Os socialistas e a campanha Bernie Sanders

Leandro Fontes – membro da executiva do PSOL Carioca

Vivemos em tempos de polarização. Essa analise, mais do que uma afirmativa simplista, se baliza em fenômenos atuais da conjuntura que se por um lado os capitalistas, diante dos efeitos da crise econômica mundial, tentam retirar direitos trabalhistas para manter seus privilégios, por outro lado à classe trabalhadora, a juventude e o que podemos chamar de setores médios urbanos resistem a essa ofensiva. Paralelamente, ganha força alternativas políticas que se colocam ao lado dos(as) explorados(as) e oprimidos(as), que se posicionam de modo coerente e apresentam saídas democráticas, anticapitalistas e socialistas. É na essência desse contexto que se encaixa a campanha de massas Bernie Sanders nos EUA. Tema que iremos abordar, mais uma vez no Portal de la Izquierda, a partir dos ricos debates que estão em curso.

No dia 02 de maio, na Escola de Serviço Social da UFRJ (Praia Vermelha), ocorreu o evento: Eleições nos EUA, os socialistas e a campanha de Bernie Sanders, com a presença de Dan La Botz (militante socialista dos EUA, professor da Universidade Queen College e apoiador da campanha Sanders) e a socioeconomista Sandra Quintela. A atividade foi organizada pelos mandatos do PSOL/RJ – Renato Cinco (vereador) e Flavio Serafini (deputado estadual). O auditório da faculdade ficou lotado de estudantes e também contou com a entusiasmada equipe “Bernie Sanders Brasil” (uma página no facebook que divulga em português os passos da campanha Sanders). Uma comissão do Portal de la Izquierda esteve presente para saudar a iniciativa, acompanhar o debate e reproduzir o que podemos acumular no evento.

Abaixo apresentamos uma síntese da fala do companheiro Dan La Botz.

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Foto extraída de facebook.com/renatocinco

“Para descrever o momento político que vive os EUA: a campanha Sanders está sendo uma experiência extraordinária. Uma novidade em nossa experiência. Em minha vida e de todos os norte-americanos que estão vivos. Temos uma discussão e debates que por um lado está um candidato que se proclama socialista e de outro lado tem um candidato que é da ultradireita (Donald Trump). Então pela primeira vez desde os anos 30 nos EUA, temos debates sobre as alternativas políticas da sociedade moderna. Algo extraordinário.

Ironicamente foi a direita que abriu a discussão de socialismo nos EUA, quando acusou Obama de ser socialista por defender a reforma no sistema de saúde. Onde 30 milhões de norte-americanos não tem cobertura de planos de saúde.

As causas desse cenário:

  1. A crise econômica de 2008. Tivemos crises anteriores como a 75 e 80. Mas, a de 2008 nos mostra que a taxa de desemprego oficial chegou a 10%. Contudo, nós sabemos, como os economistas, que na verdade o desemprego é o dobro do que diz o governo. Ou seja, 20%. Esse quadro é ainda mais acentuado na comunidade negra e de imigrantes latinos.
  2. Occupy Wall Street. Movimento que sacudiu o centro financeiro mundial em NY. A palavra de ordem era: dinheiro fora da política e fim da desigualdade econômica. Esse movimento teve um impacto enorme, onde se debateu a diferença social e também estava presente a critica aos bancos e grandes corporações capitalistas. O Occupy se estendeu para outras cidades como Chicago, Los Angeles, Cincinnati e Ohio. É importante frisar que o desmonte do movimento Occupy foi coordenado diretamente pela Casa Branca, a partir da repressão e detenções de mais de 8 mil ativistas.
  3. Black Lives Matter (Vidas negras importam). Nos EUA, todos os dias, uma pessoa negra é assassinada pela policia. E em muitas das vezes não havia nenhum motivo para tal ato brutal. Apenas a justificativa por ser tratar de um ser humano negro. Então, com o assassinato de Michael Brown no Missouri em 2014, desencadeia um grande movimento de rua, grandes manifestações, contra o racismo e a violência policial.

A partir desse quadro os ativistas começaram a fazer a discussão do custo de vida, da educação, da saúde e de todos os problemas existente para a maioria do povo.

Essa é a conjuntura que se encontram as primárias eleitorais norte-americanas. Onde estão quatro candidatos, dois democratas e dois republicanos*.

Bernie Sanders, um dos quatro na disputa. ÉI um velho lutador dos direitos civis dos negros, lutou contra a guerra do Vietnã, contra as guerras de centro-américa, onde EUA interveio em Guatemala, Nicarágua, etc. Sanders se manteve como o único independente no congresso e no senado. E desde o inicio de sua militância, desde sua juventude, sempre se declarou como socialista. Isto é extremamente raro (para os padrões norte-americanos).

Quando eu era jovem (um exemplo), o FBI fazia batidas nas portas de escolas para intimidar e reprimir professores, pelo simples fato dos mesmos serem comunistas.

E agora pela primeira vez em mais de cinquenta anos temos a possibilidade de falar em socialismo. Pois, Bernie Sanders diz orgulhosamente, eu sou socialista democrata. E isso abre a discussão. Pode ser que ele não defenda o mesmo modelo de socialismo que você. Mas agora se pode debater, se pode discutir. Isto é algo novo no país.

O que seria o programa de Sanders? Não seria um programa revolucionário. Mas, é um programa progressivo que se apoia na defesa de direitos mais amplos para a maioria da população estadunidense. Tais como o direito a educação púbica e atendimento público de saúde para todos. Todos devem ter um salário de 15 dólares (como mínimo) por hora de trabalho.

[Composição social da campanha] A campanha animou parcelas gigantescas da juventude. É um verdadeiro exercito de jovens que estão na campanha de Sanders. Também há muitos sindicalistas e trabalhadores que apoiam Sanders.

O que é preciso entender:

A esquerda nos EUA, é muito pequena. Imagino que a esquerda organizada nos EUA não é mais que 10 mil pessoas. Como um todo são grupos dentro do partido Democrata, o Partido Comunista, os Socialistas Democratas de América e pequenos grupos em sua maioria trotskistas (…). Além disso, há uma vereadora de Seatle, Kshama Sawant, imigrante da Índia e professora, que pertence ao Socialist Alternatve. Cada organização com sua posição política. Umas estão dentro da campanha de Sanders e outras não.

Eu creio que nós da esquerda devemos olhar para o futuro em longo prazo. Temos que enxergar esse momento com atenção. Pois temos milhões de pessoas no país que adquiriram consciência política e que estão lutando por educação, saúde, salários dignos. Essas pessoas, os jovens e os sindicalistas, podem ser grandes ativistas sociais. Por isso, irá haver outro Occupy. Não igual ao anterior. Mas, o significado é: termos mais movimentos sociais. E nós (à esquerda), temos que está nesse movimento, ombro a ombro, debatendo que tipo de sociedade nós queremos.

Finalmente, para terminar, hoje existe algo que não havia nos EUA: o orgulho de apoiar um político. Sanders é uma coisa milagrosa nos EUA, pois podemos falar de socialismo e podemos defender um programa progressista. O socialismo de Bernie Sanders é bom no que está dizendo, mas não é suficiente. Somos a favor de coletivizar os bancos, coletivizar as corporações e colocar toda essa enorme economia capitalista nas mãos da maioria do povo do mundo. E quem pode fazer isso é a classe trabalhadora organizada. Nós queremos outra face de governo nos EUA e um novo mundo”.

(*) Nesta quarta-feira Trump, com a desistência de John Kasich, se tornou o único candidato republicano.  

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