O Fenômeno Bernie Sanders

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Gustavo Capela – Doutorando em Direito pela Universidade de Brasília da corrente Barulho/PSOL. 

Bernie Sanders é um fenômeno. E, por isso, precisa ser entendido a luz do que se entende por fenômeno. Fenômeno é uma conjugação de fatores, situações e contextos que se apresentam a nós factualmente. Eles precisam ser interpretados, portanto, tendo em vista todos esses aspectos, para que não incorremos no erro crasso de individualizar ou personalizar o que acontece enquanto fato social.

Já se foi quase todo período de primárias nos Estados Unidos. O processo de escolha do/a candidato/a que representará o partido Democrata nas eleições “gerais” para Presidente dos Estados Unidos terminará no dia 14 de Junho, no Distrito de Washington – a capital – que será o último local a votar. E é surpreendente, inesperado e incrível que o velhinho socialista de Vermont continua no páreo. Inclusive, com reais chances de criar um sério problema para os Lobos de Wall Street. Como dissemos, para entender Bernie Sanders nos Estados Unidos da América, é preciso entender mais que a pessoa, mais que o indivíduo que carrega o nome. É preciso entender todo um processo social, suas contradições, seu contexto e, sobretudo, a indignação coletiva que ampara, que apoia, que fundamenta toda a campanha.

Por mais que alguns não acreditem, os Estados Unidos da América é um projeto em disputa. Seu povo não é monolítico e nem foi vencido ou derrotado pelos engodos do capitalismo. Lá, como aqui, pessoas são pessoas[1] e, por isso, sentem dores, mudam de opinião, são parte do que faz e refaz a história. Tanto isso é verdade, que essa característica é reconhecida pelo Estado “americano”[2]. A repressão à ideologia socialista, assim como à que defendia o anarquismo e, claro, às ideias comunistas é de longa data, com forte atuação do estado nos atos de sindicatos e partidos que se associavam à teoria socialista. Não é no macarthismo que tal processo se inicia, apesar de ser ali que a repressão se potencializou, até pelo contexto da guerra fria.  Até por isso, somos levados a esquecer que, em determinado momento, devido à intensificação do aparelho repressivo na Europa, a localização da 1ª internacional comunista foi Nova Iorque.

A história do socialismo nos Estados Unidos é, portanto, uma história real, porém apagada. Não só pelo apoio minoritário que, historicamente, essa ideologia teve, de fato, naquele país, como também pela pedagogia capitalista que, sendo uma esfera de poder, elabora discursos e verdades que ocultam acontecimentos históricos. A verdade é que a educação, como aponta Bourdieu, serve para embutir nos indivíduos certos maneirismos, certas atitudes e certas formas de pensar que dificultam a apreensão mais precisa da gênese que nos constitui. Afinal, somos fruto de uma imensa quantidade de conflitos. Conflitos que se internalizam e nos contraditam diariamente. É a síntese de um sujeito reflexivo. No entanto, somos treinados a acreditar numa simplificação degenerada que culmina na “história dos vencedores”. Sem, contudo, captar todo o processo de disputa que ainda persiste na sociedade. Parece óbvio, mas é importante relembrar isso.

Eu morei nos Estados Unidos e em locais próximos, onde este país exerce bastante influência, na minha infância e adolescência.  Sou testemunha de um modelo de ensino que conta histórias, geografias e línguas com um viés específico, sempre voltado para legitimar e confirmar a existência do império. E de tudo que lhe acompanha. Esse discurso é tão forte que não é a toa que sempre existem milhares de jovens dispostos a se jogarem na frente de baionetas, aguardando redenção no juízo final. Ou o heroísmo patriótico em casa. O que for mais desejável. Não é à toa, também, que há todo um contingente de jovens nos Estados Unidos que, aos 23/24 anos de idade já são veteranos de Guerra. Um contingente incompreensível para nossa realidade brasileira.

A história dos Estados Unidos, portanto, é uma história de conflitos. Seja para fora, seja para dentro. Desde pelo menos 1776[3], as ideias socialistas eram discutidas nas colônias do norte da América, onde o experimentalismo e a liberdade de associação imperava. É importante lembrar, inclusive, o contexto daqueles colonos que, em sua maioria, saíram refugiados da Inglaterra e outros países buscando liberdade religiosa. Cada colônia, portanto, possuía uma religião predominante, perpassando, em geral, a ideia de liberdade de crença. O primeiro sonho americano era esse, portanto: o sonho de liberdade de crença. Esse sonho se ampara em alguns princípios básicos que, a meu ver, ainda predominam numa espécie de inconsciente coletivo estadunidense: há, ali, fortes tendências comunitárias, onde a associação entre “iguais” faz parte dos projetos individuais de cada cidadão.  Não é por acaso que o viés coletivista se consolidou, desde o princípio, nas colônias. A participação e a união de desejos em prol de um bem comum faz parte de uma ideologia bastante consolidada nos EUA. É a ideologia contratualista em sua mais forte existência. Os Estados Unidos se libertou da Inglaterra, lembremos, com um discurso que lembra os limites ao poder impostos às democracias no Ocidente: “No taxation without representation”, eles diziam. Não se pode tributar um povo sem que ele tenha representação no congresso, sem que haja representação democrática, sem que se participe da decisão. É evidente que naquele contexto a “participação” se dava de forma diferente da que entendemos agora, mas é um fato que esse fato social permanece no imaginário social estadunidense – vide o fato de que o nome do Partido de extrema Direita que hoje se organiza dentro do Partido Republicano faz homenagem a esse momento revolucionário das colônias estadunidenses – o Tea Party

Essa, dentre outras perspectivas, traz à tona algumas das peculiaridades da fundação do Estado “americano” que são importantes para entendermos o contexto histórico e social. Lá, a ideologia por trás do Estado envolve a concepção que ele (o Estado) é fundado pela união de esforços da coletividade. Porque, veja, a estrutura burocrática de cada uma das colônias foi produzida pela comunidade e pela vivência específica de cada uma delas, tornando a União num centro de discussões entre projetos e experiências diversificadas. Não por outra razão, o federalismo como nós conhecemos, tem origem ali. E nessa ideia central de que cada estado deve servir como laboratório experimental para a democracia. É aí que também podemos entender dois aspectos importantes para a ideologia e expectativas sociais estadunidenses: 1) para eles, a União, ou o Governo Central estadunidense –  é uma conjunção entre diferentes, uma tensão entre posições heterogêneas, um ponto de unidade, apesar da diversidade; 2) na visão hegemônica, o Estado só pode intervir em instâncias muito específicas, já que os cidadãos, conjuntamente, conseguem resolver a grande maioria dos problemas.

Apesar de conseguirmos localizar com precisão a raiz capitalista das ideologias supracitadas, elas também são fonte de um dos aspectos em que a sociedade estadunidense tem força na resistência e na disputa real por alternativas, ao meu ver. Em primeiro lugar, porque compreende, fortemente, a tensão entre igualdade e liberdade, o que é fundamental a um projeto de emancipação moderno e não burocrático; e em segundo lugar porque consolida na costura social a ideia de que cidadãos conjuntamente têm o poder. E que são eles que dão origem ao poder estatal. Não é por acaso que Thoureau, Martin Luther King, Malcom X, Angela Davis as Panteras Negras reivindicavam essa coletividade como parte fundante da luta das pessoas contra a força do Estado.

A campanha de Bernie Sanders bebe nesse conglomerado de resistências. Após o colapso do mercado financeiro, milhões de pessoas perderam suas casas e centenas de milhares se encontram sem rumo profissional. Crise econômica, óbvio, mas crise societária sobretudo. Nos Estados Unidos, mentir é uma coisa muito mal vista. Basta lembrar que Bill Clinton quase perdeu seu cargo por mentir sobre um caso amoroso fora do casamento. A indignação estadunidense, portanto, além de seu viés material, possui caráter moral. Eles foram enganados pelos bancos, pelo governo e pela jogatina financeira que os enxergava como meros números, não pessoas. Não é por acaso que, hoje, os candidatos que mais polarizam o cenário político nos EUA são Bernie Sanders e Donald Trump. Apesar de muito diferentes (tanto em ideias quanto em história de vida), ambos se amparam na indignação generalizada. Enquanto Trump apela mais para a raiva e o ódio, Sanders apela mais para a vontade e o desejo de mudança. Mudança que, como ele próprio diz, precisa ser de todo o sistema, de toda a estrutura política dos Estados Unidos.

Ele não reproduz gritos de ordem antiquados, nem tenta fazer cena para uma esquerda auto proclamatória. Bernie Sanders vai ao ponto. Ele exige, como aconteceu nas colônias, representação real do povo nas instâncias decisórias. Ele exige as rédeas de volta. Ele demanda uma política afeita a ideias e longe dos interesses privados dos mais poderosos. Ele ecoa as palavras dos movimentos mundo afora que, radicalmente, exigiam uma democracia dos 99% que, via de regra, produzem e não dos 1%, que exploram.

No fim das contas, por mais incrível que pareça, o avanço do Bernie não é o avanço de um “partido”, num sentido mais próximo do que é o modelo tradicional para a esquerda. Ele é o avanço de um movimento, ainda meio solto, mas unido pela clareza de uma mensagem brutal que requer poder. A mensagem de Bernie Sanders invoca uma retomada do Poder. E, olhem que curioso, é um poder que se constrói numa linha anti-burocrática, num sentimento anti-establishment, que muitas vezes se descamba para a anti-política.  E isso está em total consonância com a realidade atual dos Estados Unidos, o que é essencial. Lembrem-se que, até pouco tempo atrás, a comunidade negra viveu momentos de extrema brutalidade policial e de consequentes ataques racistas às suas vidas. O racismo institucionalizado nos Estados Unidos é mais uma razão para a descrença, cada vez mais aguda, das pessoas nas instituições burguesas. O movimento Black Lives Matter tem sido citado por Sanders e por inúmeros ativistas anti-racistas conhecidos nos Estados Unidos pela proximidade com um projeto mais amplo de mudança social. Killer Mike e Cornell West, ativistas e intelectuais da causa, tem dito a todo momento que Bernie Sanders representa o projeto político cuja origem e último a defender foi Martin Luther King Jr.

A grande proeza de Sanders é que ele consegue – através de propostas concretas para problemas concretos – dar solução aos desiludidos. E pela esquerda. Ao invés de dizer e bradar que o povo é capitalista e reacionário, ou se preocupar em construir organização x ou y, ele aglomera pessoas em torno de um sentimento que se canaliza na ideia dos 99%. É uma capacidade muito incrível de compreender o que acontece nos EUA para decifrar e – assim – produzir a mensagem.

Porque é curioso como as eleições nos EUA trazem a tona, talvez, um socialista muito mais convicto do que alguns esquerdistas que existem em outros cantos do mundo. Ele não fica reivindicando a carteira radical a ninguém, não mobiliza símbolos caros a esquerda o tempo todo, ele vai direto ao ponto, ao concreto. E quando dá respostas aos problemas, cita o que toda pessoa de esquerda entende, sem perder a capacidade de dialogar.

As chances dele vencer são pequenas. Mas não porque sua capacidade de mobilização é reduzida. Ele, hoje, arrecada mais dinheiro do que qualquer outro candidato, apesar de não aceitar um centavo de grandes empresas. Em média, as doações que lhe são dadas giram em torno de 27 dólares por pessoa, o que é incrível. Sua derrota muito provavelmente se dará pela recusa da democracia liberal em permitir um projeto tão antagônico à calmaria, à mansidão, e à naturalização do capitalismo como o de Sanders. Como ele mesmo diz, nem o melhor Presidente da história da humanidade conseguirá fazer as mudanças que ele propõe (taxação elevada das grandes fortunas, penalização do sistema bancário pela crise de 2008, gratuidade e universalidade de ensino e saúde, redução do intervencionismo imperialista, recrudescimento da CIA e sua espionagem, dentre outras coisas mais). Segundo Sanders, ele precisará de uma cidadania mais presente, mais ativa, mais persistente, que pressione as instâncias institucionais e dê nova funcionalidade ao poder popular.

Claro que Sanders não é Lenin. Não poderia ser. Tampouco podemos dizer que ele é um “radical” no sentido marxista da palavra. Sanders é um “socialista democrático”, como ele mesmo se denomina. Mas, em tempos sombrios e de falta de alternativas, ele tem sido um alento para nós, já que disputa as narrativas e enfrenta as ideologias concretizadas com bastante eficiência. É um candidato com mais de 73 anos que mobiliza os jovens e que tenta reerguer uma coletividade combativa, crítica e atenta aos acontecimentos que a rodeia.

Por fim, não poderia deixar de dizer que eu realmente acredito que Marx não errou quando disse que a revolução internacional contra o capitalismo tem uma de suas maiores potências justamente no centro. A consolidação e o aumento progressivo da repressão naquele país se deve à enorme possibilidade de mudança que ali existe, ao meu ver.

[1] http://brasilem5.org/2016/03/25/o-medo-e-o-fracasso-da-esquerda/

[2] Passarei a usar o termo “estadunidense” de agora em diante, por ter sido ensinado por Galeano que “americanos” somos todos nós, da América.

[3] HEATH, F.F Social Democracy Red Book: A Brief History of Socialism in America Debs Publishing Company, 1900.

 

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