Breve informe sobre as eleições na Holanda: o “Trump holandês” não passou

Charles Rosa*

A derrota do “Trump holandês”

A quarta-feira (15 de março) começou com o terrível receio de que a extrema-direita pudesse alcançar mais uma vitória no Ocidente. Em meio a uma forte debate sobre a imigração, a Holanda realizava eleições gerais e os prognósticos indicavam que Geert Wilders (porta-voz do PVV, Partido da Liberdade) teria todas as condições de repetir o triunfo de seu análogo estadunidense Donald Trump. O que a apuração mostrou, no entanto, foi que a população holandesa preferiu a direita do establishment à extrema-direita, além de ter castigado severamente a velha social-democracia.

Mirando o seu discurso contra os imigrantes e refugiados,Wilders encabeçava algumas pesquisas com 25%. Entretanto, seu crescimento em relação a 2012 foi bem menor: de 10% para 13% dos votos e de 15 deputados para 20 deputados. Ficou num preocupante segundo lugar, porém aquém das eleições de 2010, quando o PVV abocanhou 24 assentos parlamentares com 15% dos votos. E de fato, nas 10 maiores cidades holandesas, o PVV não foi o mais votado em nenhuma.

Quem venceu, então? A grande imprensa europeia exalta o primeiro lugar novamente conquistado pela direita liberal, liderada pelo primeiro-ministro Mark Rutte (Partido Popular para a Liberdade e Democracia, VVD). A narrativa mainstream retrata que os correspondentes holandeses de Angela Merkel frearam mais uma ofensiva dos populistas de extrema-direita, resguardando os valores liberais da União Europeia. Uma análise dos números, todavia, demonstram outra realidade: mesmo mantendo o primeiro posto, o VVD decaiu em votos e em cadeiras. Pressionado por Wilders, Rutte defendeu a implementação de medidas islamofóbicas, como a proibição do véu em espaços públicos e o endurecimento das regras de recepção de refugiados. Um giro mais à direita que não foi capaz de lhe atrair mais votos. De 2012 para 2017, o VVD desceu de 26% para 21% dos votos, o que representou uma perda de 8 assentos (de 41 para 33).

O fato é que os liberais entrarão mais enfraquecidos agora numa complicada mesa de negociações para formar um novo governo, ainda mais porque seus maiores aliados no último período, o Partido Trabalhista (PvDA), teve uma débacle fragorosa. A velha social-democracia holandesa assistiu ao pior resultado de sua história: de 24% para 5,7%, de 38 para 9 cadeiras. O partido do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, repetiu o caminho de encolhimento do PASOK grego.

Neste contexto, cabe ressaltar a robusta ascensão da Esquerda Verde (GL) – que saltou de 2% para 9%, acrescendo mais 10 deputados a sua atual bancada de 4 parlamentares – e a estagnação do Partido Socialista (SP, o que havia até então de mais à esquerda no plano institucional) em seu patamar de 9,5-10% e 14 cadeiras. Além disso, o DENK, o partido dos imigrantes turcos, estreia na cena eleitoral com 3 deputados e incríveis 7,5% dos votos na capital Amsterdã, onde por sinal os Verdes venceram com 19%.

A extrema-direita chegou a um teto na era Trump?

A frustração de Wilders na Holanda fortalece a hipótese de que a extrema-direita europeia possa ter esgotado seu potencial de crescimento após a vitória de Donald Trump nos EUA. Conforme uma pesquisa qualitativa, uma boa parte da rejeição de Wilders vinha de sua admiração por Trump. Logo, a reação global às medidas e os discursos cada vez mais indignantes de Trump – com destaque para as diversas iniciativas feministas e massivas no 8-M – intervem como um desgaste no horizonte eleitoral de partidos como o VVD, a Frente Nacional na França, a Alternativa para a Alemanha, o UKIP, etc. A própria Marine Le Pen não consegue aproveitar sua musculatura eleitoral de 25%, que a faz liderar as sondagens de primeiro turno há mais de um ano, muito por causa de sua proximidade com Trump.

Por outro lado, na ausência de alternativas radicais à esquerda do establishment (como o PODEMOS na Espanha ou o Bloco de Esquerda em Portugal), quem capitaliza o refluxo da extrema-direita neste período é a direita liberal ou assemelhados que na essência defende a União Europeia austeritária, como parece apontar o crescimento de Macron na França. É por isso que daqui para frente será crucial para a esquerda europeia apostar nos processos de mobilização progressista que surgirem – como o independentismo catalão tem mostrado.

Finalmente, as eleições na Holanda complicam a perspectiva unilateral de “ofensiva conservadora” defendida por muitos setores da esquerda mundial. Na retumbante implosão do establishment – com a crise mais aprofundada da velha social-democracia -, a direita nacional-populista avança, mas quase sempre polarizada pela emergência de uma novidade à esquerda. No caso holandês, se somadas as votações do Partido Socialista e a dos Verdes, observa-se que há uma disposição de um setor popular de confiar em novas experiências democráticas e antirracistas. Nesta fase de impasse crítico global, cabe à vanguarda revolucionária saber ser parte ativa desses processos (sempre contraditórios), a fim de que seu potencial seja efetivado ao limite. A outra alternativa será lamentar a recomposição do establishment europeísta por meio de novas faces.

 

*Militante do MES-PSOL

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