Dançando no fio da navalha [VENEZUELA]

Carlos Carcione

O espaço para uma saída não-traumática à crise integral que vive a Venezuela se estreita. O jogo está nos acréscimos. E ainda que, por ora, siga travado, o desenlace se aproxima, e se a dinâmica da crise não for detida, será dramático.

A semana que acaba de concluir dois fatos ocorreram com horas de diferença. O primeiro: o acordo da delegação da Venezuela na OEA à proposta apresentada pela Argentina com o aval dos Estados Unidos, México, Honduras, Barbados e Peru, que a

bre um espaço para a negociação das cúpulas, postergando, por ora, a ingerência aberta que significaria a sanção da Carta Democrática.

O segundo: o surto violento de cidadãos desesperados em pleno centro de Caracas, em busca de alimentos que foram desviados dos comércios até a rede informal de distribuição do governo conhecida como CLAP, que ainda não funciona e que onde o faz é claramente insuficiente.

Duas fotografias de uma crise que não encontra limites. Que evolui em um cenário de hiperinflação aberta, desabastecimento agudo de remédios e alimentos e de incremento crescente da crispação social. Duas fotografias que unidas a outras imagens cotidianas, mostram o filme que leva, passo a passo, a uma crise humanitária que mesmo anunciada não será menos trágica.

O acordo que propõe o Conselho Permanente da OEA e que o governo venezuelano aceita, dificilmente ajude a solucionar a crise. Representa em todo caso, o oxigênio momentâneo para o governo do presidente Maduro e tempo para o desenvolvimento mais em profundidade da política de ingerência dos Estados Unidos e seus sócio continentais como Macri. Os três pontos que este diálogo, propõe às cúpulas políticas que disputam o poder e o manejo da renda no país, não ajudam nem em sua ordem de prioridades nem na credibilidade de seus protagonistas.

Nem ao PSUV-Governo nem à Assembleia-MUD preocupam os padecimentos da população. Por isso, o primeiro ponto de seu “diálogo” é a data de realização do Revogatório, o segundo a liberadade dos supostos presos políticos da direita e recém o terceiro a crise econômica, porém esta última encarada como pressão até uma saída abertamente neoliberal.

Num jogo macabro de encolhe e alarga, enquanto estas cúpulas se preparam para falar destes temas numa mesa que ainda não existe, seus principais porta-vozes tensionam ainda mais a situação com declarações irresponsáveis. Elevam o tom ameaçador do discurso em busca de culpados no outro bando e deixam desprotegido a um povo que está à beira da fome e do desespero.

As indignantes denúncias de supermercados repletos de mercadorias nas urbanizações dos milionários, ou as fotos de altos cargos do governo fazendo mercado de alimentos ou comprando remédios em Aruba e em dólares, somente agregam material combustível a um fogo que começou a se incendiar no centro de Caracas.

À crise de abastecimento em alimentos e remédios se soma a degradação dos serviços públicos elementares. Em populosas zonas do oeste de Caracas, o corte de água se anuncia de 82 horas contínuas semanais para os que têm melhor sorte. Entretanto algumas urbanizações levam até 15 dias contínuos sem água. Enquanto nos estados do interior do país, mais desprotegidos e abandonados que o distrito Capital, os cortes de energia elétrica alcançam em alguns deles as 8 horas diárias. A água chega muito de vez em quando e até o serviço de comunicações está colapsado.

Dezenas de protestos recorrem o país diariamente, ocultadas pela mídia pública e privada, num afã de inviabilizar o delgado limite que separa a situação conflitiva atual, da explosão social generalizada. Isso que é o mais evidente, não pode ocultar, no entanto, as limitações de tipo corralito clandestino que está pondo em silêncio o sistema bancário. E menos a carestia sem misericórdia dos poucos produtos básicos que a força de prolongadas e esgotadoras filas se conseguem.

O cinismo do discurso das cúpulas e a busca destas por um pacto espúrio de partilhamento da renda e pelo controle do estado rentista e seu padrão mafioso de acumulação, se desenvolve sob o olhar cúmplice das direções sindicais nacionais e a confusão extrema do movimento popular.

Por isso, o espaço à solução democrática da crise política e contra as ameaças totalitárias e/ou ingerencistas que estão se desenvolvendo, deve e pode partir desde as bases da cidadania, que aplicando seus reflexos solidários e humanitários, se ponha como objetivo prioritário deter a dinâmica da crise.

Uma prova de que isso é possível, é a criação da Plataforma pela nulidade do Arco Minero. Que em tempo recorde, de maneira autônoma e deixando de lado diferenças pontuais, pôs de pé um movimento que dia a dia adquire mais força e protagonismo em defesa de bens irrecuperáveis do país, do ambiente, da soberania e da vida.

São três pontos necessários para a construção de um acordo social realista e necessário que ponha fim ao momento que atravessa o país e ao sofrimento angustiante do povo mais desprotegido:

1.- Declaração de emergência humanitária e pedido de solidariedade latino-americana.

Não se pode seguir escondendo a realidade. A situação atual leva por uma via direta à crise humanitária. A declaração da emergência humanitária tem o objetivo de realizar um dramático chamado à solidariedade aos povos e governos da América Latina e às instâncias que desde a Venezuela foram ajudadas a criar como a UNASUR.

A solidariedade da América Latina não só é possível mas imprescindível. Países com desenvolvimento médio ou com grande produção de alimentos como Brasil e Argentina, têm a possibilidade de ajudar solidariamente a nosso povo. E por que não dizer obrigação.

Encontrar o piso de abastecimento em alimentos e medicamentos, imprescindíveis para a subsistência, é a única garantia de lograr uma saída democrática e não cruenta à crise política que vive o país.

2.- Imposto especial de emergência aos capitais venezuelanos depositados no Exterior.

É um feito reconhecido por instituições financeiras internacionais, principais porta-vozes do governo como o presidente Maduro e até porta-vozes da oposição, a existência de 300 bilhões de dólares venezuelanos depositados no exterior.

Além do direito de investigar sua legitimidade. Um imposto de emergência sobre esses capitais de um irrisório 10% anual, enquanto dure a crise, aportaria a cifra necessária para alimentar e atender a saúde de nosso povo.

3.- Suspensão temporal dos pagamentos da Dívida Externa.

Outro reconhecimento do presidente Maduro é o pagamento em algo mais do que um ano, de um total de 30 bilhões de dólares da dívida exterior. A suspensão desses pagamentos permitiria por em marcha a economia nacional e impulsionaria a produção local.

Não se pode seguir pagando uma dívida suspeita de ser ilegítima, enquanto o povo venezuelano não consegue os bens elementares para sobreviver.

Enquanto as cúpulas políticas seguem dançam abraçadas ao fio da navalha de uma crise que paga o povo com sua angústia e sofrimento, o desafio é pela sensibilização, a iniciativa autônoma e solidária de organizações e personalidades a impulsionar a coordenação e ação cidadã para evitar que a situação atual transforme em desastre humanitário.

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