Para não continuar caindo no abismo [BRASIL]

Por Vladimir Safatle

O nível de exposição da corrupção sistêmica do Estado brasileiro chegou a um ponto dificilmente superável. As últimas delações mostraram o próprio ocupante da Presidência interina do Brasil diretamente envolvido em pedidos de propinas.

Nunca um presidente em exercício foi exposto em nível de envolvimento tão orgânico. Não poderia ser diferente. Há semanas, o sr. Temer afirmou, com tapas na mesa, que sabia tratar com bandidos. É verdade; afinal, ele é presidente do PMDB, o mesmo partido de Cunha, Renan, Sarney, Jucá, Henrique Alves e tantos outros bastiões de defesa do bem comum e do dinheiro público.

Podemos, no entanto, fazer agora o jogo miserável de definir quem é a bola da vez, quem é o alvo do momento, na esperança de levarmos o país no ritmo das expiações provisórias. Ou podemos, enfim, depois de décadas, encarar que o arranjo institucional da Nova República foi um fracasso que apenas produziu uma casta política acostumada a tomar de assalto o bem comum em proveito próprio. Se escolhermos a segunda opção, aparece no horizonte a chance única de discutirmos em praça aberta a necessidade de uma nova institucionalidade para a república brasileira.

Os modelos de funcionamento dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário são indefensáveis. Para quem acha que o Judiciário passa incólume, o que dizer de um poder que se aproveita da fragilidade dos demais para chantagear o poder público pilhando o erário com aumentos salariais vultosos em um momento no qual toda a população está a entrar em processo de pauperização? Nota-se uma preocupação realmente republicana com o país.

Este processo de degradação contínua só poderá começar a parar com eleições gerais urgentes. É claro que eleições gerais não “resolverão” a situação. Nenhuma ação tem a vara de condão de resolver sozinha a verdadeira desconstituição da política pela qual passa o Brasil. No entanto, eleições gerais seriam, enfim, ao menos um passo na direção correta. Pois eleições obrigam a classe política a apresentar suas propostas sob o escrutínio da população, impedindo que a aristocracia financeira que nos governa imponha uma “racionalidade econômica” conveniente à defesa selvagem de seus próprios interesses. Enquanto você vê seu salário ser achatado e o desemprego crescer, os bancos brasileiros continuam com seus lucros milionários e o Estado paga algo em torno de R$ 600 bilhões anuais de serviços de uma dívida pública obscura, feita em larga medida por estatização de dívidas de entes privados. Eleições permitiriam, ainda, que o tema da reinvenção política do país subisse de fato à cena.

Aqueles que criticam a ideia de novas eleições levantam o argumento de que a configuração do Congresso e do poder não mudará. Eles deveriam explicar à população brasileira onde estão à venda as bolas de cristal que eles usam para enxergar o futuro com tanta precisão. Na verdade, eles falam apenas de seus medos, mas o medo é péssimo companheiro nestes momentos.

Primeiro, depois de dois anos de exposição contínua da casta política e de seus nomes em processos de corrupção do Estado, imaginar que a população agirá como se nada tivesse ocorrido é mera expressão de desprezo pela inteligência popular. Segundo, porque esta legislatura já nasceu com uma distorção: a terceira candidata à presidente, Marina Silva, não formou bancada alguma pois vinha em uma legenda de aluguel. Uma nova eleição lhe permitiria ter uma bancada que, até segunda ordem, não aparece como tendo o grau de envolvimento com corrupção das bancadas de partidos tradicionais.

Por fim, uma eleição implica deslocar o embate sobre o país que queremos para o campo aberto das disputas políticas. As pesquisas eleitorais para presidente mostram que os cenários estão abertos.

Da mesma forma, elas mostram que a ascensão do protofascismo brasileiro é um fenômeno, em larga medida, reduzido à classe média e destes que adoram chamar os outros de “vagabundos” enquanto passam todas as suas tardes postando tranquilamente “comentários” na internet. Classe com seus 20% que apoiam um amante de torturadores, com suas declarações do tipo “só não te estupro porque você não merece”. Esta expressão bruta do ressentimento social será melhor combatida em confronto político aberto.

Artigo publicado originalmente na Folha de SP (16\06\2016)

Dejá un comentario

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos necesarios están marcados *