizer que embora de fato a direita tenha crescido na esteira da traição da direção do PT, embora tenha tido passeatas de milhares nas ruas em 15 de março de 2015, tendo como principal referencia Aécio Neves, 2015 terminou com centenas de milhares de jovens em SP tomando as escolas e derrotando o governo do PSDB. E jovens que estavam contestando o capital, os burocratas, sendo protagonistas de seu destino. E 2016, antes do 13 de março – onde Aécio Neves e Alckmin foram vaiados em seu próprio palanque – começou com as passeatas contra o aumento das passagens de ônibus novamente em SP. Estas passeatas foram bloqueadas por uma forte repressão policial. A experiência tem sido feita por milhares de novos possíveis ativistas. É possível e até provável que não tenhamos no Brasil neste ano um levante que se assemelhe ao que foi junho de 2013. Até mesmo um forte ascenso do movimento de massas tem sido bloqueado pela desilusão, pela falta de perspectiva, pelo peso das traições, mas estão se acumulando contradições. O que é mais gritante é que “tudo que é sólido desmancha no ar”.

Se podemos comparar o Junho de 2013 com as manifestações domingueiras insufladas pela direita desde 15/03/2015, afirmamos que para além do simulacro, existe um dado alvissareiro para as forças da mudança e contra a ordem: a juventude, principal sujeito social das jornadas de Junho, foi a grande ausente das manifestações que a direita tem patrocinado.

Esse processo de ruptura geracional é profundo e terá desdobramentos inevitáveis. A nova pauta de luta por direitos contaminou as ruas com a primavera feminista; existe um novo ativismo LGBT e do movimento negro, das lutas antiproibicionistas, de lutas por direitos urbanos; a vitória dos estudantes secundaristas de São Paulo nas suas ocupações teve um impacto fundamental pois questionou não apenas o governo tucano como toda a estrutura de poder dentro da escola, derrubando algumas direções de escola, deixando marcas nas cerca de 200 escolas ocupadas, desde as mais tradicionais e centrais, até as escolas de periferia, onde toda a comunidade escolar se mobilizou para apoiar a luta secundarista.

O movimento de massas rompeu a passividade de anos anteriores. Assim, embora ideias de direita tenham se fortalecimento em uma parcela das massas — e posições de extrema direita como Bolsonaro — e estejamos sofrendo uma contrarrevolução econômica permanente que atinge sobretudo o movimento operário e dificulta a organização e a construção de uma proposta alternativa e anticapitalista, não há uma perspectiva de retrocesso das lutas sociais nem de bloqueio intransponível para as forças de esquerda. Longe disso. As forças burguesas seguem dominando o país, por obvio, e sua ideologia é amplamente dominante. Soma-se a isso o fato de que a traição do PT provou desencanto, desilusão, ceticismo. Se ainda levarmos em conta que não rompemos o período de ausência de alternativas, de crise ideológica provocada pelo stalinismo, seremos conscientes das dificuldades. Mas também não pode perder de vista os espaços vazios. E a situação atual do PT abre um espaço a ser preenchido por uma esquerda da esquerda.

Aprender com os erros do PT

Então, não teremos uma construção fácil. Mas temos uma luta em curso. Não estamos com a terra arrasada e temos uma enorme responsabilidade. Se há algo útil na crise e na bancarrota do PT é justamente o desmoronamento de que podemos viver de ilusões. O PT passou mais de duas décadas chamando os trabalhadores a votar no partido e a acreditar que com o PT governando a situação seria de progresso para todos. Esta ilusão caiu. E se há algo verdadeiro na política é que a única saída possível para que se construa uma alternativa é que a mobilização de massas deve ser permanente. Quando a mobilização cessa, a política de emancipação cessa, se congela e retrocede. E o PT reduziu sua política ao dizer que o voto mudava a vida. Passou duas décadas desmobilizando com esta ideologia.

O caminho não é fácil. A desilusão causada por esse fim de ciclo vai recair, de alguma ou outra forma, sob o conjunto da representação das ideias progressivas, sobre a disputa e o significado do próprio termo “esquerda”. Assim como a queda do muro de Berlim teve suas inegáveis contradições, abrindo todo um período de recomposição e de retrocesso na consciência, no Brasil pós-PT teremos uma longa reconstrução a ser feita. Nossa batalha contra o desencanto vai levar tempo. Ela é inevitável, mas antes que nada necessária.

Por isso o PSOL tem responsabilidade. Afinal, o PSOL tem chances de ter peso eleitoral. Já tem peso eleitoral nas capitais e em pelo menos três capitais disputamos com chances reais de vitória: Porto Alegre, Rio de Janeiro e Belém. Nosso desafio é fazer não apenas uma campanha eleitoral, mas um movimento político e chamar o povo a confiar em si mesmo, na força da sua luta e organização. É claro que a eleição é importante. Seriamos tolos se não víssemos isso. Podemos dar saltos de construção nas eleições. A burguesia também sabe disso e por isso aprovaram a lei da mordaça, que corta espaços do PSOL para fazer o debate público eleitoral. Mas a política não se resume à eleição e neste ponto temos que usar a lei da mordaça como mais uma prova de que esta democracia não é verdadeira, não é real, e que o Estado, sempre que esteja ameaçado, por menor que seja esta ameaça, usa a força da repressão contra o povo. Os jovens de SP viram isso em janeiro. Se conseguirmos passar estas ideias estaremos dando um grande passo. Será apenas o começo. Um começo que é também um recomeço. Um recomeço de uma ideia que não é nova. Uma ideia comunista, de luta pelo comum, pela propriedade comum, que afirma sempre sua necessidade. Uma necessidade ainda mais evidente quando o capitalismo mostra sua natureza de um regime profundamente desigual, concentrador de riqueza e de poder e produtor de crises que levam cada vez mais pessoas à miséria e ao desespero.

Esta ideia busca sua realização de formas variadas e tem sido reforçada por movimentos intermediários que, ainda não sendo diretamente coletivistas, são críticos ao capital financeiro, ao domínio do capital financeiro e da guerra. Exemplos como o Syriza, que não teve força e consistência para ir avante, e sobretudo o processo de construção de alternativas, do Podemos da Espanha, que está alternando a política da Espanha e abrindo possibilidades desconhecidas, do Bloco de Esquerda em Portugal, etc, são indicações de que é possível ganhar influência de massas. São processos que nos inspiram, que mostram que não estamos sozinhos.

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El fin de un ciclo político

CASTELLANO

Brasil encerró un ciclo político cuya marca fue un pacto de la Nueva República acordado entre los partidos que ganaron fuerza en la lucha en contra la dictadura militar. En este ciclo el PT fue él partido hegemónico del movimiento de los trabajadores y de la juventud. El ciclo nuevo que está siendo abierto está indeterminado y hay una lucha en curso por su sentido, cuja polarización es indicada, por un lado, por que irrumpió en el levantamiento juvenil y popular de Junio del 2013 y, por otro lado, por su simulacro, en la marcha del 15 de Marzo del 2015.

El régimen político burgués sustentado por el PSDB en el gobierno y por el PT en la oposición, y después con el PT en el gobierno y el PSDB en la oposición (el PMDB siempre estuvo en el gobierno), fue fracturado durante el levantamiento de junio. Fue tal éste que produjo el fin de un ciclo en que el PT dirigió el movimiento de masas. Sin formularlo de esta forma fue nuestro equivalente al “que se vayan todos” que marcó la política argentina en Diciembre del 2001. De modo que, así como no se puede entender a la política argentina sin este marco, como también no se puede entender a Venezuela sin el caracazo de 1989, no se pode entender a Brasil sin el levantamiento del 2013.

El levantamiento del 2013 tuvo antecedentes: huelgas en las obras de la construcción de las fábricas de Jirau y de Santo Antonio en el 2011, y sobre todo la poderosa huelga de los bomberos de Rio de Janeiro que derrotó al gobierno de Sergio Cabral del PMDB.

Tal efervescencia social tuvo su génesis en las consecuencias de la crisis económica mundial del 2008 y en el rastro de pólvora de las revoluciones árabes, de los indignados españoles,  y en la juventud portuguesa y  la norte-americana. Pero cuando finalmente explotó, en Junio del 2013, provocó una mudanza que sigue impidiendo la estabilización política de la dominación burguesa. El régimen trata siempre de recomponerse, pero no ha sido fácil. Y ahora, con la crisis económica, esta recomposición está siendo más dura y más costosa.

El trabajo para desmontar el levantamiento de junio fue la señal de la igualdad de la acción de la dirección del PT y de los partidos tradicionales de la burguesía. Trabajaron con este objetivo durante todo el segundo semestre del 2013 y todo el año electoral del 2014. El descontento popular, mientras tanto, siguió. Después de las elecciones, en donde Dilma ganó en el segundo turno tratando de polarizar contra las medidas económicas que un gobierno tucano, o sea del PSDB, aplicaría en el caso de vencer, para aplicar bien rápidamente estas mismas medidas, la insatisfacción ganó nuevamente las calles. Esta vez, sin embargo, era en la forma de un simulacro. La espontaneidad no era más la marca de las acciones. Ni el radicalismo de la izquierda. Las fuerzas de la derecha estaban al mando. No era más Junio, mas era su negación.

Mirando hacia atrás, por lo tanto, vemos que la tentativa de liquidar los efectos de Junio del 2013 tuvo varias formas. La represión fue la más pesada. Ella unió a los gobiernos del PT y del PSDB. Pero tuvo también a los dirigentes petistas que condenaron los hechos de Junio del 2013 por producir y supuestamente fortalecer perspectivas fascistas. Tuvo también a la Globo tratando de desviar y de restringir los protestos al enfrentamiento y a la corrupción en general, buscando separar esta pauta de las banderas sociales y anticapitalistas.

Todos los partidos del régimen de la Nueva República, durante meses y meses buscaron ocultar a Junio, robarle y desviar su significado. Dilma durante el segundo turno de las elecciones hizo un discurso a la izquierda para que las fuerzas de Junio la apoyasen y fuesen canalizadas por ella. La Globo y sectores de las clases dominantes aprovecharon el desencanto con el estelionato electoral de Dilma para capitalizar para sus propósitos las energías de los protestos. En este caso, sin embargo, produjo una acción en la calle de las masas que tiene un sentido opuesto.

Lo que afirmamos aquí es lo siguiente: la gran disputa estratégica del país será entre Junio del 2013 y sus efectos contra su simulacro del 15 de Marzo del 2015. La actual coyuntura de la polarización del PT y del PSDB, que haya impeachment o no, pone en duda que esta es la verdadera disputa sobre el futuro.

Son dos procesos cuyas direcciones apuntan para caminos diferentes, y hasta opuestos, disputando los rumbos de este nuevo ciclo, aunque el año de 2015 — y los primeros meses de este año — mostró que más allá de la bifurcación hay puntos de contacto entre los que se identifican más o menos con cada una de estas movilizaciones.

La vieja división entre la izquierda y la derecha en Brasil está lejos de ser superada. Si Junio indicó el despertar de fuerzas que se inclinan para la izquierda, el 15 de Marzo del 2015 fue el despertar hacia la derecha.

¿Entonces qué puntos de encuentro pueden tener? El punto de encuentro entre los dos procesos de movilización cuyas bases sociales son diferentes ha sido la lucha contra la corrupción. Sin éste punto las movilizaciones estimuladas por la derecha política no hubieran tenido base de masas. Todavía que tal identidad sea obviamente insuficiente para ajusticiar cualquier participación de fuerzas de la izquierda en tales movilizaciones, ya que no alteraran el carácter esencial de los protestos, dado por su dirección, no hay duda de que cabe a las fuerzas que vincularon su suerte a la defensa de la perspectiva abierta en el país por los hechos de Junio del 2013, o sea disputar las bases sociales indignadas con el gobierno federal. Disputa, claro, parte de la clase media que se adhirió a los movimientos de las calles con eje en el impeachment, en el cual se incluyen muchos que reaccionaron creyendo que estaban en el mismo camino abierto en Junio del 2013.

Y es todavía más necesario el disputar a los sectores populares que aunque no hayan participado de las manifestaciones del 15 de Marzo del 2015, y sus acciones siguientes, como las del 13 de Marzo de este año, simpatizan con las mismas, más concretamente los sectores populares que están por el impeachment de Dilma y  están furiosos con el PT. No disputar a estos sectores significa aceptar que el nuevo ciclo político tenga como marca central un simulacro de lo que fue Junio del 2013: o el 15 de Marzo del 2015. O bien, a penas tentar reproducir y mantener en el tiempo lo que la vida ya dejó para atrás: el papel progresista del PT.

Para disputar el significado de un nuevo ciclo político tenemos la necesidad de una serie de políticas e iniciativas. Pero sin sujetar con firmeza la bandera anti-corrupción, estaremos derrotados en esta disputa. Se trata de una exigencia, por lo tanto, no apenas porque fue una de las banderas del levantamiento de Junio si no también porque contribuyó para ampliar la base social de los que militan por la continuidad de las marcas de aquel acontecimiento.  En caso contrario, sería entregar esta bandera a las fuerzas políticas que niegan Junio del 2013 y toman su simulacro del 15 de Marzo como el acontecimiento fundador del nuevo ciclo que el país está comenzando a trillar. Sería entregar la bandera en las manos de la derecha, en sus distintas variantes, casi todas ellas, además, marcadas por la corrupción.

La lucha contra la corrupción (que fue fortalecida en los hechos de Junio del 2013 con la aprobación en el Congreso de leyes que sirvieron para perfeccionar las investigaciones) y la defensa de la Operación Lava Jato, además, siembran el enfrentamiento contra los gobiernos burgueses que se preparan en las conspiraciones de los Palacios, o sea el de Planalto sede del parlamento, y el de Alvorada, del gobierno de Dilma y de las corporaciones mediáticas. Al final, estos sectores quieren sofocar a la operación que amenaza con agarrarlos por los talones. Los partidos del orden, para estabilizar el régimen democrático burgués fracturado desde Junio del 2013, precisan, repetimos, vaciar y reducir los impactos de la Operación Lava Jato al acto siguiente a una eventual caída del gobierno petista.

Además, hay dos operaciones para sofocar el Lavajato: una que está encabezada por Lula; la otra dirigida por el PSDB de Aécio Neves, dirigida con la Globo. Lula aceptó ser ministro porque había logrado convencer al PMDB la parte que está con Renan Calheiros, presidente del Senado, de que el, Lula, no se quedaría esperando un milagro y actuaría para liquidar el problema. Con Aécio entrando en los informativos de la televisión a partir de las declaraciones de Delcídio la oposición de derecha se debilitó, fortaleciendo la hipótesis de que el plano de Lula daría cierto.

El impeachement caminaba para ser derrotado. Derrotado el impeachment las propias corporaciones irían a presionar por la normalización de la política para seguir con sus negocios. Hasta la Globo tendría que ceder. La liberación de las grabaciones desorganizó el plano de Lula.

El plano Aécio presupone el impeachment. A partir de ello los capitalistas, en este caso animados, van a decir “basta de crisis política y de confusión, vamos a por negocios!”. La Globo tratará de decir que el auge de la Lava Jato ya fue alcanzado, que Dilma hasta cayó. Así irán a tirar la Lava Jato del centro de los informativos. O sea, los dos bloques del poder quieren terminar con la Lava Jato, más pronto de que tarde. Contra estos dos objetivos el apoyo a la Lava Jato es una necesidad. No estamos aquí llamando a depositar confianza  en la justicia tal y como ella está actuando en Brasil. Ni tampoco desconsideramos los problemas en la Operación Lava Jato apuntados por muchos jueces, abogados, intelectuales y militantes. Vladimir Safatle escribió criticando duramente al juez Sergio Moro que es el que está al frente de la Operación Lava Jato. Sus argumentos son sólidos. Mas el foco nuestro está concentrado en la defensa de que la Operación continúe. Diríamos en la exigencia que ella continúe.

Así, en la defensa de las demandas del pueblo, de los derechos de los trabajadores y de los jóvenes, del movimiento campesino, de los derechos civiles en general no pueden dejar de ser combinados con la exigencia de la continuidad de la Operación Lava Jato y del combate en contra de la corrupción, marca de los regímenes burgueses, sean en una dictadura militar o en la Nueva República.

Debemos precisar a lo que se refiere en la defensa de la Operación Lava Jato: hay sectores de la izquierda que están impresionados, y que toman a la OLJ como un proceso esencialmente al servicio de la “derecha”; la verdad,  es que la OLJ debe de ser pensada a partir de su contenido y de la repercusión que tiene dentro de sectores grandes de las masas. La profundidad de la OLJ revela las entrañas del poder como nunca, y el país puede asistir. Los principales capitalistas brasileños, las grandes constructoras fueron desnudadas. El hecho de que el núcleo de los dueños de empresas como la OAS, Odebretcht, Camargo Correia, Queiroz Galvão está detenido en Curitiba es realmente una novedad política en toda la historia republicana brasileña. Nunca los corruptores habían  sido tratados de la misma forma que los corruptos.

Este núcleo, el de las constructoras que dominan el oligopólio de la “logística” del país, controlan grandes partes del investimento y del presupuesto público desde el período de los gobiernos militares. Aunque, la OLJ consiguió también organizar de forma consistente, hasta aquí, la relación promiscúa entre el núcleo financiero y el núcleo “político”. Desveló para millones, el esquema sórdido de las castas que gobiernan en un ciclo  que comienza con la liberación de los recursos públicos, vía el banco BNDES, estatales y otros con contratos super facturados, relacionados con el esquema de financiamiento de partidos, líderes y con una representación absurda de casi una centena de diputados y senadores elegidos, de los tres más influyentes partidos del país, el PT, el PMDB y el PSDB. Una investigación que llegó hasta los presidentes de las dos Cámaras legisladoras del país, Renan Calheiros  del Senado y Eduardo Cunha, del Congreso.

Como comentó el diputado Chico Alencar del PSOL, en su red social

“En una nota, el PSDB comenta que Alckmin actual gobernador de Sao Paulo, y los senadores Aécio y  Aluízio Nunes Ferreira quedarían “muy satisfechos” con la recepción que tuvieron en el acto en contra del gobierno. Sólo que fueron hostilizados y llamados de “oportunistas” y a los gritos de “Lava Jato” y “ el escándalo de las Meriendas escolares que sucedió en Sao Paulo” en el acto de la av. Paulista.

Marta Suplicy, que ahora está en el PMDB el partido de Cunha, ella antes fue del PT, fue echada. Sospecho que el partido que más crece es el PDP: Partido de los Desencantados con la Política. Con ese tipo de política corrupta, hipócrita, capturada por el dinero de las grandes empresas, afirmo. Cambiar todo es preciso, pero los partidos del condominio del sistema no quieren.”

Nuestra convicción es que, si somos capaces de intervenir con audacia, la izquierda auténtica puede disputar la dirección del movimiento de masas y construir una nueva hegemonía entre las fuerzas sociales de los trabajadores y de la juventud.

En este momento el impase acerca del impeachment no está resuelto. Una parte de la burguesía tiene la opción por el impeachment. Si en el mes de Diciembre tal opción se había  enflaquecido, ahora, cuando estamos cerrando esta revista, todo indica que finalmente el impase será roto y el impeachment parece lo más probable. La base política de esta opción fue el hecho de que el PT se mostró incapaz de controlar el movimiento de masas.

Para quien tiene dudas, Junio del 2013 lo probó. Y Sarney y Delfim Netto siempre dijeron que el gobierno del PT tendría como resultado final la destrucción de la izquierda. Sarney que fue presidente del Senado, escribió esto para justificar su política de apoyo al PT ya en el año 2003. Su posición era que el PT estaría solamente en dos mandatos y después la situación se normalizaría, con el final de la izquierda. Delfim dijo que el PT era útil para salvar al capitalismo. Demoró más de que los dos mandatos, más finalmente una parte de la burguesía quiere un gobierno normal, sin intermediarios, sin ideologías que ellos consideran confusas.

La hipótesis del impeachment se hizo concreta

Desde el punto de vista económico, la base del impeachment fue la crisis, y la ruptura de la alianza de la industria con el gobierno. Los sectores burgueses de la industria siguen exigiendo protección del gobierno, o pedían, porque ya asumieron la impotencia del gobierno y la crisis batió las puertas de tal forma que ahora hay una presión de una parte de esta industria para que exista su integración de los que pueden, en las cárceles globales de valor.

En un primer momento la pauta del impeachment fue puesta con más fuerza en diciembre de 2015, y la jefatura de la operación en el Parlamento había quedado en las manos de un político que expresa la decadencia de la política burguesa: Eduardo Cunha. Los métodos golpistas de Cunha no consiguieron salir adelante. Los ecos de las fuerzas democráticas de lucha contra la dictadura, todavía presentes en el Brasil, se hicieron oír. Y las maniobras de Cunha fueron frenadas por el Supremo Tribunal Federal (STF). Es posible que el STF se tenga movido menos por los ecos del pasado y más por el temor en el futuro que podría explotar como tentativa de golpe paraguayo.

Nosotros del PSOL ya teníamos escogido nuestro lado, decididos a enfrentar a Cunha y su impeachment, así que nuestra posición expresa por Luciana Genro era que el país necesitaba de una renovación todavía así fuese por la vía limitada de las elecciones generales.

Pero la crisis siguió. Cuando este artículo estaba siendo escrito (10/03/2016) la revista ISTOÉ publicó la declaración premiada de Delcidio de Amaral, (senador que estaba preso por intentar montar un operativo para huir del país de un gerente de la Petrobras preso en por el Lavajato y que tenía preparada su declaración premiada. Delcidio era presidente de la bancada del PT en el Senado y fu preso. La delación premiada de Delcidio que llegaba hasta la denuncia a Aecio Neves, (ya que había sido alto funcionario de la Petrobras desde la época de FHC), indicaba una aceleración del descontrol político de la crisis y un aumento enorme de las posibilidades de caída del gobierno. Pero esta vez sin el comando de Cunha.

Temer es la maniobra de las elites Elecciones generales, que el pueblo decida

El aislamiento del gobierno parece total e irreversible. La erosión de legitimidad del mandato presidencial parece ser casi completa, para decir lo mínimo. Con excepción de dos secciones de la OAB (Organización de Abogados de Brasil) el resto se posicionaron por el impeachment).

La posición que defiende el MES ha sido la realización de elecciones generales. Es una política para construir espacios democráticos, apostar en que el pueblo se politice y de alguna manera tome en sus manos la crisis. Sabemos que las elecciones no representan una salida en sí mismo para la crisis, más aún cuando los trabajadores no tienen la fuerza ni cuentan con una organización para dictar los rumbos del país.

Pero no aceptamos Michel Temer (Vice de Dilma del PMDB) de presidente y no nos sumamos a la defensa de un gobierno antipopular cuyos planos son continuar atacando los trabajadores.

Teniendo conciencia de que no tenemos fuerza por ahora para ser una alternativa de poder, sabemos que es preciso una política nacional correcta y una capacidad de acelerar experiencias y dar saltos políticos en la construcción de esta izquierda.

Para acumular fuerzas es preciso aumentar el oxígeno democrático  del país que viene siendo reducido por el carácter burgués decadente de la actual democracia y por la traición y la decepción del PT y por los ataques con políticas burguesas a los derechos del Pueblo. Oxigenación necesaria también frente a los sectores reaccionarios que se están moviendo. Aumentar los espacios democráticos es también hacerlo la construcción de una política de emancipación que exige romper la polarización del PT y sus aliados por un lado, y el PSDB, Rede Globo e sus aliados por el otro.

Hasta el 2013 unidos en la defensa del régimen de la Nueva República, ahora disputan entre sí con métodos similares: ambos quieren bloquear los efectos políticos democráticos y de izquierda que tratan de emerger con métodos similares el nuevo ciclo abierto en el país. No por casualidad todos estos partidos y sus gobiernos estaduales enfrentaron junio y usaron las fuerzas de represión contra el movimiento de masas.

A ruptura de esta polarización abrirá un nuevo mapa político, cuyas coordenadas irán siendo definidas en la disputa en el interior de este espacio nuevo. La cuestión ahora es expandir el espacio de esta nueva posibilidad. Y de nuestra parte desarrollar una posición de izquierda anticapitalista y  revolucionaria. Nuestra suerte, socialmente, está ligada à capacidad de la lucha de clase trabajadora y la juventud.

Las nuevas coordenadas de la Izquierda

En las primeras encuestas sobre las elecciones municipales para intendencias, Luciana Genro tiene cerca del 19% de las intenciones de voto en segundo lugar. En primer lugar estaba Manuela D´Avila, principal nombre público del PCdoB. Manuela renuncio a la candidatura en el final de febrero.

Las elecciones municipales pueden constituirse en un primer momento de disputa de masas de emergencia de fuerzas nuevas ligadas a este nuevo ciclo político. El PSOL tendrá en ellas una ventana de oportunidad. Lejos de ser triunfalistas la victoria de Luciana Genro en la elección municipal de Porto Alegre no será nada fácil. Pero lo nuevo es que no es difícil. Lo nuevo es que es posible, y para muchos probable. Esta misma posibilidad está abierta en Rio de Janeiro, con la campaña de Marcelo Freixo, y en Belém, con la campaña de Edmilson Rodríguez, que completan las tres prioridades del PSOL, para no citar todas las innumerables candidaturas competitivas que el partido tendrá en las elecciones de octubre.

Esta dimensión de lo nuevo Boaventura y muchos más del PT (intelectual do PT) no percibieron todavía. Y es por eso que sigue trabajando con las coordenadas anteriores, una izquierda que gobernó para los intereses del capital durante más de una década. No quiero decir que esta izquierda no tiene experiencias en procesos de construcción y de elaboración de los cuales debemos aprender.

Tiene y de su elaboración tenemos que aprender, no solo de sus errores y  no apenas de sus errores y sus fallos, sino también de sus aciertos. Hay importantes parcelas que militan todavía en el PT (militantes cuadros y dirigentes), que quieren ser parte de una izquierda autentica y el proyecto de empujar esta recomposición debe contar con ellos. La cuestión es por donde pasa esa recomposición, en que procesos se apoya cuál es su estrategia y que programa defiende.

La  ideología del progreso en el capitalismo se está desmoronando

Una de las premisas más falsas de aquellos que defienden que los gobiernos del PT fueron progresivos es la de que 40 millones de personas salieron de la pobreza y se incorporaron en la clase media. Si eso de hecho hubiera ocurrido el apoyo popular a los gobiernos del PT estaría todavía muy fuerte a pesar de la crisis actual y tapado toda la corrupción. Pero considerar que la renta familiar de 1600 reales hasta 3000 reales  puede ser considerada renta de familias que se incorporan à la clase media es algo que bordea el cinismo. Boaventura infelizmente es uno de los que sustenta que los recursos estatales distribuídos en la forma de política compensatórias, como la  Bolsa Família, “hizo que camadas pasasem de la pobreza para a clase média de una forma sin precedentes” (JC 25.01.2016). Si hubiera dicho que millones salieron de la miséria para a pobreza tal afirmación seria respetada, más a falta de proporción es enorme.

Ahora mismo, Brasil está retrocediendo con las conquistas sociales alcanzadas. Es la confirmación de la tesis de Leon Trotsky de que el capitalismo da con una mano y lo quita con la otra. Después de afirmar que el Estado tenía la posibilidad de que los ricos pagasen más impuestos, Boaventura, esta vez correctamente, definió que ello no ocurrió porque los “gobiernos no colocaron en la pauta este ideal y aceptaron la ideología de las agencias de crédito y del Fondo Monetario Internacional”.

Dan con una mano y lo quitan con la otra

El hecho es que las ideologías burguesas y reformistas fueron golpeadas con la eclosión de la crisis económica, la mayor de la historia del país. La demagogia del ex-presidente Lula, diciendo que la crisis mundial del capitalismo iniciada en el final del 2007 llegaría, al Brasil, apenas como una pequeña marea, se desmoronó. Y con ella la ideología defendida por los sectores burgueses, líderes del PT y hasta algunos dirigentes políticos a la izquierda del PT, de que los llamados países emergentes estaban despegados de la crisis económica mundial. Los efectos mayores no fueron inmediatos, pero su fuerza y su persistencia han pesado mucho.

El país entró en una inercia en el 2014 y tuvo una recisión en el 2015. Pero fue mucho más que todo ello: Brasil tuvo una depresión, con la caída del PIB de casi un4% y de una proyección de más de un 3% de caída en el 2016. No hay quien se arriesgue a decir cuando los investimentos capitalistas ganaran  aliento, ni cuándo el PIB volverá a crecer, porque para el año 2017 también está indicado como un año en que la inercia será la marca. En el año 2015 la caída llegó al 8% de la producción industrial, superando el peor resultado, del año 2009, cuando el retroceso fue del 7,1% ( según el periódico, Valor Económico, del día 12 de Enero). Y son las opciones económicas de los gobiernos petistas que van a promover un “proceso de desindustrialización”. Como también comentó Boaventura “todo fue canalizado hacia el agronegocio y la mineración, con unas consecuencias socialmente fuertes”.

La caída de la producción industrial en el 2015 ha sido generalizada. El sector utiliza apenas un 74,6% de su capacidad instalada y el sector de bienes del capital hizo un retroceso de un 25,1% del mes de Enero al mes de Noviembre, revelando la caída brusca de los investimentos. El rendimiento medio de un empleado de la industria cayó un 12,5% en el mes de Noviembre del 2015 en comparación con el mismo mes del año 2014. A la caída del poder adquisitivo se suma el desempleo, que en el mes de Marzo, amenaza llegar a 10 millones de trabajadores, además del descaso con los temas de la salud y de la educación públicas. Todo ello sumado llevó al desmoronamiento de la ideología de que el PT, asociado al capitalismo brasileño, podría llevar a una mejoría constante, aunque de un modo paulatino, del nivel de vida y de la cultura de los brasileños.

Tal situación provocó desilusiones en millares de activistas. Pero más grave es la decepción de millones de personas que creyeron en el PT. Tal desilusión  acarrea la construcción de un nuevo movimiento de izquierda, con unas dificultades nuevas, que no han sido vividas por la experiencia del propio PT. El desmoronamiento del PT fue como nuestra caída del muro de Berlín.

De esta forma, así como la caída del muro y el colapso del socialismo real provocaron una crisis en la consciencia de la izquierda y un escenario mundial sin proyectos alternativos de ningún tipo al dominio del capital durante las últimas dos décadas del siglo XX (el bolivarismo indicó una posibilidad nueva, a pesar de que estemos viendo en estos momentos  su agotamiento), con el colapso del PT es innegable que la izquierda brasileña atraviesa y atravesará dificultades y obstáculos.

Pero aquí hay dos ventajas. La primera es la existencia, previa al colapso del PT, del PSOL. La segunda, es todavía más importante, es que  Brasil no experimentó apenas estas desilusiones, si no también uno de los mayores levantamientos juveniles y populares de los últimos 50 años: el levantamiento de Junio del 2013. Este levantamiento fue la marca más importante de un final de un ciclo abierto con la fundación del PT y con la campaña de las Diretas ya. Es probablemente de la apertura de un nuevo ciclo de recomposición de la izquierda y de las fuerzas anticapitalistas.

Una alternativa de izquierda se forja siendo fiel a Junio del 2013

La eventual caída del gobierno federal parece ser el plano central de la mayoría de la clase dominante. En parte tanto el PSDB y en cuanto al PMDB planean controlar el poder y usarlo para esconder la Operación Lava Jato, contando, es evidente con la complicidad de los medios de comunicación corporativos. Es difícil saber si el juez Sergio Moro se resignará delante de esta política y, caso tiente mantener la fuerza y la eficacia de la Operación, se logrará romper el cerco de la alianza contra revolucionaria de la impunidad. De Cualquier forma, la crisis económica continuará y la exigencia burguesa de los planos de ajuste llevaran al choque del gobierno con el movimiento de masas, más pronto de que nunca. Los gobiernos estaduales de esta alianza, como el del gobernador, Geraldo Alckmin en SP, Beto Richa en el Paraná, Sartori en Rio Grande del Sur, y de tantos otros, ya sufrieron cuestionamientos en las calles. Algunos, como el del PSDB de Beto Richa, con investigaciones judiciales avanzadas en su rastro.

Para la izquierda socialista los desafíos serán enormes. Delante de la falencia del PT y del gobierno de Dilma, la tarea estratégica sigue siendo la construcción de un proyecto de izquierdas coherente y con influencia de masas. En este sentido es importante tener siempre a Junio del 2013 en el radar, en las coordenadas de la nueva configuración de la política que está latiendo. Y las disputas por los gobiernos municipales son instrumentos en esta dirección. Cuando Boaventura pregunta por las personas de Porto Alegre vale la pena recordar que aquí sucedieron los primeros palcos de los hechos de Junio. Y para aquellos que creen que la derecha está mucho más fuerte, que ganó las calles, debemos decir que además del hecho, la derecha creció en la estera de la traición de la dirección del PT, aunque hayan habido manifestaciones de millares en las calles en el 15 de Marzo del 2015, teniendo como principal referencia a Aécio Neves, del PSDB, el 2015 terminó con centenas de millares de jóvenes en SP tomando las escuelas y derrotando al gobierno del PSDB. Y jóvenes que estaban  contestando al capital, a los burócratas, siendo protagonistas de su destino. Es en este año de 2016, antes del 13 de Marzo en donde Aécio Neves y Alckmin fueron abucheados en su propio palanque, comenzó con las manifestaciones en contra del aumento de los billetes de autobuses de la red pública, nuevamente en SP. Estas manifestaciones fueron bloqueadas por una fuerte represión policial. Estas manifestaciones fueron realizadas por millares de nuevos posibles activistas.

Es posible o muy probable  que no tengamos en Brasil en este año un levantamiento que se parezca al que fue en Junio del 2013. Hasta un fuerte ascenso del movimiento de masas ha sido bloqueado por la desilusión, por la falta de perspectiva, y por el peso de las traiciones, pero se están acumulando las contradicciones. Lo que es más espectacular es que “todo lo que es sólido se deshace en el aire”.

Si podemos comparar a Junio del 2013 con las manifestaciones de los domingos hinchadas de futbol por la derecha desde el 15/03/2015, afirmamos que para más allá del simulacro, existe un dato de buenas noticias para las fuerzas del cambio y en contra de la orden: la juventud, principal sujeto social de las jornadas de Junio, fue la grande ausente de las manifestaciones que la derecha tiene patrocinado.

Este proceso de ruptura generacional es profundo y tendrá consecuencias inevitables. La nueva pauta de la lucha por los derechos, contaminó las calles con la primavera feminista; existe un nuevo activismo de la lucha por los derechos de los homosexuales, las lesbianas de la LGBT y del movimiento negro, de las luchas antiproibicionistas, de luchas por los derechos urbanos; la victoria de los estudiantes de la secundaria en São Paulo,  las ocupaciones de las escuelas tuvo un impacto fundamental pues cuestionó no apenas al gobierno del PSDB, como a toda la estructura de poder dentro de la escuela, derrumbando algunas direcciones de escuela, dejando marcas en cerca de 200 escuelas ocupadas, desde las más tradicionales y centrales, hasta las escuelas de la periferia, en donde toda la comunidad escolar se movilizó para apoyar a la lucha de los secundarios.

El movimiento de masas rompió la pasividad de años anteriores. Así, aunque las ideas de derecha se han fortalecido en una parte de las masas y con posiciones de extrema derecha como Bolsonaro, diputado por Rio de Janeiro y estemos sufriendo una contrarrevolución económica permanente que alcanza sobre todo al movimiento obrero y dificulta la organización y la construcción de una propuesta alternativa y anticapitalista, no hay una perspectiva de retroceso de las luchas sociales ni de un bloqueo intransponíble para las fuerzas de la izquierda.

Bien lejos está. Las fuerzas burguesas siguen dominando al país, por obviedad, y por su ideología que es ampliamente dominante. Se añade a este hecho de que la traición del PT provocó desencanto, desilusión y escepticismo. Si todavía llevamos en cuenta que no rompimos el período de ausencia de alternativas, de una crisis ideológica provocada por el estalinismo, seremos conscientes de las dificultades. Pero también no se puede perder de vista los espacios vacios. Y la situación actual del PT abre un espacio a ser escrito por una izquierda de verdad.

Aprender con los errores del PT

Es evidente que, no tendremos una construcción fácil. Pero tenemos una lucha que está en curso. No estamos con la tierra destruida y tenemos una enorme responsabilidad. Si existe algo útil en esta crisis y en la bancarrota del PT es justamente el desmoronamiento de que podemos vivir de ilusiones. El PT pasó más de dos décadas llamando  a los trabajadores a votar al partido y a creer que con el PT gobernando la situación sería de progreso para todos. Esta ilusión se cayó. Y si hay algo verdadero en la política es que la única salida posible para que se construya una alternativa es que la movilización de las masas debe de ser permanente. En cuanto la movilización cesa, la política de emancipación  también cesa, se congela y retrocede. Y el PT reduzco su política al decir que el voto cambiaba la vida. Pasaron dos décadas desmovilizando con esta ideología.

El camino no es fácil. La desilusión causada por ese fin de un ciclo va a recaer, de alguna o de otra forma, sobre el conjunto de la representación de las ideas progresivas, sobre la disputa y el significado del propio termino “izquierda”. Así como la caída del muro de Berlín tuvo sus innegables contradicciones, abriendo todo un período de recomposición y de retroceso en la consciencia, en Brasil post PT tendremos una larga reconstrucción a ser hecha. Nuestra batalla contra el desencanto va a llevar tiempo. Ella es inevitable, pero antes que nada necesaria.

Por eso el PSOL tiene una responsabilidad. Al final, el PSOL tiene chances de tener un peso electoral. Ya tiene un peso electoral en capitales y en por lo menos en tres capitales disputamos con chances reales de victoria: Porto Alegre, Rio de Janeiro y Belém. Nuestro desafío es hacer no apenas una campaña electoral, si no crear un movimiento político y llamar al pueblo a confiar en sí mismo, en su fuerza de su lucha y organización.

Está claro que la elección es importante. Seriamos ridículos si no viéramos esto. Podemos dar saltos de construir en las elecciones. La burguesía también sabe de ello y es por eso que aprobaron la ley de la mordaza, que recorta espacios de propaganda del PSOL para hacer el debate público electoral. Pero la política no se resume a las elecciones y en este punto tenemos que usar la ley de la mordaza como más una prueba de que esta democracia no es verdadera, no es real, y que el Estado, siempre que esté amenazado, por menor que sea esta amenaza, usa la fuerza de la represión contra el pueblo. Los jóvenes de SP viraron esto en Enero. Si conseguimos pasar estas ideas estaremos dando un gran paso.

Será apenas el comienzo. Un comienzo que es también un recomienzo. Un recomienzo de una idea que no es nueva. Una idea comunista, de lucha por la propiedad común que afirma siempre sus necesidades. Una necesidad todavía más evidente cuando el capitalismo muestra su naturaleza de un régimen profundamente desigual, que concentra la riqueza y el poder y es productor de crisis que llevan cada vez a más personas a la miseria y al  desespero.

Estas ideas buscan su realización de formas variadas y han sido reforzadas por movimientos intermediarios que, todavía no siendo directamente colectivistas, son críticos al capital financiero, al dominio del capital financiero y a las guerras. Ejemplos como el de Syriza, que no tuvo la fuerza y la consistencia para ir hacia adelante, es sobre todo un proceso de construcción de alternativas, como Podemos en España, que está alterando la política de España y abriendo posibilidades desconocidas, del Bloque de la Izquierda en Portugal, etc, son indicaciones de que es posible ganar influencia entre las masas. Son procesos que nos inspiran, que muestran que no estamos solos.