MEMÓRIA | AOS VINTE ANOS DA MORTE DE NAHUEL MORENO

AOS VINTE ANOS DA MORTE DE NAHUEL MORENO
Dia 25 de Janeiro de 2007

Pedro Fuentes

No dia 25 de janeiro de 2007 completam 20 anos da morte de Nahuel Moreno, dirigente revolucionário argentino com mais de quarenta anos de militância no trotskismo. Morreu jovem, aos 62 anos, mas sua vida militante deu-lhe tempo de construir uma das mais importantes correntes da IV Internacional e deixar um enorme legado aos militantes internacionalistas, especialmente os latino-americanos.

Aderiu ao trotskismo em Buenos Aires, no início da década de 40 e, em 1944, quando fundou o GOM (Grupo Operário Marxista), decidiu romper com o “trotskismo de café” que imperava na época, para inserir-se ferreamente na classe operária, suas organizações e seus bairros.

O processo de construção das organizações presididas por Moreno atingiu seu auge na década de 1980, na última etapa de sua vida. Naquele período, desempenhou papel fundamental na construção do MAS (Movimento ao Socialismo), na Argentina, — talvez o maior partido trotskista das últimas décadas -, e da Convergência Socialista, no Brasil. As duas organizações integravam a LIT (Liga Internacional dos Trabalhadores), que converteu-se na época na organização trotskista com maior influência na parte sul de nosso continente.

A constância de toda sua vida foi a construção da organização política revolucionária para a ação. Para isso, utilizou diferentes caminhos táticos, militando em diversos países, mas, em nenhum momento, deixou de estar na cabeça de sua organização, dirigindo a construção do partido, nem nas interrupções provocadas por prisões na Argentina, Peru e Brasil, nem quando sua saúde foi se deteriorando perigosamente.

É fato que, após a sua morte, as organizações que mencionávamos sofreram fortes processos de divisões. Mas, nem por isso deixou de ser fundamental o papel que desempenham os quadros herdeiros da tradição morenista na luta de classes em muitos países, especialmente na América Latina. Muitos dos militantes das organizações que se reclamam dessa história, e aqueles que se incorporaram à militância nos últimos anos, conhecem Moreno por intermédio de alguns de seus textos, que são ferramenta fundamental à formação política militante.

Não há, nem pode haver, uma história única da vida de Moreno, como não existe a de nenhum dirigente. Não há histórias oficiais, o que há são diferentes visões, inclusive polêmicas, sobre todas as personalidades marxistas, inclusive as mais universais. No caso de Moreno, nos atrevemos a dizer que há visões fragmentadas, já que os que fazemos parte dos núcleos de direção nos últimos 20 anos, a partir dos anos 1990 partimos para diferentes experiências políticas.

Este texto não pretende ser um trabalho histórico nem um balanço do que aconteceu nas duas últimas décadas, desde a sua morte. São alguns esboços, certamente parciais, daquilo que, em nossa opinião, mais devemos resgatar neste novo aniversário da morte de Moreno.

Comprometemo-nos a aprofundar estes temas em um próximo texto, como contribuição a tantos militantes revolucionários que surgiram nestas décadas. Para aqueles que se reivindicam morenistas e a muitos mais. Agora estamos em uma nova fase, onde tiveram início processos de reagrupamentos que não só nos permitem nos reencontrarmos com o MST (Movimento Socialista dos Trabalhadores) da Argentina – com os quais fazemos parte da mesma tradição – no novo projeto de “Revista da América”, e do qual participa também a ISO (Internacionalist Socialist Organization), dos Estados Unidos.

Mas também – e isto é da maior relevância – estamos nos unindo a muitos companheiros de outras tradições e experiências, com quem estamos lado a lado militando na construção do P-Sol (Partido Socialismo e Liberdade), do Brasil. São estes, assim como outros setores que estamos conhecendo na América Latina, que queremos que conheçam nossa tradição e história, não para que se agreguem a ela, mas para contribuir com nossas próprias experiências e com elas ajudar na construção do P-Sol, assim como na de todas as novas organizações militantes que emergem neste novo período de luta.


A geração de Moreno

O conhecido dirigente trotskista Ernest Mandel, disse de Moreno que “foi um dos últimos representantes do punhado de quadros dirigentes trotskistas que, após a Segunda Guerra Mundial, deu continuidade à luta de León Trotsky, em circunstâncias difíceis”. (Extraído do esboço biográfico de Patricia Lee e Aníbal Tesoro). E, de fato, foi um dos que, após o assassinato de Trotsky, empreendeu a longa caminhada que, nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, deu início à construção da IV Internacional. Efetivamente, foi um punhado, já que a grande maioria dos quadros se perderam nessa mesma guerra, nos campos de concentração do nazismo e nas purgas, deportações e assassinatos do stalinismo, que também custou a vida de León Trotsky, assassinado no México, em 1940.

Moreno uniu-se a esta empreitada em 1948 e, sem dúvida, juntamente com Mandel – com quem muitas vezes polemizou -, foi um dos que mais contribuiu para a formação da geração de quadros do movimento trotskista, da qual nos reivindicamos integrantes; sobretudo das gerações surgidas na década de 60, a partir da Revolução Cubana e das grandes mobilizações e revoluções de 1968 e 1969.

Moreno muitas vezes definia a geração de quarenta – a sua – como uma “geração perdida”. Não é uma expressão muito precisa nem muito feliz. Ele a utilizava no sentido da frase de Mandel antes citada, porque muitos de seus principais quadros se perderam na guerra ou sob o stalinismo e, também, porque os que ficaram, tiveram que remar contra a corrente, sob a enorme e esmagadora influência que o aparelho stalinista e os movimentos nacionalistas burgueses tiveram sobre a esquerda e o movimento de massas.

Essa geração, esse “punhado” de homens, teve que atuar em um novo período revolucionário, que terminou por ser bastante contraditório para o movimento trotskista nos anos em que ocorreram novos acontecimentos não previstos por Trotsky e pela IV Internacional. Um período, ou etapa, que se prolongou por mais de três décadas, sendo que um de seus elementos mais significativos, a existência do aparelho stalinista, existiu até 1990.

Um período revolucionário que fortaleceu o stalinismo

Trotsky fundou a IV Internacional em resposta à degeneração que o stalinismo impôs à Internacional Comunista (III Internacional). Na metade dos anos 20, após a morte de Lenin, com a derrota da revolução e o desgaste provocado pela guerra civil na Rússia, começou o processo de burocratização do Estado soviético comandado por Stalin. Formou-se uma casta burocrática privilegiada, que se apropriou das conquistas oriundas da expropriação da burguesia na Rússia. O stalinismo transformou a Internacional Comunista – liquidada pelo próprio Stalin durante a guerra – em um apêndice dos interesses dessa burocracia estatal e partidária que passou a agir como uma classe privilegiada.

Trotsky acreditava que a IV Internacional sairia da guerra mundial como uma grande organização de massas que superaria à degeneração da III Internacional. Em certa medida, se apoiava na experiência de grandes setores de massas frente à degeneração da II Internacional, que apoiou as burguesias de seus respectivos países na contenda.

Trotsky também formulou, de forma muito correta, a tese da revolução política para a Rússia. Considerava a burocracia stalinista uma casta irrecuperável, sendo, portanto, necessário fazer uma nova revolução política na Rússia, onde os trabalhadores derrubariam o regime ditatorial e burocrático e instalariam um Estado com democracia operária, única forma de salvar as conquistas da revolução de outubro e avançar na transição para o socialismo. Se isto não ocorresse, a burocracia caminharia, inevitavelmente, rumo à restauração do capitalismo.

No pós-guerra, os acontecimentos não coincidiram com esses prognósticos. A partir de 1945 abriu-se um período intensamente revolucionário, mas, ao mesmo tempo, bastante contraditório. Como conseqüência da vitória do Exército Vermelho sobre o nazismo, esse aparelho stalinista surgiu da guerra, diante das massas do mundo, com seu prestígio enormemente fortalecido.

Nos anos seguintes de pós-guerra houve uma grande onda revolucionária.. As guerrilhas partidárias de Tito tomaram o poder na Iugoslávia e expropriaram a burguesia, enquanto que no resto dos países da Europa do Leste (Hungria, Polônia, Checoslováquia, Romênia), ocupados pelo Exército Vermelho controlado pela burocracia, também se avançou nessa direção. Por outro lado, nos países atrasados, surgiram grandes movimentos nacionalistas de massas, como o peronismo na Argentina e o nasserismo no Egito. E, em 49, este processo culmina com a grande Revolução Chinesa, cujo motor é essencialmente o campesinato pobre, dirigido pelo Partido Comunista, com Mao Tse-Tung à frente.

Estas vitórias revolucionárias objetivas – nenhuma das quais foi dirigida por uma organização trotskista ou trotskizante-, ocultaram às massas do mundo o papel contra-revolucionário que estava desempenhando o stalinismo na Rússia e a nível internacional. Sua nefasta política na década de 1930, na Alemanha, de rechaçar a possibilidade de construir uma frente única com a social-democracia, permitiu o triunfo do nazismo. Também na revolução e na Guerra Civil Espanhola, a perseguição e assassinato dos revolucionários por parte do stalinismo, e as manobras diplomáticas do Estado Soviético, auxiliaram o franquismo a triunfar. Existe, ainda, uma longa lista de exemplos da política contra-revolucionária do stalinismo.

Esse fortalecimento objetivo da burocracia leva a assinatura do pacto de Yalta, no final da guerra, com os países imperialistas triunfantes e que, já então, estavam sob a hegemonia dos Estados Unidos, que havia saído do conflito como a grande potência imperialista dominante. O pacto de Yalta significou uma nova divisão do mundo, através da qual o aparelho de Stalin ficava com o controle da Rússia e do Leste da Europa, enquanto os Estados Unidos exerciam sua hegemonia sobre o resto do mundo. Stalin e os governos que o sucederam no poder foram, no essencial, fiéis a estes acordos. Graças a seu prestígio, ajudaram a controlar a revolução na Europa Ocidental e, posteriormente, puderam canalizar e pôr sob sua tutela os processos revolucionários independentes, inclusive, quando chegou o momento, a Revolução Cubana. Esta absorção e controle da burocracia foi facilitada porque em nenhuma das revoluções do pós-guerra o proletariado esteve à frente, como previa a análise trotskista.

Por outro lado, esse mesmo fortalecimento permitiu à burocracia russa derrotar as primeiras revoluções políticas nos estados operários. Quando aconteceram (Alemanha, 1953; Polônia, 1955; Hungria, 1956; Checoslováquia, 1967), foram esmagadas pelo exército stalinista sem a intervenção dos Estados Unidos.

Nesse contexto, imensamente contraditório e desfavorável para a IV Internacional, o trotskismo teve o grande mérito de defender o programa revolucionário frente ao stalinismo. Durante todo esse período, os trotskistas foram perseguidos tanto pelo stalinismo quanto pela burguesia. E é também nesse contexto que devemos localizar a obra de Moreno.

Estamos entre os que pensam que Moreno foi um dos que passou a dura prova desse período, não apenas por suas análises dos processos da pós-guerra, mas por suas imensas contribuições concretas para a construção do partido nesse período. Na América Latina, não apenas foi quem melhor soube remar contra a corrente, mas também quem descobriu as oportunidades que se abriam para quebrar essa hegemonia dos movimentos nacionalistas ou dos partidos influenciados pelo stalinismo, e avançar na construção do partido revolucionário.

Se Nahuel Moreno não pôde escapar aos limites que impôs seu tempo, dedicou sua vida, em todos os sentidos, a tentar aproveitar as oportunidades que se abriram, superar o propagandismo e a tendência a ceder a direções não operárias, que foram os desvios que pressionaram as direções e o movimento trotskista.

A paixão pela classe operária

Sendo um militante oriundo da classe média mais ou menos acomodada da província de Buenos Aires e jovem intelectual admirador de Kant e depois de Hegel, foi conquistado pelo trotskismo em 1942, e compreendeu que o fundamental era ir para a classe operária. E foi o que fez desde jovem, fundando o GOM (Grupo Operário Marxista) no ano de 1944. Com essa organização comandou a primeira geração de militantes, que se uniu – naqueles momentos difíceis do auge do peronismo – à classe operária industrial. Teve sucesso nisso, como poucos o conseguiram. O GOM, em 45, entrou na greve dos operários dos frigoríficos. A partir de então, ganhou grande prestígio no sindicato da Carne de Avellaneda, recrutando uma parcela desses autênticos dirigentes operários, dentro os quais um dos mais importantes, Elías Rodríguez, faleceu no final dos anos 1990. Formado por um punhado de cerca de dez jovens, o GOM passou a contar com cem militantes inseridos na Vila Pobladora, um bairro de Avellaneda, que naqueles tempos abrigava os operários da carne. Tratava-se de uma inserção política e social; vale a pena lembrar que Moreno foi o presidente do clube social dessa localidade, onde se realizavam práticas desportivas, teatro, etc.

No ano de 1955 e nos posteriores, a corrente de Moreno teve uma participação importante na resistência à ditadura. Dirigiu a mais importante greve dos metalúrgicos e alcançou uma incidência importantíssima em numerosos sindicatos.

Houve momentos em que essa trajetória e essa moral classista correram perigo, mas nunca se perderam. Com a derrota da resistência, em 1959, e o início das primeiras pressões da guerrilha foquista, nossa corrente retrocedeu enormemente. Foi quando decidiu-se que os novos militantes estudantis, surgidos nos anos 60 no calor da Revolução Cubana – e que naquele tempo podiam ser contados nos dedos -, abandonaríamos as universidades para nos proletarizarmos, ir trabalhar nas grandes fábricas e manter a estrutura operária do partido.

Moreno deixou essa escola de paixão política pela classe operária como uma herança que vive em todos aqueles que se formaram e se reivindicam desta corrente política, na Argentina, no Brasil…

Aproveitar as oportunidades políticas

Moreno também foi um mestre em utilizar as oportunidades políticas para levar a classe a avançar na construção do partido. Soube estudar e descobrir as contradições interburguesas, as brechas que se abrem nas classes dominantes, sentir por onde passa a luta de classes nessas circunstâncias e utilizar a situação com audácia e sentido de oportunidade para prosseguir a mobilização e construir as ferramentas políticas dos trabalhadores.

Moreno nunca se pautava por aquilo que dissesse a vanguarda ou outros grupos de esquerda, mas sim pela análise concreta da realidade e pelas tarefas que esta apresentava. Após o golpe militar gorila de 1955, nossa organização passou a estar “sob a disciplina do general Perón”. Reivindicar-se parte do peronismo para militar em seu interior e, especialmente, em suas organizações operárias, era a forma como se podia participar da resistência e chegar à classe operária para disputar a organização de seus melhores quadros e organizações que resistiam à ditadura gorila. Foi assim que o jornal Palabra Obrera converteu-se no principal porta-voz dessa resistência, chegando a tiragens de até cem mil exemplares.

Como dizíamos, dirigimos a greve metalúrgica de 56 e tivemos enorme incidência no agrupamento das organizações sindicais peronistas (62 organizações), até que teve início o desgaste e, depois, a derrota dessa resistência.

Esta tática escandalizou muitos setores do trotskismo em todo o mundo. Moreno, que se opunha, no terreno internacional, às posições que capitulavam à burocracia stalinista, passou a ser considerado um oportunista. Foram publicados panfletos em outros países contra o “oportunismo morenista”. Uma história que durou bastante tempo. Pessoalmente, lembro que, no final de 77, fui a Londres para discutir com um grupo trotskista com grande influência na fábrica Leyland, para ganhá-los para a nossa tendência internacional. Eles começaram a reunião com jornais de Palabra Obrera da época sobre a mesa, exigindo uma autocrítica do entrismo no peronismo para dar início ao debate.

Podemos também citar o trabalho sobre a esquerda estudantil do catolicismo nos primeiros anos da década de 60, que permitiu a captação de toda uma parcela de dirigentes estudantis. O catolicismo vinha a ser o agente mais direto do golpe gorila de 55, e Moreno soube prever a radicalização posterior de um setor dessa juventude.

Mais importante ainda é que, em 70-71, depois do “Cordobaço”, viu-se que havia condições de utilizar a legalidade burguesa, e teve início a abertura de sedes partidárias durante a ditadura, o que escandalizou toda a vanguarda de esquerda que, na época, defendia o slogan “Nem golpe nem eleição. Revolução”. Graças à utilização da legalidade e a participação nas eleições foi conquistado um setor da vanguarda operária, entre eles José Francisco Páez, um dos dirigentes das revoltas operárias de Córdoba, falecido há apenas alguns meses.

Outro exemplo foi a política frente à guerrilha. Nossa corrente foi a que, de forma mais conseqüente, polemizou contra a política de transferir mecanicamente o exemplo cubano para qualquer um e todos os países da América Latina. Essa política levou uma grande vanguarda revolucionária surgida com a revolução cubana a algumas experiências foquistas que foram rapidamente derrotadas. Nossa corrente tem uma história de diferenciação e debate político contra essa política, que consideramos equivocada, sobretudo nas expressões de guerrilha urbana da década de 70, que levou uma importante parcela da geração revolucionária a afastar-se das lutas da classe operária, a tirar lutadores das fábricas e, inclusive, com suas “ações exemplares”, a obstaculizar a própria luta operária.

Mas, ao mesmo tempo, Moreno compreendeu que a revolução cubana abria uma nova etapa na luta continental contra o imperialismo. Em seu trabalho de 1962, “A revolução latino-americana”, fez uma análise audaciosa de que estava se abrindo um novo movimento nacionalista democrático antiimperialista no continente. Compreendeu que era preciso incorporar a guerrilha como uma forma de luta revolucionária não prevista no Programa de Transição, como resultado das mudanças operadas em escala mundial com os fenômenos do pós-guerra e, concretamente, o peso da luta campesina na China, a mesma luta campesina que novamente se expressou na revolução cubana.

Foi assim, também, que nossa corrente reivindicou a luta armada e fez uma experiência prática concreta dessa política apoiando a luta campesina de ocupação de terras, dirigida por Hugo Blanco, que assumiu a forma de uma milícia camponesa. Dessa forma, soubemos distinguir do foquismo os processos de guerrilha que podiam unir-se ao movimento das massas campesinas.

Precisamente por isso, também desde o primeiro momento, apoiou-se a guerrilha sandinista. Dois ou três anos antes do triunfo, em fins de 79, nossa corrente, que tinha seu centro na Colômbia, onde havia se formado o PST (Partido Socialista dos Trabalhadores), chamava à derrubada de Somoza e à tomada do poder pela FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional). Tendo por base essa política, formou-se a brigada Simón Bolívar, que recrutou mais de mil combatentes internacionalistas a combaterem na Nicarágua, usando a experiência das brigadas internacionais durante a Guerra Civil Espanhola.

Um marxista aberto

Moreno não fez do marxismo e das análises de Trotsky um dogma. Sempre agiu com a idéia que o marxismo é, antes de mais nada, um movimento social que luta pela revolução e que sua teoria é uma ferramenta para essa ação revolucionária. Considerava a teoria marxista uma ciência aberta, de aí vinha sua obsessão por estudar os novos fenômenos do pós-guerra. Moreno, que se considerava – e de fato era – um trotskista ortodoxo, foi também autor de muitíssimas revisões da obra de Trotsky. Apontou as limitações que tinha a formulação da Teoria da Revolução Permanente, incorporando as revoluções não previstas do pós-guerra, nas quais o sujeito social não fora a classe trabalhadora. Atualizou o Programa de Transição, que estava centrado precisamente na luta das classes trabalhadores das metrópoles e não dava resposta suficiente às tarefas antiimperialistas e democráticas, que foram o eixo das revoluções do pós-guerra e abrangeram, principalmente, os países dependentes e semi coloniais.

Esse marxismo aberto fazia que fosse autocrítico frente a sua própria história política. Por muitos anos, contava a história de nosso movimento tendo por base não seus acertos, mas sim os desvios que sofrera.. Primeiro o desvio sectário, com o peronismo; depois o obreirista, o movimentista…

A paixão pela formação política

A escola de Moreno era a de dar aos militantes muito tempo para a formação política. Não concebia um militante profissional que não se dedicasse, no mínimo, de duas a três horas diárias ao estudo dos clássicos e à leitura atenta dos jornais mais importantes da burguesia. Lutava sempre contra a tendência ao militantismo, e era um verdadeiro mestre para dar e preparar cursos de formação e escolas de quadros. Estas escolas e seminários eram parte central, periódica, da atividade política da corrente, nas épocas de legalidade ou sob as ditaduras. Sob o regime militar de Onganía, promoveu um seminário de 15 dias, com cerca de 20 militantes, alguns dos quais eram peruanos, praticamente encerrados em uma casa, da qual só se podia sair à noite, por turnos, estudando e discutindo a lógica de Hegel. É também memorável uma escola de quadros no porão de uma quitanda, em Mar del Plata, da qual, também, só se saía à noite para um mergulho no mar.

Dessa forma, se combinavam uma boa formação teórica dos quadros, que transmitia muita segurança, e uma boa armação política, não para ser mais eruditos em marxismo, mas para usar essa ferramenta política e, fundamentalmente, para ter uma grande flexibilidade tática, para aproveitar as oportunidades políticas.

Seus últimos anos

A partir de 1980, mas especialmente a partir de 1982, entramos em um período extremamente contraditório. Do ponto de vista da construção do partido, houve avanços enormes na Argentina e no Brasil. Ao mesmo tempo, foram elaboradas várias teses que resultaram parciais ou equivocadas.

Após o exílio na Colômbia, onde havia se construído um importante partido a partir da adesão de um expressivo grupo militante denominado Bloco Socialista, Moreno retornou à Argentina, quando então ocorria a queda da ditadura. Graças ao acerto de utilizar antes que qualquer outro a etapa da legalidade que se abria, foi possível construir o MAS, que alcançou importantíssima influência na vanguarda e conseguiu tocar de leve a influência de massas. O MAS formou-se também porque, no duro período da ditadura argentina, nosso partido, o PST (Partido Socialista dos Trabalhadores), como resultado de sua política de estar junto à classe trabalhadora e a seu temperamento e moral partidária, soube como resistir à repressão e conservar uma corrente que tinha entre 500 e 800 militantes no país.

Quando houve a guerra das Malvinas, soubemos nos colocar no campo militar da ditadura. E, quando caiu a ditadura e abriu-se uma nova etapa democrática para as massas, Moreno dirigiu o partido audaciosamente, para criar um novo movimento político socialista. Os 500, ou talvez um pouco mais, militantes saíram para abrir 500 sedes, praticamente uma sede por militante!, para explorar ao máximo a construção de um novo movimento socialista e participar das eleições. Apesar de não nos havermos unido a outras forças ou correntes para fazer um movimento socialista e não termos obtido um resultado eleitoral significativo, esta política permitiu captar milhares de militantes e enraizar o partido sob o nome de Movimento ao Socialismo, nos principais bairros e em grande parte das estruturas dos trabalhadores da Grande Buenos Aires e em outras importantes cidades.

Algumas generalizações que não coincidem com a realidade

No campo da elaboração política foi onde se apresentaram as contradições. Moreno, que, como dizíamos, era um marxista aberto e apaixonado por estudar a realidade concreta para poder intervir nela, tomou de forma unilateral algumas características da situação mundial para generalizá-las sob a definição de situação revolucionária mundial. Também, a partir da queda da ditadura na Argentina, generalizou que a revolução democrática era uma fase da revolução socialista. Visto de hoje, após vinte anos, quando já é bem mais fácil observar a realidade como parte do passado e não como um presente ou um prognóstico, resultaram ser generalizações unilaterais e equivocadas.

Foram teses que a equipe de direção que prosseguiu após sua morte, não só não soube corrigir a tempo, mas as exagerou. E, dessa forma, nos desarmaram frente à realidade. Em certa medida, foram transformadas quase que em princípios, sem seguir os conselhos do próprio Moreno, que sempre insistia que a realidade é mais rica que qualquer esquema teórico e que, de acordo com esta idéia, era um crítico rigoroso e não dogmático de todos nossos mestres e de suas próprias idéias.

Com o compromisso que iremos desenvolver ainda mais estes temas, e com o objetivo de melhor nos municiarmos para intervir na nova realidade mundial e de nosso continente, é que nos referimos brevemente a três teses que a equipe diretiva do MES, agora corrente interna do P-Sol, e as organizações da Luta Continua, do Peru; UnioS, do México; o MPU, do Panamá, e companheiros do Chile com quem editamos a Revista Movimento, reformulamos já há algum tempo.

* A situação revolucionária mundial. A partir do incontestável fato da fragilização dos Estados Unidos com a derrota do Vietnã, das crises econômicas abertas nos anos 70 e a debilitação do aparelho burocrático do stalinismo, no ano 80 e, mais precisamente, quando ocorreu a tentativa fracassada de unificação com a corrente trotskista de Lambert, foi construída a tese de situação revolucionária mundial. A mesma, definia-se afirmando que havia condições para que explodissem revoluções no mundo. Moreno fundamentava nossa tese na definição de situação revolucionária de Lenin, formulada em 1915. Acreditamos que fez-se uma falsa analogia com aquela situação. Lenin falava concretamente da situação revolucionária na Europa, em meio a uma guerra mundial que havia provocado o enfrentamento dos imperialismos europeus entre si e que, de fato, havia provocado uma quebra da ordem mundial, que se sustentava nestes. Efetivamente, foi uma situação que desencadeou a revolução na Rússia e em vários países da Europa. Não era essa a situação que vivíamos em 1980. O golpe do Vietnã foi enorme, mas pôde ser absorvido, não deslocou a dominação mundial. (Nixon fez um pacto com a China para começar a estabilizar o Leste da Ásia).

Por outro lado, se exagerava o caráter objetivo da definição leninista, ao falar de revoluções socialistas inconscientes. Se bem a definição leninista, diferentemente da de Trotsky, não incluía como condição o partido revolucionário – e isto foi corroborado pela realidade das revoluções pós-guerra que se realizaram sem partido revolucionário -, Lenin nem por isso desprezava o papel da consciência das massas nas revoluções. Ao contrário, uma das condições observadas por Lenin era também “a disposição revolucionária do proletariado e das massas, que na situação revolucionária se decidiam a romper e rebelar-se contra a ordem social existente para buscar o novo”..

* A frente contra-revolucionária mundial. Um elemento que completava a caracterização mundial era a existência de uma frente contra-revolucionária, da qual faziam parte todas as direções não operárias ou revolucionárias, ou seja, pequeno-burguesas, especialmente o castrismo, o sandinismo, etc., mas que abarcavam praticamente todas as direções, em todos os países. Esta formulação deve-se ao papel efetivo de freio à revolução centro-americana que desempenhou o pacto de Contadora alentado por Fidel. Mas, generalizou-se teoricamente como se fosse uma frente permanente que atuava em todos os lugares, perdendo de vista as contradições que a própria realidade abria e abre em diferentes conjunturas e regiões, como estamos vendo agora no Oriente Médio, onde direções como o Hezbollah ou Hamas desempenham um papel imensamente progressista. O mesmo acontece na América Latina. Dessa forma, colocou-se o problema da direção como a trava absoluta para o avanço da revolução, deixando de lado fatores objetivos e a ação destes sobre o nível de consciência das massas.

* Revoluções democráticas que fazem parte da revolução socialista. Quando caiu a ditadura argentina, graças à mobilização popular provocada pela traição dos militares na Guerra das Malvinas, Moreno corretamente definiu que havia sido uma derrocada revolucionária do regime político. Desta forma, retomou-se a caracterização acertada das revoluções que mudam os regimes políticos e que ocorreram na luta de classes mundial. Entretanto, a realidade foi forçada ao dizer que essa revolução era uma etapa ou, melhor dito, uma fase da revolução socialista e que, portanto, abria à revolução socialista. Essa dinâmica interrompida de que falávamos naqueles tempos estava evidentemente vinculada à definição da situação revolucionária mundial utilizada na época.

Estas caracterizações começaram a se chocar com a realidade ainda quando Moreno vivia, mas não conseguiram ser corrigidas por ele, nem reformuladas após a sua morte. No final de sua vida, ele já percebia que na Argentina nosso prognóstico começava a se chocar com mediações importantes. Se bem as greves gerais contra o governo radical se sucediam, fortalecia-se como alternativa de poder ao peronismo, que voltava ao governo na província de Buenos Aires. Dizia, por exemplo, que devíamos estudar mais Gramsci para compreender os remédios do “ocidente” da democracia burguesa.

Visto de agora, é evidente que a queda das ditadoras não abriu caminho ã revolução socialista, mas, ao contrário, a partir da consolidação do projeto neoliberal de Thatcher e Reagan, teve início um processo, não linear e com contradições – já que, por exemplo, tivemos o Caracaço -, mas que teve por resultado geral uma década de domínio dos governos neoliberais em nosso continente.

Moreno começou a ver a direção direitista do reaganismo e as conseqüências que poderia ter para os Estados Operários. Definiu corretamente que a crise econômica mundial desencadeava uma contra-revolução econômica permanente, ou seja, uma ofensiva sobre as massas que foi avançando e provocando derrotas importantes. Visto de agora, é evidente que não se percebeu em profundidade a correlação de forças que significaram Thatcher e Reagan, a derrota da greve mineira na Inglaterra e dos controladores aéreos nos Estados Unidos.

Moreno também se perguntava se na ex-URSS e nos países do Leste a burocracia já não havia solapado, de um ponto de vista qualitativo, as conquistas da expropriação da burguesia. Em relação aos estados operários, nossa corrente se sustentava na caracterização de Moreno de que nesses países a revolução política teria duas fases. Uma democrática, de todo o povo pela democracia, e outra socialista hegemonizada pela classe operária, que retomaria o processo de transição. Era um prognóstico correto sobre a base do que havia sucedido com as revoluções políticas até a revolução polonesa de Solidarnosc, mas que não se repetiu nos anos 89-90. As revoluções democráticas nos países do Leste – que aconteceram – não levaram a novos Outubros, mas, ao contrário, o processo culminou com a restauração capitalista. O último movimento revolucionário que ocorreu sob os moldes da revolução política prevista por Trotsky foi a polonesa de Solidarnosc. E foi derrotada.

Em um sentido, com suas últimas caracterizações, Moreno olhou “longe demais”. Viu importantes elementos do futuro que se delineavam, mas não se concentravam na realidade presente daquele momento. Teve a intuição acertada que o stalinismo estava acabando, e que isso mudaria o mundo, dando início a uma nova época. Este processo demorou e, ao final, aconteceu; mas não sincronizado com uma situação revolucionária mundial. A realidade, mais uma vez, foi diferente do esquema teórico.. A derrota do stalinismo, que significou o fim do aparelho “mais contra-revolucionário surgido das filas do movimento operário que deu a história”, como dizia Moreno, e que caiu devido à ação democrática das massas, não levou às revoluções que esperávamos nesses países.

Entretanto, o capitalismo não pôde ganhar com elas e resolver sua crise estrutural iniciada no anos 70. E o fim da Yalta acabou por complicar sua dominação. A ofensiva neoliberal não solucionou a crise estrutural do capital e começou a esgotar-se em fins de 90. Vivemos agora um período onde se exacerbaram todas as contradições, onde se aguça a polarização social e política. A hegemonia americana que recorreu à guerra do Iraque para evitar sua decadência, sofreu um duro golpe nessa guerra. Na América Latina, com as grandes insurreições, emergiu um pujante movimento nacionalista pequeno-burguês que levantou, inclusive, a discussão do socialismo do Século XXI. O P-Sol transformou-se numa realidade no Brasil, e setores revolucionários e organizações trotskistas que formávamos parte de diferentes tradições, desempenhamos agora um papel importante na construção de alternativas anticapitalistas. Neste momento, temos enormes possibilidades de diálogo com setores do movimento de massas. O espaço político está bastante aberto, já que tudo isto acontece em uma etapa em que o stalinismo, como aparelho mundial, já não existe.

Não temos dúvidas que Moreno teria sido uma peça importante para nos municiar a respeito dos novos fatos e dos novos desafios, que temos que construir alternativas revolucionárias de influência de massas. É uma tarefa que ficou em mãos de um esforço mais coletivo. E para isto, as ferramentas que deixou Moreno são enormes contribuições que devemos utilizar.

 

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