Mais uma vez no México. Toda solidariedade a Oaxaca

Leandro Fontes – membro da executiva do PSOL Carioca e do MES 

mexico (1)No último dia 19, mais uma vez, o México foi notícia nos principais periódicos internacionais devido à escalada de violência que o país vive sob o comando do governo priista de Enrique Penã Nieto. Desta vez, a brutalidade foi cometida ao conjunto de professores, estudantes e familiares de Nochixtlán (Estado de Oaxaca), que são parte de um levante em todo país contra a reforma educacional. Os dados inicias apontam que seis pessoas foram mortas e mais de cem ficaram feridas. O confronto foi decido pelo poderio de armas de fogo da polícia federal mexicana, porém o movimento dos maestros da CNTE (Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação) teve resistência e procurou se defender utilizando os métodos de mobilização e autodefesa. Segundo o próprio comandante da PF mexicana, Enrique Galindo, mais de dois mil ativistas resistiram o cerco policial.

Esse quadro de crise e polarização social não é novo. No dia 26 de setembro de 2014 o mundo se chocou com a chacina de Ayotzinapa, onde 43 estudantes que cursavam a Escola Normal Rural Isidro Burgos foram assassinados por uma ação concluída pelas balas do Cartel Guerreros Unidos (milícia narcotraficante), mas que contou com participação decisiva da polícia local e da autoria intelectual do ex-prefeito de Iguala José Luis Abarca Velázquez. O massacre de Ayotzinapa foi a faísca para acender uma onda de protestos de massa contra o poder estabelecido. Durante quatro meses o palácio do Zocálo (sede do governo federal) foi alvo de manifestações impactantes. Além disso, rodovias e pedágios foram ocupados, inúmeros catracaços nos metros foram realizados, um estúdio da rede Televisa foi ocupado, a prefeitura em Iguala e a sede regional do PRI (partido do governo) foram incendiadas.

Os acontecimentos, os exemplos e as lições se conectam. E por esse prisma, estamos convencidos que o nível de consciência e organização do açoitado povo mexicano está se elevando. Pois, nesse momento, entrou em cena setores da classe trabalhadora organizada, encabeçados pelos professores, que é instintivamente vinculado com uma parcela popular dos bairros mexicanos e com parte da juventude que protagonizou as manifestações de 2014. Isto é, de nossa parte, o que ocorreu Oaxaca, as ocupações de prédios públicos em Chiapas e a greve geral iniciada no dia 15 de maio não são obra do acaso. Mas, sim, um sinal ainda inconcluso que no país poderá se intensificar a polarização social e os elementos ainda rudimentares de alto-organização popular possam se desenvolver.

Diante do quadro social e político, da crise econômica, da submissão ao NAFTA e da insatisfação das massas, caracterizamos que a partir do massacre de Ayotzinapa o México não seria o mesmo. E essa analise, em alguma medida, está se confirmando. A crise de representatividade e legitimidade das castas políticas só aumenta. Por outro lado o governo desencadeia uma repressão brutal aos que lutam e a população mais pobre, um verdadeiro estado exceção policialesco que fere os direitos humanos.

Nesse novo round, que tem o pano de fundo a privatização da educação pública como parte de uma agenda neoliberal clássica, mesmo com toda blindagem dos grandes meios de comunicação, que “demonizam” o movimento dos maestros e reforçam a narrativa do governo que induz que a crise no sistema educacional mexicano tem relação com seus profissionais que não alcançaram os índices oficiais, mesmo com essa covardia, a resistência segue de pé e incomodando o governo priista de Penã Nieto.

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Todavia, o ponto fundamental é que não podemos ler essa crise apenas pela ótica da reforma educacional. Essa pauta tem significativa importância neste momento, entretanto é insuficiente para entendermos o quadro geral. A situação objetiva que culminou com a repressão com mortos e feridos, é que por sua natureza, o governo priista como parte do modelo burguês puro-sangue pró-imperialista não tem saídas diante da crise econômica e por sua orientação reacionária utilizará os meios repressivos para aprovar sua agenda anti-povo. Esse é o fato concreto que aguça a indignação dos mexicanos. Soma-se a isso, a corrupção e as relações escusas da casta política com grupos milicianos de narcotraficantes. Processo que teve seu ponto de partida no período da presidência de Vicente Fox, com os partidos políticos tradicionais – principalmente PRI e PAN – que para garantir a manutenção nos poderes do Estado gradualmente se submeteram a relações de parceria com grupos criminosos, cuja sua sustentação passa pelo narcotráfico e se estende ao controle econômico, social e político de territórios. Algo similar com que ocorre no Brasil.

Por fim, opinamos que segue sendo prematuro afirmar categoricamente o destino desse intenso processo, mas podemos dizer com segurança que um setor de massas não desertou totalmente das ruas desde Ayotzinapa, uma parte da classe trabalhadora organizada entrou em cena, a situação do regime político não é estável e a condição econômica do país não permite que o governo faça concessões materiais ao povo. Isto é, a situação concreta nos orienta que a indignação contra o governo priista e a casta política deve seguir. O que está em aberto é se essa espoliada classe trabalhadora mexicana e sua juventude, a partir desse rico processo de luta e de suas experiências empíricas, irá dar um salto para a construção de uma ferramenta política independente, plural e democrática, com o perfil das ruas e que possa universalizar a indignação em todo o México. Essa modesta reflexão, que parte do presente, mas com um olhar para o futuro, ao nosso entender é chave para o fortalecimento da esquerda aniticapitalista e antiimperialista mexicana como projeto de poder. Porém, por hora, diante dos fatos concretos, toda solidariedade aos familiares dos mortos e feridos de Oaxaca.

 

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