Sob o governo de Trump, mais americanos filiam-se a grupos socialistas Grupos socialistas assistem a um enorme crescimento em suas fileiras na medida em que participam de protestos contra o Presidente dos EUA, Donald Trump

 

Por Patrick Strickland*[1]

Connor Southard nunca esteve envolvido com a organização de ações políticas e nunca foi membro de uma organização política – até a eleição do presidente de extrema-direita dos EUA, Donald Trump. Depois disso, entrou para os Socialistas Democráticos da América (sigla DSA, em inglês).

“Na medida em que ficava claro que a esquerda organizada estava ficando mais forte e enfrentando ameaças cada vez maiores à sua agenda…era claramente o momento para envolver-se”, explica de Nova Iorque o jovem de 26 anos.

A extrema-direita nos Estados Unidos – e na Europa – vem sendo estimulada pela vitória de Trump e pelo firme controle que exerce sobre o Partido Republicano nas duas câmara do Congresso americano.

“A única maneira de se opor a este nível de perversidade do poder [de Donald Trump] é organizar-se.” Diz Southard. “Este momento tem levado muitas pessoas a se radicalizarem devido ao nível injúria e repulsa. Pessoas por todo o país têm se perguntado o que fazer. Em uma palavra, a resposta é: organize-se.”

Ele soube da DSA por amigos e pela Chapo Trap House (“Casa de armadilhas do Chapo”), um popular podcast satírico de esquerda.

Desde a vitória eleitoral de Trump em novembro, organizações socialistas vêm relatando uma explosão em suas filiações e demonstrações de interesse.

David Duhald, vice-diretor da DSA, explica que, desde maio de 2016, o número de filiados à organização pulou de 16 mil para mais do que o dobro. Apenas nas duas últimas semanas, mais de 2 mil filiações foram registradas.

“Nós temos tirado vantagem da crescente empolgação em torno do socialismo e do sentimento popular de que o capitalismo não está funcionando para a maioria das pessoas”, disse Duhald à Jazeera, acrescentando que por volta de 50 novos núcleos foram fundados em comunidades ou universidades nos últimos meses.

Os membros da DSA participaram dos grandes atos contra Trump no dia de sua posse, apoiaram a Marcha das Mulheres, e protestaram pela liberação dos imigrantes detidos em aeroportos em função do ato do novo presidente, que bania a entrada de emigrantes de sete países de maioria muçulmana.

“É fundamental em nossa política promover a coalizão do trabalho e agora fazer parte da frente popular contra Trump”, explica Duhalde. “Os socialistas devem estar entre as massas que protestam fazendo um trabalho de solidariedade.”

A Alternativa Socialista, um partido trotskysta, diz que suas filiações cresceram em mais de 30% desde a eleição de Trump.

O escritório da secretaria nacional do Partido Socialista dos EUA disse por email que eles também verificaram “um forte crescimento logo após as eleições”, mas se recusaram a dar maiores detalhes.

Embora o número de membros continue pequeno em comparação aos dos Democratas ou Republicanos, o aumento é significativo. Uma vez que foram motivados pelo ódio a Trump, o fenômeno não é totalmente um raio em céu azul.

 

“A classe trabalhadora é super-explorada”

Connor Kilpatrick, escritor que compõe a mesa editorial da Jacobin, uma revista socialista baseada em Nova York, diz que a falência dos dois principais partidos dos EUA cumpre um papel significativo no crescimento da política de esquerda.

Além do fracasso dos partidos do establishment, Kilpatrick credita parte da responsabilidade às corporações de mídia. Ele baseia sua análise nos apontamentos feitos por um estudo da agência de pesquisa MediaQuant, segundo a qual Trump recebeu aproximadamente 5 bilhões de dólares em cobertura de mídia gratuita.

Apenas alguns dias após a vitória de Trump, quase todas as principais corporações de mídia dos EUA publicaram notícias e crônicas sobre uma conferência da National Policy Institute (um grupo de extrema-direita nacionalista e de supremacia branca) em que cerca de cem pessoas celebravam a vitória de Trump. Durante a conferência, o infame racista Richard Spencer puxava a palavra de ordem “Hail Trump”, enquanto o público levantava fazendo saudações nazistas.

Na mesma noite, por volta de 450 pessoas lotaram um pequeno salão no Brooklyn para assistir a uma palestra promovida pela Jacobin  sobre a luta dos trabalhadores. “Não é que não haja socialistas em quantidade suficiente para que a mídia possa dar enfoque; é que eles estão tomando a decisão de não fazê-lo”, diz Kilpatrick.

Dois dias antes das eleições, em que Trump venceu no colegiado por ampla margem mas perdeu no voto popular, a agência de pesquisa Gravis Marketing publicou uma pesquisa que examinava como o auto-denominado socialista Bernie Sanders teria escorraçado Trump. A pesquisa apontou que Sanders teria derrotado Trump por uma margem de 56% a 44%.

Sanders, um ex-independente que concorreu para presidente nas primárias dos Democratas e perdeu para Hilary Clinton, é senador pelo estado de Vermont. “Eu acredito que a classe trabalhadora é super-explorada e a ela não é dado nada, e diz muito que seu político favorito seja judeu socialista de 75 anos, [ Bernie Sanders]”, diz Kilpatrick.

Não totalmente novo

O movimento socialista americano cresceu e encolheu em fluxos e refluxos desde sua origem. Eugene V Debs, um ícone do socialismo que concorreu a presidente cinco vezes, arrancou mais de 900 mil votos nas eleições de 1912 e 1920. O Partido Socialista da América, do qual fazia parte, atingiu seu auge de filiações em 1912, com cerca de 118 mil membros.

Mas a tumultuosa história do socialismo americano é permeada de exemplos de repressão estatal: a prisão de ativistas anti-guerra durante a Primeira Guerra Mundial, a caça às bruxas liderada por Joseph McCarthy nos anos 1950 e a repressão aos estudantes e outros radicais durante a rebelião da Nova Esquerda (New Left) na década de 1960, dentro outros.

Ainda que atualmente eles sejam fracos, um estudo realizado pela Universidade de Harvard em abril de 2016 apontou que 51% dos millennials – grupo vagamente definido como sendo formado por pessoas de 18 a 29 anos – rejeita o capitalismo e 33% apoia o socialismo.

Katie Feyh, professora da Universidade de Siracusa que estuda marxismo e teoria retórica, argumenta que um renovado interesse pelo socialismo foi estimulado pela campanha de Sanders.

Sanders “mostrou o quanto pessoas progressistas e de esquerda estão ávidas por uma formação eleitoral à esquerda de onde os Democratas vêm se posicionando” por décadas, disse Feyh à Al-Jazeera.

Os protestos do Occupy Wall Street em 2011 e o levante do movimento Black Lives Matter em 2014 atraíram milhares de recém-chegados ao ativismo progressista.

Nas eleições presidenciais de 2012, menos de 18 mil pessoas votaram em candidatos socialistas, de acordo com a revista Latterly.

Em Novembro, o Partido Vere de Jill Stein atingiu quase 1 milhão e meio de votos. Embora não seja socialista, Stein defendeu diversas causas de esquerda.

“Com um número recorde de pessoas marchando contra Trump, há mais pessoas entrando para o ativismo político por fora da cabine de votação”, Feyh explica.

Além disso, acrescenta, ainda que os socialistas estejam “longes de serem a maioria” dos participantes das manifestações contra Trump, “há uma abertura para políticas [de esquerda] que não vejo há muito tempo.”

 

Sem disposição para negociar

O processo político americano, ainda que permita partidos alternativos[2], é em essência um sistema bipartidário. De atingir um financiamento de campanha suficiente para chegar às urnas a conseguir adequada cobertura da mídia, partidos alternativos enfrentam imensas barreiras.

Enquanto o senso-comum tende a culpar os candidatos de partidos alternativos por “atrapalhar” eleições acirradas, em uma pesquisa de setembro de 2015 da Gallup, 60% dos entrevistados apoio o estabelecimento de um terceiro partido viável porque os dois principais partidos “fazem um péssimo trabalho”.

Kshama Sawant, militante da Alternativa Socialista que ocupa o cargo de vereadora em Seattle, disse que seu partido está se organizando e tendo como foco a captação com esperanças de cavar um espaço no âmbito nacional.

Sawant, que tomou posse em janeiro de 2014, foi o primeiro político abertamente socialista a vencer uma eleição municipal em Seattle em 97 anos, quando a cidade depôs o vereador por quatro mandatos Richard Conlin.

Sawant disse que trabalhar em torno de questões progressistas por dentro do Partido Democrata ainda é um ponto de debate entre a esquerda.

Mesmo que Sawant e a Alternativa Socialista tenham apoiado Bernie Sanders nas prévias do Partido Democrata, elas o cobraram para que saísse como candidato independente após a derrota para Clinton. “Nós sempre fomos abertamente honestos de que não acreditamos que o Partido Democrata possa ser um meio político para fazer avançar a agenda progressista porque sua liderança do establishment está estreitamente ligada a Wall Street”, disse a vereadora à Al-Jazeera.

Além disso, Sawant diz que os Democratas alienou os progressistas ao estimular cooperação com Trump. Logo após as eleições, Clinton ofereceu-se para trabalhar com Trump e encorajou seus apoiadores a manter uma “mente aberta”.

Uma semana após as eleições, o ex-presidente Barack Obama também disse que os americanos deveriam dar uma chance a Trump.

Porém, Sawant diz que a maioria dos jovens seguidores de grupos socialistas não pretende negociar as políticas de Trump.

“Não há disposição para negociar”, disse. “Há disposição para contra atacar.”

Milhares de viajantes de sete países de maioria muçulmana que haviam recém desembarcado nos aeroportos de Nova Iorque, Chicago, Seattle, São Francisco e outros lugares foram detidos semana passada. À medida em que os protestos se espalhavam, uma corte congelou o decreto de Trump que bania a entrada das pessoas desses países nos EUA até que possa julgar sua legalidade.

Sawant juntou-se a milhares de manifestantes no aeroporto de Seattle-Tacoma. “Há pessoas que nunca estiveram em um protesto antes… e nós sabemos que esses protestos e bloqueios de aeroportos [pelos EUA] foram os principais fatores que levaram ao congelamento do decreto.”

Semana passada, Trump assinou um par de ordens executivas derrubando uma série de regulações a Wall Street. Também prometeu construir um muro na fronteira entre os EUA e o México e executar deportações em massa de imigrantes sem documentação, além de ter defendido publicamente o uso da tortura.

Esclarecendo que a agenda de extrema direita de Trump levou muitos a se juntarem aos protestos, Sawant argumenta que essa também é uma “oportunidade histórica” para apresentar políticas progressistas a um público mais amplo.

“Nós precisamos amarrar as reivindicações pelos direitos dos imigrantes às reivindicações dos trabalhadores em geral. Não será mais viável continuar simplesmente na defensiva”, ela conclui.

“Todo o movimento dos trabalhadores e tudo pelo que lutamos por todas essas décadas está na berlinda agora. Se nós queremos salvá-lo, nós teremos que lutar.”

Fonte: Al Jazeera News. Disponível em: http://www.aljazeera.com/indepth/features/2017/02/americans-joining-socialist-groups-trump-170205083615002.html [último acesso: 13/02/2017, às 21:13]

* Traduzido por Gustavo Rego.

[2] No original, “third parties”, que literalmente significa “terceiros partidos” (N.T.)

One comment

Dejá un comentario

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos necesarios están marcados *