Frederico Henriques

No dia seguinte da vitória de Bernie Sanders nas primárias do Oregon a mídia democrata tradicional Norte Americana, em especial o New York Times, questionava porque o candidato outsider não apoiava de uma vez a Hilary. Para eles, os Democratas perdiam tempo naquele processo e que a Hilary já deveria focar no enfrentamento do Republicano Trump. Por outro lado setores sectários de esquerda, desde o final do ano passado buscam alertar que o fenômeno Sanders irá “trair” o movimento e apoiar a candidata democrata. Apesar da esquerda mundial tentar de forma atenta analisar e descrever o este processo político e a construção de um programa que levantou a juventude norte-americana para apoiar a candidatura de Bernie Sanders nas primárias dos Estados Unidos, pouco tem se falado dos atores que movimentam este cenário e qual os objetivos colocados pelo senador nesta disputa.

Ainda em meados de 2015, quase sem candidatos democratas a concorrer as primárias norte-americanas o senador norte-americano se postulou para enfrentar Hillary Clinton. Estava certo que este processo seria um passeio, diferente da disputa acirrada dos Republicanos as primárias democratas seriam apenas para formalizar a postulação da candidata a presidência da república. Logo mesmo a candidatura de Sanders inicialmente teria dois objetivos, primeiro tentar pautar o debate a esquerda com o objetivo de forçar um programa mais progressista para a candidata Clinton, e por outro lado educar as novas gerações colocando na ordem do dia palavras que até anos atrás era considerada tabu, como o caso de socialismo. Claramente a manutenção de sua candidatura até o fim tem como objetivo avançar ao máximo nestes objetivos, ainda mais com o crescimento da candidatura e a necessidade de se expor com a pouca exposição que a mídia deu ao longo do processo.

O crescimento da candidatura sempre sofreu tentativas de serem sufocadas e acabar com a candidatura de Sanders o quanto antes , seja pelos  superdelegados, a mídia tradicional,  assim como a força do establishiment do partido, mas o apelo popular e o envolvimento de milhares de jovens e trabalhadores seguem dando força para a candidatura se manter até o final dessas prévias. A cada primária por que passa o projeto Sanders, o partido democrata tem se revelado oligarca e antidemocrático com pouco espaço para uma candidatura por fora da direção. As dificuldades encontradas nessa reta final, junto com a consolidação do cenário de derrota a partir das manobras da elite democrata e dos superdelegados, estão fazendo com que o futuro o movimento seja colocado em xeque. Já existe um certo consenso que é muito provável que Bernie não lance uma candidatura independente e apoie a democrata contra Trump, mas longe de significar uma traição, algo que ele já anunciou desde o início, significa um voto contra este projeto proto-facista que também já criou nas ruas um movimento de enfrentamento a ele, a partir da intervenção em suas aparições públicas.

Com este cenário político, muitos ativistas e militantes passaram a se questionar acerca de quais serão os novos passos para o movimento se transformar numa grande força política no país. Uma das iniciativas é a The People’s Summit, que irá ocorrer no dia 17 de junho, que apesar de ser uma proposta inicial promete se expandir.

Longe de ser um processo espontâneo no qual as pessoas e a juventude se aproximam, o movimento Sanders conta com diversos impulsionadores na sociedade americana. Nessa direção, são quatro setores que hoje tomam a frente desse movimento, a saber: sindicatos e federações de trabalhadores combativos; páginas de movimento de defesa da democracia e meio ambiente; pequenos partidos anticapitalistas, socialistas e sociais democratas; e páginas de apoio gerenciadas por apoiadores ativos e pequenos grupos independentes.

As grandes organizações do trabalho com a sua burocracia alinhada à cúpula democrata rapidamente, ainda em 2015, apoiaram Hillary Clinton, porém, o que ocorreu foi que a partir do final do ano passado, muitos sindicatos locais e regionais romperam com a sua liderança nacional e endossaram Bernie Sanders. Para além desse realinhamento local, vale a pena destacar alguns sindicatos e grandes federações que se deslocaram da família Clinton, especialmente em virtude das pautas do salário mínimo e das leis trabalhistas colando nas principais campanhas, como o salário mínimo de 15 dólares a hora. Entre os grupos financeiros, destacam-se United Food & Commercial Workers Union e a Communications Workers of America; já na organização, na militância e na política desponta a National Nurses United.

A tradição associativa norte-americana nas últimas décadas sempre empreendeu esforços para a construção de fundações, organizações não governamentais e associações. No último período, alguns sites tomaram um grande protagonismo a partir de espírito associativo e de pautas temáticas na ordem do dia. Na campanha do Sanders, eles também tomaram a dianteira, como é o caso do moveon.org, mobilizado pela pauta democrática; do grupo ambientalista 350.org; e da revista esquerdista jacobinmag.com.

A onda Sanders criou uma avalanche de iniciativas nas redes sociais e em páginas de internet de forma que artistas e jovens, em sua maioria, colocaram seu tempo e criatividade a serviço desse projeto. A projeção da campanha de forma descentralizada foi tamanha que muitos jovens transformaram-se em porta-vozes desse projeto. Nesse caso, uma das iniciativas mais importantes foi a The People For Bernie Sanders 2016. Um dos cofundadores dessa página, Charles Lenchner, além de impulsionador, é um dos idealizadores da “Plataforma do Povo”.

Por fim, é fundamental destacar o papel dos partidos de esquerda em geral. Durante toda a guerra fria, eles permaneceram na clandestinidade e, mesmo depois do fim da URSS, pouco puderam se projetar. Agora, com a campanha de Sanders, muitos viram a possibilidade de eles se projetarem e se reinventarem. Com isso, trotskistas, socialistas e sociais democratas se engajaram de forma contundente na expectativa do surgimento de um novo espaço político para se projetarem. Entre os partidos, vale destacar o Democratic Socialists of America e seu membro de honra, o professor de Princenton e ativista do movimento negro, Dr. Cornel West, que muitos analistas já consideram o sucessor de Bernie nesse projeto político.

O primeiro teste será ainda antes do fim das primárias, nos dias 20 a 22 de Maio acontecerá o tradicional Left Forum, que desde os inícios da década de oitenta busca reunir a esquerda e romper os muros do bipartidarismo. Além do tradicional debate sobre as guerras e o imperialismo, terá o debate sobre o movimento negro e Sanders sábado a noite e organização no domingo. A presença de Kshama Sawant, vereadora socialista e trotskista de Seatle, é uma importante amostra da nova toada do fórum.

Nesse cenário, essa riqueza de atores, assim como as visões de futuro, mostra que as estruturas estão se movimentando nos Estados Unidos e a política norte-americana irá mudar profundamente num futuro próximo. De fato, não se pode afirmar qual forma tomarão as novas iniciativas e as organizações que surgirão desse processo, mas, sem dúvida, é a partir dele que o futuro da história dos EUA e do mundo será traçado.