*Israel Dutra

O MBL e seus satélites convocaram a manifestação do último domingo, dia 26 de março, com a expectativa de manter viva sua base social. Com uma pauta difusa, defendia a Operação Lava-Jato, apoiava a reforma da Previdência e tinha contornos pouco claros quanto ao governo Temer. Uma crítica tímida que buscava disfarçar seu apoio ao governo.

As manifestações foram um rotundo fracasso. Em Brasília, foram cerca de 600 manifestantes, longe da chamada inicial de 50 mil pessoas na Esplanada. Em São Paulo, os gigantescos trios elétricos ocuparam a maior parte da Avenida Paulista, com as imagens aéreas mostrando que o número de pessoas era muito pequeno, desproporcional à estrutura montada. Sequer tiveram coragem de divulgar números oficiais. Até o arauto da direita, Alexandre Frota, reconheceu nas redes sociais o tamanho do fracasso. No Rio de Janeiro, em Copacabana, as cenas melancólicas para os manifestantes domingueiros se repetiram. Essa foi a tônica em todas as capitais onde se tentou produzir manifestações.

Muito distante do auge de Março de 2015, onde há dois anos multidões foram às ruas pedir a saída do governo Dilma e o MBL capitalizou como agente desse movimento.

Junto ao esvaziamento das jornadas, também uma maior dispersão de pautas leva à divisão dos grupos organizadores desse tipo de ato. O “consórcio” que unificava grupos como Vem Pra Rua e setores menores dava guarita para as posições retrógadas de saudosismo dos militares, juntando a ‘nata’ da direita dura e da extrema-direita no país. Agora este consórcio começa a fazer água. O fracasso das manifestações do dia 26 de março é a expressão disso.

Devemos celebrar esse fracasso. É uma derrota tática da direita. Ainda estamos longe de um evento da grandeza da “revoada das galinhas verdes”, em 7 de outubro de 1934, esta sim uma derrota estratégica, mas a queda dos “frangos verde-amarelos” é motivo de alegria para a esquerda verdadeira. Entretanto, não basta celebrar. É necessário tirar as conclusões do presente momento, seguir vigilantes e em combate contra os direitistas de plantão e disputar a rua como NOSSO lugar. Combater no terreno da mobilização, no terreno organizativo e também no terreno ideológico.

Uma derrota política da direita

A derrota do dia 26 representa um revés para a linha da direita.

Foi um sintoma que reflete a conjuntura do país. Foi um verdadeiro tiro no pé convocar atos que estabeleciam um nexo entre a luta contra a corrupção e o apoio às reformas da Previdência e trabalhista. Reflete o desgaste do governo Temer, que apesar de seguir sendo sustentado pela burguesia e grande mídia, não consegue sair das cordas no terreno da impopularidade.

A reforma da Previdência é amplamente rejeitada. Mesmo entre os manifestantes de domingo, com a convocatória explicita em defesa dessas medidas, o índice de contrários às mudanças na Previdência era de (SIC) 75%.

Existe um repúdio de setores médios, cada vez mais indignados com a corrupção mas também com as medidas amargas e desastradas do governo. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, conseguiu unificar todo setor de juízes e magistrados do trabalho ao declarar guerra contra a Justiça do Trabalho. O “contágio” contra as medidas se alastra proporcionalmente à perda de peso de Temer entre as classes médias urbanas e escolarizadas.

Nem parece que um dos líderes da extrema-direita gaúcha lutou para aparecer ao lado de Temer na sua fatídica foto de posse.

Também conta a imagem negativa que Donald Trump vem ganhando. Após a euforia inicial com o líder da direita assumindo as rédeas do principal posto político no mundo, o fenômeno Trump vive uma estagnação, com repúdio da comunidade internacional, um sem número de protestos de vários setores contra sua linha xenófoba e misógina, uma popularidade que despenca para 35% em pouco mais de dois meses de governo, acumulando importantes derrotas no congresso americano.
Podemos falar que existe um anticorpos, fruto do avanço das lutas democráticas no mundo, que responde pela estagnação do fenômeno Trump e de alguma forma irradia para o Brasil na forma de desgaste do MBL e seus pares.

Simulacro e Junho

Quando da manifestação de 15 de março de 2015, onde milhões enxergaram naquele tipo de protesto uma forma de repudiar a corrupção e o mal-estar social e econômico produzidos pelo governo Dilma, fomos aqueles que apontamos a contradição: milhões saiam às ruas descontentes, mas a direção política dos atos, com o MBL a cabeça, tinha um caráter profundamente reacionário. O ato e a própria figura do MBL buscavam interagir com dinâmica e a estética de Junho, no que fomos taxativos em definir como “Simulacro”.

Tal base reacionária foi o que propiciou o Parlamento votar uma manobra de afastamento da presidente Dilma, num golpe palaciano que tinha esse respaldo de setores que buscaram se afirmar como parte da ‘voz das ruas’.

A própria sigla do MBL- quase um plágio do MPL – era sinal de que tinham uma estratégia muito clara de lutar para dar outro sentindo às manifestações de rua, que a partir de Junho tinham se configurado como “o” espaço de disputa dos rumos da sociedade. O reverso de Junho aparecia naquelas manifestações, onde ao contrário do conflito com as forças policiais, manifestantes faziam apologia das mesmas, com selfies e caminhadas tranquilas e integradas com as forças da ordem.
O papel da mídia também foi flagrante. Para reabilitar-se do descrédito que atingiu níveis recorde, a grande mídia, com seu principal partido, a Rede Globo, virou porta-voz do tipo de manifestação ordeira.

A caixa de Pandora aberta em Junho parecia estar controlada por novos agentes, jovens que apareciam como destemidos, que instavam as redes sociais, que tocavam na principal contradição política, o enriquecimento e a corrupção da casta dominante, exposta em suas vísceras pela Operação Lava-Jato.

O plano do MBL também passou por eleger vereadores em várias capitais, numa tentativa de se contrapor ao PSOL, a esquerda ativista, e mesmo à primavera das mulheres. Sua bancada também foi uma “novidade” com a reciclagem do discurso liberal, eficaz, tendo em nomes como Fernando Holiday suas estrelas fugazes.

No plano da luta direta, mostraram sua face mais truculenta ao organizar bandas para desocupar na força física escolas e universidades, durante o protesto contra a reforma do Ensino Médio e a PEC 55, que moveu milhares de estudantes em ocupações em novembro.

Reforma previdência, impostos e fratura social

O dia 26 de março mostrou que o MBL fracassou como movimento social “amplo” contra a corrupção, que tomou lugar no vácuo da luta contra a corrupção, associada a um governo supostamente de esquerda como Dilma. O MBL vai seguir como agrupamento político de direita, orgânico e com capacidade de influenciar. Porém, não é, hoje por hoje, direção política da classe média cansada da casta política, frustrada com os rumos do governo Temer.

A questão é: para onde foram os centenas de milhares que tomaram as ruas nos protestos anteriores?
Para responder a pergunta, devemos entender que a marca da situação é de que a conjuntura é volátil. Acelerada. A capacidade de convocatória dos atos ‘domingueiros’ caiu por terra em pouco tempo.

Em segundo lugar, fica claro que a partir da queda de Dilma, o elemento catalisador do discurso de alguns desses grupos se dilui. A burguesia e as direções do MBL e do Vem Pra Rua lutam para poupar Temer no momento em que a lista Janot implica, altém do PT, o PMDB e o PSDB nos megaesquemas de corrupção das grandes empreiteiras. Este governo, portanto, deveria ser o alvo prioritário das ruas.

Em terceiro lugar, há uma fratura social entre as demandas que foram levantadas nas ruas pela classe média e os representantes políticos. A busca por um grande acordo nacional que enterre a Operação Lava-Jato e estanque a “sangria”, nas palavras do Senador Jucá, une aos olhos de milhões Gilmar Mendes, Renan e toda a cúpula do governo Temer para anistiar o caixa dois, garantir o foro privilegiado e salvar as carreiras dos atuais donos do poder. A outra fratura pode estar se verificando no terreno econômico. O plano de Meirelles encontra dificuldades, apesar de acenar para os médios empresários com a perspectiva da terceirização, com a proposta de novos aumentos de impostos. Para todos que acreditaram no “pato” da FIESP, símbolo dos protestos de 2015/2016, seria uma bofetada. Isso geraria mais desconfiança e desconforto nas bases das passeatas domingueiras.

Uma parte da extrema-direita vai se fortalecer defendendo medidas radicais com vistas a 2018. A tendência de Bolsonaro é granjear uma parte do descontentamento pela direita, associando-se às correntes mais atrasadas da caserna, mantendo seu perfil anticomunista e negacionista do terror de Estado na ditadura. Contudo, esse fenômeno, ainda que flerte com setores que vão às ruas de verde-amarelo, é distinto do que o MBL capitalizou nos últimos dois anos.

Não se pode nunca subestimar a direita.

A disputa do legado de Junho e as lutas políticas

Há um elemento que explica o protagonismo do “simulacro” nas ações de rua depois de 2015: para muitos setores da classe média aquelas manifestações eram sua forma de demonstrar indignação e lutar para tirar o governo Dilma, com uma pauta genérica mas aparentemente forte, que foi a pauta da luta contra a corrupção. A ausência de amplos setores de esquerda das ruas quando se tratava da pauta de corrupção deixou a avenida livre para o MBL manipular o descontentamento justo, por vezes manifestado de forma atrasada, da classe média com as condições sociais e com a degradação da política institucional do regime.

A quebra do compromisso político selado na Nova República foi produzida pela irrupção das ruas em Junho. Essa condição, que une a desconfiança aos “políticos” com a necessidade de uma ação coletiva de rua permanente para a disputa das pautas da sociedade, permanece viva e desenvolvendo suas contradições.

A luta política nesse terreno segue e se polariza. A entrada em cena de setores mais vinculados com a classe trabalhadora rechaçando a reforma da Previdência nos dá mais uma oportunidade para defender o legado de Junho.

A grande questão é tirar lições. A esquerda socialista precisa unir as duas bandeiras contra Temer e a maioria do Congresso Nacional: luta contra as reformas e a luta contra a corrupção. Não se pode vacilar nesse terreno.

As manobras que setores vinculados ao lulismo fizeram só fortaleceram a direita. Inverteram e exageraram conceitos para construir uma narrativa que vitimizou Lula e Dilma, no bojo do impeachment. Agitaram o espantalho de uma direita mais forte e enraizada do que realmente era para defender o lulismo e atacar a Lava-Jato. O resultado foi uma caminhada no sentido anti-horário: com poucos que se reivindicam de esquerda defendendo a Operação Lava- Jato, foi a direita que ficou livre para crescer mais do que seu programa original alcançava.

Nas turbulências da situação volátil, novas chances para disputarmos uma saída para milhões. A unidade entre os descontentes com o governo Temer e com a casta deve ser consolidada nas ruas e na convocatória de greve geral para parar o país no dia 28 de abril.

Como bem afirmou o professor Pablo Ortellado:

“a reinvenção da política no Brasil depende de se dar um ‘passo seguinte’, que consiste em ‘um processo de renovação da esquerda em busca de alternativas que pudessem nos levar um pouco mais adiante’. Contudo, adverte, ‘esse processo de polarização e de renovação da hegemonia do PT no campo da esquerda está atravancando o processo de renovação’”

Precisamos nos separar como projeto político para defender uma pauta que responda às necessidades de luta por uma nova direção, com uma unidade para defender direitos e construir uma luta coerente contra a corrupção.

O fracasso do MBL nos dá oportunidades. Somos fieis ao evento que foi Junho. No leito desse rio turbulento, movido desde 2013, depositamos nossa esperança e suor.

 

*Israel Dutra é sociólogo, dirigente do Movimento Esquerda Socialista e presidente estadual do PSOL-RS