A batalha do Rio UM NEGÓCIO DE FAMÍLIA BILIONÁRIO CONTRA MARCELO FREIXO

Felipe da Silva Aveiro (*)

Em duas semanas os cariocas decidirão em segundo turno quem será o prefeito do Rio de Janeiro pelos próximos 4 anos. Mas para além do embate eleitoral, o que está em jogo é a disputa de duas concepções diferentes de cidade, materializadas nas candidaturas de Marcelo Freixo (PSOL) e do senador Marcelo Crivella (PRB).

Bispo Macedo tío do ex Bispo Crivella

À frente nas pesquisas de intenção de voto, Crivella desistiu de ir a alguns dos debates previstos na televisão. Inclusive a TV Record anunciou o cancelamento do debate que realizaria no próximo dia 23 alegando uma “mudança da sede da emissora em andamento”.

Os motivos por trás do cancelamento desse debate podem estar muito além do que as aparências podem mostrar, mas o recém-lançado “Brazillionaires: wealth, power, decadence, and hope in an american country”  (algo como “Brasilionários: riqueza, poder,decadência e esperança em um país americano”) do estadunidense Alex Cuadros pode nos ajudar jogando uma luz sobre o passado e as operações de um ator político fundamental no Brasil contemporâneo: o bispo bilionário Edir Macedo, tio de Crivella.

O título do livro de Cuadros é um neologismo que combina as palavras “brasileiros” e “bilionários”, e seu foco são os mega-bilionários brasileiros que aparecem na lista de riqueza global da Bloomberg. Em um dos capítulos o jornalista traça o perfil de Macedo, relatando desde a infância pobre até a construção de seu império, do qual a TV Record é apenas seu braço midiático.

“DEUS É O CAMINHO, EDIR MACEDO É O PEDÁGIO”

Com fortuna estimada em U$1,2 Bilhões é importante ressaltar que Macedo é de uma fração da burguesia diferente das velhas oligarquias, “ele não veio das elites tradicionais. Ele era um inimigo da Globo”. E seu poder é lastreado por uma dos maiores grupos neopentecostais  do mundo, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), fundada em 1977 e com ampla penetração entre os mais pobres, especialmente no Brasil onde mais de ¼ da população se declara evengélico.

Arrematada no ano de 1989 em uma operação de U$45 Milhões, a compra da Rede Record tem sido uma “linha divisora para o relacionamento de Macedo com seu próprio poder e riqueza” e o establishment.  A emissora é hoje a principal concorrente da TV Globo (da Família Marinho, também perfilados na publicação), e se antes o bispo era visto como uma “curiosidade inofensível às velhas elites”, agora ele é visto por elas como uma “ameaça”.

Não é incomum vermos nos veículos ligados ao Grupo Globo ataques ao bispo e à IURD, dos seus sapatos italianos ao episódio em que foi pego dirigindo uma BMW “importada de maneira irregular para evitar impostos”, inclusive uma reportagem no jornal O Globo revelou que o bispo vivia em uma mansão de U$800 Mil em Westchester, subúrbio nobre de Nova York.

Para Cuadros, um dos segredos da expansão de Macedo é que ele soube como transformar sua igreja em uma organização. Ressalta ainda a grande sinergia entre as diversas ramificações de seu império lembrando, por exemplo, que seus livros se tornaram bestselleres em parte porque a própria “igreja comprava muitos exemplares para revender a seus seguidores”.

Algo similar aconteceu recentemente com a estreia nos cinemas de “Os Dez Mandamentos”, adaptação para a tela grande de uma das telenovelas de maior sucesso da emissora. Muitas sessões esgotadas estavam esvaziadas, pois esses ingressos haviam sido comprados pela própria igreja para redistribui-los aos fiéis.

Alguns pastores e bispos se distanciaram da IURD quando as ambições comerciais de Macedo foram se tornando mais claras. Para o bispo é justificável exibirem conteúdo “incompatível com nossa fé” como um mal necessário para enfrentar o monopólio da Rede Globo. Douglas Tavolaro, chefe de notícias da Record afirmou em entrevista para o livro que o objetivo de Macedo é suplanta-los algum dia.

Foi em 1992 que a Record começou sua transformação em uma emissora comercial. Macedo nomeou o bispo (e econosmita de formação) João Batista como CEO, e lhe deu a tarefa de tornar a Record lucrativa. Mas João Batista ganhou o noticiário recentemente em 2005 quando era deputado federal pelo PFL de São Paulo.

Uma vez, chegando em Brasília, a polícia vasculhou o avião privado da Igreja em que viajava onde acharam cerca de 5 milhões de dólares em dinheiro guardado em malas. Supostamente doações de fiés em pequenas cidades por todo o Brasil. O episódio não levou a nenhuma acusação formal, mas o fato é que Batista está agora respondendo pelo mesmo caso de lavagem de dinheiro de 2009 que também envolve o bispo Macedo.

Não podemos compreender a disputa na cidade maravilhosa sem ter em conta a fração da burguesia que a IURD representa e sua base social. Marcelo Crivella não é apenas sobrinho de Macedo como também seu principal braço político e bispo (licenciado) em sua igreja. Foi eleito Senador da República pela primeira vez em 2002 e  alçado ao Ministério da Pesca de 2012 à 2014 no governo Dilma.

E os anos de governo do Partido dos Trabalhadores foi benéfico ao crescimento do poder da Universal. Cuadros lembra que em um encontro com pastores, Crivella elogiava o ex-presidente Lula por ter aumentado o poder de compra dos mais pobres com o programa Bolsa Família. Nas palavras do bispo Crivella os pobres quando têm dinheiro na mão “vão mais à igreja”, e também “dão mais ofertas”.

PEQUENAS IGREJAS, GRANDES NEGÓCIOS                      

Apesar de notório conservador, Marx e Engels diziam que aprendiam mais com Balzac do que com muitos cientistas sociais, filósofos e economistas do seu tempo. Em “A estalagem vemelha” (parte da “Comédia Humana”) um personagem consulta os amigos se deveria ou não apurar alguns crimes que seu futuro sogro poderia ter praticado. Um advogado lhe responde: “Onde estaríamos todos se fosse preciso pesquisar a origem das fortunas!”

Na opinião de Alex Cuadros essa frase do escritor francês sobre “grandes fortunas sem causa aparente” tem seus limites até no Brasil. Seria notoriamente impossível que um pastor de origem humilde chegasse ao império que tem hoje. Não à toa vem sendo investigado por lavagem de dinheiro, fraude, charlatanismo e curandeirismo.

Se é verdade que Crivella está à frente de Freixo nas pesquisas, é também verdade que os debates televisivos são fundamentais para que se confrontem os dois projetos de cidade. Não esqueçamos ainda que as TVs operam como concessões públicas, e que deveriam servir aos interesses de uma democracia real.

Entrevistado por e-mail pelo jornalista, ao ser questionado sobre sua aparição na lista dos mais ricos da Forbes, Edir Macedo contentou-se em responder: “Do ponto de vista da minha fé no Senhor Jesus, eu sou o homem mais rico do planeta”.

Para essa disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro, importante para toda a esquerda mundial por todo o simbolismo que ela representa, podemos refletir sobre outras linhas memoráveis de Honoré de Balzac.

Desta vez tirada de outra obra sua, “Melmoth apaziguado”, onde um banqueiro chamado Gobseck ensina ao jovem advogado Derville que “por toda parte existe a luta entre o pobre e o rico; em toda parte ela é inevitável; nessas condições mais vale ser o explorador do que o explorado”.

Macedo e Crivella já escolheram seu lado nessa luta, aliados a tudo que há de pior na velha política; e do outro estamos todos nós, os explorados e oprimidos, que debatemos um programa, lutamos diariamente e construímos uma belíssima campanha nas ruas e nas redes que foi capaz de tirar o PMDB do comando do município, reacendeu a esperança no coração de milhares de jovens e poderá provar que, contra o fundamentalismo dos mercadores da fé, o Sol nasceu para todos.

(*) Felipe Aveiro es militante del MÊS/ PSOL Rio de Janeiro

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