PORTUGUÊS

Pierre Rousset

Tradução: Charles Rosa

Jogada atrás de jogada vão sendo colocadas as peças do grande jogo de Go [jogo de estratégia de origem chinesa] no leste da Ásia. Quem rodeia a quem? Deslocando sua força naval, Pequim tomou posse de arquipélagos ou recifes reivindicados por outros países ribeirinhos e afirma sua presença muito avançada para além de sua esfera imediata. A superpotencia estadunidense consolida suas alianzças, antigas (Filipinas) ou novas (Vietnã), em torno do chamado mar do Sul da China, no oceano /1. Não muito longe de suas costas, no próprio centro do “tabuleiro” – esse goban no qual os jogadores colocam suas peças – , o controle do regime chinês sobre o território taiwanês se vê ameaçado desde que alguns “separatistas” levantaram a voz em Hong Kong. A partida entre China e Estados Unidos segue indefinidamente, porém mês após mês muda a disposição do jogo, às vezes de modo significativo, como ocorre agora no estreito de Formosa /2.

Tsai em Taiwan

Pela primeira vez, o Kuomintang (KMT) perdeu as eleições presidenciais e legislativas em benefício do Partido Progressista Democrático (DPP), alçando Tasi Ing-Wen na presidência. É um golpe duro para Pequim. Durante muito tempo, o KMT, o partido da contrarrevolução chinesa, foi o inimigo declarado do Partido Comunista Chinês (PCC). Depois da morte de Mao Zedong e de Chiang Kai-chek (presidente-ditador vitalício de Taiwan) e o ressurgimento de uma burguesia na China continental, foi forjada uma aliança entre burocratas capitalistas, graças à qual Pequim se assegurou uma grande influência sobre a ilha. A vitória de Tsai expressa o rechaço a essa tutela. Agora se denuncia oficialmente o “terror branco” exercido durante muito tempo contra a população autóctone por parte do regime “imigrado” do KMT/2.

A nova presidenta não fez seu o “consenso de 1992”, segundo o qual não deve haver mais que uma única China (dividida), que cada governo pretendia representar em sua totalidade. Dada a aproximação entre o KMT e o PCC, este consenso anunciava, aos olhos de numerosos taiwaneses, uma reunificação vantajosa para Pequim. Em outras palavras, as eleições de 16 de maio anuncia a opção de “uma China – um Taiwan”, que é inaceitável para o PCC. Este, a modo de advertência, lançou no sudeste do país algumas manobras militares, rompendo a trégua diplomática ao estabelecer com a Gâmbia relações diplomáticas exclusivas.

Obama no Vietnã

Quarenta e um anos depois da vitória vietnamita em 1975, conclui um lento e tardio processo de normalização das relações entre Washington e Hanói. Sob o pretexto de uma visita de quatro dias, iniciada em 22 de maio, Barack Obama anunciou o levantamento do embargo estadunidense sobre a venda de armas ao Vietnã. O embargo econômico foi retirado em 1994 e as relações diplomáticas foram restabelecidas em 1995. Resulta que o Vietnã é o único país do sudeste asiático que se opõe “fisicamente” à intenção de Pequim de se apoderar dos arquipélagos Spratley e Paracelso, uma confrontação desde sempre desigual na qual seus navios correm o perigo de sofrer algum percalço “infeliz”.

Hong Kong, Filipinas

Em Hong Kong, a liquidação da “revolta dos guarda-chuvas” abriu um espaço que hoje por hoje trata de ocupar a direita que se nutre especialmente do rechaço por uma parte da população local dos imigrantes vindos do continente. Posto que Hong Kong é uma peça crucial da integração da economia chinesa no mundo “globalizado”, Pequim não tolerará a expressão de nenhum tipo de separatismo, o que introduz um fator de crise na gestão deste diminuto território.

Em Filipinas, o novo presidente, Rodrigo Duterte, anunciou que a ocupação do recife de Scarborough, frente à ilha de Palawan, pelo exército chinês seria produzir um casus belli. Ao mesmo tempo em que defende o princípio de um Estado federal no arquipélago filipino, é um fervoroso nacionalista e provavelmente praticará nesta questão uma diplomacia agressiva. A presença dos EUA em sua ex-colônia está muito arraigada, tanto no plano econômico quanto no plano geopolítico (utilização do arquipélago pela VII Frota, bases de vigilância eletrônica…). Duterte provém de um clã político geograficamente marginal em comparação com as “grandes famílias” que controlam tradicionalmente a política filipina. Sua eleição foi uma surpresa imprevista. Washington, portanto, tem que lidar agora com um presidente recém-eleito, ainda que não desconhecido, já que os serviços especiais estadunidenses estão muito presentes em Mindanao (de onde provém Duterte) e já tiveram a oportunidade de colaborar com ele…

Em conjunto, a situação segue sendo a mesma: politicamente, Washington não pode expulsar o exército chinês das ilhotas que ocupa, porém Pequim não pode impedir que a VII Frota circule por águas que considera de sua exclusiva soberania. Neste contexto de alta tensão, no entanto, não é estranho que se produzam interferencias entre aviões de combate e navios de guerra, com o risco que comportam de um acidente cujas consequências são difíceis de prever. Ademais, aparecem novos “pontos quentes”. A escalada de tensões prossegue, jogada atrás de jogada de go.

24/05/2016

1/ Ver https://www.vientosur.info/?article10996, onde se mostram varios mapas dos lugares em litígio neste mar.

2/ Formosa é o antigo nome de Taiwan. O estreito de Formosa separa esta ilha das costas da China continental. Mede 130 km de largura em sua parte mais estreita.

3/ Depois da vitória da revolução maoísta de 1949, o KMT se refugiou em Formosa com armas, bagagens e famílias, um total de dois milhões de continentais.

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CASTELLANO

Pierre Rousset

Jugada tras jugada se van colocando las piezas del gran juego de Go [juego de estrategia de origen chino] en el este de Asia. ¿Quién rodea a quién? Desplegando su fuerza naval, Pekín ha tomado posesión de archipiélagos o arrecifes reivindicados por otros países ribereños y afirma su presencia bastante más allá de su esfera de influencia inmediata. La superpotencia estadounidense consolida sus alianzas, antiguas (Filipinas) o nuevas (Vietnam), en torno al llamado mar del Sur de China, en el océano Pacífico/1. No lejos de sus costas, en el centro mismo del “tablero” –ese goban en el que los jugadores colocan sus piezas–, el control del régimen chino sobre el territorio taiwanés se ve amenazado desde que unos “separatistas” llevan la voz cantante en Hong Kong. La partida entre China y EE UU va para largo, pero mes tras mes cambia la disposición del juego, a veces de modo significativo, como ocurre ahora en el estrecho de Formosa/2.

Tsai en Taiwán

Por primera vez, el Kuomintang (KMT) ha perdido las elecciones presidenciales y legislativas en beneficio del Partido Progresista Democrático (DPP), aupando a Tsai Ing-Wen a la presidencia. Es un golpe duro para Pekín. Durante mucho tiempo, el KMT, el partido de la contrarrevolución china, fue el enemigo declarado del Partido Comunista Chino (PCC). Tras la muerte de Mao Zedong y de Chiang Kai-chek (presidente-dictador vitalicio de Taiwán) y el resurgimiento de una burguesía en la China continental, se forjó una alianza entre burocracias capitalistas, gracias a la cual Pekín se aseguró una gran influencia sobre la isla. La victoria de Tsai expresa el rechazo de esta tutela. Ahora se denuncia oficialmente el “terror blanco” ejercido durante mucho tiempo contra la población autóctona por parte del régimen “inmigrado” del KMT/2.

La nueva presidenta no ha hecho suyo el “consenso de 1992”, según el cual no debe haber más que una única China (dividida), que cada gobierno pretendía representar en su totalidad. Dado el acercamiento entre el KMT y el PCC, este consenso anunciaba, a ojos de numerosos taiwaneses, una reunificación ventajosa para Pekín. Hilando fino, las elecciones del 16 de mayo anuncian la opción de “una China – un Taiwán”, que es inaceptable para el PCC. Este, a modo de advertencia, ha lanzado en el sudeste del país unas maniobras militares, rompiendo la tregua diplomática al establecer con Gambia relaciones diplomáticas exclusivas.

Obama en Vietnam

Cuarenta y un años después de la victoria vietnamita en 1975, concluye un lento y tardío proceso de normalización de las relaciones entre Washington y Hanoi. Con motivo de una visita de cuatro días, iniciada el 22 de mayo, Barack Obama ha anunciado el levantamiento del embargo estadounidense sobre la venta de armas a Vietnam. El embargo económico se retiró en 1994 y las relaciones diplomáticas se restablecieron en 1995. Resulta que Vietnam es el único país del sudeste asiático que se opone “físicamente” a la intención de Pekín de apoderarse de los archipiélagos Spratley y Paracelso, una confrontación desde siempre desigual en la que sus navíos de guerra corren el peligro de sufrir algún percance “desafortunado”.

Hongkong, Filipinas

En Hongkong, la liquidación de la “revuelta democrática de los paraguas” abrió un espacio que hoy por hoy trata de ocupar una derecha que se nutre especialmente del rechazo por una parte de la población local de los inmigrantes venidos del continente. Puesto que Hong Kong es una pieza crucial de la integración de la economía china en el mundo “globalizado”, Pekín no tolerará la expresión de ningún tipo de separatismo, lo que introduce un factor de crisis en la gestión de este diminuto territorio.

En Filipinas, el nuevo presidente, Rodrigo Duterte, ha anunciado que la ocupación del arrecife de Scarborough, frente a la isla de Palawan, por el ejército chino sería, de producirse, un casus belli. Al tiempo que defiende el principio de un Estado federal en el archipiélago filipino, es un ferviente nacionalista y probablemente practicará en esta cuestión una diplomacia agresiva. La presencia de EE UU en su ex colonia está muy arraigada, tanto en el plano económico como en el geopolítico (utilización del archipiélago por la VII Flota, bases de vigilancia electrónica…). Duterte proviene de un “clan político” geográficamente marginal en comparación con las “grandes familias” que controlan tradicionalmente la política filipina. Su elección ha sido una sorpresa del todo imprevista. Washington, por tanto, tiene que componérselas ahora con este presidente “advenedizo”, aunque no desconocido, ya que los servicios especiales estadounidenses están muy presentes en Mindanao (de donde procede Duterte) y han tenido oportunidad de colaborar con él…

En conjunto, la situación sigue siendo la misma: políticamente, Washington no puede expulsar al ejército chino de los islotes que ocupa, pero Pekín no puede impedir que la VII Flota circule por aguas que considera de su exclusiva soberanía. En este contexto de alta tensión, sin embargo, no es extraño que se produzcan interferencias entre aviones de combate y buques de guerra, con el riesgo que comportan de un accidente cuyas consecuencias son difíciles de prever. Además, aparecen nuevos “puntos calientes”. La escalada de la tensión prosigue, jugada de go tras jugada.

24/05/2016

http://www.europe-solidaire.org/spip.php?article38049

Notas:

1/ Véase https://www.vientosur.info/?article10996, donde se muestran varios mapas de los lugares en litigio en este mar.

2/ Formosa es el antiguo nombre de Taiwán. El estrecho de Formosa separa esta isla de las costas de China continental. Mide 130 km de ancho en su parte más estrecha.

3/ Tras la victoria de la revolución maoísta en 1949, el KMT se replegó en Formosa con armas, bagajes y familias, un total de dos millones de continentales.