A PRIMAVERA FEMINISTA E AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2016

Giulia Tadini (*)

As eleições ainda não acabaram. Diversas cidades do país ainda terão segundo turno no final de outubro. No entanto, pelos resultados do dia 2 de outubro, algumas conclusões podem ser tiradas. Em primeiro lugar, há um fortalecimento da direita como expressão eleitoral, com destaque para o PSDB, que elegeu João Dória no primeiro turno em São Paulo. Os tucanos vão passar a administrar R$ 136,2 bilhões nas prefeituras em que governa. Hoje administram R$ 57,3 bilhões. Em segundo lugar, o PT se enfraqueceu. Como último ponto relevante temos o fenômeno da primavera feminista ocupando a política. Este tema tem ganhado manchetes nacionais, e o PSOL soube se localizar nesta pauta. É sobre isso que vamos nos debruçar neste texto.

A proporção de mulheres eleitas para o cargo de vereador se manteve entre as eleições de 2012 (13,3%) e de 2016 (13,5%), segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em contrapartida, as câmaras municipais das capitais tiveram um aumento feminino em seus quadros. As mulheres, que antes ocupavam 98 vagas legislativas, terão 106 entre as 811 cadeiras disponíveis. Em quatro capitais — Belo Horizonte, Belém, Recife e Porto Alegre — candidatas mulheres foram as vereadoras mais votadas entre todos os concorrentes. Vale citar que só em Recife a candidata não era do PSOL. Em Porto Alegre, Fernanda Melchionna foi a mais votada da cidade entre todos os candidatos. Em Belo Horizonte, além do PSOL ter elegido duas mulheres, Áurea Carolina bateu o recorde de votação individual. Em Niterói, Talíria foi a mulher mais votada. Em Campinas, Mariana Conti será a única mulher de toda a Câmara Municipal. Em Sorocaba e Pelotas, o PSOL elegeu seus primeiros representantes à vereador, ambas se chamam Fernanda e são feministas.

Apesar de maiores reivindicações da população e de campanhas para melhorar a representatividade feminina na política, a proporção de mulheres eleitas também é praticamente a mesma que a encontrada no primeiro turno das eleições de 2012 entre os prefeitos. Neste ano, 11,6% dos prefeitos eleitos no primeiro turno são mulheres – percentual ligeiramente menor que o de 2012: 12%. Entretanto, mesmo que os números permaneçam praticamente os mesmos, há uma mudança qualitativa, na eleição de mulheres declaradamente feministas. Além disso, como mostrou a Carta Capital, esse fenômeno foi expresso pelo PSOL.

Há algum tempo nossa corrente vem debatendo que estamos vivendo uma nova onda feminista pelo mundo. Este fenômeno não está desconectado da crise econômica de 2008 e seus desdobramentos. Como movimentos de resistência contra os planos de austeridade e por democracia real dos 99% contra o 1% podemos citar a Primavera Árabe, os indignados espanhóis, Occupy Wall Street e outros, em todos esses movimentos o protagonismo das mulheres foi notável. Além disso, a partir de 2011 surge o fenômeno mundial das Marchas das Vadias. A partir dessa avaliação, impulsionamos a criação do coletivo Juntas no Brasil. Mais recentemente vimos as marchas gigantescas na Argentina e no Peru por #NiUnaMenos, a legalização do aborto no Uruguai, o debate sobre a violência contra as mulheres na Índia, a resistência das mulheres polonesas contra mudanças na lei do aborto no país, e nos solidarizamos e nos inspiramos nas mulheres curdas, que lutam contra o Estado Islâmico. Em todo lado que olhamos, o movimento feminista e o protagonismo das mulheres está mais forte.

No Brasil, não podemos pensar a primavera das mulheres sem analisar as Jornadas de Junho de 2013. Foi neste ano que a rota dos indignados chegou no Brasil. A partir daí também houve seus desdobramentos: aumento do número de greves (inclusive em setores não tradicionais do movimento sindical), explosão do número de ocupações urbanas, levante secundarista. A primavera feminista tem relação com esse momento. Desde então, há uma vanguarda se formando, com um recorte geracional claro, por mais direitos e democracia real.

O feminismo vem se fortalecendo no Brasil desde as Marchas das Vadias, mas foi nos últimos anos, principalmente pela internet que o movimento ganhou mais audiência. Mas dois momentos são fundamentais para o feminismo em 2015: Os atos contra Cunha, que tomaram as ruas em várias cidades do país, e a Marcha Nacional das Mulheres Negras, que ocupou a Esplanada dos Ministérios em Brasília. Esses dois momentos são importantes porque mostraram que o movimento feminista pode sair das redes, ocupar as ruas e influenciar a agenda política do país. Em 2016, novamente as mulheres foram as ruas, em atos de milhares, contra a cultura do estupro, após um caso bárbaro no Rio de Janeiro.

É A VEZ DAS MULHERES

Em 2014, Luciana Genro já tinha sido uma voz das pautas democráticas. Com clareza apresentou um programa dialogando com as demandas das ruas.

Em 2016, o PSOL conseguiu ampliar suas figuras públicas mulheres. Uma conquista coletiva, sem dúvida. Nós destacamos a eleição de Sâmia Bonfim em São Paulo, e a reeleição de Fernanda Melchionna em Porto Alegre. Em Porto Alegre também Luciana Genro conquistou 12% dos votos.

O simulacro de Junho, expresso nas marchas da direita em março pelo impeachment, também elegeu seus representantes. Para ficar no exemplo de São Paulo: o MBL elegeu um jovem, negro e gay, e o Partido Novo elegeu uma mulher. Um dos desafios urgentes e necessários dos movimentos sociais é aprofundar o debate de representação com o debate político e econômico. Nós como socialistas temos um papel fundamental nisso.

Nós saudamos todas as companheiras feministas eleitas pelo PSOL, e desejamos uma boa luta. Elas serão as vozes da resistência aos retrocessos e à retirada de direitos das/os trabalhadoras/es, das mulheres, da juventude e dos setores mais oprimidos da sociedade como um todo.

E só começamos!

(*) Giulia Tadini é dirigenta do MÊS e da Setorial de Mulheres do PSOL

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