Maíra Tavares Mendes e Nicolas Calabrese

O Brasil é um dos campeões de privatização da educação superior na América Latina: mais de 75% das matrículas estão em instituições privadas. Isso faz com que a procura por uma vaga numa universidade pública seja muito intensa, exigindo que o desempenho nos exames de seleção (Enem e vestibular) seja muito alto. Como a escola pública tem passado por cortes de gastos e precarização intensos, é muito mais difícil para os estudantes pobres entrarem na universidade pública. Muitas vezes, eles trabalham para pagar cursos preparatórios para as provas, os chamados cursinhos, ou então se inscrevem em programas de bolsas nas instituições privadas.

Desde 2007, a juventude do MES tem impulsionado a organização em bairros populares de jovens que tem o seu direito de estudar negado: a partir de professores e outros colaboradores voluntários, a Rede Emancipa se constituiu como um movimento social que organiza aulas e outras atividades político-pedagógicas. Tudo é feito por meio da mobilização e do ativismo: a busca por um local onde se possa organizar uma sala de aula, a campanha em busca de professores que disponham de seu tempo para construir um projeto de educação militante, a divulgação nas escolas públicas da região.

Nascida no estado de São Paulo, a Rede Emancipa rapidamente se espalhou: hoje são 28 cursinhos espalhados por mais outros 5 estados (Rio de Janeiro, Pará, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Distrito Federal). A cada ano mobilizamos mais de mil estudantes, a grande maioria jovens das periferias, mulheres e negras, além de centenas de professores.

A Rede Emancipa é mais do que uma rede de professores e alunos que se organiza para preparar para uma prova: é um movimento social de educação popular, uma experiência de auto-organização das classes populares por meio da educação. Assim, uma série de discussões fazem parte do cotidiano dos cursinhos: conjuntura política, feminismo, negritude, identidades LGBT, relação entre educação e sociedade, direitos humanos. Inspirada na pedagogia de Paulo Freire, a Rede Emancipa trabalha com a ideia de que educar é um ato político, e por isso a mobilização é a sua principal marca.

Nos cursinhos organizados pelo Emancipa se trabalha com a ideia que é preciso ocupar os espaços públicos, pois eles são do povo. Isso também vale para as universidades: todos os anos a Rede Emancipa promove o “Dia na USP”, quando leva centenas de jovens para conhecer e disputar a universidade mais elitizada do país. Além disso, tem participado ativamente nos movimentos de massa mais recentes no Brasil, como na luta contra o aumento da passagem que culminou nas jornadas de junho de 2013, e as ocupações de escola em São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados.

No ano de 2017, a Rede Emancipa faz 10 anos. Em pouco tempo, e com as dificuldades que as classes populares se enfrentam para se organizar, tendo que dedicar uma parte do valioso tempo para a luta, o Emancipa tem se tornado, ao mesmo tempo, um grande movimento de educação popular a nível nacional e uma ferramenta de resistência e luta para a juventude que tem seus direitos negados. Por isso, os próximos anos continuarão sendo um desafio para nós do Emancipa, tendo o objetivo de massificar essa experiência e enraizar em todos os lugares onde a juventude periférica tenha direitos sendo atacados. Nossa tarefa é grande, mas estamos cientes de que não há outro caminho que não seja a luta e a organização contra este sistema capitalista que pretende retirar mais e mais nossos direitos e nosso futuro.