Um caminho para unidade e para construir uma alternativa democrática revolucionária | Saudação à resolução Zapatista

Por Leandro Fontes (*)

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Em meio à onda feminista mundial e a reta final do segundo turno das eleições municipais no Brasil, ocorreu no dia 14 de outubro o V Congresso Nacional Indígena (CNI) do México, espaço dirigido pelo Exercito Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) e que contou com a participação de mais de trinta tribos originárias do país. A resolução mais importante foi a de iniciar uma consulta para apresentar nas eleições presidenciais de 2018 uma candidata indígena que simbolize os de baixo e à esquerda. Uma posição audaz e, em nosso entendimento, que pode significar à edificação de uma alternativa a altura dos desafios da atuação situação política do país. Por essa importância, saudamos e somos entusiastas desse salto para frente do movimento zapatista. E de longe, tentaremos nesta breve reflexão, destrinchar os pontos mais significados desse rico movimento.

Em notas anteriores já afirmávamos que a instabilidade do regime mexicano e do governo de Enrique Peña Nieto do PRI. Não apenas pela subserviência ao NAFTA e ao imperialismo, pela aguda crise política e pelas profundas dificuldades econômicas. Mas, também pela violência contra o povo e a relação espúria de setores parasitas do Estado e dos parlamentos com grupos criminosos armados. Desde o período de Vicente Fox, os partidos políticos tradicionais para garantir a todo custo sua manutenção nos poderes, gradualmente costuraram acordos e se submeteram a relações orgânicas com grupos criminosos, cuja sua sustentação passa pelo narcotráfico e se estende ao controle econômico, social e político de territórios.

Dizíamos também que o México não seria o mesmo após Ayotzinapa (massacre de 43 estudantes normalistas). De lá para cá, passando pelo massacre de Oaxaca, é nítido que o nível de consciência dos mexicanos deu um salto. Por essa razão, pela força das gigantescas mobilizações, o governo foi obrigado a realizar uma reforma político-eleitoral. Uma espécie de concessão à pressão vinda das ruas e das praças que possibilitou a formalização de candidaturas independentes por fora dos partidos. Mesmo como uma medida parcial e limitada, consideramos que essa conquista foi um passo importante para a resolução zapatista.

O fato objetivo que se conecta, ignorado pelos céticos, é que o estopim de Ayotzinapa espalhou sementes e pode germinar. Pois certamente, as palavras de ordem – por mais democracia e por uma assembleia constituinte soberana – que guiavam as grandes marchas ao Zocálo em 2014/2015 ainda devem estar latentes.

Mais ainda. O que faltou no terreno subjetivo desse rico processo – uma direção, um partido ou movimento, com programa e política que fosse capaz de fazer o contraponto ao bloco burguês e se apresentar como alternativa para o poder – ainda pode ser construído. Mas, até então, a verdade é que a esquerda socialista organizada no México, em suas distintas matizes, não teve força para tarefa de tamanha envergadura. E justamente por essa compreensão, da necessidade de se avançar em uma nova direção política para os de baixo, que consiga disputar os rumos do movimento de massas, que devemos ter um olhar especial e pela positiva aos passos do EZLN.

O movimento Zapatista, por sua vez, até a V CNI, manteve sua orientação nacionalista de guerrilha rural e de autodefesa, priorizando a manutenção das “zonas liberadas” (territórios ocupados de autogestão) no sul do Estado de Chiapas, contudo, o movimento não tinha grandes vínculos de relação com a luta política nacional e na prática se abstinha de grande parte dos processos. Mas, pelo que nos parece, o giro de olhar para o horizonte coloca Chiapas e todo o México mais próximo das perspectivas de mudanças.  E a campanha de 2018 poderá ser a ponte para essa marcha.

Um breve parênteses: a posição zapatista não indica a construção de um novo partido ou algum movimento sazonal em direção a uma legenda aliada, como uma espécie de filiação democrática como eventualmente ocorre no Brasil. A natureza desse novo movimento se deu  como uma candidatura independente por fora dos partidos tradicionais, possibilidade aberta a partir da reforma eleitoral como já mencionado.

Apenas para apresentarmos alguns dados, nas eleições mexicanas em 2015, primeiro pleito sob as diretrizes da reforma, foi dado um recado alarmante aos partidos tradicionais. Isto é, o índice de votos nos candidatos independentes foi expressivo e assustou a velha casta política. Paralelo a isso, é relevante acrescentar que o ceticismo com os velhos partidos se refletiu em uma pesquisa da Parametría que diz que “mais de 63% da população poderia votar em uma candidatura independente”. Uma fatia majoritária do eleitorado segundo a pesquisa.

Por conta desse momento crítico, um setor conservador passou a defender uma contrareforma que terminasse ou dificultasse o avanço das candidaturas independentes. Em contrapartida, um setor de opinião, ligado a intelectuais e artistas, entre outras personalidades, redigiram um manifesto em apoio às candidaturas independentes. Entre eles estão: Gael García Bernal, Enrique Krauze, Héctor Aguilar Camín, Sergio Aguayo, Marta Lamas, entre outros(as) como o fundador do PRD e ex-candidato presidencial, Cuauhtémoc Cárdenas.  Ou seja, uma candidatura independente para a presidência pode ganhar força na atual situação política do México. E vale agregar que pela nova lei eleitoral a vitória pode ser concretizada por maioria simples em um turno único. Portanto, essa possibilidade (apesar de improvável) não deve ser subestimada. E por esse prisma, o salto do EZLN é tão significativo.

É importante balizar que essa brecha no sistema eleitoral mexicano também favoreceu (e pode seguir favorecendo) um setor da direita que travestido de “anti-político” e/ou “anti-sistêmico” conseguiu ganhar espaço no terreno eleitoral. Esse é caso do populista El Bronco (Jaime Rodríguez Calderón), ex-membro do PRI e que sobreviveu a dois atentados de narcotraficantes, que venceu as eleições em Nuevo León, o segundo Estado mais rico de todo o México. E por hora, ainda reserva certa popularidade entre parte do eleitorado.

Assim sendo, a brecha das candidaturas independentes é um terreno a ser disputado. Porém, algo muito mais favorável e aberto que no período anterior, onde as possibilidades de se emplacar uma candidatura por fora do regime eram extremamente difíceis. E a rigor, independente do resultado eleitoral, essa brecha no sistema poderá ajudar a construir um movimento que, a partir de uma grande mobilização nacional, possa derrubar o regime corrupto e pro-imperialista mexicano.

Ao nosso entender, diante da situação concreta, esse salto para frente do movimento zapatista significa uma inflexão qualitativa e,  ao mesmo tempo,  abre novas possibilidades de reaglutinação da esquerda mexicana. É evidente que esse movimento não significará uma resposta a todas as lacunas e inquietações dos setores organizados da classe e do movimento de massas. Entretanto, na luta de classes e nos processos políticos abertos é preciso apostar. Sem essa audácia, entre outros elementos, é impossível disputar o poder e os rumos de um país.

De nossa parte, portanto, não interpretamos que a resolução do V CNI / EZLN se reduz apenas a mais uma nota ou uma declaração de vanguarda, mas sim uma janela de oportunidades para se formar um amplo movimento social e político que se desenvolva com uma plataforma na defesa das bandeiras democráticas e da esquerda mexicana do campo e da cidade. Pois se trata de uma proposta vinda de uma experiência real, de luta revolucionária, de resistência territorial e de valorização do povo mexicano, de suas raízes e de sua história. E que de modo corajoso, irá apresentar uma mulher indígena a presidência da república. Por si só, está possibilidade já se choca e se coloca de modo antagônico ao carcomido regime político mexicano. Agora, vamos à diante, rumo aos próximos passos.

(*) É membro do MES e da Executiva do PSOL Carioca. Esteve no México no calor das grandes marchas ao Zocálo em 2014.  

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