Por Israel Dutra, MES/PSOL (Brasil) e Sergio García, MST (Argentina)

A queda de Aleppo foi um evento que comoveu o mundo. O banho de sangue provocado pelas milícias de Al Assad, os bombardeios do regime apoiados em forças armadas russas destruíram praticamente dois terços da cidade, sobretudo sua zona histórica. Foram inúmeros alvos civis, deixando um rastro de destruição que lembram cenas das grandes guerras mundiais. Os meses que precederam essa ofensiva foram de bloqueio da entrada de alimentos e de toda ajuda humanitária para as zonas de conflito. Al Assad, em cumplicidade com Irã e a Rússia de Putin, separou os bairros que ainda estavam nas mãos dos rebeldes, impedindo inclusive a entrada de auxílio médico. E ao final de novembro, a evacuação da cidade mobilizou massas de civis aterrorizados com a situação. Ondas de estrupas, assassinatos casa a casa, inclusive de idosos e crianças mancharam de sangue toda a cidade, conhecida como o coração da resistência a ditadura do Clã Assad.

Al Assad encabeça um governo pró imperialista, que segue a ditadura inaugurada por seu pai e diante do processo revolucionário que se abriu com a primavera árabe, transformou a repressão em uma sangrenta guerra civil. Sua crueldade contra as minorias na Síria destruiu uma parte importante do país, tendo formado parte do bombardeio que acabou com o campo de refugiados palestinos, em Yarmouk. Enquanto a Rússia construía todo um teatro diplomático com Obama para uma mesa de negociações sem resultados, clandestinamente, as milícias e forças regulares do regime estrangulavam as principais vias da cidade, sem nenhuma piedade, em unidade com as forças leais a Assad e grupos mercenários pagos pela frente Rússia – Irã. Arrasaram duas cidades históricas como Aleppo e Idibli.

Na máquina de contrapropaganda, Assad e Putin justificam seu genocídio como parte da luta mundial contra o terrorismo do ISIS/Daesh. Nada mais mentiroso. A frente militar que lutou durante anos em Aleppo é uma coalizão diversificada, com presença de grupos islâmicos, que diante do vazio de direção ganharam peso pelo seu poderio militar e coesão interna. A partir daí, com o passar dos anos se cruzaram e combinaram diferentes interesses e facções, combatentes revolucionários e progressivos contra o regime e grupos e milícias com outros fins regressivos, alguns inclusive hostis ao povo kurdo encorajados pela Turquia. Mas como em todo processo temos que ver a essência, a mesma é que a queda de Aleppo cumpre um papel contrarrevolucionário na região, porque fortalece uma ditadura e é funcional aos interesses imperialistas da Rússia, enquanto o povo sírio anti-ditadura sofre as consequências, tanto que até o regime turco antidemocrático aprovou a queda de Aleppo porque também serve aos seus interesses.

Por isso é uma falácia que Assad e a Rússia lutam em Aleppo contra o ISIS/Daesh, já que estes tem sua própria linha de combate contra uma parte das organizações populares que se juntam ao já enfraquecido Exército Livre da Síria. O centro do ISIS é a reconquista da cidade histórica de Palmira assim como fortalecer a retaguarda para os enfrentamentos em Mosul, Iraque. O objetivo dos setores que espalham a ideia de que em Aleppo se lutou contra o ISIS é confundir a opinião pública e justificar o injustificável: um genocídio, onde os bombardeios contra civis descumprem qualquer convenção internacional.

A vitória de Donald Trump agravou essa situação. Seu braço direito é íntimo de Putin e representa os interesses diretos das grandes empresas petroleiras do mundo. Trump pavimenta o caminho para que o carniceiro Putin imponha o genocídio contra o povo sírio. Por causa disso, o que se verificou foi o silêncio cúmplice das grandes potências europeias e dos Estados Unidos, que lavaram as mãos diante do genocídio. Cabe a nós não abandonar Aleppo nem ao povo sírio que genuinamente quer seguir lutando contra a ditadura de Al Assad e assim o fará. Para esse objetivo temos que impulsionar uma campanha no mundo todo condenando o massacre e exigindo: Fora Al Assad!

O massacre de Aleppo reabriu um debate transcendente, já que uma parte da esquerda, sobretudo os antigos Partidos Comunistas ou correntes ligadas ideologicamente a estes, seguem atuando como parte da contrapropaganda de Assad – Putin. Com essa linha escandalosa fortalecem o regime ditatorial de Assad e assim são cúmplices do genocídio, repetindo mentiras diante da opinião pública mundial. Chegando ao absurdo de querer justifica-lo ou disfarça-lo com uma suposta luta contra os EUA ou o imperialismo europeu, partindo da equivocada base de que há dois lados internacionais e que um é mais progressivo, a Rússia e Assad. Enquanto os EUA, debilitado na região, deixou correr com muita cumplicidade a atuação da Rússia e seus sócios locais.

O grande erro destes setores é que nunca tomaram conta o processo real da primavera árabe e suas revoluções democráticas contra os regimes ditatoriais da região, que na Síria tomou grande envergadura em 2011 e Al Assad respondeu com uma guerra civil. Desde então logicamente todos os imperialistas querem intervir em benefício próprio, e por isso sempre tem sido nossa posição o rechaço a toda ingerência de todos os países imperialistas e o apoio ativo ao genuíno levante popular. Os que apoiam a Rússia – Al Assad se colocam no lado regressivo de uma ditadura sangrenta e de uma parte do imperialismo que sufoca o povo sírio, como parte de tomar um controle maior da região para facilitar seus negócios petroleiros e energéticos.

Daqui também alertamos sobre a perspectiva do que o regime sírio e a Rússia, encorajados pela Turquia, pretendem usar a queda de Aleppo e o conjuntural fortalecimento de Al Assad para ir contra outro símbolo da região; a revolução kurda de Rojava e Kobane no Kurdistão sírio e o desenvolvimento deste movimento dentro da Turquia. Esse heroico exemplo de luta com enorme protagonismo de suas mulheres, merece toda a solidariedade e apoio internacional, porque segue sendo uma ponta-de-lança contra o regime e o sistema imperante no meio da instabilidade e intervenção imperialista em toda a região, e frente ao sangrento regime turco de Erdogan que os persegue dentro e fora de suas fronteiras.

Diante desta realidade, é mais necessário que nunca impulsionar uma campanha internacional contra o genocídio em Aleppo e outras cidades sírias, garantir a entrada de alimentos e auxílio humanitário, assim como a segurança pra o transporte de todas as famílias de refugiados. Condenar e denunciar a brutalidade militar de Al Assad e Putin em outras cidades da Síria e manter um apoio ativo a todas e todos aqueles que genuinamente seguem lutando contra o regime ditatorial. A luta de fundo passa por um momento difícil, mas não acabou. Vive em milhares de sírios que exigem o fim da ditadura. E vive no povo kurdo.

Nenhuma ingerência nem intervenção imperialista na Síria e região. Não ao Estado Islâmico.

Fora Al Assad e Putin. Apoiemos ao povo da Síria que luta por sua liberdade.

Viva a revolução kurda!