Israel Dutra e Pedro Fuentes

A posse de Donald Trump esteve contrastada com o tamanho das manifestações do sábado, 21 de janeiro, contra Trump. Eram marchas compostas e encabeçadas sobretudo pelas mulheres. E foram milhões.  Nesse caso, coloco algumas breves considerações sobre a ‘novidade’ que significa a chegada da Era Trump, sem lugar a dúvidas, o principal assunto que domina os noticiários de todo o planeta. Os Estados Unidos estão no centro político do mundo.  Com a tensão entre a direita e uma maior resistência, a situação fica mais polarizada.

Assim começou o novo governo

Donald Trump finalmente tomou assento na cadeira de chefe do principal Estado do planeta. A cerimonia de posse foi marcada pelo seu habitual estilo histriônico e agressivo, bem como de conteúdo conservador e demagógico.  A assistência que teve a posse foi muito menor do que a de 2009, quando Barack Obama arrastou multidões. O fato mais marcante foi o tamanho da contestação. Os atos do próprio dia foram bastante concorridos, chegando a enfrentamentos que resultaram na prisão de mais de cem ativistas. O maior acontecimento foi no dia seguinte. A gigantesca marcha das mulheres- que percorreu todo país e se alastrou em várias partes do mundo. As maiores manifestações foram as de Los Angeles e Washington, onde se estima quase meio milhão de pessoa, seguida de Chicago e outras cidades.  Algumas fontes falam entre 3 e 4 milhões de manifestantes, como já dito, em sua ampla maioria mulheres,  numa cifra que supera os protestos multiditudinários contra a guerra do Vietnã e se convertem na maior manifestação política da história dos Estados Unidos.

Nossa corrente vem insistindo na necessidade de acompanhar a dinâmica política dos Estados Unidos.  Há mais de um ano, analisando o fortalecimento de Sanders já definíamos em artigo de Pedro Fuentes : “A verdade é que esse movimento que ocorre nos EUA é o sintoma de que todo o mundo está se movendo”.  Nossa última revista Movimento traz notas e uma entrevista com um marxista estadunidense. Thiago Aguiar passa uma temporada nos Estados Unidos, atuando com camaradas do DSA  e da Revista Jacobin. É decisivo que toda esquerda mundial se coloque de corpo e alma para acompanhar o processo dos EEUU.  Tivemos a eleição de Obama, Ocuppy Wall Street, a campanha pelos 15 dolares, o levante negro/ Vidas negras importam, a campanha Sander.  A movida da era Trump vai agudizar tais contradições, como as que verificamos nos seus primeiros dias.  Colocar aqui citação das notas compactas

O discurso de Trump foi simbólico. Por um lado exercitou seu reacionarismo colocando temas nacionalistas e xenófobos, por outro dialogou com a falta de representatividade dos regimes políticos.  Fez um discurso que comprova que sua base oscila de posições atrasadas- a grande maioria dos presentes estava com seu boné vermelho “Make America Great Again/ Fazer uma América grande novamente”- com um reflexo da indignação contra “todos”.  Também demonstrou um salto de qualidade no que diz respeito à disputa da opinião pública, criando toda uma esfera de critérios próprios de verdade, ao que chamou de “fatos alternativos”, negando coisas elementares como a massiva marcha das mulheres e em seguida, os próprio resultados eleitorais. Trump alega ter existido fraude para justificar que tenha perdido por quase três milhões de votos de diferença, no total de eleitores americanos.

A outra face dessa nova etapa foi a presença massiva de protestos de rua.  Os números são espetaculares.  Foram 250 mil pessoas em Chicago, mais de 500 mil na capital Washigton, quase esse número em Los Angeles.  Nova York e as 40 maiores cidades do país tiveram marchas massivas, com centenas de milhares.  No mundo, manifestações em todas cidades: Com destaque para Londres, mais de cem mil pessoas. O dia 21 de janeiro entrou para a história com maior protesto já feito nos Estados Unidos da América e como uma maré Internacional das mulheres em luta. No Brasil, houve protestos em São Paulo e no Rio Grande do Sul, as mulheres do PSOL levantaram a faixa “ Womans against Trump”, exemplo de solidariedade internacionalista.

A presença e apoio de celebredidades às manifestações contrastou com o boicote à cerimonia de Trump. Foram poucos os artistas que se aventuraram a respaldar Trump, que teve a ausência de 66 deputados democratas, gesto feito em solidariedade ao deputado e ativista dos direitos humanos Jonh Lewis, atacado publicamente pelo magnata. Na lado das ruas, o movimento Antitrump, estavam nomes como  Madonna, Jessica Chastain,  Ellen Page, Emma Watson,  Zendaya, Katy Perry ,Lena Dunhan, entre várias. A mais contundente foi a fala de Angela Davis- que sintentiza a luta das mulheres, dos negros, do conjunto da resistência civil e da esquerda. Angela emocionou o mundo com seu discurso na Womens March: “  é um momento histórico desafiador, vamos nos lembrar que nós somos centenas de milhares, milhões de mulheres, transgêneros, homens e jovens que estão aqui na Marcha das Mulheres. Nós representamos forças poderosas de mudança que estão determinadas a impedir as culturas moribundas do racismo e do hetero-patriarcado de levantar-se novamente.”

Trump levanta muros

Podemos voltar a velha metáfora do “bombeiro louco”? Para resolver a crise política parece que rump quer apagar os incêndios com mais gasolina.

Há duas medidas já tomadas que demonstram claramente que Donald Trump está disposto a fazer uma guerra total contra os imigrantes e os latinos.

Um dos seus decretos mais polêmicos foi o que prevê a construção do Muro de 3 mil quilômetros separando o México dos Estados Unidos. Um muro da estatura de uma muralha da China, maior que os muros de Jerusalém e Berlim. Trump disse que o muro está sendo projetado e deverá ser pago pelo México.

A outra medida foi o veto migratório que Trump queria impor a cidadãos provenientes de sete países de maioria muçulmana- Irã, Iraque, Libia, Síria, Somália, Sudão e Iemem.

O discurso do governo Trump/Pence é demagógico  sobre a questão do emprego para “americanos” –  o índice de desemprego é relativamente baixo, apoiado num setor atrasado que deu bases eleitorais para a vitória republicana nos estados do chamado “Cinturão da ferrugem”. Trump quer estimular essa contradição entre a classe operária branca e a circulação dos imigrantes de origem latina e árabe. A base, contudo dos seguidores mais dispostos de Trump e seu grupo são a classe média branca dos Estados Unidos “profundo”, mais atrasado com as pesadas heranças do racismo.

Essa é a primeira grande crise do governo. A medida anunciada de revogação dos vistos desses países foi paralisada pela justiça e nesse momento está em pleno debate. Como afirma a edição do ElPais do dia 09/02

“A ordem imigratória de Trump, que bloqueava temporariamente a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de sete países de maioria muçulmana, foi paralisada por um juiz de Seattle enquanto se decide a questão nos tribunais, com base na demanda apresentada contra a ordem pelos Estados de Washington e Minnesota. “É triste, acho que é um dia triste. Acho que nossa segurança está em risco hoje”, criticou o republicano, e insistiu em que o presidente tem competência em matéria de política imigratória e segurança e que os juízes não deveriam complicar as coisas.”

A grande pressão da opinião pública veio acompanhada de protestos em várias aeroportos contra a banição dos imigrantes. Todo um setor de pesquisadores e funcionários- inclusive os de alto escalão- de empresas do ramo da tecnologia se levantou contra o decreto, gerando inclusive o apoio de setores do empresariado do Vale do Sílicio como a Google, Yahoo e a Microsoft à luta contra as medidas restritivas ao ingresso de imigrantes.

O muro que se levanta no México- junto com a proposta de cobrar um imposto adicional de 20% sobre os produtos de origem mexicana também causou um terremoto político, para além das fronteiras. A ameaça paira sobre o NAFTA- acordo comercial entre México, Estados Unidos e Canadá- responsável por parte dos investimentos de grandes empresas no território do país vizinho.

As interrogantes são várias: como ficarão as empresas que tem investimentos diretos no México, sejam elas americanas, sejam elas, chinesas por exemplo?  Como fica a relação diplomática com outros países diante de tamanha afronta. O débil governo de Peña Nieto teve de negar a hipótese, mesmo sendo um governo aliado de Trump. O resultado cancelou a primeira reunião anteriormente marcada entre eles.

Trump segue sua marcha a todo vapor para a construção do muro e sua política de veto à imigração. Os novos choques com o movimento de massas e setores mais amplos, politica e socialmente serão inevitáveis. Black Lives Matter…

O caráter reacionário do governo Trump

As mudanças da Era Trump são as mais discutidas atualmente. A truculência de seu discurso corrobora o perfil de seu governo. Nomeou para ministros e para o primeiro escalão magnatas e empresários, além de figuras do seu entorno pessoal, como seu genro; figuras como Jeff Sessions(Justiça), Bete Devos(Educação), Scott Priutt(Meio-Ambiente) são ultraconservadores.   Devos passou por uma sabatina no Senado, rito que há quase cem anos não acontecia na “democracia estadunidense”

Ainda é cedo para prever todos os desdobramentos. Contudo, os choques serão uma constante no governo, tanto no âmbito da política interna quanto nas relações exteriores. Uma mudança forte na geopolítica, tensões permanentes e uma grande ruptura no andar de cima. Uma mudança que atinge e divide os aparatos do Imperialismo, como é o exemplo da CIA. O conflito com a imprensa já foi verificado nas primeira entrevista coletiva de Trump, onde houve um bate boca com jornalista da CNN.

A ultradireita busca levantar a cabeça. O editor do site Breitbart não pode proferir uma palestra na universidade de  Berkley, por conta de um protesto estudantil que terminou com ares de rebelião, com barricadas que fecharam a universidade. Esse site é que agrupa a “direita alternativa”, que tem como ideólogo Stephen Bannon, que ocupa o posto de “estrategista” no governo Trump.

 

Motivada pela ascensão de Donald Trump também uma parte da direita europeia se anima,  com o conceito de “populismo de direita”, nada mais que um tipo de xenofobia de caráter demagógico. O líder do UKIP inglês e a referente da Frente Nacional francesa, Farage e Marine Le Pen, respectivamente, tem aproveitado o prestígio de Trump para reforçar esse “populismo de direita”. O partido da extrema-direita alemã, AfD(Alternativa para Alemanha), conhecido por seu caráter antiimigrantes e islamofóbico, aproveitou a data da posse de Trump para fazer um encontro de setores europeus identificados com essa pauta. Reuniram-se nos dias 20 a 22 em Coblenza, no oeste Alemão, partidos da extrema-direita, entre eles a própria Le Pen, e referentes como Geert Wiilders do partido que lidera as sondagens de opinião na Holanda, Salvini, líder da Liga do Norte italiana, e o secretário- geral da FPO austríaca. A busca que garimpar um espaço no ideário mundial une e anima essas correntes e partidos.

Tal polarização só é possível com o naufrágio das alternativas “normais” de alternância dos regimes políticos. O fim do ciclo que resultava em estabilidade, apesar da alternância entre diferentes máquinas partidárias a frente dos Estados, marca o novo período. Junto com a crise dos regimes democrático- liberais evidencia-se a crise da social-democracia, ou como chamou Tariq Ali, do “centro-extremo”. Isso foi a principal explicação para o fracasso de Hilary, também para o Brexit e para a derrota do governo italiano em recente plebiscito constitucional.  O abandono das pautas sociais por parte dos partidos com maior penetração entre os trabalhadores e os pobres produziu o fenômeno de descontentamento, que a extrema-direita busca navegar com arroubos demagógicos e o estilo Trump. Tanto assim é que Trump sempre evoca o “trabalhador americano” para justificar seu protecionismo e futuras guerras comerciais que poderá desatar. A crise de representatividade é uma das fontes que explica a Era Trump.

Uma divisão no coração do Imperialismo e maior conflito entre Estados

No plano internacional, Trump está sendo fiel ao prometido: no seu terceiro dia de governo já retirou os Estados Unidos do TPP, uma mudança num dos maiores acordos comerciais dos últimos anos, envolvendo 12 países.  Chegamos ao inusitado de assistir em Davos a defesa da  China do livre-Comércio contra o risco “americano” do protecionismo. As mudanças não param por aí. O alinhamento de Trump com Putin já trouxe resultados trágicos no caso da barbárie síria. E no terreno do Oriente Médio, a tentativa de transferir a embaixada norte-americana para Jerusalem, num gesto de provocação. Isso alenta a ofensiva antiPalestina do Estado de Israel, com a construção de novos assentamentos na Cisjordânia. Está claro que o eixo Bibi/Trump vai por mais ataques contra os povos árabes e palestinos.
A relação com a China ainda é uma relação “fria”, mas com demonstrações de crescente conflitividade. Sem falar em posturas anedóticas que revelam seu traço beligerante, como o episódio da discussão telefônica com o chefe de Estado australiano que se concluiu com um bate-boca.

O fato é que a marca da Era Trump é uma divisão profunda no seio da classe dominante. Uma divisão que percorre a burguesia americana, o Imperialismo e suas ferramentas como a Cia e o Pentagono.
É uma expressão do que definimos como “Impasse global crítico”, nas notas compactas, onde definimos que existe uma situação de decadência do Imperialismo norte-americano, sem acabar com a globalização.

Uma nova relação com América Latina, com o crescimento do anti-imperialismo- combinando contradições internas e externas, num movimento que pode ser superior ao da resistência à guerra do Iraque, inclusive ao Vietnam. O movimento alternativo surgido como alternativa à mundialização , como Seatlle, Genova e o Fórum Social de Porto Alegre acabou sendo cooptado pela burocracia do PT que capitulou totalmente a globalização e a financeirização.

Para os Latinoamericanos México passa a jogar um papel chave. O muro de Trump separa físicamente, mas une políticamente os dois lados do povo mexicano que por millones são ou tem seu origen ao Sul do Rio Bravo.

Vem pela frente: ataques, solidariedade e resistência

Os ataques vão seguir também contra o meio ambiente, em beneficio das grandes corporações. Já tem retomado a pauta de construção do oleoduto, como também a seguridade social e o ObamaCare

Nas vésperas de grandes acontecimentos que podem incidir na luta para mudar a relação de forças, estamos na hora de instituir um novo tipo de solidariedade internacionalista, superando o movimento antiglobalização dos FSMs, (cooptados em grande medida pelo PT de Lula e socialdemocratas), forjando um programa de resistência para desencadear uma rebelião democrática para derrotar Trump. A greve de mulheres do oito de março é um jalão importante. Temos que seguir esse caminho e organizar a resistência global.

Uns dos últimos escritos Trotsky falou que o imperialismo americano concentraria todas as contradições do capitalismo e isso está acontecendo. O novo no mundo é que temos um inimigo comum que unifica aos explorados, imigrantes, raças oprimidas, pelo capitalismo tanto no Sul como no Norte. A luta anti imperialista toma uma nova forma mais rica. Como já falamos em outros textos a luta dos latino-americanos e a dos EUA está mais perto. O muro de Trump pretende dividir pero unifica. Nosso desafio é por em pie um novo movimento, uma aliança mundial dos de baixo, e nesse processo os trotskistas temos que estar nas primeiras fileiras como o fizemos na luta contra  guerra do Vietnam e no movimento antiglobalização da década passada.