Duas semanas decisivas para o PSOL e para fortalecer uma alternativa ao regime

Pedro Fuentes*

A conjuntura política brasileira tem novidades quase diárias. Só basta revisar as duas últimas semanas nas quais tivemos a cassação de Cunha, amplamente festejada pelo povo; a denúncia dos procuradores do Paraná contra Lula, na qual pela primeira vez afirma que ele era o chefe dos esquemas do Mensalão e da Lava Jato (algo que uma grande parte do povo não ignorava); por último e mais destacado e grotesco, a tentativa conjunta do PSDB, PT, PMDB, DEM, PCdoB e PP de sancionar na Câmara dos Deputados, a toque de caixa, uma lei de anistia ao caixa-dois – o que não é pouca coisa: mais uma vez se prova que quando se trata de salvar a casta política da qual estes são os partidos fundamentais, os mesmos formam uma aliança para sobreviver a lei de Ficha Limpa que foi imposta por uma iniciativa popular.

Uma vez que a espada de Dâmocles está sobre a cabeça de todos eles, o governo Temer e a classe dominante tentam tornar Lula inelegível em 2018. Porém, isso é uma parte de um processo que em seu conjunto é progressivo. Se a Lava-Jato continua, chega a totalidade da casta política, o sustentáculo do atual regime político. A manobra que se tentou na Câmara é entre outras coisas porque na lista de beneficiados da Odebrecht (a grande empreiteira que recebeu milhões de reais da casta política para erguer um império econômico) estão todos. São 200 parlamentares, o presidente do Senado, quase todos os ministros que passaram pelo governo de Dilma e Temer, a chapa eleitoral da presidente e seu ex-vice agora presidente. Esta lista atualmente está sendo analisada pelo tribunal do Paraná.

Mais uma vez foram os deputados do PSOL, somados aos da REDE, desmontaram este escândalo, denunciando-o como golpe; como também foi o PSOL o primeiro partido a pedir a cassação de Eduardo Cunha.

É um grave erro fazer uma unidade entre o governo reacionário ilegítimo e antidemocrático com os juízes e procuradores que levam adiante a Lava Jato. É verdade que essa operação judicial é instrumentalizada e atua a partir de uma instituição burguesa, porém nem todas as frações, diferenças e quebras que possam se dar dentro dessas instituições são iguais. Lenin era um especialista em ver essas diferenças e utilizá-las pela democracia revolucionária. A corrupção é sistêmica e vem antes. A pergunta que deve ser feita é por que a Lava Jato surgiu agora e não antes? Houve uma combinação de fatores, dentro os quais se destaca a revolta de Junho de 2013 que golpeou na nuca o governo ao mostrar que um povo mobilizado por seus direitos que já não lhe respondia, além da existência objetiva e real da corrupção como forma e modelo de aliança de um grande setor da grande burguesia e o governo de Lula.

Por isso, nossa política não pode ser denunciá-la como uma manobra burguesa, mas pelo contrário exigir que vá até o final contra toda a casta política, todos os partidos e todos os grandes burgueses que sustentam os seus agentes políticos com dinheiro extraído da exploração dos trabalhadores. Não é por casualidade que tanto o governo quanto o presidente do Senado desejam interromper a Lava Jato, como ficou demonstrado na operação golpista que o PSOL deteve.

Uma oportunidade política nas eleições municipais, apesar da Lei da Mordaça

Só por esse motivo poderia se entender porque estes mesmos partidos votaram em acordo na Lei da Mordaça que pune o PSOL na atual campanha eleitoral, cortam aos limites do absurdo o tempo de participação na TV do PSOL para vinte, dez e até seis segundos contra o “latifúndio televisivo”, nas palavras de Luciana Genro, com o qual eles contam.

Apesar disso, o PSOL está disputando municípios-chave do país com possibilidade de ir ao segundo turno (Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belém e outras grandes cidades). Na Folha de SP, o acadêmico Mathias de Alencastro acaba de escrever contra o PSOL, dizendo muitas barbaridades e calúnias com o objetivo de defender indiretamente. Afirma textualmente que “a duas semanas do primeiro turno, está claro que para o PSOL as eleições municipais são uma oportunidade histórica de tomar o lugar do PT como líder da esquerda”, para logo passar a reivindicar a social-democracia europeia e o social-liberalismo petista. Nada demais neste comentarista, porém ele diz algo.

Porque é verdade, um fato real, que nas cidades citadas e muitas outras, o PSOL supera o PT e é a ferramenta política que está ao alcance da mão para derrotar a direita. E é isso que o PSOL quer fazer com Freixo, Luciana e Edmilson entre outros grandes militantes que estão longe de ser celebridades como fala esse caluniador barato.

É uma oportunidade muito importante, se o PSOL ganha municípios ou supera neles o que já é conhecido, para que o fim do ciclo do PT, que o povo intui com seu rechaço aos velhos partidos e à casta política, fique amplamente reconhecido. Não seria um avanço histórico, porque como dizia Lenin “ação histórica independente” é a classe trabalhadora avançando em sua auto-organização, em suas organizações, e isso será possível essencialmente na luta de classes direta. Porém seria um passo que permitiria contar com uma ferramenta mais forte para esse objetivo e ademais romper a manobra do regime de fechar os espaços democráticos e eleitorais.

A eleição é a oportunidade que abriu e que existe, apesar da Lei da Mordaça. Essa mordaça está atuando, isso é indiscutível. Mas o PSOL resiste nas ruas, com sua militância enfrentando essa desvantagem enorme no terreno midiático. A luta está aberta, primeiro nas ruas e nos bairros onde para os políticos do regime é difícil entrar facilmente a não ser encobertos através de seus cabos eleitorais.

Sabemos que as eleições são uma forma deformada da luta de classes, no entanto às vezes elas se transformam em termômetros muito importantes para expressar o rechaço aos velhos regimes e políticos e para abrir caminho a um novo processo.

Estas eleições são um momento tático onde pode se fortalecer a construção de uma alternativa estratégica diferente da velha esquerda e do petismo para enfrentar o governo Temer. Voltamos a dizer que aqui está a chave da questão. A polarização real concreta não é entre o governo Temer e um campo democrático antirreacionário na qual entra o PT. É verdade que o governo, para rejuvenescer o regime e terminar liquidando definitivamente o PT no terreno eleitoral, está utilizando as denúncias contra Lula para inabilitá-lo nas próximas eleições presidenciais de 2018. Porém agora nestas eleições querem debilitar o PSOL para retirá-lo das disputas eleitorais. A classe dominante não é idiota e sabe que o inimigo estratégico que se esboça é a possibilidade do PSOL se converter em alternativa. Seria totalmente diferente à opção dada pelo PT. Porque o PSOL não é somente um partido independente como foi em seu momento o PT (que logo se degenerou), mas um partido também contra esse regime político e que conta desde as suas origens com um programa anticapitalista.

Pedro Fuentes é membro do Diretório Nacional do PSOL e da Coordenação Nacional do MES (tendência interna do PSOL)

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