Partido ou Fração/Seita

John Ross

Revista Perspectiva Internacional – Ano I, número 1 – Março/ Abril – 1982 (artigo originalmente publicado na revista IV Internacional nº 1 – Jul-Ago-Set/ 1980)

A existência de diversas organizações revolucionárias desorienta incontestavelmente numerosos militantes, sobretudo quando algumas dentre elas se reivindicam de Leon Trotsky, e do Programa de Transição da IV Internacional afirmando seu desejo de “reconstruir” ou de “reorganizar” a IV Internacional.

A estrada para unificar todos estes grupos na IV Internacional está coberta de obstáculos, onde um dos principais é a confusão introduzida por organizações sectárias como a dirigida por Gerry Healy na Grã-Bretanha ou pela OCI na França, que apagam todas as distinções que Lênin e Trotsky haviam claramente introduzido entre partidos, frações e tendências. Estabeleceram assim uma verdadeira tradição de cisões irresponsáveis sobre a base do sectarismo politico organizacional ou de simples divergências conjunturais ou táticas. Justificam esta prática se referindo ao “bolchevismo”. Estas referências são sem nenhum fundamento. Tanto em teoria como na prática, Lênin e Trotsky se comportaram de maneira diametralmente oposta.

Outros grupos que ainda se encontram fora da IV Internacional e que rejeitam as práticas extremas de violência física, de exclusões arbitrárias, de caracterização de outras tendências revolucionárias como “cúmplices” da GPU (ou do FBI) ou “cripto-stalinistas”, ainda não romperam com as raízes teóricas destas aberrações de Healy-Just. Eles repetem notadamente sua confusão grosseira entre os métodos de construção de um partido revolucionário, e os métodos de construção de uma fração ou de uma tendência se reivindicando, a cada vez, do exemplo de Lênin, a despeito de todas as provas históricas.

O precedente dos Bolcheviques

Assim, no órgão de um desses grupos britânicos, “Socialist Press” (nº de 14 de Janeiro de 1976), nós lemos:

“Se bem que o Partido Bolchevique só tenha surgido no momento da cisão de 1903 no seio da Social-Democracia, as bases sobre as quais ele foi construído já haviam sido erigidas no curso dos anos precedentes”.

Ao nível dos fatos, esta afirmação não tem nenhum sentido. 0 partido bolchevique não foi criado em 1903. 0 que foi criado foi fração bolchevique do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR).

Por outro lado, não somente o partido bolchevique não foi formado neste momento, como Lênin era categoricamente contra toda cisão do POSDR em dois partidos. Todo o seu combate apás 1903 consiste em uma luta de fração política e ideológica contra os mencheviques de um lado, e simultaneamente numa luta por um só partido, indo contra o que chamava de ações anarquistas dos mencheviques que ameaçavam o partido de uma cisão. Com efeito, longe de tomar a iniciativa de uma cisão, Lênin explicava claramente o que foram as ações dos mencheviques, que decidiram correr o risco de cindir o partido:

“A recusa de Martov em participar do Comitê de Redação (do ISKRA), sua negativa e a de outros escritores do Partido em colaborar, a recusa de um certo número de pessoas em trabalhar no Comitê Central, e a propaganda para um boicote ou resistência passiva, levaram inevitavelmente o partido a uma cisão mesmo não sendo este o desejo de Martov e seus amigos”. (1)

Lênin se declara em completa oposição à toda cisão do partido. Ele prossegue então sua campanha para um novo Congresso do partido incluindo bolcheviques e mencheviques, em uma direção bem clara:

“É necessário encontrar o quadro em que a luta ideológica possa se desenvolver em condições mais ou menos normais; é necessário um novo Congresso. Pensar que um Congresso só poderá desembocar em uma cisão e admitir que não temos partido algum, que o espírito de partido está tão mediocremente desenvolvido em nossas fileiras que só pode ser produto do espírito de círculo… seguramente não temos nenhuma garantia, mas devemos tentar regulamentar o conflito nos comportando como um partido, e encontrar uma solução. A maioria não quer, em nenhum caso, uma cisão”.

A confusão entre partido e fração aparece de novo no mesmo artigo do “Socialist Press”, quando se afirma:

“Se bem que o II Congresso da Social-Democracia russa teve como saldo uma cisão, sendo suas forças reduzidas à metade, foi graças à luta fracional levada por Lênin que a independência política e organizacional do partido foi defendida contra os mencheviques”.(2)

Trata-se aqui da confusão mais completa. É correto afirmar que Lênin levou uma batalha de fração. Mas uma fração não é um partido. Uma fração é uma formação no seio de um partido. Segundo a afirmação de Lênin:

“Uma fração é uma organização no interior de um partido, unida não por seu laço de intervenção, nem por sua língua ou qualquer outra condição objetiva, mas por uma visão particular das questões do partido”.(3)

Com efeito, mesmo os termos – fração bolchevique e fração menchevique evidenciam que se tratava de membros de um mesmo partido. Assim, é ridículo dizer que o Partido havia perdido metade de suas forças: o que se passava é que a luta fracional entre mencheviques e bolcheviques revelava serem os primeiros sustentados por metade do partido e os últimos pela outra metade, no bojo do desenvolvimento dessa luta interna. Através de sua formulação, o artigo do “Socialist Press” silencia completamente sobre os diferentes aspectos dialeticamente ligados, da luta de Lênin neste período. Contra todos aqueles que queriam uma conciliação política e ideológica, Lênin era por uma batalha fracional. Ao mesmo tempo, contra todos que trabalhavam rumo a uma cisão, ele se batia pela unidade do Partido.

Tudo isso se torna mais evidente quando nos debruçamos sobre a primeira verdadeira cisão em dois partidos e não em duas frações, a de janeiro de 1912, no VI Congresso do POSDR. Não somente a dita cisão teve lugar nove anos depois da data indicada no “Socialist Press”, mas é importante notar que mesmo nesta época, Lênin não chamava a uma cisão política com os mencheviques e a uma divisão segundo as linhas menchevique e bolchevique, mas, ao contrário, a uma cisão sobre bases organizativas. É por isso que todas as frações foram convidadas para o Congresso. Como Lênin ressaltou:

“A Comissão de Organização russa que convocou a presente conferência, informou todos os social-democratas de sua convocação, e convidou, sem nenhuma exceção, todas as organizações de nosso partido para a Conferência. Em outras palavras: a possibilidade de participar da Conferência foi dada a todas as organizações”. (4)

A divisão em dois partidos diferentes, seguida da expulsão de diversos elementos, não foi causada pelas idéias políticas dos mencheviques, mas pela rejeição e violação dos princípios organizacionais do Partido: execução de atos incompatíveis com a filiação ao partido, por estes elementos particulares. A resolução da Conferência afirmava claramente:

“Os ex-membros do Comitê Central, Mikhail, Yuri e Roman, não somente recusaram-se a participar do organismo na primavera de 1910, mas também negaram-se a assistir reuniões para cooptar novos membros, declarando imediatamente que consideravam a própria existência do Comitê Central como ‘prejudicial’. Foi precisamente após a reunião plenária de 1910 que as publicações dos liquidadores acima mencionados, Nasha Zarya e Dielo Zhizni passaram em toda linha para as fileiras do liquidacionismo, definitivamente. Não somente ‘diminuíram (contrariando à decisão do plenário) a importância do partido ilegal’ mas também o renegaram dizendo que o Partido estava morto, que o Partido estava liquidado que a idéia de ressuscitar o Partido ilegal era uma ‘utopia reacionária’, utilizando as colunas das revistas publicadas legalmente para encher de calúnias e injúrias 0 Partido ilegal, chamando assim os trabalhadores a considerarem o núcleo do Partido e sua hierarquia como mortos, etc”.

“No momento em que por toda a Rússia os membros do Partido se uniam, além das frações, para bem encaminhar a tarefa imediata de convocação da Conferência, os liquidadores se ajuntavam em pequenos grupos totalmente independentes, separavam-se das organizações locais mesmo onde os mencheviques pró-partido eram majoritários (em Ekaterinolsvla ou Kiev) e recusavam toda e qualquer relação com as organizações locais do POSDR. A Conferência declarou que, por sua conduta, o grupo Nasha Zarya e Dielo se colocava definitivamente fora do Partido”. (5)

É evidente que se esta cisão não se baseava em incompatibilidade do menchevismo com o Partido, mas na recusa de certos elementos em se submeter à disciplina do mesmo, os mencheviques que aceitaram esta disciplina (os mencheviques “pró-partido”) permaneceram como membros de pleno direito do Partido. Este fato é reconhecido nos artigos ulteriores do “Socialist Press”. Entretanto, seu significado não foi compreendido.

Não se trata de nenhuma maneira de uma manobra astuta imaginada par Lênin para dar uma justificativa organizacional a uma cisão política – o que naturalmente considera Healy, que vê Lênin como um vulgar prático da Realpolitik em seu estado puro. Ao contrário, Lênin explica claramente sua posição (não somente ao nível da Rússia, mas também ao nível internacional) sobre a razão pela qual deviam os mencheviques, naquela época, permanecer dentro do Partido. Quando se lhe perguntava porquê o liquidacionismo, como o bernsteinismo, não poderia ser combatido no seio do Partido, ele respondia não invocando a incompatibilidade política, mas de princípio organizativo. Os bernsteinianos russos se recusavam a aceitar a disciplina do Partido.

“Não há muitos elementos dentre os aderentes ao POSDR que sejam capazes de defender a corrente liquidacionista. Infelizmente ainda há um certo número de elementos que se opõem sinceramente ao liquidacionismo. mas que não compreendem em que condições é necessário travar a luta contra este. Certamente, dizem eles, o liquidacionismo é uma corrente burguesa no seio do movimento Social-Democrata, mas por quê não combatê-lo nas fileiras de um mesmo partido, como fazem os alemães com o bernsteinismo?” (6)

Para a escola de Healy, isto está fora de questão. Os bernsteinianos deveriam ter sido todos excluídos nesta época, em função de suas opiniões políticas. Já Lênin via as coisas de maneira totalmente diferente:

“Aqueles dentre nós que defendem ferrenhamente um “entendimento”, não compreenderam uma coisa muito simples, mas muito importante: os liquidacionistas não são apenas oportunistas (como Bernstein e Cia): eles ensaiam também construir seu próprio partido à parte; eles proclamaram que POSDR não existe; não levam em conta, em absoluto, as decisões do Partido. Eis a diferença entre nós e a “Europa”. Na Europa não se toleraria nas fileiras de um partido por mais de um mês um oportunista culpado de um décimo do que fizeram e continuam a fazer os Perterson, Igorev, Beer, Martov, Dan e semelhantes, contra o Partido e suas decisões.” (7)

No mais, no decorrer do período prece¬dente, quando os mencheviques tinham real¬mente uma atitude correta no plano organizativo e uma maioria estatutariamente constituída, Lênin esteve bem longe de preconizar uma cisão. Ao contrário, ele mesmo concitou a fração bolchevique a aceitar a disciplina do Partido sobre pontos tão cruciais como o voto em candidatos burgueses. Assim escrevia:

“Uma vez que as estruturas competentes decidiram, então nós devemos, enquanto membros do Partido, todos juntos agir como um só homem. Em Odessa, um bolchevique deverá assinalar sobre a sua cédula eleitoral o nome de um Cadete, mesmo se isso o deixar doente”. (8)

Foi somente quando os mencheviques se puseram a violar a disciplina do Partido, boicotando de maneira anarquista as estruturas do mesmo, tentando pela votação no Comitê Central anular as decisões do Congresso, rejeitando a autoridade do corpo dirigente, que Lênin se rebelou.

Bem entendido, tudo isto não significa que Lênin tenha sido, de maneira alguma, culpado de ecletismo em matéria organizativa. Ao contrário, como veremos, Lênin soube em 1914 encaminhar bastante bem uma cisão definitiva, irremediável e sem perdas, sobre bases estritamente políticas, e não organizativas. Mas o que a experiência anterior a 1914 demonstra é que Lênin (como mais tarde Trotsky) sabia distinguir muito bem uma fração de um partido.

Infelizmente, certos camaradas sectários ainda não fizeram uma análise séria sobre a história do bolchevismo. Eles não chegam a explicar porquê em 1903 foi formada uma fração; porquê em 1912 os mencheviques foram excluídos por razões organizativas e não políticas, e porquê Lênin só considerou a cisão política em 1914.

Se considerarmos a história das posições organizativas de Lênin antes de 1914, veremos que em nenhum dos casos principais de cisão que teve de encarar ele foi favorável a uma ruptura sobre bases políticas. Em 1903 ele levou uma luta de fração contra os mencheviques, opondo-se, no entanto, a toda cisão. Em 1912 ele sustentou a exclusão dos mencheviques somente por terem estes últimos se recusado a se submeter à disciplina do Partido. Naquele momento Lênin admitia inteiramente a defesa das posições políticas dos mencheviques nas fileiras do Partido, sob a condição de estes aceitarem sua disciplina e seu funciona¬mento – exatamente o que fez a fração menchevique “pró-partido”.

Tudo isso não deve levar à conclusão que Lênin, sobre as questões organizativas e a luta política era “mole”, ou sem princípios. Isso apenas quer dizer que ele considerava serem as divergências naquela época, resolvíveis, no interior do partido- objeto de uma luta fracional, e não de uma cisão.

Ao passarmos a 1914 veremos que Lênin exigiu uma cisão absoluta em dois partidos separados. Aquilo que antes eram desvios no interior do Partido – 0 menchevismo, o bernsteinismo – revelaram-se agora, frente a acontecimentos decisivos da luta de classes, posições totalmente estranhas à classe operária e a seu Partido.

A reação de Lênin foi imediata. Sua primeiríssima declaração sobre a guerra foi:

“A traição do socialismo pela maior parte dos dirigentes da II Internacional (1889-1914) marca a falência política e ideológica da Internacional… A tarefa da futura Internacional deve ser de se desembaraçar resoluta e irrevogavelmente desta corrente burguesa dentro do socialismo”. (9)

Ele declarava que o menchevismo internacional havia passado definitivamente para o campo histórico da burguesia, e que seus partidos, se bem que compostos por trabalhadores, eram agora politicamente partidos burgueses – sendo esta posição de Lênin sempre conservada pelos comunistas. Acrescentava Lênin:

“O desmoronamento da Internacional, que agora é a presa da burguesia… Abaixo o oportunismo e viva a III Internacional!” (10)

Lênin, em toda uma série de artigos escritos entre 1914 e 1917, descreveu o longo desenvolvimento quantitativo do oportunismo. Não obstante, ele foi absolutamente preciso sobre o momento que marcou a alteração qualitativa:

“Tendo que amadurecer durante dezenas de anos em condições de capitalismo “pacífico”, o oportunismo estava tão maduro no fim dos anos 1914 e 1915 que se revela ser um aliado aberto da burguesia (sublinhado pelo articulista)”.

“É certamente essa virada precisa, a transformação da quantidade em qualidade, que implica na mudança de uma situação de luta fracional no seio de um partido para uma situação onde uma cisão e a criação de um novo partido eram inevitáveis”. (11)

Como é dito em uma resolução do primeiro Congresso da Internacional Comunista sobre a Segunda Internacional:

“Desde o primeiro tiro de canhão sobre os campos da carnificina imperialista, os principais partidos da II Internacional traíram a c1asse operária e passaram, sobre a cobertura da ‘defesa nacional’, cada um para o lado de sua burguesia… Foi neste momento que a II Internacional faliu e, definitivamente, pereceu.” (12)

Não obstante, é importante notar o método que Lênin utilizava, em oposição à escola de falsificação de Healy. Antes de 1914 ele não conclamava a uma cisão com os mencheviques sobre bases políticas, apesar do chamado dos últimos para votar nos Cadetes, sua revisão do marxismo, etc.; também não chama a uma cisão dentro da II Internacional contra Benstein e Cia. Lênin só chamou a ruptura quando foi demonstrado de maneira conclusiva, no decorrer do mais grave acontecimento da luta de classes, que o menchevismo se havia colocado pela ação prática, no campo da contra-revolução .

Então, bem entendido, Lênin tira daí todas as suas conclusões. A cisão era irreversível. As idéias que se haviam anteriormente considera¬do como posições contra as quais se devia polemizar no seio do Partido, através de uma luta fracional, eram agora idéias que deveriam ser excluídas do Partido.

Mas, pela escola Healy-Just, tudo isso não é provavelmente nada mais que “empirismo”. Imaginem só, rachar apenas quando as ações provaram a traição hist6rica mundial! Não resta dúvida de que Healy-Just teriam rachado desde há muito tempo, sobre a questão de “método”, e teriam também, bem entendido, excluído este Lênin centrista, hesitante, e conciliador.

A experiência da oposição de esquerda

Se por acaso a lembrança da luta de Lênin não fosse o suficiente para ilustrar esta diferença de princípio entre partido e fração, poderíamos nos referir a uma segunda experiência importante: a luta de Trotsky no seio da Internacional Comunista e sua posterior ruptura com a mesma.

Percebe-se que a propósito deste assunto Trotsky seguiu um método e um curso idênticos aos de Lênin. Trotsky recusava-se a romper com a Internacional Comunista simplesmente porque o revisionismo teórico lá se desenvolvia (a teoria do socialismo em um só país, o ‘terceiro período’, a teoria do ‘social–fascismo’, etc…). Ele se recusava a romper mesmo frente a erros tão gigantescos como os cometidos na Alemanha em 1923, na Grã–Bretanha em 1926 e na China em 1927. Trotsky respondia a cada um destes acontecimentos construindo e consolidando uma fração. Mas ele rejeita uma ruptura com o Partido até que o Comintern tivesse mostrado que tinha passado para o lado da contra-revolução, através do acontecimento mais decisivo da luta de classes que se pode imaginar: a ascensão de Hitler ao poder, sem combate graças à traição stalinista de 1933.

O healynismo vê nisso tudo apenas uma manobra de Trotsky. Ele teria retardado a ruptura apenas porque o Comintern era uma grande organização, e a melhor maneira de recrutar membros teria sido permanecendo como membro desta organização. Trotsky, vulgar manobrista e praticante da Realpolitik: eis a verdadeira revisão healynista de Trotsky. Eles o reduzem à sua pequena, miserável estatura.

Enquanto isso, Trotsky explicava de maneira muito diferente e muito clara a sua posição sobre o assunto:

“O grau de degeneração de um partido revolucionário não pode, regra geral, ser estabelecido a priori, somente sobre os seus sintomas. A verificação viva dos acontecimentos é indispensável. Teoricamente, nada ainda permitia no ano passado (1932) excluir a possibilidade de os bolcheviques-leninistas, baseando-se na exacerbação da luta de classes, poderem chegar a forçar o Comintern a tomar o caminho de uma verdadeira luta contra o fascismo”. (13)

E mais: sempre na mesma linha, ele distinguia c1aramente, no período anterior a 1933, entre a política e a direção dos Partidos Comunistas, que ele caracterizava como centristas, por um lado, e o caráter de classe destes partidos, que continuavam proletários, por outro lado.

“O Partido Comunista é um partido antiburguês, proletário mesmo sendo mal dirigido. A Social-Democracia, apesar de inteiramente composta por trabalhadores, é um partido inteiramente burguês”. (14)

A questão de construir uma fração e não um partido não decorria de uma manobra, mas da análise real de princípio.

“A palavra de ordem de reforma do Comintern nunca foi para nós uma frase vazia. Nós contávamos com a reforma como uma realidade. O desenvolvimento seguiu o pior curso. É precisamente por isso que somos forçados a declarar que a política de reforma foi consumada até o último limite.” (15)

Certamente, quando foi consumada, ele se bateu até o fim pela questão. Em 1924, a defesa do “socialismo em um só país” era uma corrente no seio do Partido. Em 1934, em função de um dos maiores acontecimentos da História, Trotsky se encontra fora do Partido.

Finalmente, só para completar o quadro, é possível refutar a opinião de Deutscher sobre a questão, quando afirmava que em 1933 Trotsky se deixou levar e tomou a decisão injustificada de romper com o Comintern. Ao contrário, Trotsky havia, já antes, sublinhado bem que a questão da Alemanha – o mais importante movimento operário do mundo, com o maior Partido Comunista fora da URSS – era precisamente um teste de caráter qualitativo, semelhante àquele de 1914. Assim escrevia Trotsky em novembro de 1931:

“Estamos muito perto de um desses momentos decisivos da História. 0 Comintern, após uma série de erros importantes nas ‘parciais que provaram e solaparam as forças acumuladas nos primeiros cinco anos, corre o risco de cometer o erro fatal, capital, que poderá esfacelá-lo como fator revolucionário sobre o cenário político por toda uma época histórica”. (16)

A consequência era clara:

“A tomada do poder pelos fascistas significaria provavelmente a necessidade de criação de um novo partido revolucionário e certamente também de uma nova Internacional.” (17)

Trotsky também realçava:

“Conduzindo a política de uma fração e educando seus quadros na base desta experiência, a Oposição de Esquerda não escondia nem a ela mesma nem aos outros que uma nova derrota do proletariado resultante do centrismo teria, naquele momento, um caráter decisivo e exigiria uma rigorosa revisão em nossa posição sobre a questão de fração ou partido.” (l8)

O exemplo de luta fracional de 1939-1940 no seio do SWP

Como último teste sobre o método utilizado por Trotsky, consideremos a última grande luta política de sua vida, contra a oposição Burnham-Schachtman-Abern no SWP. Era uma tendência onde os membros dirigentes seguiam abertamente as revisões do marxismo. rejeitando o materialismo dialético e caracterizando a União Soviética como “coletivismo burocrático”. Trotsky considerava esta oposição como de caráter pequeno-burguês em seu conjunto.

Segundo o método sectário, não resta nenhuma dúvida sobre que atitude tomar a respeito de uma tendência deste gênero: cindir! Na introdução à edição healynista de “Defense du marxisme”: Cliff Slaugter afirma:

“Cannon e a maioria da direção do SWP se bateram firmemente para defender e construir o Partido e, em eliminar a oposição, uma vez provado que ela resistia obstinadamente a toda tentativa de atração rumo às posições revolucionárias”.

Ainda uma vez o healynismo decide “aprofundar” o pensamento de Trotsky! Eis o que Trotsky, em oposição a Slaughter, tinha a dizer sobre a questão:

“Caro amigo (John G. Wright, dirigente do SWP). eu subscrevo inteiramente a sua opinião sabre a necessidade de um combate político e teórico firme, e mesmo implacável, contra as tendências pequeno-burguesas da oposição. Você observa que em meus últimos artigos caracterizo as divergências da oposição de maneira ainda mais categórica do que a maioria.

Mas ao mesmo tempo creio que este combate ideológico implacável deve ser acompanhado de uma tática organizativa muito prudente e muito sábia. Vocês não têm o mínimo interesse em uma cisão, mesmo se a oposição por acaso viesse a ser majoritária no próximo congresso… Mesmo se estivessem vocês eventualmente minoritários deveriam, no meu entender, continuar disciplinados e leais para com o partido em seu conjunto”. (19)

Mais tarde ele acrescentava:

“Se alguém propusesse, por exemplo, a exclusão do camarada Burnham, eu me oporia energicamente. Mas ao mesmo tempo penso ser necessário engajarmo-nos na mais ardorosa batalha ideológica contra estas posições anti-marxistas.” (20)

Trotsky ia, inclusive, mais longe:

“Ouvi dizer que em uma reunião o camarada Gould (que apoia Abern) exclamou: ‘Vocês querem nos excluir’ … Se alguém da maioria chega a fazer tais ameaças, de minha parte eu votaria por uma censura ou por uma advertência severa.” (21)

No geral., Trotsky e Cannon estavam longe de expulsar a tendência pequeno-burguesa do partido e favorecer uma cisão política. Trotsky estava pronto a sustentar medidas disciplinares contra quem quer que defendesse este ponto de vista! Eis a extensão do abismo que separa Healy do trotskysmo e do leninismo.

Esse combate ilustra maravilhosamente a tradição legada por Lênin em matéria de luta fracional: luta fracional política e ideológica implacáveis, simultânea e dialeticamente ligadas a uma luta sem misericórdia pela unidade do Partido. O healynismo que rejeita abertamente estas lições, está em total ruptura com Lênin e Trotsky sobre a questão da distinção entre um partido e uma fração.

Enfim, a experiência de 1940 deveria por um termo à afirmação ridícula segundo a qual Trotsky teria, no período precedente, recusado uma ruptura com o Comintern pela simples razão de ser então o último, uma “grande organização”. Em 1940, o SWP contava com mil membros. A luta levada por Trotsky contra a cisão não era uma questão de número, mas de princípio. Trotsky, assim como l.ênin, só considerava a ruptura sobre a base de uma traição histórica à classe operária e da defesa de opiniões que se verifique, face a acontecimentos tão gigantescos, representar o campo da contra-revolução. Mas ele recusava a cisão em 1940, como em 1923 ou 1927, frente a divergências de menor amplitude. Sua distinção entre partido e fração não era formal mas sim, na tradição de Lênin, uma linha histórica de classe.

Apos 1917, Lênin e Trotsky explicaram a necessidade absoluta de se bater sem remissão, politica e ideologicamente contra toda forma de oportunismo e conciliação, contra todas as posições errôneas dentro do Partido. As cisões políticas só são justificáveis quando há a passagem para o outro lado da barreira de classes no curso de acontecimentos da luta de classes, compreensíveis para as grandes massas.

A cisão de 1953

Se em função deste princípio considerarmos a IV Internacional e sua cisão de 1953, então a questão organizativa principal que deveremos responder é a seguinte: tratava-se de uma cisão em dois partidos mundiais diferentes, em duas internacionais? Ou tratava-se de uma cisão em duas frações no interior da mesma internacional?

As implicações de tais questões e a base sobre a qual resolvê-las são claras. Justificar uma cisão em dois partidos mundiais sobre uma base leninista não significa somente que houve o desenvolvimento de teorias e tomadas de posição errôneas, mas que estas resultaram em traições históricas qualitativamente similares à de agosto de 1914 quando eclodiu a guerra imperialista – ou àquela que levou, em janeiro de 1933, à capitulação sem combate frente a Hitler.

Se uma tal mudança decisiva teve lugar – a passagem de uma das frações para o campo da contra-revolução, sua evolução futura estava evidente. Como as traições dos social-democratas após 1914 e dos stalinistas após 1933 se agravaram progressivamente, a degeneração desses novos traidores deveria se intensificar. Em tais circunstâncias era necessário seguir a marcha de Lênin em 1914 e de Trotsky em 1933: a ruptura definitiva e completa; a rejeição desdenhosa da “unidade” com os agentes de uma classe inimiga; toda “reunificação” inteiramente excluída. A única atitude correta para com os traidores é uma denúncia sem piedade das crescentes traições daqueles que se reclamavam falsamente do trotskysmo.

Esta foi, durante muito tempo, a opinião dos partidários de Lambert. Assim escreviam os militantes ingleses do CORQUI:

“O pablismo destruiu a IV Internacional como Partido Mundial, por uma adaptação ao stalinismo em 1953, quando Pablo e os seus sustentaram o Kremlin contra a insurreição dos trabalhadores alemães orientais.” (22)

A parte o fato de se tratar de uma vergonhosa mentira – ninguém na IV Internacional sustentou o Kremlin contra os trabalhadores alemães orientais – esta posição tem ao menos o mérito de ser coerente. Se, com efeito, não somente teorias revisionistas foram desenvolvidas, mas além disso resultaram na sustentação da contra-revolução no curso de um acontecimento tão decisivo como a primeira tentativa de revolução política contra a burocracia stalinista, então uma ruptura principista sobre uma base leninista era perfeitamente justificada. Era de se esperar que os “pablistas” consumassem esta cisão com traições ainda mais profundas – o que Just aliás sustentou por longo tempo.

No centro das posições de Healy, a mesma conclusão é desenvolvida: o apoio ao stalinismo na Alemanha Oriental em 1953 e na França durante a greve geral, no mesmo ano, constituiu-se a virada qualitativa à qual se seguiram, mais tarde, um agravamento das traições na Hungria em 1956, em Cuba em 1960, em 1964 no Ceilão, no que concerne ao Vietnã. Finalmente, como “revela” Healy na série de artigos “A IV Internacional e a segurança”, os revisionistas degeneraram até tornarem-se cúmplices e agentes do imperialismo, da GPU, da polícia, etc… – ou, mais precisamente, esta camada que havia sido composta todo o tempo por agentes da GPU, alcançou um lugar dominante e incontestável entre os “pablistas”.

Do outro lado, em 1953, havia aqueles que pensavam que a um certo momento o SWP americano havia sucumbido ao imperialismo ianque e tinha se tornado uma organização dominada pelo reformismo, pelo pacifismo, pela pressão da pequena- burguesia branca, etc.

Todas estas posições têm ao menos um mérito de serem coerentes. Mas contrariamente a estas posições, e apesar das inflamadas declarações que efetivamente foram feitas (não há como esconder que Cannon disse em 1953 que a ruptura com Pablo era mais decisiva que a com Burnham e Shachtman, ou que Pablo escreveu que “a fração de Cannon era um grupo condenado pela História”), as principais forças dos dois lados concluíram rapidamente que uma tal traição histórica mundial, que uma tal ruptura com o trotskysmo, com os interesses do proletariado, não havia acontecido.

No mais, apesar de seu blefe e de suas mentiras visando a desmentir essa evidência, Healy tem suficiente consciência deste fato. Com efeito, pode-se encontrar as provas conclusivas em documentos de sua própria organização. Assim, em janeiro de 1961, o Comitê Nacional do SLL (precursor do WRP) enviou uma carta ao Comitê Nacional do SWP declarando: “é tempo de nos reaproximarmos da época em que o revisionismo pablista era considerado uma tendência do trotskysmo”. Esta posição não tem nenhum sentido a menos que se considere que o revisionismo pablista, a linha do Secretariado Internacional da IV Internacional, era efetivamente uma tendência do trotskysmo até esta época.

De outro lado. como as ações são mais eloquentes que as palavras, considerem o que deveria ter sido o curso dos acontecimentos se traições históricas mundiais suficientes para justificar não somente a criação de uma nova fração mas também um novo partido tivessem ocorrido. Nestas circunstâncias, nenhum discurso sobre a “reunificação” teria sido possível. Jamais passaria pela cabeça de Lênin e Trotsky falar, ainda menos propor, uma “reunificação” com os social-democratas após 1914 ou com os stalinistas após 1933.

Não obstante, esta não foi a posição seguida por Healy. Quando a reunificação entre o Secretariado Internacional e o Comitê Internacional foi proposta em 1957, Healy não se opôs segundo a base de princípio correta que deveria proceder de sua análise do “revisionismo Pablista”. Ao contrário, ele concordou em formar comissões paritárias e sobre toda uma série de pontos que estariam fora de questão com uma aplicação principista de sua posição. Pior ainda, em 1960 Healy convidou Ernest Mandel para fazer uma exposição à escola de verão do SLL – o mesmo Mandel que, segundo a análise de Healy, era um traidor contra-revolucionário. Imaginem só Lênin convidando Kautsky em 1915 à uma escola bolchevique, ou Trotsky pedindo a Stalin para se dirigir à uma assembléia da IV Internacional!

Finalmente, esta seita acaba de dar recentemente, em seu estilo inimitável, uma nova prova de sua incoerência, provavelmente sem compreender as implicações do que fazia. Em julho de 1970, Healy contata a IV Internacional para engajar “discussões informais sobre a possibilidade de um debate comum centrado em torno das diferenças políticas mais marcantes; e orientado em direção a uma Conferência Internacional comum”. (23)

De novo, se se pensa que os “pablistas” são uma corrente exterior ao trotskysmo, que traiu a classe operária historicamente, então isso nada mais é do que uma capitulação indigna.

O problema para Healy é que se esta proposição é correta, então é necessário tirar as conclusões organizativas correspondentes. Se nenhuma traição histórica justifica a criação de novos partidos e de uma nova Internacional, a tarefa dos revolucionários é de reunificar suas forças. Senão, chega-se a tentar construir organizações a partir de diferentes táticas, de análises dos acontecimentos conjunturais, de teorias cuja natureza de classe não foi plenamente demonstrada à luz da luta de classes. Tudo isso pode servir para construir uma seita, mas absolutamente não um Partido Revolucionário. Estas práticas não tem nenhuma relação com as concepções de Lênin e Trotsky.

Por exemplo, consideremos a posição de Trotsky no período de 1923 a 1933, quer dizer, antes de que e1e tivesse tido a prova definitiva que a Internacional Comunista havia passado para o lado da contra-revolução. A Internacional Comunista era uma organização que em 1927 havia objetivamente traído a revolução chinesa. Durante toda uma parte deste período, Trotsky e seus partidários foram obrigados a comportar-se como uma fração pública da Internacional – não por escolha mas por sua exclusão.

Trotsky, contudo, não aceitava esta existência como fração pública. Ao contrário, ele pedia a readmissão de sua fração ao Partido. Ainda em dezembro de 1932, afirmava categoricamente:

“Toda a responsabilidade da cisão do Comunismo repousa sobre a burocracia stalinista. Os bolcheviques-leninistas estão, a todo momento, prontos para reunir-se às fileiras do Comintern. e a respeitar estritamente a disciplina na ação.” (24)

Por outro lado, o que exigia Trotsky não como dirigente do Partido, mas como dirigente da fração, para o fim da existência da Oposição enquanto fração pública – não era uma condição política (como o abandono pela I.C. da linha sobre a China ou da dita linha do terceiro período), mas uma condição organizativa: o direito de levar o ponto de vista da fração ao conjunto do Partido. Sobre esta questão Trotsky estava totalmente aberto para fazer compromissos sob a condição do estabelecimento do princípio:

“Não podemos nos recusar a criticar o centrismo (stalinista)… mas uma crítica mutua, que é, em si mesma inevitável e frutífera pode ter um caráter diferente segundo o grau de preparação consciente de cada uma das partes, e segundo o quadro organizativo dentro do qual e1a se dá. Sobre este terreno a oposição de esquerda está pronta a concluir, a todo momento, um acordo no qual ela só pede o restabelecimento do seu direito de militar nas mesmas fileiras”. (25)

Trotsky foi até o fim absolutamente firme na distinção entre um partido e uma fração, e sobre as conclusões decorrentes de cada uma dessas posições. Pelo contrário, uma vez que as condições que justificam um novo partido foram estabelecidas, então é necessário uma cisão categórica, completa e irreversível, rejeitando todo o discurso pérfido sobre uma “reunificação”, com os contra-revolucionários.

Mas o que não se pode fazer, no entanto, é ter ao mesmo tempo o pano e o dinheiro. Não se pode simultaneamente manter que existem “revisionistas pablistas” que traíram historicamente a classe operária, e que existe ao mesmo tempo um “movimento trotskysta mundial” ao qual todo mundo continua a pertencer. Qualquer que seja a dose de pseudo dialética que Healy coloca, estas duas idéias contraditórias nunca poderão se reconciliar.

Tendo tirado as lições históricas da luta de Lênin contra os revisionistas na II Internacional, e da luta de Trotsky contra o stalinismo, encontramos o que se sobressai nos dois casos: nem um nem outro lançaram um novo partido antes que, respectivamente, os social-democratas e os stalinistas tivessem definitivamente passado para o campo da contra-revolução – os primeiros sustentando a I Guerra Mundial imperialista, os últimos por sua capitulação em 1933, que permitiu a Hitler subir ao poder sem que um só tiro fosse dado.

Os amargos frutos do sectarismo fracional

Enquanto estas traições históricas de classe não tinham acontecido de fato, Lênin e Trotsky se bateram pela formação de frações no interior do mesmo partido para esclarecer e debater as divergências políticas.

No mesmo sentido, a cisão de 1953 da IV Internacional não foi uma cisão em dois partidos mundiais, mas em duas frações públicas. Posto que não tinha havido traição histórica dos interesses da classe operária foi possível considerar uma reunificação destas duas frações sobre bases de princípio em 1963 – reunificação compreendendo a maioria do Comitê Internacional e a maioria do Secretariado Internacional.

Gerry Healy e o dito CORQUI optaram por ficar fora da Internacional em 1963. Eles mantiveram e desenvolveram o mito de que “o revisionismo pablista” havia destruído a Internacional em 1953.

A total falta de compreensão da parte de Healy da diferença entre uma fração e um partido, revelada por sua atitude para com a cisão de 1953, contribuiu inevitavelmente para a desintegração interna dos restos de seu próprio Comitê Internacional.

O primeiro resultado da acusação de Healy de que os “pablistas” teriam atravessado o Rubicão da luta de classes em 1953, foi o emprego sistemático da mentira, de uma representação falsificada das posições de seus adversários. Porquê se os “pablistas” são responsáveis por traições de envergadura histórica, era evidentemente necessário demonstrá-lo e demonstrar que estas traições continuariam e piorariam inevitavelmente. Isso é algo diferente de afirmar que graves erros teóricos e políticos foram cometidos; que idéias revisionistas avançaram. Mesmo se é exato, isso não pode em todo caso justificar mais do que uma divisão em duas tendências ou frações, não uma cisão do Partido e da Internacional.

Na ausência de fatos para justificar sua posição, ele teve que recorrer à mentira sistemática. Ele mentiu dizendo que o Secretariado Internacional não teria apoiado a Revolução Húngara em 1956. Ele mentiu dizendo que Cuba não é um Estado Operário. Ele mentiu dizendo que o Secretariado Unificado não teria intervido ou mesmo criticado publicamente a linha da Seção Ceilandesa, antes que sua maioria se reunisse à uma coalizão governamental burguesa em 1964. Ele mentiu sobre a linha dos camaradas franceses a respeito da greve geral de 1968. Ele mente hoje sobre quase todas as questões da Revolução Mundial.

Para justificar a criação de um partido separado dos “pablistas”, quando de fato as condições para uma tal cisão definitiva não estavam dadas, o SLL/WRP foi obrigado a fazer de sua organização e de suas publicações um dos maiores reservatórios de mentiras e de má fé do movimento operário. A mentira e a falsificação não são um acaso, ou um excesso do healynismo, mas uma coisa que se tornou um elemento indispensável de sua linha política para poder manter sua separação da IV Internacional.

Mas a manutenção prolongada de uma tal campanha de mentiras engendra outros efeitos inevitáveis. Inicialmente, o perigo é que os próprios militantes se apercebam da realidade e que todas estas declarações não são mais do que mentiras. Também os militantes devem ser colocados sob estrita tutela. Daí então esta prática tão revoltante como retirar das mãos dos membros do WRP panfletos que acabavam de lhes serem distribuídos, como o hábito de só publicar documentos de uma das partes nas discussões e assim por diante – práticas emprestadas às tradições stalinistas.

É necessário preservar os militantes da revelação de tudo o que coloca em questão a “verdade” de Healy. As frentes únicas são rejeitadas não somente porquê o WRP tem posições políticas falsas, mas também porquê elas arriscam a conduzir à “contaminação”. O sectarismo se aprofunda. Finalmente, mesmo a violência física é utilizada para isolar a influência “estranha”.

Mas é impossível se obter um isolamento quimicamente puro. Toda questão inocente pode conduzir a uma resposta que desemboca em problemas mais vastos, e as franjas da realidade acabam por manifestar-se. O único meio de impedir isso, é uma supressão total da democracia interna. É para onde sempre pende infalivelmente uma organização sectária que erigiu em princípio o sectarismo organizativo.

Finalmente, quando se torna mais provável o perigo de que a verdade chegue a manifestar-se, é necessário inocular os membros do WRP contra os adversários de Healy difamando-os no plano pessoal da maneira mais baixa. Para defender sua posição, não era suficiente aos stalinistas demonstrar que Trotsky estava errado politicamente. Eles tiveram que fazê-lo um agente consciente da contra-revolução e do fascismo. Da mesma forma, para Healy, é necessário que os dirigentes do SWP e da IV Internacional não sejam apresentados somente como adversários políticos, mas também como verdadeiros cúmplices da GPU e do FBI, vulgares informantes ou espiões da polícia e assim por diante…

Se bem que os dirigentes do CORQUI não foram até o fim desta lógica infernal, foram obrigados a adotar formas iniciais do mesmo método. A mentira sistemática, a acusação a Varga ou Llora de serem agentes da CIA ou do fascismo, a afirmação que a candidatura de Krivine era uma “candidatura cripto-stalinista impulsionada pela burguesia”, o recurso, em certas ocasiões, da violência física, a supressão de toda democracia interna, estão nas mesmas linhas do método healynista. Eles são o produto inevitável da obstinação em querer construir uma fração/ seita confundida com a construção do Partido.

É bastante irônico constatar que o regime interno da organização de Healy parece efetivamente com o de uma fração. O que é absolutamente correto em um partido – o fato de aceitar uma pluralidade de opiniões políticas – é completamente inaceitável em uma fração – senão ela se tornaria um ajuntamento sem princípios. Se a organização é concebida não como um partido mas como uma fração, então é uma posição de princípio não tolerar opiniões divergentes. Uma coisa é a democracia interna do partido, outra coisa é o regime de uma fração que não é regida pelo centralismo democrático. Uma vez mais, vê-se que a consequência da confusão entre um partido e uma fração é a produção de uma seita com seu “regime” apropriado.

Para todos os trotskystas que se situam fora da IV Internacional, a tarefa que lhes toca é clara. É certo que lhes é necessário debater a cisão de 1953 – ao nível teórico e político. De nossa parte, não recusaremos, certamente. Não obstante, resta uma questão essencial e prévia que eles devem se colocar e de onde extrair todas as conclusões práticas.

No período que vai até 1953 e depois, o Secretariado Internacional e mais tarde o Secretariado Unificado da IV Internacional traíram a revolução mundial e o proletariado por atos comparáveis aos de 1914 e 1933? Se sim, então sua tarefa é clara. Continuem sua existência como organização separada e acabem, de uma vez por todas, com essas declarações sobre a existência de um “movimento trotskysta mundial”. Sua tarefa então consiste unicamente em denunciar aqueles que usurpam o nome do trotskysmo e tratar de destruir sua organização.

Caso contrário, é necessário tomar a via que seguiram as principais seções do trotskysmo mundial após 1953 e que conduziu à reunificação em 1963. Vocês têm o direito de pensar que imensos erros foram cometidos, e vocês podem pensar que estes erros continuam a ser cometidos hoje em dia. Mas, nesse caso, seu dever é de combater no seio da Internacional para corrigir estes erros. Se seu combate frusta-se e os erros do SU da IV Internacional culminam em uma traição de envergadura histórica, então é necessário romper. Evidentemente nós não compartilhamos de seu ponto de vista sobre nosso pretenso “revisionismo”. Mas se vocês concluem que não houve traição histórica justificando uma divisão em duas Internacionais, então sua tarefa enquanto revolucionários, é de seguir o caminho da unificação sem exclusões, e com respeito às regras de organização do Partido, que regem um só partido, uma só Internacional: o centralismo democrático, da minoria que aceita submeter-se na ação às decisões da maioria, conservando uma liberdade de discussão e de crítica sem limite sobre o plano literário.

A recusa em escolher claramente entre estas duas vias, a utilização simultânea da linguagem apropriada aos inimigos contra-revolucionários – com os quais se organiza a cisão à faca -, e da linguagem unitária à respeito dos revolucionários – com os quais procura-se construir um partido comum, não pode engendrar mais que uma impressão de hipocrisia e duplicidade que torna toda discussão construtiva difícil, senão impossível.

Em 1963, quando o Secretariado Internacional e o Comitê Internacional superaram a divisão em duas frações públicas se unindo no seio da IV Internacional constataram que as únicas forças que se opuseram à reunificação foram os posadistas na América Latina, os lambertistas na França, e o SLL na Grã-Bretanha. Eles formularam o voto de que estes grupos readeririam mais tarde à Internacional unificada sobre bases de principio.

Dezessete anos mais tarde, o balanço de onde conduziu a rejeição de métodos organizativos de princípio deveria estar claro. Não se trata do único elemento que explica a degenerescência de Healy em uma seita, mas é, em todo caso, o único elemento que impediu a superação da tendência à degeneração, no que concerne à Healy. Isso mostra qual o futuro dos que seguem esta lógica. O retorno do CORQUI a alguns desses métodos, os mais sectários, desde que pôs fim à sua marcha de reaproximação de princípio frente à. IV Internacional substituindo-a por tentativas de cindir a IV Internacional, mostra mais uma vez a lógica da fração/ seita em contradição a construção do partido.

As raízes históricas do partido, e as das frações/ seitas

O partido da vanguarda proletária é produto da luta de classes real, em um triplo sentido. Seu programa é a síntese dos ensinamentos de todas as lutas de c1asse. Seus quadros são militantes reconhecidos como dirigentes de lutas ao menos por um setor minoritário significativo da c1asse operária real (da c1asse de assalariados). Suas iniciativas políticas influenciam – mesmo que parcialmente – a marcha real da luta de classes.

Neste sentido, a IV Internacional (como o POSDR em 1903) não é mais do que um núcleo de participantes, ainda não é um partido no sentido real do termo.

Mas é justamente na fase de construção do partido que os riscos de confusão entre partido e fração/ seita são maiores, e de consequências mais pesadas, porquê sobre as organizações pequenas recaem com todo o peso os vícios da vida de círculos essencialmente propagandistas, com seus fenômenos concomitantes, como o que Lênin chamou, a justo título, de “histeria intelectual” – que tende a confundir divergências táticas ou conjunturais com divergências programáticas, erros de formulação e traições efetivas em lutas reais (quer dizer, atos que causam de fato derrotas desastrosas para a classe operária).

Quando um verdadeiro partido de vanguarda existe, as divergências não são menores do que quando existe somente um embrião de partido. Elas são múltiplas e inevitáveis. Só uma fração pode ser “monolítica” – e ainda assim, por pouco tempo. Mas os laços reais com a c1asse impõem aos militantes e aos quadros do partido uma disciplina proletária elementar que permite evitar as cisões irresponsáveis ou delimitar os efeitos a grupúsculos que se marginalizam eles mesmos do movimento real – contanto que o estrito respeito à democracia interna (direito de tendência e a não interdição de frações) crie condições indispensáveis para que cada divergência possa ser finalmente resolvida à luz da prática comum.

Na etapa do “embrião do partido” (ou nas fases de reação, quando um partido já existente se enfraqueceu consideravelmente), este saudável controle proletário, proveniente da luta de classes, se debilita – os riscos de cisões irresponsáveis se multiplicam.

Os efeitos nefastos destas cisões – da de 1953 como da de 1979 – são manifestos. Eles diminuem o ritmo de acumulação de quadros e de militantes, indispensável para que o “embrião de partido” possa servir de polo de atração confiável aos trabalhadores de vanguarda. Elas debilitam a capacidade de intervenção na c1asse. Retardando a possibilidade de resolver as divergências pela prova da prática, diminuem o ritmo do processo de clarificação política e de enriquecimento programático.

E sobretudo: elas se passam fora do desenvolvimento real da luta de classes e não tem portanto nenhum impacto sobre a elevação da consciência de c1asse proletária.

É particularmente necessário distinguir os métodos de organização e de comportamento de frações em um partido já largamente engajado na via da colaboração de classes reformista, e onde a democracia é severamente restringida, e aqueles que são aceitáveis em um partido revolucionário essencialmente saudável e democrático, mesmo se lhe são atribuídos graves erros políticos. Trotsky esforçou-se para fazer essa distinção, e para explicar que as frações permanentes são uma prática absolutamente anormal e inaceitável no seio de um partido revolucionário.

“Numa luta de fração contra os reformistas, os revolucionários frequentemente recorreram a medidas extremas, se bem que em regra geral, na luta fracional, os reformistas se conduzem com mais brutalidade. Mas, nesses dois casos, para os dois campos, trata-se de se preparar para que a ruptura se produza nas condições mais vantajosas. Aqueles que transferem tais métodos de trabalho para o interior de uma organização revolucionária revelam quer sua própria imaturidade política e sua ausência de senso de responsabilidade, quer um individualismo anarquista, dissimulado mais comumente atrás de princípios sectários, quer ainda em definitivo, por serem completamente estranhos à organização revolucionária”. (26)

A luta e unidade dos bolcheviques

o elemento decisivo na construção dos bolcheviques sobre o plano organizativo não foi, como as seitas o afirmam, o método de cisões rápidas e prematuras, mas ao contrário, a luta prolongada por uma clarificação política ligada à batalha pela unidade do partido. É somente demonstrando de forma conclusiva à c1asse operária na Rússia, tanto que as idéias dos bolcheviques eram justas, que era necessário defendê-las no seio do partido para demonstrar a sua justeza à luz da luta de classes real, quanto demonstrando que eles lutavam pela disciplina proletária e a unidade contra os cisionistas irresponsáveis, que os bolcheviques construíram o núcleo e os quadros realmente sólidos que eles tinham na classe operária, núcleo que compreendia em 1903 algumas centenas de pessoas sustentando sua fração e que, em 1914, ganhou o apoio da maioria da classe operária russa organizada. Se ao contrário Lênin agisse de 1903 a 1914, como os sectários de hoje teriam desejado, quer dizer, se ele tivesse conscientemente rompido politicamente o partido para formar sua própria fração/seita, em 1914 e em 1917, os bolcheviques não teriam disposto de um partido de massas, mas de um simples agrupamento minúsculo, na via de uma degeneração interna. Como sempre uma política de princípios é a única eficaz em todas as questões importantes.

E com efeito, é estudando a longa história da fração bolchevique que adquirimos o sentido da perspectiva histórica daquilo que Lênin chamava o “princípio do partido” oposto ao espirito do círculo ou seita. Isso também mostra a necessidade do sentido de proporção em matéria de lutas internas e da educação contra o espírito do fracionalismo permanente. O estudo detalhado da maneira como Lênin agiu nessas batalhas oferece uma alternativa clara e positiva face aos métodos e às concepções de Healy-Just.

As origens primeiras do bolchevismo, e por consequência do leninismo, devem ser pesquisadas na época de fundação do POSDR. Se bem que o POSDR foi formalmente criado em 1898, seu primeiro congresso não deu em grande coisa – praticamente todos os participantes foram presos imediatamente e toda a organização destruída. Até o segundo congresso de 1903, o marxismo russo permanece disperso em pequenos grupos de indivíduos ou “círculos”.

A verdadeira fundação do POSDR em 1903, se bem que tenha sido um enorme passo adiante, dá à luz um partido que estaria bem longe de ter as posições marxistas corretas sobre todas as questões. Lênin havia travado uma longa batalha contra Plekhanov a propósito do programa do partido, na qual ele estava bem longe de ter ganho em todos os pontos. Lênin havia batalhado, antes do congresso, com Martov a propósito da autodefesa operária. Uma resolução oportunista sobre as relações com as forças políticas burguesas, proposta por Potresov (Starover) havia sido votada pelo próprio congresso. Finalmente, Lênin havia sido vencido por Martov sobre a famosa questão do artigo I dos estatutos do partido (27).

Mas. apesar de todas essas divergências, Lênin insiste sobre o fato de que todas as posições defendidas no 2º Congresso constituíram posições defendidas no seio do campo do proletariado e estavam então compatíveis com pertencer a um só partido. Ele afirma que as frações estão separadas.

“Simplesmente (por) nuances sobre as quais pode-se e deve-se discutir, mas pelas quais seria absurdo e pueril separar-se ( … ) a luta das nuances dentro do partido é inevitável e necessária enquanto ela não conduza à anarquia e à cisão, enquanto prossiga dentro dos limites aprovados, em comum acordo, por todos os camaradas e membros do partido. E nossa luta no Congresso contra a ala direita do Partido, contra Akinov e Axelrod, contra Martynov e Martov, não saia destes limites”. (28)

Assim, os representantes de cada posição que havia emergido dentro dos grupos antes do 2º Congresso, estavam incluídos dentro do partido. Longe de ser excluídos do POSDR em consequência de uma ruptura provocada por Lênin, os economistas mais destacados, tais como Akinov e Martynov, foram, explicitamente, confirmados como membros do Partido novamente constituído. Lênin analisava as divergências no seio do POSOR, nessa época, como sendo os resultados inevitáveis de uma rápida expansão, afirmando, não menos explicitamente, que as atitudes que consistiram em reclamar rupturas e exclusões não eram mais do que restos de um “espírito de círculos” sectário. (29)

Lutas de fração

Sem dúvida, a fundação do Partido era um grande passo adiante. Mas com ela veio também o nascimento das lutas de fração. As duas frações, dos bolcheviques e dos mencheviques, se cristalizariam em torno de disputas sobre a composição do Comitê Central e do Comitê de Redação do Iskra.

Lênin foi derrotado no II Congresso sobre a questão dos estatutos do Partido, mas tinha ganho a maioria nas questões da composição do Comitê Central e do Comitê de Redação. Mas enquanto ele mesmo e os bolcheviques, baseando-se sobre o princípio do Partido, aceitaram a disciplina e sua derrota sobre a questão dos estatutos do Partido, os mencheviques recusaram-se a aceitar a disciplina sobre a questão da composição dos órgãos dirigentes do mesmo. Começando por Martov, os mencheviques se engajaram em uma orientação de boicotes e demissões que conduziu rapidamente o Partido à beira da cisão.

Em resposta à ameaça à unidade do Partido, criada pelos mencheviques, Lênin aplicou os mesmos princípios da luta contra o sectarismo de círculos. Rejeitou. em todas as circunstâncias, todo abandono da defesa das posições políticas bolcheviques. Mas, ao mesmo tempo, rejeitou também a idéia segundo a qual os acontecimentos políticos e a luta sobre as questões de organização teriam já definitivamente demonstrado a necessidade de uma cisão. Enquanto em 1914, Lênin proclamou que o acontecimento histórico da capitulação da II Internacional frente à I Guerra Mundial havia demonstrado definitivamente que não somente o menchevismo russo, mas o menchevismo internacional, haviam se tornado inimigos do socialismo, em 1903 ele dizia, ao contrário, que nenhuma ruptura histórica deste gênero havia tido lugar. Dizia Lênin, sem nenhuma ambiguidade:

“Os partidários do novo Iskra são traidores da causa proletária? Não, eles são defensores inconstantes, hesitantes, oportunistas, desta causa (e dos princípios organizativos e táticos que encarnam esta causa). Eis porquê a Social-Democracia revolucionária se opõe às suas posições.” (30)

Consequentemente, Lênin rejeita a idéia de que havia uma base de princípio para a cisão entre as duas frações:

“As divergências de princípio entre Vperiod (o jornal dos bolcheviques) e o novo Iskra são essencialmente aquelas que existiram entre o velho Iskra e o Raboche Dielo (o jornal dos economistas). Consideramos estas divergências importantes, mas não as consideramos como constituindo, em si, um obstáculo ao trabalho comum no seio do mesmo partido, se nos é dada a possibilidade de defender sem restrições nossos pontos de vista, os do antigo Iskra.” (31)

Confrontado com uma situação desse gênero, sua tarefa não era a de provocar uma cisão, mas de prosseguir a luta pela unidade do Partido:

“Nos já temos conquistas em nosso ativo, devemos continuar a luta sem nos deixar desencorajar pelos reveses; lutar com firmeza e desprezar os procedimentos pequeno-burgueses de disputas de círculos fazendo tudo o que está ao nosso alcance para preservar o laço que une, dentro do Partido, todos os Social-democratas da Rússia, laço estabelecido ao preço de muito esforço.” (32)

De fato, longe de pregar ele mesmo uma cisão, Lênin estimava que as ações dos mencheviques indo na direção desta revelavam claramente a diferença entre seu comportamento anarquista e a disciplina proletária dos bolcheviques. Os esforços dos bolcheviques em conduzir a luta contra os mencheviques no quadro de um partido único, culminaram na chamada pelo III Congresso do Partido. Lênin o precisou da seguinte maneira:

“Penso que, precisamente para esclarecer livremente os desacordos de princípio, é necessário por fim à crise; é necessário depurar a atmosfera de toda querela mesquinha, e para isso é indispensável convocar um Congresso. Não é para encerrar cedo a luta, mas para reconduzi-la a um quadro normal, que o III Congresso é necessário”. (33)

Lênin pensava que um novo Congresso, a única solução alternativa à politica de boicotes e atos cisionistas dos mencheviques, era a única medida apta a salvaguardar a unidade do Partido:

“Praticamente, nós vemos uma saída para a crise na convocação do III Congresso do Partido. Somente ele poderá esclarecer a situação, resolver prontamente os conflitos, reconduzir a luta ao quadro que deve ser o seu …”

“Dizem-nos: o Congresso conduzirá à ruptura. Mas, por quê? Se a minoria permanecer intransigente em suas tendências anarquistas, se ela está pronta para a cisão ao invés de se submeter ao Partido, quer dizer que ela já se desligou de fato… Mas nós não admitimos a possibilidade de uma ruptura. Frente à força efetiva do Partido organizado, os elementos da tendência anarquista deverão e, pensamos, saberão, se inclinar”. (34)

Os mencheviques violam os estatutos

No começo de 1905, os bolcheviques ganharam o apoio da maioria dos Comitês locais do Partido em favor da convocação do Congresso. Sobre a base dos estatutos do Partido, os órgãos dirigentes, controlados pelos mencheviques, deveriam convocá-lo. Foi nesse preciso momento que os mencheviques decidiram violar os estatutos e se recusaram a convocar o Congresso, apesar da obrigação estatutária de fazê-lo. Se tivesse havido o menor sectarismo organizativo na posição de Lênin, se ele tivesse sido o mínimo favorável à cisão, não há dúvida que no III Congresso, finalmente convocado na primavera de 1905, haveria rompido definitivamente com os mencheviques. Mas, longe de agir assim, ele se esforçou para convidar cada seção e fração do Partido, incluindo os mencheviques, para participar do Congresso.

Mesmo quando os mencheviques realizaram sua própria conferência, paralelamente ao III Congresso, provocando assim uma cisão de fato dentro do Partido, Lênin se pronunciou c1aramente em favor da reunificação. A única condição colocada para esta reunificação foi a aceitação do quadro organizativo e da disciplina do Partido. O III Congresso realizou uma série de modificações nos estatutos do Partido – notadamente garantindo explicitamente o direito da minoria em distribuir sua literatura a todos os membros do Partido, aumentando o poder dos Comitês locais o que aumentava as garantias estatutárias para os mencheviques poderem defender plenamente suas posições no seio do Partido.

Resumindo os resultados do Congresso, Lênin escrevia:

“‘( … ) a despeito da ausência da minoria, o III Congresso tomou todas as medidas úteis a fim de que a minoria pudesse trabalhar com a maioria em um só partido. 0 III Congresso reconheceu que é errado voltar às tendências caducas e superadas do economismo que se delineava em nosso Partido; mas ele garantiu também de uma forma precisa e definida, os direitos de toda minoria consagrados pelos estatutos do Partido, obrigatórios para todos os membros. A minoria, daqui para diante, terá o direito absoluto, garantido pelos estatutos, de defender suas opiniões, defender suas idéias, contanto que as discussões e as divergências não se tornem causas de desorganização, não impeçam o trabalho positivo, não fragmentem nossas forças, não coloquem obstáculos à uma ação unânime contra a autocracia e os capitalistas”. (35)

Longe de completar uma cisão com os mencheviques, Lênin falava de um “inevitável retorno à unidade do Partido no porvir”. (36) A obra que deveria desembocar na unidade do POSDR um ano mais tarde já foi preparada pelos bolcheviques no III Congresso. Longe de ser uma “manobra” por parte de Lênin, este restabelecimento da unidade era o ponto culminante de sua luta por um Partido unido, combinada com a luta por suas convicções políticas, luta esta que ele havia levado a partir de 1903.

O “inevitável retorno à unidade” pelo qual Lênin se batia em abril de 1905, foi realizado pelo IV Congresso de abril de 1906. Lênin aplaudiu esta unificação, que havia sido a base da orientação bolchevique desde 1903, como um imenso sucesso!

“Tanto no III Congresso como na Conferência, nós estabelecemos a ‘teoria cinza’ de unificação do Partido. Camaradas operários! Ajudem-nos a transformar esta teoria cinza em prática viva! Reagrupem em massa as organizações do Partido. Transformem nosso IV Congresso e II Conferência menchevique em impressionante e grandioso Congresso de Operários Social-democratas! Ocupem-se vocês, conosco e na prática, com a questão da unificação, questão que teve excepcionalmente, um décimo de teoria e nove décimos de prática (que seja uma dessas exceções que confirmam as regras opostas)! Na verdade, semelhante desejo é legítimo, historicamente necessário e psicologicamente compreensível… Unifiquemo-nos para fazer esta revolução”. (37)

Lênin e a unidade do partido

Lênin atacou violentamente todos que afirmavam que a unificação com os mencheviques num mesmo partido não foi mais do que uma manobra. Ele proclamou durante o próprio Congresso:

“Não é verdade que eu apoiei o camarada Vorobjev, que disse que bolcheviques e mencheviques não poderiam trabalhar em comum num só partido. Não apoio em nada uma afirmação deste gênero e não partilho de semelhante opinião.” (38)

Uma vez mais, a relação dialética entre a luta de Lênin para a clarificação política e sua luta pela unidade organizativa foi posta em evidência. Ele colocava a luta política em seus termos mais agudos, mas defendia simultaneamente o mais estrito respeito à disciplina do Partido por parte dos bolcheviques, mesmo estando eles agora em minoria.

O primeiro teste real da “unidade do partido” deveria se produzir bem cedo, após o Congresso de Unificação de Abril de 1906, quando o POSDR teve que tomar posição a respeito das eleições para a Duma. Os mencheviques, convencidos do papel dirigente da burguesia na revolução, pronunciaram-se a favor de um acordo eleitoral com o partido burguês dos Cadetes. Lênin afirmava a respeito:

“Tolerando blocos com os Cadetes, os mencheviques nos demonstraram definitivamente sua verdadeira visão: eles são a ala oportunista do Partido Operário”. (39)

Mas Lênin deduziu disto que era necessário agora trabalhar para a cisão com os mencheviques? De modo algum! Ele colocava a necessidade de uma luta fracional de princípio, no decorrer da qual reclamava dos bolcheviques um estrito respeito à disciplina, mesmo quando em minoria:

“Nós levaremos a luta ideológica, a mais larga, a mais implacável e devemos ainda ampliá-la, contra os blocos com os Cadetes. Uma questão se coloca: como combinar esta luta ideológica implacável com a disciplina do partido do proletariado?… No que se refere ao princípio, nós já definimos mais de uma vez nosso ponto de vista sobre a importância da disciplina em um partido operário. Unidade na ação, liberdade de discussão e de crítica, eis nossa definição. Esta disciplina é a única digna do partido democrático da c1asse de vanguarda… Após a decisão dos órgãos competentes, todos nós, membros do Partido, agimos como um só homem. Um bolchevique, em Odessa, deverá talvez colocar dentro da urna uma cédula portando o nome de um Cadete, apesar disso ser repugnante para um bolchevique… “. (40).

Não se poderia definir melhor os princípios de organização leninista. Lênin não encorajava em nada cisões por um sim ou não revisionista, ou sobre a base de “inevitáveis” resultados futuros de posições adotadas por tais correntes hoje. O que era necessário, a seus olhos, era combater posições manifestamente falsas no seio do Partido, até o momento onde os camaradas culpados por tais erros ou os teriam corrigido – ou a lógica de suas posições os teria colocado irrevogavelmente, na ação, no campo do inimigo de classe – fora do campo do proletariado, por ocasião de acontecimentos históricos como o ocorrido em 1914. É exatamente a mesma atitude que Trotsky adotou em sua luta no Comintern entre 1923 e 1933. Isso implica numa luta prática no seio do Partido, ao mesmo tempo que a aceitação de uma absoluta disciplina na ação para conservar a unidade do Partido.

A politica proletária disciplinada triunfou. No V Congresso do Partido, em 1907, os bolcheviques conquistaram a maioria às custas dos mencheviques. Desde que aquilo ficou claro, os mencheviques se apressaram de novo em romper. Como antes de 1903, Lênin opõe a disciplina proletária dos bolcheviques e a aceitação, de sua parte, da unidade do Partido, às atividades cisionistas dos mencheviques.

As divergências sobre as eleições que eclodiram em 1905 eram o prelúdio da grande luta final entre as duas frações que iria atingir seu ponto culminante em uma verdadeira cisão dos bolcheviques e mencheviques em dois partidos separados. O pano de fundo desta luta foi o terrível período de reação na Rússia começando pelo golpe de estado de Stolypin em 1907: dissolução da Duma, prisão dos deputados social-democratas sob a acusação de “conspiração”, e introdução de uma nova lei eleitoral absolutamente reacionária. As organizações operárias foram dispersadas. Os POGROMS* anti-semitas foram desencadeados, a imprensa foi abafada. Uma campanha de repressão e torturas foi posta em andamento. Uma vaga de desmoralização massiva se abateu sobre a c1asse operária e sobre os revolucionários.

Que atitude tomar face a esta nova situação? A questão foi inicialmente debatida no V Congresso do POSDR, em julho de 1907. Os bolcheviques gozavam então de uma maioria no Partido quanto a suas posições fundamentais – análise do papel dirigente da c1asse operária na revolução, rejeição de todo bloco eleitoral com os Cadetes, chamamento em favor de um governo provisório revolucionário, etc. No entanto, uma divergência tática importante surgiu em suas próprias fileiras a respeito da questão da participação ou boicote nas eleições para a nova terceira Duma. O Congresso votou a favor da participação. Mas esta maioria foi o resultado de um bloco de mencheviques, do Bund judeu, dos poloneses (o Partido de Rosa de Luxemburgo) de um só voto do partido Letão e de um só voto bolchevique – o de Lênin.

Após o Congresso do Partido, tornou-se cada vez mais claro que a divisão entre os bolcheviques não representava uma divergência tática menor, que pudesse ter sido contida no seio de uma só fração sobre princípios, mas que ela implicava numa análise totalmente diferente da situação na Rússia e situação do Partido. Se bem que tais divergências fossem compatíveis com militância num mesmo Partido, elas eram incompatíveis no seio de uma mesma fração. No curso da luta, Lênin formulou com uma precisão c1ásssica a diferença entre um partido e uma fração:

“Entre nós, o bolchevismo está representado pela fração bolchevique do partido. Mas uma fração não é um partido. No interior de um partido pode-se encontrar toda uma gama de opiniões diversas cujos extremos podem ser contraditórios… Mas dentro de uma fração, as coisas são diferentes. Uma fração é um grupo fundado sobre a unidade de pensamento cujo objetivo primeiro é inf1uenciar o partido em uma direção bem determinada e fazer adotar seus princípios, sob a forma mais pura, pelo partido. Para isso, uma verdadeira unidade de pensamento é indispensável. Qualquer um que queira compreender como se coloca o problema das divergências internas no seio da fração bolchevique, deve levar em conta que a unidade da fração e a do partido não relevam para nós das mesmas exigências”. (41)

O resultado foi claro. Bogdanov, partidário do boicote, foi excluído da fração bolchevique. Mas a exclusão ilustra c1aramente a diferença entre um partido e uma fração. Ela ilustra também o fato de que não havia mesmo, naquele momento, um partido bolchevique. Pois os bolcheviques afirmaram sem equívoco que Bogdanov continuava membro do partido, de pleno direito, do POSDR:

“Ninguém pretende atentar contra as suas responsabilidades no Partido, e elas não foram evocadas aqui. Nós fizemos uma cisão da fração, não do Partido. Nossa assembléia não é competente para decidir responsabilidades de partido”. (42)

Edificar o Partido

Através de toda luta, os bolcheviques, longe de procurar dividir o partido, reclamavam que se pusesse fim a toda tentativa irresponsável desse tipo. De fato, uma das acusações lançadas contra Bogdanov foi precisamente a de que ele procura efetivamente uma cisão no partido. Lênin lembra a longa história de luta dos bolcheviques contra uma cisão desde 1903:

“Não se trata de modo algum de abolir as divergências táticas que nos opõem aos mencheviques. Nós levamos e continuaremos a levar uma luta sem compromisso contra os desvios dos mencheviques em relação à linha Social-Democrata revolucionária… Também não se trata, de modo algum, de dissolver a fração bolchevique dentro do partido… A fração bolchevique, enquanto corrente ideológica bem determinada existindo no interior do Partido, deve continuar como no passado… enquanto defensora consequente e firme dos princípios do Partido, os bolcheviques têm agora uma tarefa extremamente importante a cumprir: fazer participar da edificação do Partido todos os elementos que são capazes… a salvaguarda e o reforço do POSDR, tal é a tarefa fundamental a qual tudo deve estar subordinado”. (43)

Longe de favorecer uma cisão com os mencheviques, Lênin militava em favor de um bloco com todos os mencheviques prontos a apoiar o Partido. Ele chamou os membros do Partido a dar sustentação a uma “reaproximação dos elementos pró-partido, de todas as frações e de todos os grupos do Partido, e antes de tudo dos bolcheviques e mencheviques pró-partido”. (44) Esta posição foi o eixo dos bolcheviques na luta dentro do POSDR até 1912.

A luta contra os partidos do boicote foi relativamente limitada na amplitude e no tempo. Na primavera de 1908. eles já haviam se tornado uma minoria em Moscou e Petrogrado se desenrolava uma luta bem mais importante, contra tendências no seio dos mencheviques. Sem abandonar suas posições políticas de princípio – concernentes ao papel dirigente da burguesia no seio da revolução e ao apoio prestado à alianças eleitorais com os Cadetes – os mencheviques se dividiram sobre a questão da manutenção de um partido ilegal. Os “mencheviques pró-partido” dirigidos por Plekhanov, estavam a favor da manutenção do POSDR. Os “mencheviques liquidadores” eram por terminar com o POSDR, buscando a legalidade a qualquer preço.

Confrontado com esta decisão concernente à própria existência do Partido, Lênin agiu de novo aplicando sua concepção sobre a diferença entre um partido e uma fração. Ele não poderia se reaproximar politicamente com uma fração qualquer de mencheviques. Mas, organizativamente os “mencheviques pró-partido” permaneceram no seio do Partido. Contra a ameaça que os liquidadores faziam pesar sobre a própria existência do Partido, Lênin milita a favor de um bloco de princípios com os primeiros:

“Plekhanov nunca foi um bolchevique. Não pensamos que ele seja um bolchevique e jamais nós o consideraremos como tal. Pelo contrário, nós o consideramos um menchevique pró-partido… Pensamos que é dever de todos os bolcheviques fazer o possível para se reaproximar de semelhantes Social-democratas”. (45)

Lênin resumiu a situação quando afirmou que o ano de 1910 foi caracterizado por um “trabalho levado em boa harmonia por mencheviques pró-partido e por bolcheviques”. (46)

A tarefa dos bolcheviques e mencheviques pró-partido para reconsolidar o POSDR ilegal estava terminada em fins de 1911. Ela foi formalmente concluída pela realização do VI Congresso do Partido, em Praga, janeiro de 1912. Por ocasião deste Congresso, não houve cisão política com os mencheviques enquanto tais, – ao contrário, como vimos, Lênin trabalhou para que este Congresso reunisse bolcheviques lado a lado com uma seção dos mencheviques. A cisão não se referia àqueles que defenderam as posições políticas do menchevismo mas àqueles que se recusaram a aceitar a existência ilegal do POSDR.

As conclusões de Trotsky

Se bem que as condições de construção de partidos revolucionários hajam mudado consideravelmente após a revolução russa de 1917, o estudo da historia do bolchevismo não diminui sua importância como laboratório clássico desta construção, de onde todas as tendências tentaram tirar conclusões desde então. A questão de se saber se o bolchevismo apareceu enquanto partido desde 1903 por ocasião do II Congresso do POSDR, – ou se ao contrário ele era uma fração dentro do POSDR até 1912, ocupa um papel importante na luta entre Trotsky e a burocracia stalinista ascendente.

Para poder levar sua campanha contra o “trotskysmo”, a burocracia devia apresentar Trotsky como o adversário mais resoluto de Lênin. Além de publicar inúmeras vezes as criticas feitas por Lênin a Trotsky antes de 1917, a burocracia inventou o mito de que após 1903, Lênin e Trotsky não somente haviam sido membros de diferentes frações, mas membros de dois partidos diferentes. Partindo das deformações já contidas na “História do Partido Bolchevique”, de Zinoviev até as falsificações delirantes da “História do PCUS”, de Stalin, foi repetido o mito de que os bolcheviques constituíam-se em partido à parte desde 1903. Para criar este mito, toda a história do bolchevismo teve que ser deformada e falsificada na campanha contra Trotsky. É paradoxal e triste constatar que autodenominados “trotskystas” sectários, baseiem hoje seus argumentos nestas mesmas fontes antitrotskystas da burocracia soviética.

Quanto a Trotsky, ele se apoiou, igualmente sobre o estudo da história do bolchevismo com um duplo objetivo. Em primeiro lugar, para desmascarar as falsificações stalinistas da História, notadamente na “Revolução Traída” e em seu testemunho frente à Comissão Dewey. Em segundo lugar, o mais importante, ele utiliza a experiência do bolchevismo a fim de determinar sua própria posição no curso da luta contra o stalinismo no seio da Internacional Comunista e depois na construção da IV Internacional. Adotou inteiramente a posição de Lênin, de combinar a luta intransigente por suas posições políticas com o combate pela unidade da Internacional, enquanto esta não tivesse passado definitivamente para posições hostis ao proletariado, em acontecimentos de amplitude histórica comparáveis ao 4 de agosto de 1914. O documento adotado por ocasião da primeira Conferência da Oposição de Esquerda Internacional afirma:

“A Oposição de Esquerda Internacional se considera como fração da Internacional Comunista, como suas diversas seções se consideram frações dos PCs nacionais. Isso significa que a Oposição de Esquerda não considera como definitivo o regime organizativo criado pela burocracia stalinista… Que uma tal política seja a única justa nas condições atuais, é confirmado tanto pela análise teórica como pela experiência histórica”.

“Se bem que as condições particulares da Rússia tenham levado o bolchevismo à ruptura definitivamente com os mencheviques, em 1912, o Partido bolchevique continuou a fazer parte da II Internacional até o fim de 1914. Foi necessária a lição da 1ª Guerra Mundial para colocar a questão de uma nova Internacional, foi necessária a Revolução de Outubro para construir esta nova Internacional”.

“Uma catástrofe histórica tal como o esmagamento do Estado Soviético carregaria evidentemente com ela a Internacional. Igualmente, a vitória do fascismo na Alemanha e o esmagamento do proletariado alemão dificilmente permitiriam que a Internacional Comunista sobrevivesse aos resultados de sua política desastrosa. Mas quem, dentro do campo da revolução, ousa afirmar atualmente que não se pode evitar nem prevenir o desmoronamento do poder soviético ou a vitória… Permanecendo sobre o terreno da Revolução de Outubro e da III Internacional, a Oposição de Esquerda rejeita a idéia de partidos comunistas paralelos”. (47)

Quando em 1933 a Internacional Comunista traiu efetivamente a causa do proletariado alemão e internacional, Trotsky. de novo seguindo o exemplo de Lênin, desta vez o de 1914, se pronunciou a favor de uma ruptura definitiva com o Comintern e da formação de uma nova Internacional. O método que ele utilizou para, ao mesmo tempo, rejeitar a ruptura com a Internacional Comunista antes de semelhante traição, e se pronunciar firmemente a favor de uma tal ruptura depois que tal traição tenha se produzido, demonstra até que ponto ele havia assimilado completamente as lições históricas do bolchevismo. Nós defendemos hoje os mesmos princípios de organização.

É sem dúvida impossível ampliar mecanicamente as posições e conclusões de uma situação histórica em outra. Mas, a análise histórica traz, contudo, um dos elementos essenciais da matéria prima sobre a qual se fundam a teoria e a prática revolucionárias. A análise concreta de uma situação concreta se efetua com ajuda de conceitos que se forjam, em grande parte, à luz da experiência histórica.

Demonstrar que as divergências que separam hoje os revolucionários são qualitativamente inferiores àqueles que Lênin e Trotsky consideraram como compatíveis em um único partido, significa que as divisões organizativas que se fundam ou que são justificadas por tais divergências não refletem uma “firmeza teórica bolchevique” qualquer, mas ao contrário, uma fraqueza organizativa sectária. O estudo da história do bolchevismo faz parte integrante da luta para que os revolucionários superem seu sectarismo organizativo infantil e coloquem sua prática em conformidade com a realidade política da luta de c1asse e da teoria marxista.

Notas:

(1) Lênin – Oeuvres, tome 7, pp 366/7.
(2) Lênin – Collected Works, vol. 34, pp 246.
(3) Lênin – Oeuvres, tome 17, pp 268.
(4) Lênin – Oeuvres, tome 17, pp 468.
(5) Lênin – Oeuvres, tome 17, pp 487.
(6) Lênin – Oeuvres, tome 17, pp 228.
(7) Lênin – Oeuvres, tome 17, pp 228.
(8) Lênin – Oeuvres, tome 11, pp 332-3.
(9) Lênin – Collected Works, vol. 21, pp 16.
(10) Lênin – Collected Work, vol. 21, pp 38.
(11) Lênin – Collected Works. Vol. 21, pp 444.
(12) Resolução do Primeiro Congresso da Internacional Comunista sobre a Conferência de Berna dos partidos da II Internacional.
(13) Leon Trotsky – É necessário construir Partidos Comunistas e uma nova Internacional.
(14) Leon Trotsky – E agora?
(15) Leon Trotsky – É impossível permanecer na mesma Internacional com Stalin.
(16) Leon Trotsky – Alemanha, a chave da situação internacional.
(17) Leon Trotsky – Por uma Frente Única Operária contra o fascismo.
(18) Leon Trotsky – É necessário construir Partidos Comunistas e uma nova Internacional.
(19) Leon Trotsky• – Em defesa do Marxismo – pg. 122.
(20) Idem – pg. 145.
(21) Idem.
(22) Marxist Bulletin, Inverno de 1976, pg 26.
(23) Workers Press, 7 de julho de 1970.
(24) Leon Trotsky, As tarefas e os métodos da Oposição de Esquerda Internacional.
(25) Leon Trotsky, Nós necessitamos de um honesto acordo partidário interno.
(26) Leon Trotsky – As frações e a IV Internacional… in Oeuvres, tome 6, pg. 271.
(27) Lênin – Collected Works, vol. 6, pg 177
(28) Lênin – Collected Works, vol. 7, pg 320.
(29) Lênin afirma: “0 crescimento e a extensão do movimento revolucionário, sua penetração em profundezas cada vez maiores no seio das diversas classes e camadas sociais, fazem necessário o nascimento incessante (e isto é o melhor) de novas tendências e nuances (Oeuvres, tome 8, p. 161).

A compreensão do fato de que as tendências e frações não são necessariamente representantes de classes distintas do proletariado foi sublinhada por Trotsky: “0 surgimento de frações é inevitável mesmo no partido mais maduro e harmônico, a partir do momento em que ele estende sua influência a novas camadas; devido ao aparecimento de novas questões; às viradas bruscas que se produzem na situação; à que a direção possa cometer erros, etc. etc” (Leon Trotsky – Trotskysmo e o PSOP” in Writings of Leon Trotsky 1938/39, 1ª ed. pg 129).

Lênin constata em uma passagem, de maneira mais geral: “….que a tendência ao sectarismo organizativo, à realização de cisões precipitadas e irresponsáveis, é o produto evidente do “espirito de círculos”. As tradições do espírito de círculos nos legou cisões extraordinariamente fáceis e uma aplicação extraordinariamente zelosa desta regra”.

(30) Lênin, Oeuvres, t. 8 p.
(31) Lênin, Oeuvres, t. 8, p. 127.
(32) Lênin, Oeuvres, t. 7, p. 434.
(33) Lênin, Oeuvres, t. 7, p. 185.
(34) Lênin, Oeuvres, t. 7, p. 477.
(35) Lênin, Oeuvres, t. 8, p. 439/40.
(36) Lênin, Oeuvres, t. 8, p. 447.
(*) Perseguições abertas contra os judeus na Rússia.
(37) Lênin, Werke, Band 10, p. 23 (nossa própria tradução).
(38) Lênin, Werke, Band 10, p. 310.
(39) Lênin, Oeuvres, t. 11 – p. 329.
(40) Lênin, Oeuvres, t. 11 – pp. 329/30, 332/3.
(41) Lênin, Oeuvres, t. 15 – pp. 460.
(42) Lênin, Oeuvres, t. 41 – p.420.
(43) I.ênin, Oeuvres, t. 15 – p. 464, 466.
(44) Lênin, Obras, t. 16, p. 102.
(45) Lênin, Obras, t. 16, p. 272.
(46) Lênin, Obras, t. 17, p. 29.
(47) Os Congressos da IV Internacional – O Nascimento da IV Internacional 1930/1940 – pp. 63-64, Paris, Editions Le Brèche, 1978.

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