Opinião: Notas sobre a ultradireita e as novas alternativas de esquerda – Partes 1 e 2

Pedro Fuentes com colaboração de Charles Rosa

À guisa de introdução

Nestas notas abordamos dois temas que têm uma relação entre eles ainda que sejam os opostos. De um lado, o fortalecimento do protofascismo; do outro, as novas alternativas à esquerda que estão surgindo no mundo. Estes são os dois fatos que ocorrem internacionalmente nesta conjuntura histórica.  

Tanto Trump nos EUA, como os paladinos direitistas do Brexit, Marine Le Pen na França, o Jobbik na Hungria, o FPO na Áustria, os “Verdadeiros Finlandeses” na Finlândia, o partido Lei e Justiça na Polônia, Erdogan na Turquia, Netanyahu em Israel, Putin na Rússia, Rodrigo Duterte na Filipinas, entre outros exemplos, aparecem fortalecidos. Com isso, a possibilidade de governos xenófobos, nacional-chauvinistas, isolacionistas, que tendem a se separar ou se opõem aos marcos e códigos pautados pelo neoliberalismo e a mundialização capitalista são uma hipótese colocada pela realidade.

Estes projetos que denominamos de protofascismo, ou que poderíamos chamar de neofascismo, existem e não podemos negar isso, ainda que não vejamos como a perspectiva mais provável uma etapa como  a que se viveu na década de 30, com Hitler, Mussolini, Franco… É evidente que este processo está atingindo países-chave da dominação, na Europa e nos EUA, onde Trump pode vencer e isso não é algo menor.

Ao mesmo tempo, é necessário ver que existe uma reação muito progressiva de luta democrática ampla contra estes movimentos. Quando se atacam os negros nos EUA, as minorias oprimidas, ou mesmo agora no enfrentamento ao contragolpe de Erdogan na Turquia, onde dezenas de milhares foram à praça Taskim (apesar de Erdogan seguir avançando), ou quando são feitos protestos de todo tipo contra Donald Trump nos EUA.

Esta reação em defesa das liberdades democráticas abarca o rechaço aos protofascismos que surgem e também se colide com os governos e regimes neoliberais responsáveis também por aumentar a escalada de métodos totalitários para impor as medidas de ajuste sobre os trabalhadores. Existe um processo global de degeneração e corrupção dos velhos regimes democrático-burgueses.

Também queremos alertar neste artigo para a falsa ideia de que mais crise do capitalismo e seus regimes, mecanicamente melhores condições objetivos para o desenvolvimento de alternativas anticapitalistas ou revolucionárias.    

E porque neste contexto, os socialistas devemos dar uma importância decisiva às lutas democráticas e à política de enfrentamento aos regimes como parte essencial para poder construir alternativas democráticas reais e anticapitalistas aos mesmos neste período.  

Na segunda parte destas notas e vinculado com este tema, tratamos do aspecto dinâmico, oposto verticalmente ao movimento da ultradireita: o surgimento de novas alternativas de massas que irromperam com força neste novo período. Nos referimos a Sanders nos EUA, Podemos na Espanha, Parti de Gauche na França, Corbyn na Inglaterra, HDP na Turquia, entre outros e em nosso continente, particularmente, a Frente Ampla no Peru e o PSOL no Brasil. Vamos nos deter às dificuldades que enfrentam e que política, os socialistas temos que apresentar frente aos mesmos para fortalecê-los e a ponto que eles se transformem em verdadeiras alternativas de poder.

Parte I

As novas direitas protofascistas

O triunfo do Brexit provocou uma grave crise na UE nos seus planos de austeridade. Acelerou também a política de independência na Escócia e a reivindicação de unificação das Irlandas.

Há um elemento parcialmente correto de que uma boa parte dos trabalhadores que votaram pelo Brexit o fizeram em rechaço às medidas de austeridade pressionadas e promovidas pela Troika. Grandes zonas operárias expressaram nas urnas o desejo de sair das armadilhas do bloco europeu.

Entretanto, não podemos nos enganar: o Brexit foi dirigido por um setor de direita reacionário, xenofóbico, antiimigrantes e islamofóbico, que quer parar a imigração e tornar possível a expulsão de imigrantes. Simultaneamente, a nova primeira-ministra May fará um giro mais à direita, já que do ponto de vista burguês precisa compensar a perda dos benefícios comerciais que o Reino Unido possuía ao integrar a UE e buscará fazer isso com uma contrarrevolução econômica mais forte à la Thatcher.

Não é possível colocar um sinal de igual entre os pró e os contra neste resultado, apesar de que seja óbvio que suas contradições podem provocar mais crise, oferecendo mais oportunidades para a esquerda aproveitar se esta acerta a política.

Por outro lado, convém destacar o grande apoio que Jeremy Corbyn vem reunindo no interior do Partido Trabalhista na tentativa até o momento exitosa de deter o assalto que a direita blairista vem empreendendo. A mobilização em torno do político esquerdista deve ser considerada como parte dessa reação à direita xenófoba que posteriormente analisaremos.

O mesmo podemos dizer de Donald Trump

Seu discurso é claramente xenofóbico e antiimigrantes a ponto de que, além de idealizar um Muro na fronteira com o México (pago pelos imigrantes), é apoiado pelo líder da Ku Klux Klan. Seu nacional-chauvinismo e a ostentação de uma pretensa capacidade para resolver os graves problemas econômicos do país, mediante sua experiência empresarial, encaixam o bilionário nova-iorquino na categoria de “outsiders” do regime bipartidário estadunidense – questão que demonstra a grande crise que vive há muito tempo o Partido Republicano. Já suas posições esencialmente antiimigrantes se assemelha ao que estamos chamando de “protofascismos”. As declarações a favor de Putin – outro que se enquadra bem aos “protofascismos”, uma vez que reza a mesma cartilha do pan-nacionalismo russo – pode dar margem para que parte dos setores antiimperialistas latino-americanos creia que os EUA deixarão de intervir no nosso continente se a Casa Branca for habitada por Trump.

Não nos parece que seja assim. Para começar, uma de suas principais propostas é construir um muro que separe os povos da América Latina do país do Norte, onde habitam enormes contingentes de nossos irmãos latino-americanos. E ademais, a perseguição dos imigrantes vai ser extensiva a todos os latino-americanos.

Tampouco acreditamos que um governo que se diz isolacionaista seja menos imperialista. Trump se posiciona contra o Tratado Trans-Pacífico (Clinton também, depois de muito relutar), querendo conquistar o apoio de setores dos trabalhadores brancos, mas o fortalecimento do “Estado-Nação” que está na essência destes processos significa também a defesa de uma política imperialista talvez mais unilateral dos EUA, que continuará provavelmente com mais força, uma vez respaldada pelos milhões de votos obtidos por Trump. Em última instância, Trump será mais perigoso e unilateralista como foi em seu momento o clã Bush, visto que representará um salto na perseguição do islamismo em escala mundial.

Erdogan na Turquia

O contragolpe do governo turco foi mais forte que o débil golpe militar mal-organizado. Os detidos arbitrariamente já passam de seis mil e outros tantos foram exonerados do serviço público. A caça às bruxas segue especialmente aos setores próximos ao clérigo Gullen e seu amplo aparato baseado em mesquitas e escolas, que apoiaram Erdogan no passado. Foram fechados canais de TV, jornais e rádios. Erdogan pretende sepultar qualquer possibilidade de desenvolvimento de uma oposição parlamentar. O estado de emergência foi decretado.

O papel mais reacionário do AKP (partido de Erdogan) não se confina aos limites da nação mas extravasa para a região. Ataques ao levante curdo são a tônica do governo de Erdoga, a começar pelas tentativas sórdidas de inviabilizar o Partido Democrático dos Povos (HDP) e não respeitar os acordos de paz com esse povo sem Estado.  

Le Pen na França

O brutal atentado terrorista em Nice – que se soma aos outros que a França já foi alvo no último um ano e meio – promoveu as medidas de estado de emergência do governo Hollande, além do recente envio de tropas ao Iraque e à Síria.

Em última instancia tudo o que ocorreu fortalece a direita protofascista antiimigrante de Marine Le Pen, primeira nas pesquisas para as presidenciais de 2017.

Esta situação e o verão francês (quando tudo se para, inclusive a luta de classes) permitiu que Hollande avançasse com a reforma trabalhista, talvez o passo mais forte que a burguesia deu contra a classe operária nos últimos anos. O levante contra a reforma da legislação trabalhista foi muito importante e o fato novo é que a classe trabalhadora e o setores empobrecidos da população não estão derrotados e que da resistência passaram para a ofensiva. Veremos como isso se desenvolve novamente a partir de setembro.

A extrema-direita em outros países europeus tenta levantar a cabeça

Este proceso de ultra-direitas também tende a ser reproduzido em muitos outros países da Europa. Por exemplo, na Alemanha onde recentes atentados aterrorizaram a sociedade, o movimento islamofóbico Pegida anunciou o projeto de um novo partido de extrema-direita. Na Áustria, por 0,6% o candidato protofascistas não venceu as eleições presidenciais. Na Hungria, o cada vez mais conservador primeiro-ministro Viktor Orbán saudou Donald Trump, antecipando medidas xenofóbicas que o homólogo estadunidense pode copiar. Na Polônia, o partido Lei e Justiça se recusa a cumprir as modestas cotas de refugiados estabelecidas pela UE. Na Finlândia, o partido ultraconservador “Os Verdadeiros Finlandeses” é a segunda força política do país. Na Dinamarca, idem. Na Bélgica, o partido da extrema-direita islamofóbica Vlaams Blang dobrou sua influência eleitoral em menos de dois anos (de 7% para 14%), na onda de terror criada pelos atentados. O partido extremista da Holanda teve evolução semelhante.

Por que protofascismos ou neofascismos?

Porque apresentam semelhanças (condicionadas pelos diferentes momentos históricos) com os começos de trajetória de Hitler e Mussolini que impulsionaram o populismo e o nacional-socialismo, a fm de ganhar setores de massas desesperadas pela crise econômica desses anos que atingiu fortemente a pequena-burguesia, como observa Trotsky observa em seus escritos sobre a luta contra o fascismo na Alemanha.

Hoje, a classe média em decadência e também – isso é diferente – os trabalhadores brancos, sobretudo os mais próximos à classe média que perderam cada vez mais seus rendimentos a partir da imigração e o deslocamento das indústris aos países de mão-de-obra mais barata. À diferença dos fascismos anteriores, a xenofobia contra os imigrantes é o aspecto mais importante; seu caldo de cultivo é a imigração que o capitalismo soube utilizar bem para obter mão-de-obra barata na década de 80 e 90, porém agora chega à Europa de forma muito mais imprevisível e desordenada pela agudização da crise africana e as guerras em particular na Síria. pero que ahora llega a Europa en forma mucho más imprevisible y desordenada por la agudización de la crisis africana y las guerras en particular en Síria. [1]

A ala mais extremista da direita se alimenta da crise e dos fenômenos de barbárie que são criados por ela. Essas grandes ondas migratórias rumo aos países do Norte, seja na Europa que recebe pelo Mediterrâneo centenas de milhares de refugiados dois conflitos na África, Ásia e países do leste europeu, seja nos Estados Unidos com o fluxo intermitente de latino-americanos que vão tentar a sorte na “América”.

Como dizíamos, ao fenômeno dos imigrantes que provê mão-de-obra barata, é preciso somar o desemprego nos países do norte, consequência do que a mundialização do capital tem provocado nas corporações em cadeia e nos países de mão-de-obra barata no Leste Europe, México e Ásia. Por isso, não é casualidade que seja a chamada classe média tradicional branca e os trabalhadores mais velhos os que tanto nos EUA quanto na Europa são o caldo de cultivo destes novos personagens da política mundial que falam de isolacionismo e nacional-chauvinismo.

O barbarismo terrorista do ISIS

Combina-se com esta situação estrutural de imigração a emergência do nefasto terrorismo fundamentalista, em particular do ISIS (uma dissidência da Al-Qaeda) que são uma expressão retrógrada e reacionaría, absolutamente deformada das consequências das guerras empreendidas pelas potências no Iraque e no Afeganistão, bem como a ação também nefasta de Assad e Putin na Síria.   

ISIS, que em seu momento apoiado por Assad na Síria e Erdogan na Turquia para combater o levante sírio e a revolução curda respectivamente, está agora acossado pela ofensiva de várias potências. De um lado, os EUA e seu pacto com Irã que o fazem retroceder no Iraque, e do outro lado o acordo Putin-Assad na Síria. Ante a perda de território, estão recorrendo ao terrorismo individual, desesperado, de jovens convertidos a esta alternativa que tem crescido em grau importante pela crise ideológica que também é parte da realidade que vivemos.

Como já vemos historicamente e como apontamos em numerosas oportunidades, o terrorismo provoca dois problemas graves para o povo e para os trabalhadores. De uma parte, facilita as medidas autoritárias que são empregadas também contra a luta operária. Além disso, fortalece as direitas e, em particular neste período, as direitas islamofóbicas.

Por ora, esta direita tem essencialmente formas eleitorais, diferentemente do fascismo de Hitler ou Mussolini que utilizavam suas forças de choque contra os trabalhadores e os judeus. Só desenvolveram brigadas e milícias ao estilo hitleriano que fizeram ações para matar imigrantes no caso de Aurora Dourada na Grécia, em íntima colaboração de setores da polícia. Porém, se a crise continua e não se fortalecem novas alternativas de esquerda, esta possibilidade sob a forma de perseguição física aos imigrantes estará aberta e já existe na  forma de atentados terrorista contra imigrantes e sedes islamistas.

A crise dos regimes de dominação burguesa, seu curso autoritário e o protofascismo

A ultradireita surge mais forte da crise desta fase de mundialização capitalista, que uma vez mais repetimos, para nós tem traços globais, orgânicos e totais. Abarca a economia, a crise ambiental, moral e em particular dos regimes e seus partidos tradicionais que governaram por meios dos mecanismos democrático-burgueses. Faz parte desta crise a corrupção cada vez mais presentes neles.   

Os atuais regimes geralmente bipartidaristas da Europa e dos EUA já não têm quase nada, ou melhor dizendo, nada de democracia. Muito longe do que foram na fase do progresso capitalista. As liberdades são atropeladas. Na Europa, o caso das medidas ditadas pela Troika sobre os países (leia-se Grécia, por exemplo), é aplastante.

Esta degeneração dos regimes e de seus partidos convertidos simplesmente em agentes do grande capital é um processo mundial e sua crise tem aberto brechas profundas que afetam o velho bipartidarismo. Uma grande parte do movimento de massas tem deixado de crer nestes partidos, que perdem todo vestígio democrático para destroçar o estado de bem-estar conquistado no pós-guerra na Europa, já que são os agentes que aplicam as políticas neoliberais, que temos chamado de contrarrevolução permantente, como forma de tentar recompor a acumulação capitalista e utilizam de um jeito descarado sua associação aos grandes capitalistas para se enriquecer. Daí que se deduz uma relação orgânica entre eles e o grande capital.

Também vemos isso  na América Latina e em todo o mundo. Em Brasil, por exemplo, Dilma cometeu em 2014 um verdadeiro estelionato eleitoral. Pediu voto para aprofundar as medidas sociais e fazer muitas outras; uma vez no governo, fez exatamente o oposto, colocando como ministro da Fazenda Joaquim Levy, um neoliberal ligado ao PSDB, porque Meirelles (o atual ministro de Temer) não quis aceitar.

O caso mais emblemático de crise do bipartidarismo se dá possivelmente nos EUA. Com Trump, o Partido Republicano implodiu. Não por casualidade, grande parte do establishment republicano, o clã Bush e outras personalidades do partido não compareceram à convenção. Trump é um outsider imprevisível por fora dos códigos estabelecidos na classe dominante americana.

Todaviam, não é somente a divisão ou a crise dos republicanos. Assistimos à aparição pela primeira vez de uma ala esquerda nítida no Partido Democrata, representada por Sanders, a senadora Warren, o prefeito de Nova York, etc. Sanders reuniu multidões, especialmente na juventude, o que levou Hillary a adotar algumas de suas demandas, muito mais à esquerda do que ela realmente pensa, como as subvenções para a entrada nas universidades, os 15 dólares por hora, a legalização da marihuana entre outras.

A crise dos republicanos é também a crise do bipartidarismo e por isso mesmo está para se ver o que terminará ocorrendo no Partido Democrata caso permaneça no governo. Até agora, nenhuma tendência de esquerda saía do mesmo para não fazer o jogo dos republicanos, porém a crise pode levar a uma nova reconfiguração que abra as portas para um terceiro partido.   

Há reação contra a ultradireita e as medidas autoritárias dos regimes 

Não acreditamos que a ultradireita tenha um caminho fácil. Não o tem, por exemplo, Erdogan, apesar de seu forte contragolpe na Turquia. Está para se ver o que pode passar com suas medidas autoritárias ditatoriais. Dezenas de milhares de turcos encheram a praça Taskim em 24 de junho, em protesto convocado pela principal formação opositora, o Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata), “contra os golpes e a ditadura, a favor da democracia e das liberdades”. Era a primeira manifestação da oposição autorizada neste lugar desde a revolta de Gezi, em junho de 2013, e, ao contrário das convocatórias anteriores (Orgulho LGBT, 1 de maio…), nem sequer apareceram as polícias antidistúrbios.

Erdogan deixou a manifestação ocorrer, para se concentrar na limpeza de seu principal inimigo, Fettulah Gullen. Antes também havia se mobilizado a esquerda turca, o que indica que embora haja um contragolpe muito forte de Erdogan, o sentimento democrático contra o retorno de militares é muito forte, e pode chegar às medidas que Erdogan toma.

Nos EUA, já é conhecida a importância que adquiriu o Blacks Lives Matter, como um novo movimento massivo que tem sido gestado em defesa do povo negro, e a aparição do fenômeno Sanders do qual já falamos.

O mesmo ocorre na Inglaterra, onde a direita trabalhista tenta derrotar Corbyn e uma mobilização que há muito tempo não se via na vanguarda ativista inglesa saiu em socorro do deputado veterano. Desde janeiro, a figura de Corbyn filiou mais de 300 mil simpatizantes ao desgastado Labour Party, o que lhe confere força contra uma rebelião de sua bancada direitista.  

Na França também. Melénchon e o Parti de Gauche despontam com boas possibilidades nas próximas presidenciais , de certa forma em resposta ao fenômeno Le Pen. Isso para não citar Nuit Debout e as greves contra a reforma trabalhista de Hollande.

Já no Brasil, Bolsonaro e sua tropa reacionária não podem ser vistos como reis da popularidade, apesar de que tenham logrado um crescimento. Gesta-se uma indignação em amplos setores da sociedade (principalmente na juventude)  contra esses representantes do atraso civilizatório. A tentativa do governo autoritário de Geraldo Alckmin de desocupar as escolas em São Paulo recebeu uma insatisfação massiva do conjunto da população paulista.  Alckmin teve que retroceder. Mas o que explica então que o sucesso de Temer em sua manobra ilegítima e reacionária? O fato é que dois terços dos brasileiros não saem em defesa do PT, pelo desgaste que este partido sofre. Contudo, qualquer medida afeta o povo corre o risco de provocar um “novo junho” ou algo que desperte o espírito daquele mês rebelde.

A importância das tarefas democráticas 

 

Por isso mesmo toma uma força especial as tarefas democráticas. Não cremos estar num período no qual a linha política seja a frente única contra o fascismo como defendia Trotsky na Alemanha. Nesse caso, Trotsky chamava desesperadamente o Partido Comunista a fazer uma frente única com o Partido Social-Democrata para enfrentar Hitler. Era um acordo entre dois partidos operários para derrotar nas ruas e nas eleições à barbárie fascista.

Ainda que não se possa descartar a unidade de ação em defesa da democracia como é o caso atual colocado pelo PKK na Turquia frente a Erdogan, a realidade agora é outra. Baixando à terra a questão: não é possível ou seria muito complicado fazer uma frente desse tipo na França com o socialismo de Hollande, que além de decretar o estado de emergência impôs a reforma laboral para enfrentar eleitoralmente o possível triunfo de Le Pen. Em muitos casos, a realidade combina duas tarefas democráticas. O enfrentamento aos protofascismos onde surjam e também aos velhos regimes que tomam medidas cada vez mais autoritárias. Porque como apontávamos, o autoritarismo avança no mundo, seja sob a forma de neoliberalismo (o que existe hoje), seja sob um futuro que ninguém quer sob formas ainda mais à direita.

Daí a importância das tarefas democráticas que não podem ser levadas adiante se não é pela derrubada destes regimes.

O Parti de Gauche de Melenchon na França chama isso de uma “revolução cidadã” para a VI República. Sanders nos EUA de uma “revolução política”.

Podemos tem uma posição mais indefinida sobre o Pacto de Moncloa ainda que os independentismos, especialmente o catalão são uma forte pressão para não poder pactuar uma saída com o PSOE. Porque na Espanha é claro que a ruptura do regime passa principalmente pelo processo independentista.  

Para os socialistas falar de revolução no regime político é insuficiente? Limitado porque não é anticapitalista? Não sabemos até onde vai cada um deles, mas em primeiro lugar estão apontando para um lado acertado: não pode haver democracia real sem a derrubada destes regimes. Processo que dificilmente será conseguido somente pela via eleitoral, sem uma ativa participação do movimento social. Isso é o que está colocado.  

É um retrocesso em relação à tarefa da revolução socialista? Ou é um passo necessário? Tirar estes regimes significa destruir também uma relação intrínseca entre eles e as corporações e o capital financeiro para quem o mesmo funciona. Nesse sentido significa também um ataque ao grande capital como o foram em seu momento os regimes surgidos do bolivarianismo na América Latina. Dito de outra forma, lutar pela democracia real hoje é também então lutar por uma sociedade mais igualitária, são os 99% contra 1%.

É uma tarefa imprescindível neste período. De alguma maneira, os socialistas voltamos a reivindicar a tarefa que Lenin postulou de revolução democrática nas “Duas táticas da social-democracia russa”. E temos que fazer isso até as últimas consequências na destruição dos mesmos para que não possam se recompor.  

Sem tomar estas tarefas democráticas junto com as reivindicações dos trabalhadores, as antiimperialistas ou mais anticapitalistas nos países avançados dificilmente haverá a possibilidade de abrir caminho para uma luta diretamente anticapitalista e socialista.

1- 200 mil no ano passado e 60 mil de Síria, aos que é preciso contabilizar junto com os que recebem os EUA.

 

Parte 2

Os novos processos e as dificuldades que enfrentam

Os novos processos que surgiram nesta década são resultado das fortes lutas que ocorreram neste período e da crise dos velhos regimes que abriram uma brecha para que estes novos processos sejam visto com entusiasmo e expectativas por setores de massas. Na Grécia, as inúmeras greves gerais redundaram no Syriza e posteriormente a sua traição na Nova Esquerda. Na Espanha, o 15-M foi desembocar no Podemos e nas coalizões político-sociais que levaram ao triunfo em municípios-chave de Barcelona e Madri. Nos Estados Unidos, o sentimento anti-Wall Street encontra sua expressão em Sanders. Na Turquia, a Primavera árabe soprou a favor do HDP. No Peru, a Frente Ampla galvanizou a força do ativismo no país. No Brasil, o PSOL cresce, na medida em que as greves pipocam, a juventude se rebela em defesa de seus direitos, as mulheres promovem uma primavera e a Lava-Jato desnuda os partidos do regime, ficando o PSOL firme na luta contra o impeachment diferenciado do petismo e lutando contra a corrupção intrínseca.

No entanto, estes processos vivem momentos contraditórios. Muitos e muitas se perguntam: por que Syriza capitula para a troika, Sanders termina apoiano Hillary e seu vice do establishment, Podemos tem uma tendência a institucionalizar-se? A resposta da ultraesquerda, “não têm o nosso program e já sabíamos disso” ou “são neorreformismos”, é dogmática, estática e nos disse muito pouco. A única coisa que fazem é adjetivar e ponto.

De nossa parte, não nos fechamos. Estamos abertos a que os mesmos retomem cursos progressivos e que surjam outros, e acreditamos que é uma necessidade ser parte desses processos para dar a batalha para que não degenerem. Definir estes movimentos somente por seu programa insuficiente seria um grave erro e não compreender a dinâmica aguda de crise que vive a sociedade capitalista que provoca estes movimentos. É preciso compreender também porque as posições de partidos com programas revolucionários desde a sua própria autoproclamação não conseguem avançar sobre o movimento de massas apesar da crise do capitalismo. Ou seja, é preciso ver as contradições e os labirintos que a realidade apresenta neste período.

Há razões objetivas e subjetivas que explicam estes processos. Obviamente, constatar isso não significa ser complacente e abster-se de criticar qualquer curso de assimilação ao regime e não lutar dentro desses processos para impedi-lo. Como já escrevemos em diversas oportunidades, estar aí e para isso é nossa tarefa.

O concreto é que há uma desigualdade entre a crise objetiva do capitalismo como um todo, as lutas que existem e o surgimento de alternativas anticapitalistas. Ou seja, que este período no qual vivemos se depara com uma grande desigualdade, uma situação extremamente descompassada entre a crise objetiva do capitalismo, os enfrentamentos ao mesmo e as alternativas anticapitalistas. Ocorreu no Brasil nas jornadas de Junho, mas foi mais expressivo ainda na revolução egípcia, por exemplo.  

Se isso não fosse assim, se estivéssemos num momento de forte avanço da consciência de classe socialista e de direções, outra seria a situação do mundo e mesmo da direita. Grande parte da ofensiva do capitalismo se deu pela falta de uma alternativa na revolução egípcia, na Síria, na Ucrânia, e também no Brasil, onde o PSOL é forte mas durante a crise não conseguiu construir um terceiro campo.  

Precisamente a classe trabalhadora e a esquerda enfrentam dois processos, um objetivo e outro mais subjetivo, que explicam que a situação não seja linear, ou seja que a crise do capitalismo não abre automaticamente uma avenida para construir alternativas anticapitalistas como alguns setores de esquerda pensam. O período mundial que transitamos está cheio de desigualdades e contradições.

Um elemento objetivo é a falta de um modelo alternativo ao capitalismo. A queda do stalinismo teve um grande elemento positivo (sem ela não explicaríamos a crise e os elementos do caos mundial) já que liquidou o aparato stalinista que submetia as lutas operárias e populares a um férreo controle e impunha a chamada “coexistência pacífica”, a divisão do mundo em zonas de influências. O aparato dirigido por Moscou atuava negativamente sobre a mobilização de massas e as revoluções (apenas para lembrar um caso escandaloso, temos o maio francês quando o PCF apertou as mãos de De Gaulle durante o ascenso).

Ao mesmo tempo, essa queda do aparato objetivamente liberou novas forças contidas, processo que agora estamos vendo. Desapareceram barreiras ante as massas que agora de alguma maneira atuam mais livres. Não podemos explicar o chavismo, os indignados e todos os processos novos que se dão sem a queda desses aparato mundial de contenção. Isso não significa negar que aparatos sejam recriados e isso ocorre fundamentalmente nas burocracias sindicais que atuam muitas vezes como forte freio à mobilização.  

No entanto, ao mesmo tempo, para os trabalhadores caiu o “socialismo real”, um falso socialismo mas que era o único modelo de socialismo que conheciam e isso dificulta ter um modelo alternativo ao neoliberalismo. Não é casualidade que esteja essencialmente numa fase de negação do capitalismo, isto é, anticapitalista, sem afirmar a partir daí um outro sistema. O socialismo do século XXI está em construção e não é um processo fácil.

Este é o elemento subjetivo ao qual nos enfrentamos. Temos e podemos superá-lo cavalgando nos novos processos. E esta situação explica por que os novos processos que ocorrem são intermediários e não genuinamente anticapitalistas ou socialistas. Usamos o termo “intermediários” precisamente para não caracterizá-los como sujeitos a pressões de um e outro lado e não já como perdidos. Tomando os exemplos históricos que já ocorreu em muitos casos que processos reformistas ou semirreformistas foram levados mais além pelas circunstâncias objetivas. E isso pode voltar a ocorrer, pela profundidade da crise, pelo ascenso da luta de classes e pela inexistência do aparato stalinista.

A isso é preciso somar também que a queda do bloco soviético que teve os elementos positivos que apontamos e que desmontou a ordem mundial do pós-guerra, com a restauração capitalista levou à máxima mundialização do capital. Com isso também a sua crise, já antecipada por Rosa Luxemburgo em seu trabalho sobre a acumulação do capital, veio acompanhada de crises de sobreacumulação e de superprodução, estágio em que hoje vivemos. No entanto, isso ocorre em meio ao domínio das grandes corporações dos capitais financeiros e das altas tecnologias que dominam o mundo.

Anteriormente, a existência do bloco soviético facilitava aos países a saída do controle econômico do imperialismo e de sua ordem mundia, como sucedeu durante um período com diferentes países árabes, africanos e mesmo Cuba, acometida e subsidiada pelo stalinismo.

Hoje em dia sair da mundialização que domina o capital financeiro, a tecnologia de ponta, etc, é mais difícil. Não queremos salvar Tsipras da traição que ele cometeu, porém não era tarefa fácil para a Grécia.  Imaginemos o dracma como moeda grega para importar produtos essenciais, num momento em que o bolivarianismo retrocedia na Venezuela e o petismo no Brasil, aliados que eram as principais apostas de Tsipras?

O relativo fortalecimento da direita protofascista ou já fascista se dá também em meio a esta situação, talvez conjuntural, porque a contradição viva na qual estamos imersos não está resolvida. Assim como Sanders apareceu no Império, este processo tende a se repetir em escala global. E é parte fundamental da construção de alternativas revolucionárias, aprender ativamente com os novos processos.

Apostar nisso é a tarefa de todos nós que defendemos o programa do socialismo. Neste século, o internacionalismo que defendemos vai deixar de ser um privilégio de pequenos grupos para se transformar em algo mais amplo e concreto.

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