Por Luciana Genro, advogada e dirigente do PSOL

Fonte. Carta Maior

A morte de Teori Zavascki deixou o Brasil comovido e em estado de alerta. O ministro, relator do processo da Lava Jato no Supremo, estava prestes a homologar a delação premiada da Odebrecht – a maior da história do país, com alegadas citações ao presidente Michel Temer, ao chanceler José Serra e outros nomes poderosos do governo. As circunstâncias desta tragédia levantam um irrespirável ar de suspeição em todo o país e exigem uma investigação rigorosa sobre a queda do avião.

O destino da Lava Jato está agora nas mãos da presidente do STF, Cármen Lúcia. A ministra tem o poder de decidir se redistribui a relatoria do processo a um outro colega, através de sorteio, ou se espera que o novo magistrado indicado por Michel Temer assuma o caso. Ambos os caminhos encontram respaldo no regimento interno do Supremo, mas apenas um é aceitável do ponto de vista ético. Ou alguém acha justo deixar que um juiz escolhido por Temer – citado 43 vezes por um executivo da Odebrecht – seja o relator da Lava Jato? Eu acredito que Cármen Lúcia fará o que o país espera da presidente do Supremo neste momento. Mesmo assim, a Operação Lava jato está em perigo, pois não se sabe nas mãos de quem a relatoria vai estar.

O governo Temer não esconde o alívio com o freio posto na Lava Jato pela morte de Teori. Com uma frieza inconcebível, o ministro Eliseu Padilha já admitiu, em entrevista à Rádio Guaíba, que a morte de Teori “vai fazer com que a gente tenha mais tempo para que delações sejam homologadas”.

Mesmo que a redistribuição do processo seja a alternativa “menos pior” neste caso, ainda assim colocará a continuidade da Lava Jato em um destino nebuloso. Afinal são muitos interesses em jogo e poucos ministros do STF possuem a altivez de Teori. O próprio senador Romero Jucá, braço direito do governo, reconheceu, em áudio gravado com Sérgio Machado, que não havia caminhos para pressionar Teori a esvaziar a Lava Jato.

A Operação Lava Jato precisa continuar, processando e julgando todos os investigados. Ela não pode ser conhecida como uma operação que revelou os esquemas dos governos petistas, mas que não foi capaz de punir a corrupção dos políticos que derrubaram Dilma e agora estão no poder.

É preciso defender a continuidade da Lava Jato, doa a quem doer, e a divulgação imediata da delação da Odebrecht. Não podemos permitir que a impunidade e os conchavos devolvam para baixo do tapete tudo que já foi feito até agora.