Fernanda Melchionna e Bernardo Corrêa

A lista divulgada pelo Ministro Fachin é um terremoto no regime político brasileiro fundado no conluio público-privado. Ao mesmo tempo em que o governo ilegítimo de Temer tenta aprovar a Reforma da Morte, nove de seus ministros estão na lista. Um terço do Senado, políticos do PSDB, PT, PMDB, PP, PTB dentre outros, demonstram o encontro dos interesses capitalistas com a casta política colonizada por seus interesses. As instituições da chamada Nova República estão claramente evidenciadas como a serviço de escusos interesses privados.

Não é um modelo novo: as mesmas empresas que cresceram com o financiamento público da ditadura passaram a financiar as campanhas de quem esteve disposto a sentar na mesa do banquete. Todo um modelo político voltado a financiar os interesses da Odebrechet e outras grandes empreiteiras. O trágico é que partidos que cresceram contra a ditadura financiaram estas mesmas empresas quando estiveram no governo. Interesses que pareciam opostos se encontraram para seguir financiando as mesmas empresas e os mesmos partidos.

Dentre os 83 inquéritos abertos pelo STF após a delação dos chefes da Odebrecht, constam coronéis de anteontem como Renan Calheiros, Romero Jucá, Aloysio Nunes, Moreira Franco, Collor… Latifundiários do calibre de Blairo Maggi e Kátia Abreu, sinhozinhos como Aécio Neves, Renan Filho, Rodrigo Maia… pelegos como Paulinho da Força e outros. Mas deles nunca esperamos outra coisa. A transmutação da direção petista de um partido forjado nas lutas em um projeto do establishment foi há alguns anos. Não é à toa que Luciana Genro, Babá, João Fontes e Heloísa Helena foram expulsos ainda em 2003 quando se recusaram a votar na Reforma da Previdência de Lula. Era um sinal de que a esquerda socialista crítica ao modelo de conciliação com a burguesia não caberia mais no PT.

O que está passando no Brasil, deve nos levar a uma reflexão: a corrupção e a cooptação são mediações da acumulação capitalista. Por meio do Estado, as classes dominantes acomodam e compram os que vem de nossas trincheiras, mas aceitam o seu jogo para seguir seus negócios off shore. Em um país dependente no qual o Estado é o grande indutor de investimentos, associar-se a estas empresas leva necessariamente à corrupção, pois elas só são o que são porque vivem de relações promíscuas com os governos!

Constatar esta verdade, evidentemente não serve para naturalizar a corrupção ou individualizar as condutas, muito pelo contrário, serve para mostrar que ao buscar um projeto de conciliação com setores empresariais, para conceder a seus interesses gananciosos supostamente “nacionais”, precisa-se utilizar o mesmo método de seus lacaios políticos de sempre, aliar-se com eles e, por fim desfigurar-se. Como bons capitalistas te põem pra rua quando não és mais útil, como vimos no impeachment de Dilma.

Hoje há os que querem que as investigações vão até suas últimas consequências, dentre os quais me encontro, e os que só as podem Temer (com trocadilho mesmo). A direção petista, para salvar sua pele e a de Lula dizem que a Lava Jato é uma grande conspiração imperialista para derrubar as empresas “nacionais” e tomar o mercado de assalto. Tucanos e pemedebistas no governo dizem que a instabilidade política prejudica a economia “nacional” e os mercados ficam nervosos. Os argumentos são distintos, mas o resultado de abafá-las dá forças ao governo Temer e suas reformas neoliberais, algumas delas inclusive iniciadas por Dilma e Levy.

O desafio de construção de uma nova esquerda precisa vir do balanço do passado para impor uma nova correlação de forças a favor da classe trabalhadora no presente. Não unir a luta contra a corrupção com o necessário combate às reformas neoliberais, só ajuda a burguesia a implementar ataques tão brutais aos trabalhadores em um congresso absolutamente apodrecido e conduzido por um governo que não tem sequer 10% de apoio popular. É preciso apostar na mobilização popular, construir uma ampla greve geral no dia 28 de abril e afirmar que é preciso chamar o povo a decidir a saída da crise através de uma Assembleia Popular Constituinte e Eleições Gerais. É preciso uma revolução política construída  com o povo organizado. As conclusões do terremoto precisam inaugurar o novo em forma e conteúdo.Interessadamente há quem não queira reconhecer, mas ser de esquerda  também envolve parâmetros éticos, uma ética de classe que foi absolutamente abandonada neste caso.

Em primeiro lugar, para combater os interesses da direita, é preciso combater seu substrato material, ou seja, seus negócios. Ser parte deles não é combate. Em segundo lugar, para combater a direita há que combater o seu modelo. Adaptar-se a ele não produz mudanças. Por fim, para combater a direita é preciso combater seus métodos. Utilizá-los não é ser de esquerda.

 

Fernanda Melchionna é vereadora pelo PSOL em Porto Alegre e Bernardo Corrêa é um sociólogo, militante do Movimento pela Grande Transformação – Peru.