Notas sobre a América Latina | o fim de uma etapa e o começo de outra

NOTAS SOBRE A AMÉRICA LATINA | O FIM DE UMA UMA ETAPA (E UM CICLO)
E O COMEÇO DE OUTRA ETAPA (E DE OUTRO CICLO TAMBÉM)

Pedro Fuentes

Tradução: Eduardo Botelho, Nicolas Calabrese e Theo Louzada

Estamos no fim de uma era na América Latina e no início de outra em que já entramos, e da qual já podemos definir várias características – por isso há muitas incertezas ainda. Ao mesmo tempo, há o fim de um ciclo de direções e governos que surgiram neste período, do social liberalismo petista ao bolivarianismo e sua deformação atual no bonapartismo de Maduro.

Como toda nova etapa é desigual, tem suas contradições, carrega parte do velho (que não acaba automaticamente) que no novo que surge.

Incrivelmente, pela primeira vez na história de nossa corrente nas últimas duas décadas (desde que o MAS da Argentina tornou-se o mais forte partido trotskista na América Latina e talvez do mundo naquele momento), estamos no olho do furacão em vários lugares: intervindo em processos objetivos na Venezuela, Brasil, Argentina e especialmente no Peru. Ao contrário do MAS daquele período, agora é como parte de processos mais amplos, de coalizões que não têm todo o nosso programa, como na FA do Peru, o PSOL, no Brasil, e mesmo em Marea Socialista.

Acreditamos que isso não aconteceu por mero acaso, mas porque compreendíamos que se abria um período de reagrupamento e processos mais amplos; uma vez que também não é por acaso que aqueles que se agarraram ao esquema do MAS (corretíssimo nos 80) não têm agora grandes progressos, vegetam ou tem crises. Mas nada está resolvido, e nem possuímos a “bola de cristal”. A atual realidade latino-americana tornou-se complexa e nós estamos diante do grande desafio de tentar entendê-la em todas as suas características e nos prover da melhor política para seguir avançando.

No Peru estamos em uma nova situação qualitativa porque o FA e Veronika Mendoza surgiram como uma nova alternativa de massas e estamos na direção. São, de fato, um terceiro campo na política peruana ao ponto de terem sido fator decisivo na vitória de Kusinsky contra o campo de Keiko Fujimory.

Também no Brasil, porque o PSOL tem grandes possibilidades de disputa em Belém com Edmilson Rodrigues, no Rio, com Marcelo Freixo (que acaba de fazer um ato muito representativo com mais de 5.000 pessoas), e em Porto Alegre com Luciana Genro, com todo o simbolismo e o fato político que significaria ganhar em alguns desses lugares. E outras chances de ganhar como em Itaocara com Gelsimar Gonzaga (reeleição), Niterói com Serafini e avançar em São Paulo com Erundina. No caso de Porto Alegre uma vitória significaria recuperar para a esquerda mundial um espaço construído pela mesma na década de 90.

Além disso nossa política na Venezuela marca uma mudança qualitativa em relação à anterior, nos diferenciando do burocratismo-estalinista de Maduro e da direita, o que significou ganhos e expansão da Marea em 18 estados.

Nestes países, assim como na Argentina, já está criado como uma política geral para a nova situação construir um “terceiro campo” que seja uma alternativa a velha esquerda (seu “progressismo”) e à direita reacionária e das forças do imperialismo que estão voltando.

Entender esse processo com suas contradições, suas desigualdades e combinações no desenvolvimento e nos colocar no novo momento é fundamental, mas não é fácil. O “fim” do velho petismo no Brasil, bem como a degeneração do bolivarianismo na Venezuela (dois modelos diferentes no vértice, mas com pontos de contato), leva também a crises pela ausência (com exceções) de modelo alternativo: a crise se expressa em setores que capitulam à velha esquerda e, em parte, nos setores que reafirmam posições ultras. Ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser também há algumas confusões em novos setores de vanguarda.

Porque temos de especificar que significa um “fim” entre grandes aspas. “Fim” com aparelhos de governo, e com peso em organizações de massa, e isso não significa que a sua extrema debilidade pelas razões de seu término os impeça de se reciclar, assim como de atingir seu peso anterior.

Apesar disso, se alcançamos uma posição clara e diferenciada na luta de classes e nas crises políticas dos regimes que ocorrem no continente, abrimos a possibilidade de criar novas alternativas para um terceiro campo, sem perder de vista as desigualdades entre os países. Por exemplo, não é a mesma situação na Venezuela do que a da Bolívia, o indigenismo boliviano dificilmente se perderá, que tem relação com o Peru, onde Veronika Mendonza varreu no sul, região de resistência ao extrativismo. Se trata de atuar em processos amplos sem descuidar com a nossa formação e organização marxista internacionalista.

Esta questão da nova fase e do novo ciclo, deve ser o foco do debate da esquerda e da vanguarda. Entramos numa nova etapa latino-americana com as suas incertezas e, simultaneamente, com o aumento da sincronia com toda a situação mundial. Se o estágio anterior na América Latina foi marcado por uma ofensiva contra o imperialismo e em certa medida uma retirada desses, esta etapa é uma tentativa de avanço do imperialismo e de seus agentes nacionais e, portanto, de luta contra novos tipos de governos e resistência a eles. Isto ocorre com um elemento de continuidade; as lutas nunca pararam desde 1998, quando começaram no Equador; desde então, mesmo que agora elas sejam mais de resistência, o movimento de massas não se entregou.

Nós pensamos que a política e o programa para construir ou fortalecer novas alternativas e nossa inserção onde elas existem, (e há pequenos grupos e pequenas organizações) são para todos e por isso é de forma embrionária.

I – O estágio do processo bolivariano, a sua desigualdade e contradições em toda a América Latina e o “fim” de um ciclo de direções

Assim temos trabalhado bastante o ciclo que se fecha. É importante ter a maior clareza possível do seu balanço, uma vez que ajuda a definir melhor o novo que está por vir.

  1. Na fase que se fecha houve uma mudança na correlação de forças com o imperialismo.

Sempre na nossa corrente tomamos como referência para definir as diferentes etapas do continente a correlação de forças entre os movimentos de massa e governos que surgem a partir desta situação, e do imperialismo. Nessa fase, houve uma mudança geral na correlação de forças com o imperialismo que ocorreram particularmente na América Central e Sul, uma vez que no México, apesar da rebelião zapatista, os EUA impuseram o Nafta que levou a uma neocolonização e uma grave crise, de tipo global no neste país.

Podemos definir esta mudança como falência da etapa dos 90, dos governos neoliberais da burguesia pró-imperialista, surgidos a partir da crise da dívida dos meados dos anos 80, governos das democracias entreguistas como definido por Moreno. Embora o imperialismo tenha se enfraquecido não perdeu todo o controle da situação ou o domínio econômico e politico, assim, houve desigualdades que permitiram manter acordos bilaterais e ter certo reduto contra o NAFTA.

A maior expressão dessa mudança foi a derrota da ALCA, um plano de colonização neoimperial em que os EUA tentaram veementemente garantir seu quintal. Durante este período surgiu um modelo econômico alternativo, que foi o bolivarianismo com a sua alternativa continental da ALBA, que, em seguida, veremos o porque dele não poder se desenvolver em escala na América do Sul.

  1. A mudança na correlação de forças foi desencadeada pelos processos insurrecionais iniciadas em 1998 no Equador

Na verdade, este período foi aberto pelos tumultos, insurreições e semi-insurreições no Equador, Argentina, Bolívia, Venezuela e outros processos menores como lutas no Paraguai, Honduras, entre outros. Eram verdadeiros processos revolucionários popular democráticos, onde a classe trabalhadora não agiu como tal, mas como parte da mobilização popular espontânea. O que o tornava sem precedentes foi a queda dos governos eleitos pelos mecanismos da democracia burguesa. Na Venezuela foi o mais profundo por conta do Caracazo, que teve muitas derivações até o triunfo de Chavez, e imediatamente o golpe de Estado derrotado em 2002 pela mobilização popular. E isso, sim, que era uma parte fundamental deste processo de semi-insurreições.

  1. Nas eleições subsequentes surgem novos tipos de governos nacionalistas pequeno burgueses e países independentes

Estas mobilizações revolucionárias culminaram nas eleições que mudaram os regimes políticos na Venezuela, Bolívia e Equador, e abriram o processo do bolivarianismo.

A riqueza destes processos é que levaram à situação de poder na Venezuela, Bolívia e Equador nacionalismos radicais pequeno burgueses em ruptura com a burguesia dominante nesses países. Isso abriu um novo problema teórico. Uma parte da esquerda (da tradição troska) caracterizou-os como burgueses, ou no máximo como frentes populistas. Tivemos caracterizações muito mais abertas. Nós dissemos que poderiam se tornar semelhantes aos governos dos trabalhadores camponeses da Terceira Internacional, definimo-los como nacionalismos radicais (sem, necessariamente, ter caráter de classe claramente definido), governos independentes, utilizando caracterização do morenismo, ou em alguns casos por caracteríticas de bonapartismo bem sui generis.

Esta discussão não era inativa, nem será, no futuro, porque existe a possibilidade de se repetir aqui e na Europa. O fato é que nós não havíamos esclarecido ou conceituado o tema mas tínhamos de fato a posição correta que a política em relação a eles foi a frente anti-imperialista e até foi levantada (dependendo dos tempos e situações) juntar-nos para empurra-los a um curso anti-imperialista e nos fortalecer como corrente nesse processo, mantendo sempre a nossa posição de organização independente sob a forma tática que foi criada.

Tanto é que apoiamos Ronald Denis quando era ministro do desenvolvimento e enfrentou as paralisações e sabotagem do setor petroleiro, estávamos em mesas operacionais de Chávez em Miraflores desenvolvendo planos de contra insurgência, e apoiamos a participação de Luis Bonilla no governo. (Este debate está vinculado a outro argumento do que é governo e Estado, que mereço lembrar mas que não vale entrar neste documento)

  1. Nossa política em relação à Venezuela e ao bolivarianismo foi a adaptação da política da frente anti-imperialista da Terceira Internacional (Teses sobre o Leste) à situação dos nacionalismos radicais pequeno burgueses e similar (mas não igual) à situação de Moreno nos anos 60 / 70, que foi menos desenvolvido pelas pressões do mandelismo e SWP / [1] /.

Por não ter setores burgueses no governo não apenas fizemos parte do PSUV na Venezuela, mas tínhamos companheiros que faziam parte do governo na fase progressista do mesmo. Esta política foi de apoiar todas as medidas progressistas do governo, e dele contra a burguesia, mantendo nossa própria posição independente como Lenin postulava na Terceira Internacional. A Frente única se diferencia da unidade de ação, enquanto esta é um acordo sobre um ponto conjuntural. A Frente realmente significa um acordo sobre vários pontos, as leis que o permitem etc.

  1. ALBA como rascunho de um novo modelo político econômico continental e a sua incapacidade de ser realizado sem romper com a burguesia.

Pela primeira vez na história moderna da América Latina o bolivarianismo chavista formulou um modelo econômico e político continental sem precedentes. Apoiado sobre a mudança na correlação de forças e pela situação econômica privilegiada pelos preços do petróleo, em primeiro lugar, e em segundo lugar pelas commodities em geral.

Este modelo levantou a possibilidade de uma unidade latino-americana diferente, o que parcialmente existia nos países da ALBA, mas isso não foi conseguido em uma escala continental e que significou uma grande luta revolucionária, que era a lógica chave para o processo não se estancar. Não se estendeu porque tinham oposição. Os governos neoliberais que continuaram e especialmente os do sub-imperialismo  brasileiro, que, por um lado, ao extrair mais-valia dos países da ALBA através de investimentos de suas “multilatinas”, como Odebretch, Camargo Correa, etc., por outro lado, nunca quebraram a ponte com os EUA, ainda que não tenham usado isso para transitar da mesma maneira como governos anteriores fizeram.

Grandes empresas “latino-americanas”, como Slim do México, Odebretch, Gerdau etc. do Brasil, Bunge do Brasil e Argentina, Techint da Argentina e, certamente, importante burguesia chilena, para citar alguns, são burguesias muito entrelaçadas na rede internacional de corporações, com investimentos nos países imperialistas. Deste ponto de vista, tem um caráter burguês específico, diferenciado, já que por seus próprios interesses econômicos nos países imperialistas, não está, para eles, em primeiro lugar a defesa de seu país de origem, mas a economia global como um todo, que claro, é dominada pelo imperialismo.

Assim, era impossível para a burguesia integrar um projeto de unidade continental, uma vez que a extensão da ALBA significava romper politicamente e economicamente com ele. Seu avanço abriu um curso anticapitalista em escala continental. A extensão Sul-Centro americana da ALBA, em que o Banco do Sul foi um passo, significaria uma ruptura completa com o imperialismo e um caminho sem precedentes de independência, que levaria a uma grande ruptura econômica com a burguesia e os monopólios imperialistas como os ativos vinculados.

Neste ponto central, podemos dizer que Chávez freou seu bolivarianismo quando estava no meio do caminho, ele favoreceu a política de diplomacia com o governo brasileiro, que falou do Banco Do Sul mas não forneceu um real. Chávez terminou cooptado a entrar no Mercosul, que foi um projeto inviável para a unidade latino-americana. Era correto manter relações diplomáticas com esses países, mas isso não significava subordinar a política à diplomacia. /[2]/

  1. Esta política e a não nacionalização dos bancos são, talvez, as maiores limitações chavistas, que também está ligado à facilidade com que progrediu à burocratização na Venezuela e, finalmente, a sua capitulação ao Brasil em troca da entrada no Mercosul, uma integração econômica que nunca existiu como tal, ao contrário da ALBA. A criação da Quinta Internacional foram palavras que o vento levou. Haviam condições para alavancar o processo continental? Nós não sabemos onde ele poderia ir, mas não foi promovido e não foi um eixo central da vanguarda revolucionária nesse período.

Esta foi a tarefa central que foi levantada por Lenin depois da tomada do poder na Rússia. De alguma forma nós tentamos influenciar nessa política, mesmo com nossas próprias debilidades e nossa localização no PSOL. (Fizemos contato com a embaixada, trouxemos Chávez ao FSM em 2003, entre outras coisas). Mas Chávez preferiu dar prioridade à diplomacia com os governos (exceto por um período com a Colômbia, onde ele apoiou as FARC, que, aliás, devo dizer que não foi uma boa maneira de extensão e, portanto, teve de recuar e entregar um militante). Não nos opúnhamos à diplomacia com os governos, mas era errado transformar isto em estratégia, que deveria ser o apoio à luta de classes separando as relações na superestrutura da política continental, sem criar qualquer ilusão no lulismo e Kirchnerismo.

Mas a linha de fundo teria sido – e nós insistimos nisso a partir das relações que tivemos com chavismo desde o Brasil – da necessidade de apoio ao PSOL, do impulso para manifestações como da Argentina, de onde Chávez fazia suporte completo aos Kirchner.

Críticos chavistas (e talvez nós mesmos) dão e deram mais ênfase no que o socialismo não se aprofundou. Mas isso era uma parte, e parcial. Não foi o central, que era a luta contra a burocracia e a política internacional para a América Latina. / [3] /

  1. De qualquer forma, a ALBA foi muito progressista, especialmente em relação a Cuba, já que quebrou o isolamento da ilha, deu um novo impulso à troca igualitária e reforçou a independência da ilha. Não por acaso, neste período em que nós praticamos a política da FUA conseguimos uma relação privilegiada com Celia Hart, a filha da revolução, como foi chamada. Não é por acaso com a crise econômica e social venezuelana se aprofundou a crise em Cuba, uma das razões que explica o seu acordo com Obama, que é um elemento importante do novo ciclo aberto, como o acordo entre o governo Santos e as FARC sobre o qual trataremos.
  2. Diferenças fundamentais entre o social liberalismo petista e o Bolivarianismo. Também os pontos de contato.

Durante este período, podemos definir três tipos de governos.

  1. Os governos burgueses pró-imperialistas clássicos, como Uribe na Colômbia, México, Chile (país de que recebemos muito bons esclarecimentos a partir de documentos dos companheiros) e vários países da América Central, incluindo Guatemala;
  2. O nacionalismo radical dos bolivarianos (Venezuela, Bolívia, Equador)
  3. Os governos não-tradicionais, porque neles deixou de governar a burguesia clássica tradicional, e passou a fazê-lo, no Brasil, o social liberalismo petista, o kirchnerismo na Argentina, a Frente Ampla no Uruguai, Ortega na Nicarágua, El Salvador com a FMLN , Peru com Humala e Lugo do Paraguai.

Mas ambos governos b) e c) tiveram o ponto comum que eles não eram burgues clássico e foram uma mudança importante, uma vez que se tratava de governos que não tinham gênese na burguesia. O PT de origem na classe trabalhadora e da igreja à esquerda, o uruguaio Frente Ampla em partidos operários e um general que incorporou setores pequeno-burgueses, Evo baseado no indigenismo e os Kirchner na Argentina (origem pequeno-burguesa) e da província historicamente com menos peso na política de seu país, o padre Lugo Tecoyoca na formação de pequenos intelectuais com burguesia urbana e camponeses no Paraguai etc.

  1. Esses governos de origem não burguesa não eram os mesmos, mas opostas em sua política para com o imperialismo.

Passaremos agora para estes novos governos que são de dois tipos e com dois extremos: os bolivarianos e o social liberalismo petista. É importante marcar essa diferença porque o neostalinismo ou o chamado “progressismo” de Emir Sader ou Atilio Boron, e muitos outros intelectuais expoentes da esquerda colocaram-nos todos no mesmo saco, e os qualificaram como governos progressistas e independentes, ao contrário da posição assumida pelo PSOL desde antes de sua fundação já seus dirigentes desde o início do governo Lula fizeram oposição de esquerda. O nacionalismo radical pequeno burguês bolivariano, era uma prática de ruptura política com a burguesia e, em menor grau, mas também econômica, e neste caso através de grandes nacionalizações, no caso específico da Venezuela com a redistribuição dos rendimentos do petróleo e da política já mencionado de unidade continental contra o imperialismo. Seus governos tornaram esses países independentes.

Estes partidos têm governado sem que seus governos façam alianças com velhos partidos tradicionais, diferentemente do petismo que governou desde o início com o PMDB e PP, em seguida, com os velhos partidos ligados ao coronelismo e à burguesia.

O chavismo rompeu o isolamento de Cuba e colocou para a América Latina um novo marco, um modelo de novas constituições e redistribuição de renda, e como discutimos o mais importante para o seu desenvolvimento foi a extensão do processo a outros países (até certo ponto, como Chávez entendia), quando colocou em pauta a Unasul e Bancosul, embora o tenha feito pressionando os governos e, particularmente, ao PT, que finalmente acabou capitulando na política internacional. Ao contrário, ele parou na metade do caminho, essencialmente bloqueado pela política de diplomacia com o governo brasileiro, que foi totalmente oposto e manteve laços prioritários com os EUA e os BRICS.

No outro extremo, o expoente mais importante foi o petismo que qualificamos como social liberalismo, continuando a política de FHC e promovendo o sub-imperialismo brasileiro. Governou por e com grandes expoentes da burguesia (Meirelles do Banco de Boston, Furlan proprietário do maior complexo de alimentação, etc) privilegiando a relação com os principais complexos de construção de infraestrutura (associados com produtos petroquímicos do óleo etc.), agronegócio e bancos.

Usou os recursos dos três principais bancos estatais para favorecer estes setores do país em sua expansão sub-imperialista no continente. Esta característica sub não é nada nova, pois o Brasil desde o pós II Guerra Mundial era a ponte privilegiada dos EUA. Este aspecto de sub (que foi feito para a região e também África), foi facilitado pela retirada dos EUA e porque em certa medida, souberam “representar”, jogando no papel de subpotência associada (associação conflitiva, tal como definido pelo marxista brasileiro Marini).

O Brasil foi um colchão para impedir que o processo bolivariano se continentalizasse, que era a tarefa definida para tentar um desenvolvimento independente e também evitar o isolamento dos países mais avançados da Venezuela e da Bolívia.

A nossa política no Brasil foi, desde o início de oposição frontal ao governo Lula, formando o Movimento por um Novo Partido e, em seguida, o PSOL, insistindo agora na necessidade de ser contra Temer, mas também contra o “Volta Dilma”, e em vez disso eleições gerais.

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Primeiro encontro do movimento que formou o PSOL
  1. Esta desigualdade e o freio de oposição do Brasil ao bolivarianismo não pôde ser resolvido neste período, apesar do aumento da luta de classes que foi geral. A vitória de Humala em 2010 no Peru parecia a reativação do bolivarianismo, mas não foi. Foi engolido pela política brasileira.

Uma explicação objetiva é que desde 2007 não se repetiram as grandes insurreições anteriores principalmente pelos tipos de governos que surgiram e que se acomodaram graças à situação econômica privilegiada de exportação de comodities para a China e o grande aumento dos preços do petróleo./[4]/

  1. O surgimento e consolidação das burocracias estatais

Entre os diferentes processos do petismo e do bolivarianismo houve, no entanto, um nexo de unidade que foi feito ao longo do tempo, cada vez mais forte: o aparelho do Estado em todos esses países; são 13/14 anos do PT, 18 de Venezuela, Bolívia e Equador 9. Não é pouca coisa, deu origem a um aparelho de Estado e do processo de surgimento de castas burocráticas, na Venezuela mais independente, que trabalharam em seu próprio benefício e na criação da boliburguesia, no Brasil como agentes da grande burguesia ou parte dela, com quem tinham relações orgânicas ou ganhavam somas astronômicas em valores bilionários em muitos casos. /[5]/

No caso do Brasil, o PT foi um agente orgânico de grandes setores burgueses. Na Venezuela, Chávez e o PSUV foram independentes. Mas ao colocar suas mãos sobre o estado (ou melhor, sobre a maior parte das suas instituições) levou ao surgimento de burocracias estatais com as suas regras de casta privilegiada, processo que também existe em sua melhor expressão de domínio estatal no capitalismo de estado cubano.

Dispositivos de estado como base para seus partidos (são processos lógicos para governar), criaram burocracias (exceto talvez o Uruguai) em todos os lugares (na Venezuela especialmente após a morte de Chávez). Seguindo a onda global houveram grandes elementos de lumpenisação (corrupção, “enriquecimento ilícito”, como mostra Lava jato), de uso discricionário do aparelho de Estado que também irritava a burguesia (também corrupta), porque os tirava, e no caso da Venezuela continua tirando, mais-valia ou rendimento.

Essa situação facilitou a campanha reacionária de setores da burguesia contra esses governos, bem como a rejeição popular por seus casos de corrupção que apareceram cada vez mais fortes, atraindo o ódio por parte da população a todos os políticos, que tem atingido alto grau de rejeição.

  1. Nesta última parte desta etapa e durante toda ela continuaram as lutas importantes

No Chile, a luta da juventude e as greves abriram uma rachadura no regime político neopinochetista como marcam nossos companheiros; na Argentina, onde nunca parou, ou a luta popular contra o extrativismo e a mineração no Peru; no Brasil e no México a greve dos trabalhadores da educação e derrota dos eletricistas, no Brasil a Revolta de Junho, para lembrar algumas das mais importantes da agenda.

II – A nova etapa mais coerente com a situação mundial

Os elementos-chave que fecham esta fase são: a) a morte de Chávez, b) a entrada da crise econômica no continente, c) a derrocada do PT e do fim do seu ciclo com a revolta de Junho de 2013, d) se afirma mais tarde, com o triunfo de Macri, o impeachment de Dilma e o madurismo em crise terminal na Venezuela.

Da mesma forma surge o fortalecimento das políticas reacionárias das burguesias locais apoiadas pelo imperialismo. No entanto, deve ser notado que isso ocorre sem que houvesse uma derrota do movimento de massas, seja contrarrevolucionária ou reacionária, nos referimos a derrotas graves ou triunfos contrarrevolucionários como nos 80.

Há triunfos reacionários, que foram essencialmente derrotas causadas pela crise que apontávamos dos governos progressistas que são mais superestruturais do que estruturais. Portanto, há uma relação dialética entre superestrutura e estrutura, uma vez que eles vêm para implementar planos de ajustamento fortes, que no caso do Brasil, Dilma já pretendia aplicar, mas não teve a força para fazê-lo. Um fato mais negativo produz algum desânimo ou confusão no movimento de massas e que é agravado pela crise econômica que afeta também a ausência de um modelo econômico alternativo. De qualquer forma, como insiste Sergio Garcia do MST da Argentina em seus escritos, não há possibilidade de um retorno ao que foram os anos de auge do neoliberalismo dos 90, ou seja, uma fase de entrega total e semi-colonização do imperialismo. A correlação de forças global e latino-americana não permite, por agora, isso.

Há uma luta movida contra os planos mais reacionários e veremos o resultado delas. São governos reacionários, perigosos, mas, ao mesmo tempo fracos ou débeis porque não são consequência ou resultado de uma derrota nem reacionária nem contrarrevolucionária sobre o movimento de massas; porque enfrentam uma enorme crise econômica; porque surgem de processos onde a burguesia como um todo está desacreditada pela crise política dos regimes latino-americanos e da própria crise econômica, política global.

Os desejos das burguesias e do imperialismo, de Macri, Temer e Serra (seu ministro das Relações Exteriores), é voltar a favorecer a política com o imperialismo norte-americano (nunca rompida completamente no Brasil). Mas, contra o que pensa o chamado progressismo, não significam um retorno ao neoliberalismo puro, rígido e pró imperial americano. E isso acontece porque, como dissemos, há condições totalmente diferentes no mundo e no continente desde o 90.

  1. A América Latina se sincroniza com a situação mundial.

Esta é a realidade do nosso continente; a nova etapa significa que a América Latina ainda está sincronizada com a situação mundial, de crise econômica, política, social, ecológica e até mesmo moral. América Latina na etapa anterior foi, em certa medida na contramão com a situação do mundo. Foi favorecida pelos preços das commodities e do petróleo, graças aos esforços da economia chinesa, e no início da crise de 2008 manteve traços nacionalistas impostas pelos nacionalismos radicais.

Tudo isso mudou nos últimos dois anos, em que a crise global do capitalismo chegou plenamente. E este é um ponto essencial para compreender a nova situação que vai viver a partir de agora a América Latina. Entra mais recuada, e talvez seja por isso que vai sofrer mais. Assim, de forma a sintetizar, é importante observar algumas características essenciais da situação mundial que explica muito do que está acontecendo em nosso continente.

  1. A nova fase do capitalismo e do novo período de luta de classes mundial e suas expressões na América Latina

Assinalamos de passagem em pequenas minutas e documentos anteriores, várias características da situação mundial e do imperialismo, que acreditamos ser preciso repetir sem se afastar muito do eixo do texto. Mas são essenciais para entender como a América Latina está sincronizando com eles.

Vivemos em uma nova fase do imperialismo, da globalização ou mundialização do capital, em que se expressam de maneira muito mais exacerbada as características que definiram Hilferding e Lênin, mas também se acrescentaram outras que marcam um período de declínio global: a crise econômica estrutural, crise ecológica e moral se intensificaram, e na América Latina levam suas expressões específicas. Se antes a América Latina teve o vento a favor por causa da exportação de commodities para a China, agora a crise será mais explosiva, com já foi na África.

Com a restauração do capitalismo na Rússia, Europa Oriental e China o capitalismo alcançou a mundialização do capital (expansão total quebrando barreiras e ao mesmo tempo maior concentração e inter-relação de capital e riqueza, e aumento acentuado das desigualdades sociais). Os dados do último livro de Dumenil e Levy publicado em uma recente entrevista (www. fuhem.es) ilustra bem esta situação./[6]/ neste contexto, o aumento da desigualdade na América Latina vai ser muito aguda.

Se trata de um capitalismo que desenvolve bem as forças produtivas e novas tecnologias enquanto com a crise recorre a novas formas destrutivas do ponto de vista da destruição ambiental, e da acumulação por espoliação, cujos pontos altos são deslocamentos forçados nas cidades para a especulação rentista e extrativismo que está acontecendo no continente da África e da América Latina, com minas a céu-aberto nos Andes e outras regiões.

Seria difícil explicar a mundialização neoliberal se não houvesse ocorrido vários episódios políticos que modificaram a situação. O curso neoliberal de Thatcher y Reagan imposto nos 80, a queda do chamado socialismo real e a revolução tecnológica na informática, que provocou também uma revolução nas comunicações, e permitiram uma mudança qualitativa nas fusões internacionais do capital. Possibilitou também que as grandes corporações criassem uma cadeia de produção mundial, que internacionalizou a produção das multinacionais e, como consequência disso, o surgimento de um novo problema para o proletariado: a existência de um exército de reserva mundial. As multilatinas das quais falamos são parte deste processo. Também o fato de que a produção em cadeia de alguma maneira fragiliza a classe trabalhadora, já que a internacionalização da luta dos trabalhadores fica muito desigual com a internacionalização e produção em rede das corporações.

Houve também uma modificação importante na estrutura do estado. Desapareceu cada vez mais o estado de bem estar e o mesmo se transformou em instrumento a serviço (ou cooptado também pode-se dizer) das grandes corporações que dominam a economia mundial.  Dizer, hoje em dia que o capital não intervém no estado é uma irrealidade. Pois o faz de maneira muito mais direta e a seu serviço. O Brasil a sua maneira não deixa de ser parte deste fenômeno já que os mesmos estão a serviço das grandes empresas. Mas a bem da verdade durante a etapa anterior e graças ao vento a favor que teve para converter-se em exportador, o estado pode repartir uma pequena porção da torta para os trabalhadores em países como Argentina e Brasil. Isso, agora se encerra. Começa, como se passou no México, o desmonte do estado com consequências muito mais graves que no mundo capitalista desenvolvido.

Ocorreu uma deformação dos regimes da democracia burguesa, que explica seu estado de crise na socialdemocracia ou no PT no Brasil. As grandes corporações converteram os partidos em seus agentes. A crise econômica mundial, que levou a uma contrarrevolução permanente provocou uma forte crises dos regimes do clássico bipartidarismo que se vê em todos os lados. Como bastante abordaram os companheiros do Podemos, existe uma casta política que tem seus próprios interesses e relações orgânicas com estas corporações e este estado.

A crise econômica e política se prolonga no tempo (pela incapacidade do capitalismo em resolvê-la), com uma desigualdade ou contradição que é difícil de resolver para os socialistas, mas que tem dado origem a fenômenos intermediários que é fundamental compreender pela esquerda revolucionária. Se trata do fato de que não há, hoje por hoje, um modelo alternativo socialista ao capitalismo.

Desde o Vietnã não há nenhuma expropriação da burguesia, e isso tem sido mais difícil pelo grande e amplo domínio da economia mundial pelas grandes corporações que dificultam a existência de modelos autárquicos e mesmo o aprofundamento do socialismo ou a transição ao socialismo em um só país. E isso se dificulta ainda mais pela falta de um modelo alternativo, questão que está relacionada à crise ideológica provocada pelo fracasso do único modelo que as massas conheceram: o “socialismo real” ou o falso socialismo.

A crise dos regimes do bipartidarismo e a debilidade de alternativas junto a existência dos grandes fluxos migratórios (os maiores desde a segunda guerra mundial), provocam o surgimento das direitas proto-fascistas de Le Pen na França, de Trump nos Estados Unidos, o triunfo do Brexit na Gran Bretanha e regressão ao barbarismo no Oriente Médio (o Estado Islâmico é um caso particular e mais agudo deles); O Brexit, se por um lado desarticula ainda mais a UE, por outro tem esse componente anti imigrantes e islamofobia, por isso seria errado apoiá-lo. Não há elementos progressivos, a não ser a mudança para melhor da independência escocesa, mas desde o ponto de vista democrático e para a classe trabalhadora é um retrocesso. Já que estamos no processo no qual a unidade da classe trabalhadora europeia e seus processos progressivos são um ponto essencial para derrotar a política da Troika, e nesse sentido temos que compreender o Plano B para Europa encabeçado por Varoufakis.

3- A luta de classes continua e surge novos processos políticos

Mas a luta de classes segue. Surgiram os indignados, as grandes greves de resistência dos trabalhadores, as mobilizações democráticas e isso culmina expressando também no terreno político. Pelas contradições que apontamos, não surgiram alternativas “puras”, mas novas alternativas (denominamos de intermediários, democráticos reais) que por fora do velho esquema do regime democrático burguês clássico bipartidarista de alternância entre direita conservadora e socialdemocracia (decadente e corrupta), que são processos diferentes nesse sentido: Syriza na Grecia apesar de sua capitulação, Corbyn na Inglaterra, Sanders nos EUA, a votação do Bloco de Esquerda em Portugal, ao qual devem ser adicionados processos que não são ruptura, mas que encontram espaço nesta situação, como é o triunfo depois de um longo período de tempo da esquerda liberal no Canadá.

4- A política dos EUA para América Latina

Temos dúvidas de que América Latina seja o ponto privilegiado da política do imperialismo ianque para recuperar parte da hegemonia mundial perdida em meio do caos que percorre o mundo e em especial o grande Oriente Médio e Europa agora agudizado pelo Brexit. Isto não quer dizer que não tenha condições para retomar alguma ofensiva e está fazendo-a.

→Mas o processo mundial é muito complexo, e os EUA tem como prioridades responder à grande conflitividade comercial e também armamentista agudizada agora pela política da Russia, primeiro na Ucrania e agora na Siria, ao que se somam os acordos globais entre China e Russia. Estes protoimperialismos ou imperialismos, desfiam a debilitada hegemonia americana no marco de uma situação conflitiva que também tem elementos de associação em especial entre os EUA e a China, que precisa desse grande mercado interno para suas exportações. A competição econômica é dura ao que se soma a tentativa chinesa sobre sua área de influência regional que tem sido até agora dominaga pelos EUA.

→A política exterior dos EUA está por enquanto indefinida até as próximas eleições. Trump encarna a direita proto fascista. Alguns setores anti-imperialistas pensam que como essa direita mundial é mais chauvinista ou nacionalista traria menos perigos para América Latina. Eles erram como Stalin e muitos stalinistas erraram com Hitler. Atrás desse discurso está o pior racismo apoiado na classe branca mais reacionária que descarrega o ódio contra imigrantes e seus países, ou seja América Latina e que como o sionismo israelense quer construir um muro.

→Por parte do clã Clinton, é representante do grande capital e corporações que conduciram os EUA à crise. No entanto, o partido democrata, a diferença de Trump, tem que se adaptar a uma realidade nova expressada em Sanders, Waren dentro do partido que expressam aos trabalhadores com suas percas de conquistas, o movimento negro e de imigrantes.

→O establishment democrata traça uma política diferente com pontos similares à da cenoura e o garrote. O acordo de restabelecimento das relações com a Cuba significa uma mudança em relação à ilha. De um lado, tem que reivindicar a independência cubana e seu atual governo burocrático quebrando neste sentido a política da larva de Florida. Por outro lado, é uma arma para a entrada de novos capitais e investimentos que Cuba precisa, mas que a levarão a uma situação de dependência e maior desigualdade tipo China mas com piores características.

Por outro lado, os EUA aceitaram o acordo de paz com as FARC que é um certo triunfo do povo colombiano depois de 50 anos de guerra e remoções forçadas. Uma paz esquiva como diz o artigo do Portal de la Izquierda mas que libera as massas colombianas de uma situação de guerra./ [7]/

→O capitalismo de Estado cubano impõe de fato duas economias, a estatal e a capitalista de pequenos empreendedores, de usufruto por parte do imperialismo do turismo cubano e de algumas matérias primas e metais importantes que possui a ilha. Isto gera uma desigualdade muito grande na população. Mas em definitiva a parte que não é dos pequenos empreendedores burgueses não é socialismo, porque no fundo o que tem em Cuba é um capitalismo de Estado que se beneficiará dos acordos com o imperialismo como dos pequenos proprietários.

→A política para América Latina, seja a política exterior mais importante dos EUA, senão parcialmente como parte do TTP, ainda que tente novamente utilizar o Brasil como sua ponte principal ou está nas suas prioridades entre outras coisas pela crise política que viveu o pais e suas incertezas. O eixo dos EUA é Asia e a competição com a China e nisso privilegia o TTP que abrange o Chile, Peru, Colombia, no qual entram estes países, mas principalmente Vietnã, Coreia do Sul e outros países asiáticos, são ferramentas com as que combate a maior presença chinesa.

→De todas formas, EUA não abandona América Latina. Sua estratégia imperialista se baseia também em elementos preventivos de coerção. Por isso, um fato a destacar é a presença militar crescente no Peru, como parte de uma estratégia global ante o perigo de uma maior entrada da China, que hoje já tem uma importante presença.

5- Um desafio para os anti-imperialistas latino-americanos: empalmar com a luta de classes do pais do norte

Como escreveu a autora colombiana Laura Restrepo em Hot Sur, os latino-americanos empobrecidos tomam o pais do norte por assalto; a onda migratória não para e não vai parar na medida em que se aprofunda a crise econômica. É essa situação, mais a pobreza crescente, a luta dos negros que são uma grande parte também da população do sul o que estabelece também um nexo estrutural mais estreito com os EUA e que determina também parte da política do império pra América Latina.

Os teóricos e políticos do chamado campismo explicam que a crise que atravessam os governos do sul se deve e é provocada pela política ianque (por exemplo Maduro cobre a crise toda que em grande medida é obra da sua burocracia e corrupção dizendo isso). Uma meia verdade. Ao fazer a essência da luta o enfrentamento entre países manipulam os trabalhadores e povos. Também tem a luta de classes no pais do norte. Lembremos como Chavez, à sua maneira, tinha política enviando petróleo barato a determinadas zonas dos EUA.

Uma questão é a política internacional do império, e outra a relação entre as massas latino-americanas e americanas. Precisamente o obscurantismo campista, vê o país como um todo, é incapaz de separar as classes sociais que os integram e as superestruturas contraditórias que as representam. Isto pode mudar na medida que ocorreu o grande fenómeno Sanders que deu à luz nos EUA a uma forte polarização que é o resultado das desigualdades crescentes, da luta por novos direitos sociais, e das lutas dos trabalhadores entre elas pelo salário de 15 dólares por hora.

Sem ter isto em conta, é impossível uma política contra o imperialismo que não consiste somente na denúncia e a queima de bandeiras ianques nas manifestações, nas quais a esta altura da situação aparecem como equivocadas. Tem de se explorar um processo novo, e mais estrutural que vincula os EUA com a América Latina (em especial o México e Centro América), de maneira mais dialética em suas relações. É evidente que EUA, a pesar da sua leve recuperação, não saiu da crise. E é evidente que existe um agravamento da pobreza em especial dos vindos da América Latina e do continente africano. Eles fazer parte de um novo estágio na luta de classes que por obvio existe no pais e que tem efeitos bastante diretos sobre América Latina. São efeitos que se interligam.

Isso se combina com uma mudança política importante no pais do norte que foi expressa por Sanders, que não sabemos como continuará, mas que temos certeza que continuará, pelo qual a relação das massas e os movimentos e partidos da América Latina com esse setor que surge nos EUA é decisivo.

Mas como dizíamos, na interação dos movimentos de massas de norte e sul existem /[8]/ a partir de que a pobreza e a crise econômica avançam em todos lados. E uma demonstração das dificuldades que encontra a classe dominante americana é por exemplo a oposição da maioria dos sindicatos a este acordo, que significaria a perda do trabalho para milhões.

6- As lutas continuam. Mesmo existindo um curso reacionário nos governos, não tem triunfado uma contrarrevolução em nenhum pais; neste ponto há uma polémica com a velha esquerda.

Discordamos com a velha esquerda que ante o iminente colapso venezuelano e outros (como o triunfo do Macri, impeachment da Dilma), que todo é produto de golpes do imperialismo. Seria de necios negar a ação e o aproveitamento que o imperialismo está fazendo e vai fazer dessa situação, mas as causas fundamentais do fim de ciclo são uma combinação de elementos nos quais como já vimos entra o papel que jogam e jogaram estas direções.

O imperialismo por agora joga o papel de garrote e cenoura, e mais cenoura que garrote. Tenta impor sua política mais por meio da sua supremacia econômica que pelo garrote político. Provas ao canto são o acordo bilateral com Raúl Castro sobre Cuba e a paz lograda com a guerrilha da FARC na Colombia.

Desde sua postura da ofensiva golpista imperialista, a velha esquerda deduz que deve-se continuar apoiando o frente único crítico a estes governos, porque segundo eles o inimigo principal é o imperialismo ao que estes governos enfrentam. Esta postura arrasta em Brasil, o mesmo em Venezuela e outros países alguns setores da vanguarda e inclusive a organizações trotskistas como é o caso do PO (Partido Obrero) e o PTS (Partido de los Trabajadores Socialistas) da Argentina e suas organizações irmãs brasileiras e lamentavelmente setores do PSOL, inclusive Insurgência, que tem participado em atos hegemonizados pelo PT e suas organizações sociais que acabam sendo de apoio a Dilma.

Para nós, toda confusão com estes setores nos enfraquece. Como já mencionamos no começo, nosso eixo político é a construção de um terceiro campo.

O que é verdade, é que a crise provoca o surgimento das direitas super-reacionárias. No Brasil temos setores proto-fascistas como Bolsonaro, um setor social que polariza à direita vai existir; mas é muito improvável na América Latina voltar a regímes autoritários fortes bonapartistas ou ditatoriais. As massas, em primeiro lugar na Argentina, têm feito a experiência com isto, e além disso, não existem as ondas de migrações que chegam na Europa e os EUA.

7- As novas lutas de resistência aos planos destes governos

Há um elemento novo que é a incorporação de novos atores da juventude, mulheres, a luta anti-extrativista, democrática, popular. Mas não devemos esquecer que a contra-revolução econômica afeta o coração da classe trabalhadora com as tentativas de terceirização (já rechaçados pela juventude peruana) e as demissões, e é ali onde vai ser decidido em grande parte o futuro da derrota destes governos. Até que ponto a classe que não conta com novas organizações senão com os sindicatos (onde devemos estar), mas também tem um proletariado mais jovem [que se movimenta também por fora das estruturas de disputa tradicional da classe] (NdT).

Há importantes processos na luta de classes, no Junho de 2013 do Brasil, na mobilização chilena, argentina, nas lutas populares contra as mineradoras no Peru, na greve agrária na Colombia, na greve de Panamá.

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junho brasileiro – 2013

8- A grave crise econômica estrutural impede um desenvolvimento capitalista (o que não quer dizer crescimento do PIB)

A crise econômica combina-se com a crise política nos lugares chave do Brasil e Venezuela, onde ambas se retroalimentam. De maneira ainda desigual afeta a todos os países e a saída não será nada fácil para a burguesia. Num sentido podemos dizer que na América Latina a crise vai ser mais grave da que vemos nos países avançados já que leva a todos os governos (sem exceção) a uma política de ajustes ao estilo europeu, com a aparição por isso de uma crise social e de aumento da pobreza que será exponencial.

→Os governos tem que aplicar fortes planos de ajuste ao estilo da troika com Europa do Sul e estes serão resistidos. Os planos de ajuste, igual que na Europa, serão recessivos, e por isso não vemos que isto provoque uma onda de investimentos produtivos.

→Os investimentos que esperam estes governos dos grandes capitalistas que dominam a economia mundial para reativar as economias, não terão apenas um elemento que permita uma etapa de desenvolvimento capitalista das burguesias locais senão um aumento da dependência depredadora, serão investimentos que agravarão a crise social e ecológica e que no essencial não vão mudar a crise econômica que se tornou estrutural (Macri até agora não recebeu um centavo). No caso do Brasil, pode ser um pouco mais, mas o que se espera é ilusório, porque não se pode isolar a situação econômica da própria crise política dos países que se retroalimentam. Vão entrar nas altas taxas de interesse –se a situação econômica se estabiliza=, capitais especulativos.

Porém, o que mais deseja o imperialismo da América Latina não são os investimentos produtivos, ainda que pode haver em países industrializados se conseguem aumentar a taxa de exploração e de produtividade como no Brasil, Argentina, Colombia, Chile, México. O que mais tentarão de aprofundar (e já estão fazendo), é o que Harvey chama acumulação por apropriação, a espoliação, o extrativismo selvagem como agora está proposto no Arco Minero do Orinoco, os empreendimentos no Peru, Argentina (a cordilheira toda, inclusive centro América: Santo Domingo, Honduras, etc). O controle da produção agrícola por parte das sementes e os agrotóxicos (Monsanto) etc.

→ O resultado destes planos que nós chamamos de contra-revolução econômica permanente é uma maior pauperização do povo pobre, de mais crise social e desemprego e um aumento das desigualdades sociais.  Venezuela é o caso extremo, mas o Brasil já vive um incremento muito veloz da pobreza (depois do período do consumismo), que também se deu em vários países da América Latina e que teve seu ponto mais alto no Chile, como muito bem explicam os companheiros.

→ Ao mesmo tempo terá mais medidas repressivas contra o movimento de massas e seletivas à esquerda, e por isso ao mesmo tempo são perigosos do ponto de vista que vão tentar por todos os meios enfrentar o movimento de massas, de um lado com medidas antidemocráticas e repressivas extremas que se bem se dão dentro dos regímes democrático burgueses, não podemos despreciar sua importância. Se preparam para uma repressão ou cerceamento seletivo sobre a esquerda e para evitar por vias legais o surgimento de novas alternativas de massas.

9- A crise dos regimes políticos e a fraqueza nas alternativas burguesas de dominação

Esta etapa se dá com um desprestigio das castas políticas (também herança da anterior), produto da sua lumpenização (corrupção), o que faz com que qualquer governo que suba (no caso do Brasil é muito visível e no Chile com Bachelet também) enquanto Macri na Argentina está na corda bamba e México mais ainda, que enfraquece intrinsecamente estes governos. Isto é, são fracos por si mesmos além da resistência da luta de classes.

O fenómeno da corrupção é uma questão orgânica do capitalismo acentuada nesta etapa de crise onde a burguesia cada vez procura a ganancia rápida. De conjunto, tem uma lumpenização e as classes dominantes que gira ao redor da ganancia fácil e rápida, da especulação financeira, a curto prazo, do narcotráfico, de ocultar suas ganancias em paraísos fiscais (Panamá papers). Para isso, tem seus agentes que governam, as castas políticas corruptas que tem uma ligação orgânica ou quase orgânica com estes setores. Nos negamos a dizer que a corrupção está apenas no que chamamos de castas políticas. Começa na grande burguesia como demonstrou no Brasil a Lava-Jato e por isso lutar contra ela (corrupção) é também anti-capitalista.

III. O fim do ciclo das direções que hegemonizaram o anterior período

Nos referimos ao Petismo com o foro de São Paulo de um lado, e no outro extremo do bolivarianismo. Estas direções hegemonizaram a etapa anterior e ambas entraram em crise, por distintas razões, mas que tem ponto em comum como mencionamos antes. A maior responsabilidade é do petismo, porque não quis estender o processo bolivariano por seus acordos com a burguesia brasileira e o imperialismo. E porque a diferença de Chávez, o PT governou para a grande burguesia.

O fim de ciclo (que a velha esquerda pró estalinista chama de “progressismo”) planteia a busca de novas alternativas e dos terceiros campos, diferentes das velhas direções e dos novos governos burgueses. Como já colocamos, ocorre sem que possamos ver ainda (exceto no Peru com a Frente Ampla) novas alternativas que tenham influência de massas.

1- Ante esta situação, é hora da disputa para criar novos processos e direções que não é fácil porque setores da vanguarda (sobretudo os mais velhos mas também os jovens) são confundidos pela sua política agora “opositora”, não assim o movimento de massas, que está aberto. Se no movimento de massas prima o rechaço às velhas direções do progressismo, na vanguarda é mais confuso. A construção de um terceiro campo, independente do velho estalinismo e da ultraesquerda é fundamental. Não se trata de fazer uma diferenciação dos “progressismos” como diz Olmedo que ficou colado a eles. Se trata de ter uma política para as massas de disputa nos marcos do ceticismo e descrédito dessas direções (depois tem que mencionar o programa e palavras de ordem para isso). Mas parece que isto novo vai surgir em todos lados. Temos que ver que não seja solo Peru. No Brasil com as eleições municipais, em particular em Porto Alegre e outras como Rio e Pará.

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Luciana Genro fala ao meio da juventude da Oposição de Esquerda da UNE.

2- Em relação à tática sobre estas velhas direções que se bem estão em crise, não estão mortas e seguem atuando (o PT e sua Frente Brasil Popular, o PSUV e Maduro em Venezuela), o Kirchnerismo na Argentina, nossa corrente tem que se separar com clareza das mesmas, só participamos em unidade de ação nas lutas de resistência reais que estão e vão se colocar.

3- Há uma mudança de qualidade em nossa política para América Latina que se expressa na mudança de política na Venezuela. Somos chavistas críticos, e isso significa também ruptura com a cúpula bolivariana e sua política. Esta política tem que ser a nível continental. Estamos contra a ingerência estrangeira na Venezuela, mas como muito bem planteiam os companheiros, não estamos contra o referendo e defendemos as liberdades democráticas que Maduro ataca. Nos diferenciamos da direita e de Maduro e apoiamos as ações independentes populares contra a miséria.

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“NEM BUROCRACIA NEM CAPITAL” – Marea Socialista – Venezuela

4- Temos que nos diferenciar de duas posições:

  1. a) as posições simplistas-campistas que consideram que na América Latina tudo se explica pela política ofensiva do imperialismo ianque. Para este setor, a política seria defender os governos da Venezuela e Brasil contra o imperialismo. O eixo continental deles é o apoio a Maduro e Dilma, (Olmedo e o Polo Ciudadano, estão fazendo em Panamá um ato contra o golpe no Brasil e de apoio a Dilma), deixando de lado toda a responsabilidade que estes governos tem nas políticas e no descrédito ante o movimento de massas como consequência da corrupção e a miséria que existe nestes países. Tudo se oculta detrás de que tudo é obra do imperialismo /[10]/
  2. b) a ultraesquerda que desde sempre vem dizendo que todos estes governos foram iguais e nunca enfrentaram o imperialismo e por isso se enfraquecem. E sempre se negaram a qualquer frente anti-imperialista (paradoxalmente agora alguns como PTS e PO da Argentina dizem que na Argentina há golpe).

IV – Sobre programa, política e palavras de ordem

1- Sobre a questão de modelo e a relação com os explorados dos EUA

É a discussão mais afastada da realidade, mas que tem sua atualidade já que faz parte da estratégia. Nesse sentido tem uma serie de palavras de ordem latino americanistas que não podem ser a mera II independência em abstrato. Devemos retomar a política bolivariana em uma escala (mesmo sendo propagandística superior)? É impossível combater a direita venezuelana que fala pro movimento de massas que Chávez dilapidava fortunas ajudando a Cuba e outros países sem dizer que nós estamos a favor da integração da América no seu conjunto, também com o Norte, mas que isso só é possível com uma unidade continental que enfrente as grandes multinacionais desse pais e os capitais financeiros que são os que mais tem nos espoliado. E dizer que essa possibilidade não é tão abstrata, porque há grandes setores dos EUA que tem passado a defender os imigrantes, os trabalhadores e os pobres que também tem muitos nesse pais.

É uma política arriscada porque pode parecer uma capitulação aos EUA, mas tem a ver com as mudanças que estão acontecendo nesse pais, e que significa um novo tipo de defesa da solidariedade internacional (do internacionalismo) adaptado ao que estamos vivendo.

Ali reside a importância (mais que com a Europa), a relação da nossa corrente com o pais do norte e concretar relações com os novos setores que tem surgido ao redor de Sanders.

2- Isto não nega que é fundamental a luta contra o imperialismo, que se expressa na luta contra as privatizações, contra o extrativismo minero, contra o papel destrutivo de Monsanto, o monopólio das sementes e agrotóxicos, contra a dívida, pelas auditorias e suspensão do pago, contra as bases militares instaladas em territórios de países latino-americanos com pretexto da luta contra o narcotráfico, de solidariedade contra o intervencionismo militar em Iraque, Afeganistão.

Uma palavra de ordem anti-imperialista importante (tanto ou mais do que as nacionalizações) pelo controle dos capitais especulativos, por fortes impostos aos bancos e monopólios e contra as remessas de lucro, que inclusive são maiores do que os investimentos que fazem.

3- Pela revolução democrática nos regimes políticos: revolução política

As palavras de ordem democráticas ganham um peso especial frente à crise de representação dos partidos políticos convertidos em castas políticas ao igual que a luta contra os regimes políticos em crise na maioria dos países. Isto é bem eloquente no Chile como planteiam os companheiros, no México, Peru, e de forma mais propagandística no Brasil. Mas as fissuras nos regimes está em todos lados, e isto se combina com que nesta etapa não vão existir melhoras afirmativas para estudantes negros, pobres, etc., como em alguma medida se deram com o PT no Brasil ou as mais progressivas mudanças constitucionais nos países bolivarianos.

O que vamos assistir é mais ataques às liberdades democráticas por parte dos governos, mais medidas repressivas como já estamos vendo; por exemplo com a lei antiterrorista promulgada por Dilma no Brasil ou a mesma dos Kirchner na Argentina e agora aprofundada por Macri.

Entretanto, como já falamos, não se trata apenas de uma defesa de liberdades democráticas (que tem que fazer), senão que tem que aproveitar as brechas para nos separar claramente dos mesmos e lutar por outros regimes políticos de democracia real, de participação cidadã, o que significa a destruição dos que agora estão, uma revolução política.

Isto coloca o tema das novas Assembleias Constituintes, com novas formas de representação e com um caráter soberano para decidir sobre tudo. Assim já está colocado como tarefa concreta no Peru, Chile, e em escala mais propagandística no Brasil.

4- A luta contra a corrupção, intrínseca do capitalismo em geral e mais ainda na atual fase de decadência e decomposição

No “imperialismo, fase superior do capitalismo”, Lenin falava de “parasitismo e decomposição” como elementos que explicavam a monopolização da produção e a decadência intrínseca do sistema nesse período onde vivia-se a primeira grande guerra.

Não tem perspectivas de guerra mundial, mas as características tem atualidade. Ao “parasitismo e decomposição” do imperialismo de Lenin, tem se somado outros elementos que reforçam este caráter. Entre eles, a ação destrutiva da natureza, o extrativismo e a acumulação por despossessão  da que fala Harvey. Não estamos e é muito difícil que exista uma nova guerra mundial, que seria muito mais que decomposição, mas se vivemos um período de financeirização, da especulação financeira pela ganancia fácil, diferente do que tinha com Henry Ford, da ganancia rápida por qualquer meio, e o mais fácil é o da corrupção, do ocultamento das ganancias, da compra indiscriminada de políticos, dos cartéis transformados em máfias, como foi o caso da corrupção das empreiteiras no Brasil.

Beinstein, que opina exageradamente que a lumpenização é o fenómeno central do capitalismo, cita uma muito boa frase do Marx em relação à lumpenização como fenómeno da sociedade capitalista /[11]/

Diferente da época na qual Marx escreveu, esta fase, que se caracteriza pelas crises de superprodução e portanto pela não realização da mais-valia e a consequência dos não investimentos produtivos, tem desdobrado este aspecto de forma crónica, cada vez mais intrínseca da forma de acumulação.

No Brasil, um ponto que delimita as castas políticas é precisamente que nós levantamos a defesa da Lava-Jato. Esta ação, se bem tem sido usada pela burguesia contra o governo, tem se tornado contra ela mesma e os partidos políticos, tem ganho independência e é parte da fissura criada no regime a partir das jornadas de Junho.

a defesa do meio ambiente.

Desenvolver como tema de enorme importância, aqui tem que entrar também a reforma urbana e o direito às cidades, as consultas, etc., temas desenvolvidos nas campanhas de Alejandro e Luciana.

os direitos das minorias LGBTs, negros, indígenas.

A pesar de toda opressão ainda presente, nos últimos anos a América Latina vem passando por um processo de avanços afirmativos desses setores sociais. Evidentemente, o que se progrediu, ainda não é suficiente. Mas, há um avanço no nível de consciência de amplas camadas da população e de organização de parte da vanguarda da comunidade LGBT, do movimento negro e dos povos originários. Esse rico processo ganha cada vez mais força a partir do acumulo da resistência histórica das chamadas “minorias oprimidas”, se somado a ampliação da luta em defesa dos direitos humanos e da necessidade da defesa dos direitos democráticos e das liberdades individuais. Isto é, essa é uma pauta democrática fundamental que se colide com o conservadorismo burguês e que nosso programa deve expressar com força. Por isso, somos parte da luta pelos direitos civis e defendemos: fim de toda e qualquer violência, opressão e preconceito contra a orientação sexual dos GLBTS.  Pelo reconhecimento da união patrimonial de pessoas do mesmo sexo e suas decorrências legais; o combate sem tréguas ao racismo, a toda e qualquer discriminação e repressão; a defesa das terras e da cultura indígena deve ser uma bandeira permanente, bandeira esta que também é impulsionada por parte das nações e povos indígenas em toda a América Latina e que faz parte fundamental da luta pela autodeterminação nacional.

o papel da vanguarda na mobilização que tem adquirido as mulheres.

As mobilizações das mulheres crescem no mundo todo. Trata-se de uma nova onda na luta feminista intimamente vinculada à crise econômica social e moral que afeta a sociedade e que tem como ponto mais alto as barbáries do ISIS e Hoko Baran na África. É muito importante ter política para estas mobilizações e na Argentina e Brasil estamos na linha de frente. Neste último pais tem um destaque a mobilização contra a cultura do estupro e contra Cunha, que foi protagonizado por Juntas. Por outra parte, “Ni Una Menos” em Buenos Aires, e a consolidação de figuras feministas de massas como Verónika Mendoza e Luciana Genro, Vilma Ripoll, Luciana Echevarria. As crises de representação e das instituições tem efeito sobretudo sobre as mulheres jovens, fato que impulsiona a busca por figuras que falem sobre temas até agora ausentes e proibidos nos debates públicos (o que no caso brasileiro será uma oportunidade para nossas candidatas nas eleições de Outubro). Podemos denunciar e elaborar um programa (tarefa que corresponde a nossas companheiras) da falta de mulheres na poítica e nos espaços de direção (inclusive na nossa corrente), a denuncia e a luta contra a violência, a desigualdade no mercado de trabalho.

É um papel de nossa corrente valorizar os espaços de organização das mulheres como já ocorre no Juntas do Brasil e Argentina, formar quadros feministas e defender uma postura anticapitalista e internacionalista (um bom exemplo é o das relações estabelecidas com as mulheres curdas), e desmarcarmos das visões ultra esquerdistas e estreitas.

→A luta contra os planos de ajuste. As lutas da classe trabalhadora. Por novas direções sindicais não burocráticas

O setor central decisivo da luta da resistência aos novos planos reacionários é e será o movimento operário. A contrarrevolução económica tem nos seus planos de reforma das leis dos trabalhadores e das aposentadorias, a seguridade social e na flexibilização e terceirização laboral, uma peça fundamental para aumentar a produtividade do trabalho e a mais valia relativa.

Não é uma casualidade que estas leis já tenham sido discutidas com passos graduais na Argentina e tentem ser colocadas na agenda no Brasil nos últimos dias de Dilma até agora. Nos parece que também acontecerá o mesmo (ou está acontecendo) na Venezuela.

Aqui se concentra uma batalha decisiva que vai mostrar até onde irá a classe operária e também as direções burocráticas. Destas não podemos esperar muito, atuam pressionando com mobilizações para depois negociar e com esta política obrigam aos governos a ter que manter suas grandes concessões aos seus aparatos, o que em certa medida, impede a esses governos ir até o final.

Porque o que temos que responder é a seguinte pergunta: voltará neste período a classe operária a cumprir um papel de vanguarda como foi nos anos 70? Com certeza, não como naquela época. Já que tem se somado muitos outros setores que entram na luta, mas seu papel é decisivo. Já os educadores da CNTN mexicana têm dado uma amostra da sua capacidade de luta impressionante em Chiapas com a ocupação de todos os prédios públicos e em Oaxaca. Dos empregados públicos, não há dúvidas sobre o seu papel. Mas algo que terá que ser visto também, é até onde vai o proletariado industrial nesta nova etapa, onde o que estará colocado é sua renovação e o surgimento de direções que talvez seja o processo mais atrasado do anterior período.

  1. Por novas alternativas para enfrentar as burguesias reacionárias e a decadência do “progressismo”
  2. A construção de novas alternativas por fora dos regimes e a favor da revolução política deles, que lutem contra a austeridade, o extrativismo e o imperialismo (ou seja, que sejam definidamente anti-capitalistas ou intermediários) é um novo processo que já começou e que nós devemos fazer parte, sem se dissolver nele, como uma estratégia do momento.

Se trata, como dizíamos na introdução, que temos que nos aprofundar em dois processos que se combinam. De um lado a construção de um movimento político-social, ou social e político, que agrupe setores dispostos a enfrentar os novos ou velhos governos e a política das direções que já foram chamadas de progressistas, como as do Foro de São Paulo.

Devemos ter uma tática especial em relação aos setores sociais do kirchnerismo, ao lulismo, assim como ao madurismo (talvez seja um pouco diferente o caso de Evo Morales), já que pode haver, no movimento social, elementos de unidade de ação conjunta, mas nossa relação se dará essencialmente por meio da disputa, por conta de sua dinâmica de aparatos capituladores que vão se acomodar à nova situação.

Todo o nosso esforço é para formar um terceiro campo social-político e uma alternativa (de poder), que são processos que estão intimamente ligados. Sabemos que o social é insuficiente e a política pelo governo/poder só pode ser dada por uma organização política ampla e que levante um programar similar ao que tem o Frente Amplia peruano – sua política tem que se definir também por sua localização nos processos. Além disso, sua posição, para unir o social ao político, deve ser de estar presente em todas lutas sociais e também nas batalhas eleitorais.

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Veronika Mendoza – Frente Amplio – Perú

Acreditamos que já temos uma base política desenvolvê-los, como exemplos concretos da política de nossa corrente.

No Peru, como já comentamos, há o processo mais avançado pela existência do Frente Amplia e da Verônica Mendoza como uma figura de massas, além do nosso papel na coordenação desse processo.

Nosso ponto mais frágil é a debilidade de quadros, quer dizer, de uma estrutura orgânica bem formada por nossa corrente, o que é uma grande tarefa que se há levantado aos companheiros.

No Brasil, onde existe o PSOL – que é essencialmente um processo que vem ganhado um grande espaço nas eleições municipais, mas que contraditoriamente não tem conseguido fazer, e vem sido difícil criar, uma política por meio das lutas sociais. Dentro do partido, o MES vem se esforçado para empalmarmos essa forma de construção, contribuindo com muita força, no movimento de juventude e de mulheres. O PSOL tem vivido uma luta política para se separar do velho, por conta da existência de personalidades e setores que vem agido de forma mais relutante.

De qualquer forma, as eleições municipais arrastam ao PSOL, em seu conjunto, importantes disputas (Rio, São Paulo com Erundina e Porto Alegre com Luciana), nessa perspectiva.

Na Venezuela com o Marea Socialista, que é uma nova organização que conseguiu se formar em uma extensão nacional e criar aptos dirigentes, além de desenvolver processos no interior do país muito inseridos em sua política. Este é um processo que inevitavelmente vai se ampliar a outros setores descontentes com o chavismo. A Venezuela tem como particularidade uma forte e corajosa vanguarda surgida do processo bolivariano e um grande setor dela não está acomodada com o aparato, como foi o caso do kirchnerismo e do PT, além, de também estar muito mais localizado à esquerda. Assim, o processo que nossos companheiros vêm levado pacientemente há um ano tem possibilidades muito importantes de se concretizar, isto é, se o bonapartismo de Maduro não nos reprime até sermos desfeitos. Ao mesmo tempo, também se avança nas unidades de ação no país, como é o caso contra o extrativismo do Arco Mineiro.

Na Argentina, onde é a política do MST que teria as melhores condições objetivas, por meio das grandes lutas da classe trabalhadora e das mulheres, mas que conta com uma dificuldade contraditória que nossa organização (que possuí um grande número de militantes organizados), sofre das políticas sectárias da FIT, de um lado, e dos setores do kirchnerismo por outro. Mas, pelo que sabemos, se está avançando com um setor do CTA e também, na política eleitoral, estamos avançando com nossas figuras, frente à FIT.

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MST – Argentina

Ali, onde existem nossas organizações (Paraguai, Chile e Panamá), nos arriscarmos a dizer que têm de ter esta política e que devem entrar em processos desse tipo. Não os podemos inventar, têm de ser parte da realidade, mas não podemos nos relacionar com eles de forma sectária e pedir que adotem todo nosso programa. Mas não é em todos lugares que essa política pode se aplicar, nem ao menos inventar.

  1. – O trabalho na juventude e no movimento feminista.                                                                                                                                                                                                          A juventude, já se há escrito muitas vezes, é um setor privilegiado de nosso trabalho. É o setor de classe e dos trabalhadores em geral que mais sofre por conta da crise capitalista e do desemprego, além da falta de perspectivas e repressão aos seus direitos

A juventude se formou, junto às mulheres, como o setor mais dinâmica nas mobilizações – foi assim no Chile, no Peru contra a lei Pulpin, na Argentina, no Brasil em Junho de 2013 e é assim novamente com as ocupações nas escolas do Paraguai e do Brasil.

Não se trata de falar muito da Europa, mas a aparição agora na França das “Noites em Pé (Nuit Debout)” é um feito que indica que isso se trata de um fenômeno mundial, assim como o peso que a juventude teve na campanha de Bernie Sanders.

Nossa corrente deu um passo importante ao ganhar corpo como juventude quando fez a Campada Internacional, que infelizmente, pelo acúmulo de tarefas e por conta da questão financeira, ainda não repetimos, mas o temos que fazer.

Nossas juventudes têm que ter seus próprios nomes, independentes de nossas organizações, que sejam em sua estrutura de quadros uma colateral delas. O bom é que não conhecem o passado, por isso “passam” do discurso do progressismo para estar abertos a nossa política e ao marxismo (?).

  1. Que alternativas existem e como se construíram

As alternativas não se constroem com um programa acabado. Não é assim o caso do Podemos, nem o de Sanders, Corbyn ou do Frente Amplia Peruano. Devemos nos perguntar, então: “porque falamos de fenômenos intermediários? ”. Isso tem a ver com atual correlação de forças que há entre as classes: porque há uma ausência de um modelo alternativo e isso se refere não só ao fim do chamado “socialismo real” mas também as falências que terminaram sendo o madurismo, assim como o petismo.

Nos parece que é mais importante sua localização em frente ao regime, sua política anti-regime (que significa, também, anti-corrupção), que seu programa definido exatamente em términos anticapitalistas, por essas ausências que assinalamos.

Nesse sentido temos que ser pacientes por a luta contra o extrativismo, contra o regime, contra as profundas reformas trabalhistas, levam objetivamente a um programa anticapitalista que ainda não está formulado. Como da mesma maneira a luta contra os dois tipos de direções e a demarcação delas levam, objetivamente, a ruptura com as mesmas.

VI A importância do Internacionalismo

Nosso dever: crescer na América Latina

A crise de um polo mundial não pode ser superada por uma só organização. Hoje não há possa cumprir essa tarefa sozinho. Para avançar nesses objetivos o que é mais importante de nossa parte é ampliar a todos países possíveis as experiências que estamos fazendo e estabelecer uma relação com as vanguardas que existem nos EUA.

O feito de termos começado a fazer boas experiências na América Latina tem que ser visto como muito importante pela CEI da IV Internacional, já que assim como acontece na Ásia, podemos estender da mesma maneira o processo na América Latina, com a tradição e experiência que ela traz para fortalecer o processo mundial.

Daí que toma muita importância a relação com todos processos que ocorrem. Relacionar-nos não é só uma forma de conhecer outras experiências, se não, também de avançar na elaboração coletiva, a que podemos contribuir pondo o Portal de Izquierda ao serviço dela e participando como observadores no Secretário Unificado da IV. Saibamos que temos lacunas importantes de informação, mas ainda mais de elaboração e estas são ferramentas fundamentais para supri-las.

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