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No último sábado 13 de agosto aconteceu a marcha Ni Una Menos no Peru. A organização oficial da marcha fala em 500 mil pessoas só na capital Lima. As fotos justificam a estimativa (http://elcomercio.pe/sociedad/lima/niunamenos-todo-lo-que-necesitas-saber-sobre-marcha-manana-noticia-1923768; http://larepublica.pe/sociedad/794107-youtube-la-multitudinaria-marcha-ni-una-menos-grabada-desde-un-dron).

Somando todas as marchas que aconteceram pelo país, não é exagero dizer que se atingiu o mínimo de um milhão de pessoas sob a consigna “Ni Una Menos”. Peruanxs que vivem no exterior também expressaram seu apoio, como se pôde ver na China, Espanha, Suécia, França, Alemanha, Suíça, Inglaterra, Argentina e EUA, por exemplos (http://larepublica.pe/sociedad/793858-ni-una-menos-peruanos-en-el-exterior-se-suman-la-movilizacion).

Nos últimos dois meses ganharam repercussão na mídia dois casos específicos de violência contra mulheres. Um dos casos envolveu a bailarina chamada Lady Guillén, que, depois de suportar um ano de agressões praticadas por seu namorado na época, decidiu denunciá-lo publicamente após um episódio em que ele desfigurou seu rosto (http://peru21.pe/actualidad/ronny-garcia-agresor-lady-guillen-fue-sentenciado-4-anos-prision-suspendida-2252360). Ele foi julgado e condenado a mais de 27 anos de prisão por sequestro e lesões graves. Porém, ao final dos recursos, a sentença foi abrandada para quatro anos em regime aberto, por “delitos contra a vida”. O segundo caso envolve Arlette Contreras, que foi arrastada pelos cabelos por seu acompanhante nos corredores de um hotel, cenas que foram filmadas pelo circuito interno do local (http://www.americatv.com.pe/noticias/actualidad/viceministerio-ddhh-sala-se-parcializo-caso-arlette-contreras-n239489). Mesmo com esse material como prova contundente, a pena final dada ao agressor foi de um ano em regime aberto por delito de lesões leves, apesar das acusações terem sido tentativa de estupro e homicídio. Quando vem à tona a decisão da “Justiça” descobre-se que a juíza do caso é amiga da família do agressor, cujo pai é vereador da cidade onde ocorreu a agressão.

A partir desses casos e inspiradas na iniciativa argentina que se iniciou no ano de 2015 (http://niunamenos.com.ar/), também multitudinária e que se espalhou pelo Chile, Colômbia e Uruguai, um grupo de ativistas feministas teve a iniciativa de gerar a proposta da marcha Ni Una Menos Perú. Também foi criado um grupo no Facebook que aos poucos foi crescendo, chegando a dezenas de milhares de mulheres por todo o país. O grupo começou como um espaço de dividir a indignação, mas acabou tornando-se um espaço para denunciar todo tipo de agressões já sofridas pelas mulheres que participavam, passando em seguida a ser um meio de articulação para a marcha (https://www.facebook.com/PeruNiUnaMenos/?fref=ts).

O que foi chamada para o dia 23/07 como primeira reunião tornou-se uma assembleia, mostrando já neste momento a força que teria essa iniciativa. Já no início da reunião foi necessário mudar de local para outro que comportasse as cerca de 250 mulheres que estavam presentes para participar da construção da marcha do 13A. Com muitas características em comum aos movimentos autônomos e independentes que vêm ocorrendo no mundo, especialmente nos últimos cinco anos, a organização da marcha Ni Una Menos Peru agregou mulheres de diversas idades, origens, classes sociais, militâncias. Das jovens adolescentes feministas de redes sociais às mais experientes dirigentes sindicais; das mulheres das comunidades andinas às mulheres das periferias de Lima.

Desta primeira assembleia se encaminharam diversas comissões temáticas para garantir a organização da marcha. Rapidamente se replicaram de modo espontâneo dezenas de páginas Ni Una Menos no Facebook, representando a formação de comitês locais pelos bairros de Lima e também por todas as regiões do país, que passaram a se organizar autonomamente. Muito devido à repercussão da marcha nas redes sociais, a grande mídia tomou para si o tema da violência contra as mulheres, e todas as emissoras passaram a financiar propagandas na televisão e rádio e anúncios físicos como banners e outdoors enormes pelas principais vias de Lima. Muitas empresas e ONGs também se agarraram ao tema fazendo suas campanhas. Lady Guillén e Arlette Contreras foram transformadas pela grande mídia como “embaixadoras” da marcha, e todos os dias estavam em algum programa falando de seus casos específicos, mas também do geral da situação a que estão submetidas as mulheres peruanas e latino-americanas. Foi uma oportunidade ímpar de visibilização das violências cometidas contra as mulheres.

Apesar da heterogeneidade que a marcha agregou, o título Ni Una Menos, que se refere à reinvindicação de nenhuma mulher morta por violência machista, se manteve. Toda a propaganda feita seja pelo movimento inicial, seja por todos os setores que foram se somando, reforçava esse mote. Duas divulgações que destacaria: uma operadora de celular atualizou sua rede com a #NiUnaMenos, ou seja, todos os celulares funcionando com chips dessa operadora, desde três dias antes da marcha, levaram automaticamente na tela de seu telefone o título do movimento; e no dia da marcha todos os ônibus de uma parte da frota do transporte público levavam colado um cartaz com o desenho e o lema da marcha na frente dos veículos.

A militância do movimento feminista tradicional relatou que é a primeira vez que um único tema reúne todos os setores do movimento dessa maneira. Não só foi a maior marcha da história do movimento feminista, como se configurou como provavelmente a segunda maior mobilização de rua já vista no país, ficando atrás apenas da “Marcha de los Cuatro Suyos”, ocorrida no ano 2000. Vale ressaltar que somente neste ano de 2016 já é a segunda mobilização de rua que entra para a história do Peru como marcha multitudinária – as anteriores foram as marchas “Keiko No Va”, contra a candidatura à presidência de Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, realizadas em abril e maio.

A incidência do tema foi tão grande que se tornou impossível a qualquer dos setores formadores de opinião permanecer sem emitir algum posicionamento sobre a marcha. Um fato marcante foi a declaração dada pelo cardeal Juan Cipriani, máximo representante da Igreja Católica no Peru, de que as mulheres abortam “não porque tenham sido abusadas, mas porque muitas vezes a mulher provoca” (http://www.noticiasrcn.com/internacional-america/continua-polemica-declaraciones-del-cardenal-cipriani-peru-mujer). A indignação com o comentário foi tão grande e teve uma repercussão tão negativa que gerou fortes críticas dentro mesmo de setores da Igreja Católica, e o cardeal se viu “obrigado” a tentar justificar as declarações e pedir desculpas (http://elcomercio.pe/sociedad/lima/pido-perdon-quien-puede-haberse-ofendido-declaraciones-noticia-1922106).

O cenário da marcha ajudou a colocar com mais força na agenda presidencial e sobre a mesa do congresso nacional o tema da violência de gênero. O próprio presidente atual, Pedro Pablo Kuczinsky, participou da marcha com sua família e parte de seus ministros. A ex-primeira-dama Nadine Heredia também assistiu à marcha com suas filhas. Apesar da contradição profunda pelo tema das esterilizações forçadas na ditadura Fujimori, alguns militantes e congressistas da bancada fujimorista estiveram presentes também. Inclusive acusavam movimentos e partidos como a Frente Ampla de querer “politizar” a marcha colocando o tema das esterilizações forçadas como ponto do movimento.

Certamente este 13 de Agosto de 2016 inaugurou um novo momento para a luta das mulheres peruanas. Não é novidade o quão danoso é o patriarcado para a vida das mulheres e para toda a sociedade. Porém, este foi um importante momento de reconhecimento da estrutura machista e opressora perpetuada através de séculos, e que a mudança desse sistema é extremamente necessária para preservar a vida das mulheres. Com tudo que envolve ter sido um movimento muito espontâneo, em certa medida refratário a organizações políticas e partidos (mas que em nenhum momento impediu a participação de nenhum setor), sem dirigentes políticas experimentadas anteriormente, e, consequentemente, sem os objetivos políticos concretos e os próximos passos do movimento definidos, Ni Una Menos Peru foi, ao mesmo tempo, um passo histórico para o ativismo social e político no país, e consequência do atual avanço dos processos feministas no mundo, em particular na América Latina.