Notas sobre os 100 anos de “O Imperialismo, fase superior do capitalismo”, obra-chave de Lenin

Por Pedro Fuentes 

Na primavera europeia de 1916, Lenin escreveu “ Imperialismo” no exílio clandestino de Zurique onde se encontrava. Era a época da primeira guerra mundial. Desde 1914, quando os social-chauvinistas alemães – como Lenin  chamou os reformistas da Alemanha- votaram os créditos de guerra, todos seus escritos, e principalmente a partir da “brochura popular” (como Lenin chamou o “Imperialismo“ em seu prólogo), seus trabalhos são fundamentais.

Neles estão contidos em grande parte a teoria que preparou Lenin para sua práxis revolucionária na Rússia de 1917. Foram e são, segundo também os qualificou Georg Lukács em sua obra sobre Lenin, “o fundamental para compreender a atualidade da revolução nesse período. Dizia em seu livro “Lenin” escrito logo depois de sua morte em 1924, “poucos sabem hoje o que Lenin realizou em relação a nossa época o mesmo que Marx fez em relação à totalidade do desenvolvimento do capitalismo”. “Medido por esse padrão, Lenin é o maior pensador que o movimento revolucionário dos trabalhadores concebeu desde Marx.”

E com efeito, “o imperialismo”, como veremos, foi chave para compreender que na Rússia semifeudal e autocrática, agrária e industrial ao mesmo tempo, o que estava se preparando era o início da revolução socialista mundial.

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Antes, um fato mais anedótico sobre a genialidade de Lenin para utilizar todos os meios e táticas a serviço do partido e a revolução; aproveitar todos os resquícios e a quase inexistente legalidade que havia na Rússia para difundir as ideias revolucionárias e construir o partido. Na primeira introdução, ele explica, num tom entre risonho e irônico, que para que o folheto pudesse circular de forma legal se viu obrigado a limitar a parte política e fazer certas manobras: “trocar o exemplo de Japão por Rússia e Coreia por Finlândia”. Isso explicava dizendo: “o leitor atento substituirá facilmente Japão pela Rússia”. .

É bom recordar isso agora e é parte da homenagem a esta obra de Lenin. Todos os novos e valiosos militantes revolucionários deste período que vivemos, militaram dentro da legalidade burguesa (já estamos há mais de 30 anos dentro dela) e essa realidade – como sempre ocorre-, inevitavelmente condiciona e creia certos prejuízos e um deles talvez seja certo purismo abstrato e não compreender movimentos táticos que legitimamente se podem fazer para utilizá-los em função de uma estratégia revolucionária.

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Na verdade, Lenin não foi o primeiro a definir o imperialismo. Antes, o economista Hobson, um socialista inglês, e Hilferding (neste caso um marxista alemão que passou para a social-democracia e acabou sendo ministro em pleno auge da revolução alemã), tinham desenvolvido a teoria do imperialismo, ainda que desde um ponto de vista essencialmente econômico. Também Rosa Luxemburgo, ainda que neste caso sua análise da acumulação capitalista e a necessidade que tinha de encontrar novos mercados para incorporá-los, continha uma profunda atualidade política prática igual a Lenin.

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Contudo, Lenin tem a maior relevância teórica política neste tema. Sua análise teórica teve consequências práticas decisivas. Não é demasiado recordar seus cinco aspectos essenciais.

* A concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios que desempenham um papel decisivo na vida econômica.

* A fusão do capital bancário com o industrial e a criação sobre essa base do capital financeiro, da oligarquia financeira.

* A exportação de capitais, diferente da exportação de mercadorias, que adquire uma importância particularmente relevante.

* A associação de formações internacionais monopolistas de capitalistas que repartem o mundo entre si.

* A divisão do mundo entre as potências capitalistas mais importantes. O imperialismo é o capitalismo na fase de desenvolvimento em que ganhou corpo a dominação dos monopólios e do capital financeiro, adquiriu marcada importância a exportação de capitais começou a divisão do mundo pelos trustes internacionais e a repartição entre os países capitalistas mais importantes.

Referindo-se a esta caracterização Lukács disse algo que é muito importante para os revolucionários quando analisamos a situação de hoje, quando é necessário voltar ao método de Lenin. A diferença e a superioridade de Lenin (referindo-se à continuidade da reprodução marxiana de Rosa Luxemburgo), consiste em sua “articulação concreta da teoria econômica do imperialismo com todas as questões políticas do presente” referindo-se ao prognóstico que fez de uma abertura revolucionária na Europa com a guerra mundial e suas posteriores consequências.

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Esta é a importância do que dizíamos no começo do artigo. As caracterizações de Lenin deste período, que também incluem a definição da aristocracia operária como suporte e base social da passagem da social-democracia ao social-chauvinismo e o apoio a suas burguesias na guerra, são chaves para compreender questões centrais da revolução. Uma delas foi a caracterização de que na Rússia, como elo mais débil do imperialismo onde poderia começar a revolução. E a outra ainda mais importante foi que esta revolução só seria o começo da revolução socialista na Europa e, em particular nos países mais desenvolvidos.

Vale a pena dizer isso, porque os trotskistas em geral dizemos que foi Trotsky quem assinalou os traços fundamentais da revolução e sua permanência, questão que podemos dizer que é correta no sentido que o fez em 1905, quando Lenin sustentava também que o proletariado tinha que lutar pelo poder nesse período, porém não marcava o caráter socialista da revolução, e a definiu como revolução permanente democrática.

Estava equivocado Lenin em 1905? Não vou me deter neste tema que está explicado num artigo de Roberto Robaina sobre Lenin, referência a outro texto brilhante “Duas táticas da social-democracia na revolução democrática”, questão que novamente temos que estudar e retomar em relação aos atuais regimes. O que sucedia com Lenin que em 1905, à diferença de 1917, é que não estava colocada na Europa (o centro do capitalismo), a situação revolucionária de 1917, e isso tinha que ver com a situação do imperialismo nesses dois períodos que era diferente. (Uma vez mais, a justeza leninista da análise concreta da situação concreta).

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Os traços definidos por Lenin sobre o imperialismo estão hoje mais presentes do que nunca. Lamentavelmente nesta nota não dá tempo e espaço para se referir a por que cem anos depois o capitalismo continua como sistema imposto em todo o mundo e que tem a ver com o triunfo da contrarrevolução stalinista na Rússia depois da morte de Lenin e sua política seguida logo em todo este período até sua extinção com a queda do Muro de Berlim , e em particular seu papel desempenhado na situação revolucionária mundial que abriu o pós-guerra em 1945.

Porém, sem ser o tema, os trajetos não-lineares e as voltas e contradições que a luta de classes mundial dá, não é demais fazer uma referência ao modo de registro da justeza de Lenin e também de Trotsky em suas caracterizações em 1917.

Depois da tomada de poder na Rússia ambos apostavam na revolução permanente, ambos sustentavam que a Rússia era só o primeiro passo da revolução socialista na Europa e nos países capitalistas mais desenvolvidos. Lenin dizia nesses tempos que ele trocaria a revolução russa pela alemã, o país mais capitalista mais desenvolvido.

E, com efeito, nesse país depois da guerra desde 1919 até 1923, deu-se a situação revolucionária que foi a que mais condições objetivas reuniu. Em 18/9, os sovietes alemães de trabalhadores e soldados mais fortes que os da Rússia de 1917, inclusive em parte deste período onde existia o governo provisório da social-democracia que forçosamente tinha que conciliar com os sovietes, esses tomaram o poder na Baviera, onde houve uma república soviética. A explicação de que a Alemanha não tinha sido a segunda Rússia nesse momento se deveu como em outros países (Hungria, Polônia) à debilidade esteve presente na Liga Espártaco que depois se converteu no Partido Comunista dirigido por Rosa. Rosa foi assassinada nos inícios de 1919. No entanto, Rosa não seguiu a Lenin num aspecto essencial: a construção do partido revolucionário. Suas críticas ao excesso de centralismo de Lenin, mostraram-se equivocadas. Rosa demorou em construir o Partido Comunista, e por isso mesmo e por sua concepção de crer em forma quase absoluta num elemento importantíssimo que é o da espontaneidade das massas, porém em forma exageradamente unilateral foi sumamente débil na construção do partido. Na Alemanha, não houve a forja nem as ferramentas com as quais Lenin educou o partido. O ponto que ficou mais evidente foi quando seu partido votou contra ela por ampla maioria a necessária participação nas eleições para a assembleia constituinte que o governo social-democrata chamou.

Essa foi a superioridade maior de Lenin que a história tem que reivindicar e os novos companheiros reconhecer.

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Voltando ao tema central. Hoje vivemos uma nova fase do capitalismo onde as características assinaladas por Lenin foram se agudizando e surgiram outras novas. Esses traços se apresentam agora mais agudos e críticos nesta fase que chamamos da globalização ou mundialização do capital que vivemos.

E, com efeito, as formas de concentração de capital se fizeram muito maiores, e a desigualdade mais forte. Usando uma expressão do informe Oxfam deste ano, é “ter tudo para querer mais”. Recordemos que este informe disse que a riqueza das 80 pessoas mais ricas do mundo se duplicou entre 2009 e 20014, enquanto que a dos 50% mais pobre se reduziu em mais de 20%. As pesquisas de Dumenil e Levy mostram que 50 sociedades financeiras e holdings exercem um controle decisivo na rede que forma o conglomerado mundial das corporações. (Ver artigo http://portaldelaizquierda.com/2016/02/apuntes-sobre-el-imperialismo-desde-una-mirada-latinoamericana/) E contra aqueles que pensam que a hegemonia terminou – e o que agora domina é a multipolaridade econômica e não o imperialismo, o domínio delas pelos EUA é aplastante: têm a metade.

Às características assinaladas por Lenin, o prolongamento decadente do imperialismo, que em última instância se explica pela crise de direção que vivemos, agregaram-se outros elementos que reforçam este caráter. Entre eles a ação destrutiva da natureza, o extrativismo e a acumulação por despossessão da qual fala Harvey.

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Voltar a Lenin é indispensável. O marxismo durante o tempo de auge do neoliberalismo se refugiou muito nos acadêmicos marxistas. E isso tem sido de grande importância e de grande utilidade. No entanto, existe um ponto débil, que é a compreensão de Lenin como o grande estrategista da revolução. Não por casualidade, não é citado pelos acadêmicos. O Lenin que Bensaid muito bem reivindica em seus últimos escritos, “os saltos, os saltos!”, e na “estratégica política de Marx até a III Internacional”.

Os aniversários não são meras comemorações. Fazem parte de recuperar a tradição, resgatar a importância da acumulação teórica política dos grandes revolucionários, de Marx, Lenin, Trotsky, Rosa… para conhecer seu pensamento e ver como o utilizamos agora. Não para repetir todas as suas políticas, porque o marxismo é uma ciência viva e em movimento como o é o mundo. Porém há coisas indispensáveis. E voltar a Lenin é uma das mais necessárias.

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Este  artigo não estaria escrito se não fosse porque Alejandro Bodart, dirigente do MST argentino, me fez recordar a data ao me pedir uma breves linhas para uma reedição do folheto que em homenagem aos 100 anos do “Imperialismo” fez nosso partido-irmão, o MST com o PCR (Partido Comunista Revolucionário). Assim que o que segue não é mais que uma extensão das ideias que nessa introdução estão bem comprimidas.

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