Luciana Genro

20160528-para-o-site-1

No final de maio estive em Madri, onde fui convidada a participar da conferência “Cidades Democráticas”, um evento sobre tecnopolítica e o direito a uma cidade democrática, organizado pela prefeitura da cidade, em parceria com diversas entidades que lutam por democracia real. A prefeita da capital espanhola, Manuela Carmena, disse neste evento algo que me parece uma diretriz fundamental da construção que necessitamos fazer em Porto Alegre. É preciso rever o rótulo da prefeita enquanto uma “política” no sentido tradicional do termo. Devemos redefinir a relação do povo com o poder, estimulando a cidade inteira a “fazer política” e geri-la de forma conjunta, através de confrontos, disputas e sínteses. A prefeita deve ser uma cidadã a mais, que tem o dever de gerir a cidade, mas, acima de tudo, de partilhar os espaços públicos com a cidadania, lutando para que as pessoas gostem da cidade, sintam-se acolhidas na sua diversidade, reivindiquem, e também sejam parte da gestão da cidade.

A tecnologia pode ser uma grande aliada nesta construção democrática. Nossa geração vivencia um processo de transformação gigantesco, e precisamos utilizar as novas possibilidades abertas pelo desenvolvimento tecnológico e pela emergência de uma cidadania mais crítica e participativa para operar uma transformação profunda no processo democrático, revolucionando as instituições e aproximando-as das pessoas e, desta forma, construindo uma democracia mais real.

O evento que participei em Madri me possibilitou conhecer mais de perto a experiência espanhola de construção do que eles chamam de “confluências”, uma unidade política e eleitoral de diferentes fluxos político-sociais, e de como isso desenvolve-se, uma vez no poder municipal, em governos plurais, com uma participação mais direta da cidadania na sua gestão, e menos reféns das castas políticas tradicionais.

A primeira evidência trazida pela experiência espanhola[1] é que precisamos fugir das velhas lógicas de partido e construir novos espaços que possam ir além da mera soma aritmética das partes, construindo confluências que integram movimentos reais que lutam em defesa da cidade como um “bem comum”, seja no âmbito do lazer, da moradia ou da mobilidade urbana, por exemplo, e desta confluência apresentar candidaturas cidadãs democráticas que representem estas lutas.

Sabemos que a disputa contra o status quo é muito dura. Para termos chances de vencer é preciso tecer uma rede humana e descentralizada, conectando com a campanha eleitoral as práticas através das quais se luta pela (re)conquista dos direitos e do que é comum. Se nos organizarmos a partir de objetivos e práticas concretas poderemos alcançar vitórias que pareciam impossíveis.

Precisamos gerar um “transbordamento cidadão”, um novo ecossistema político do qual não teremos controle e que deverá desenvolver-se livremente no processo de mobilização.  Este sistema de rede de pessoas deve gerar uma “autopoiésis” isto é, um mecanismo que possibilita a um sistema vivo se reproduzir de forma auto organizada, ter sua vida própria, autônoma, sendo massa crítica e ao mesmo tempo massa de construção política.

Essa é a proposta da minha pré-candidatura que o PSOL, com os demais partidos que venham a se unir, juntos com a cidadania viva e os movimentos sociais, sejam as células autopoiéticas que mantenham vivos este novo ecossistema.

Temos o desafio, portanto, de impulsionar um “acontecimento aumentado” que se desdobre em uma “multidão conectada” e gere um “sistema de rede”. Javier Toret Medina explica o conceito de “multidão conectada”, como “a capacidade de conectar, agrupar e sincronizar, através de dispositivos tecnológicos e comunicativos e em torno de objetivos, os cérebros e corpos de uma grande número de sujeitos em sequencias de tempo , espaço, emoções, comportamentos e linguagem” e que este tipo de multidão emerge em conexão com “acontecimentos aumentados”, que estão  na base da geração ou reativação do que ele define como “sistema de rede”.[2]

Neste processo nossa tarefa de tomar a cidade e suas instituições de baixo para cima e de fora para dentro torna-se possível e, ao mesmo tempo, torna-se também possível que o resultado desta “tomada de poder” seja algo radicalmente distinto do que existe hoje, pois o processo de conquista já terá sido o início da experiência diferenciada.

O resultado deverá ser um governo que não compreenda a cidadania apenas como um espaço para consulta e validação de decisões já tomadas, mas sim que constrói ferramentas que possibilitam a organização e a participação dos que desejam, tornando suas decisões vinculativas e não apenas consultivas.

Isto significa um governo que “manda obedecendo”, no qual os representantes eleitos são “expropriados” do poder absoluto, pois estão sob controle permanente da cidadania organizada, como diz Pablo Soto, vereador pela confluência AhoraMadrid e programador responsável pela plataforma decide.madrid.es, através da qual a população madrilena participa das principais decisões da prefeitura. É isto que queremos construir em Porto Alegre: uma democracia real, onde o governo “mande obedecendo” à cidadania, titular soberano do mandato da prefeita.

Estamos apenas iniciando esta caminhada. Alguns passos já foram dados, mas o desafio é enorme. No sábado, 04/06, realizamos o Congresso Municipal do PSOL de Porto Alegre, que elegeu Roberto Robaina como novo presidente do partido e confirmou por unanimidade o meu nome como pré-candidata a prefeita. Construímos a plataforma Compartilhe a Mudança para estimular a participação cidadã no nosso plano de governo. Nosso encontro municipal reuniu a militância do PSOL e contou com a presença de partidos e grupos políticos dispostos a dialogar na direção de uma confluência em torno da nossa pré-candidatura. Para mim é um orgulho ser a porta voz desta nova confluência de forças políticas e sociais em busca de uma democracia real para Porto Alegre.

Luciana Genro no Congresso do PSOL de Porto Alegre.