Bárbara Aires: A luta da travesti e da mulher trans é ser considerada como gente, como ser humano, como mulher

Intervenção de Bárbara Aires no Painel de Mulheres do Acampamento Internacional das Juventudes em Luta, em 15/04/2017

Boa tarde a todes. Primeiro lugar gostaria de agradecer de estar aqui nesta mesa, fiquei muito feliz de terem me convidado, eu achei que estaria numa mesa LGBT, mas tive a grata surpresa de estar compondo uma mesa da luta das mulheres.
É maravilhoso e é uma das lutas das mulheres transexuais serem incluídas na pauta de mulheres e não ficarem segregadas na pauta LGBT. E muito me emociona quando a gente está aqui, eu sou um pouquinho mais velha que a grande maioria de vocês… Eu faço parte do movimento desde quando a luta era apenas GLS. Não existia o T na luta sobre direitos iguais, depois virou GLBT e agora nós somos LGBT, quando a luta das mulheres numa Conferência Internacional em 2008 conseguiu trazer o L para frente para então sejam representadas em primeiro lugar. Quem sabe a gente vira LTBG…
Não tem nem como não me colocar, neste momento estou assessora do David Miranda, mas que por um bom tempo da vida eu me mantive desempregada e com a única alternativa a prostituição. É uma outra pauta que nós devemos olhar. Prostituição não deve ser uma alternativa, ela deve ser uma opção. Existe uma diferença muito grande entre alternativa e opção. Eu tenho que optar por ser uma prostituta, eu tenho que querer ser uma profissional do sexo, porque se eu não quero isso machuca, isso me ofende, isso me fere enquanto pessoa. Pois como em qualquer outra profissão você tem que ter o dom para isso, você tem que gostar do que você faz, senão você vai estar infeliz. E é muito importante que a gente tenha essa consciência, até porque a prostituição ela não ‘reconhecida como profissão aqui no Brasil. A nossa luta é pela regulamentação, pela regulamentação efetiva que contemple estes profissionais do sexo. Porque nós não temos só mulheres prostitutas, trans prostitutas ou mulheres travestis prostitutas, nós temos também homens trans se prostituindo atualmente, com o aumento de homens trans na nossa população, a dificuldade de encontrar trabalho para homens trans, a prostituiçã também tem crescido, eles também vem se prostituindo.
A gente está aqui falando de revolução na política, de feminismo, e eu queria saber quem aqui já ouviu falar de Sylvia Rivera, mulher trans? Pois é, ela estava na luta em 1969, na revolução de Stonewall. Uma travesti. E foi ela que iniciou a revolta contra os policiais naquele momento. Ela estava ao lado de uma drag queen negra, e as duas foram as primeiras a jogarem coquetel Molotov nos policiais naquele momento. Aí fazem um filme americano que ovaciona um homem gay branco como o revolucionário de Stonewall… é para a gente pensar nessa luta que estamos travando.
Ontem eu estive aqui na mesa do David com o Glenn e na mesa das mulheres negras e eu fiquei muito feliz porque infelizmente o nosso discurso é muito parecido, nossa luta é muito parecida. As pessoas podem se esquecer ou não querer fazer esta intersecção ou por preconceito ou por determinismo biológico, mas assim como as mulheres negras lutaram lá atrás para serem reconhecidas como mulheres e não como bichos ou objetos, essa ainda é a luta das mulheres transexuais e travestis.
Nós ainda lutamos para sermos reconhecidas como pessoas, como cidadãs, como gente, como ser humano e como mulher, porque até esse direito nos é negado. Enquanto esse reconhecimento não vem nós ainda lutamos para poder usar o banheiro com dignidade. Aqui eu posso usar o banheiro feminino, mas isso não é em todo lugar. Recentemente uma mulher trans foi tirada à força de dentro do banheiro de um shopping em Niterói. Esse caso foi midiático, mas isso acontece cotidianamente, mais de uma vez por dia, no interior do nosso país, por exemplo, e elas não tem acesso à mídia para gritar o desrespeito ao seu direito.
Nós mulheres trans e travestis – e travestis também é um termo feminino, isso é muito importante, porque travesti não significa mulher, porque travesti não é nem homem nem mulher, elas se reivindicam travesti, mas é gênero feminino, é “a” travesti – nós ainda lutamos para nos representar nas artes. As mulheres trans e travestis que são atrizes ainda não conseguem nem se representar. Ainda temos homens cis atores, em sua grande maioria heterossexuais, representando travestis e transexuais na grande mídia, no cinema, na televisão, na novela, no teatro. Teremos agora o grande exemplo da novela das 9, no caso feminino. Ou o ator que é muito bom como ator, pode ser uma pessoa maravilhosa, eu não conheço, mas como homem gay que se apropriou da cultura trans para conseguir a fama que teve com sua peça, que é muito bem encenada, mas que eu tenho algumas ressalvas, ele fará um papel que irá confundir ainda mais a população. Ele vai fazer o papel de um homem gay clandestino que de dia é motorista e de noite se traveste para poder aproveitar a noite como mulher travestida.
A solidão da mulher trans… quantas travestis e mulheres transexuais vocês conhecem que tenham um companheiro cis que as assumam 100% socialmente enquanto companheiras amorosas? Eu não digo chegar de mão dada na Casa Man, nem no Clube Mix, nem nas conhecidas boates LGBTs. Eu digo andar de mão dada de dia, ir de mão dada ao cinema no shopping, para ver o filme que está todo mundo indo assistir, eu falo de levar no domingo de Páscoa aquela travesti para o seio da sua família e assumir que tem aquela orientação sexual como a sua companheira.
O feminismo tem que ser interseccional e isso significa que ele tem que atingir todas as pessoas, mas em especial as mulheres negras e pobres, sejam elas travestis e as transexuais. A gente não pode esquecer disso. Enquanto a gente não fizer esta intersecção, enquanto a gente não fizer a união destes recortes, nós vamos continuar segregando, nós estamos separando, e nós precisamos nos unir.
A união dos 99% é que vai vencer o 1%. Enquanto nós não nos unirmos nós vamos precisar ainda ter que fazer um livro para falar que já operou para poder ser respeitada enquanto e mulher e ter que ficar expondo a sua genitália, sendo objetificada enquanto mulher. Não interessa o passado dela, quem ela foi, hoje ela se assumiu desta forma, a gente tem que entender o lugar de fala de cada pessoa, o momento de cada pessoa, em que contexto aquela pessoa viveu. A gente não pode cobrar da Rogéria, que hoje assume o seu discurso político, hoje ela entende seus privilégios – na sua entrevista mais recente ela assume este lugar de privilégio enquanto Rogéria – a gente não pode culpá-la por ter vivido na ditadura e ter enfrentado a ditadura se exilando para fora do país para ser reconhecida como Rogéria e hoje ter o direito que ela tem. A gente tem que entender que a juventude de hoje precisou da Rogéria, da Sylvia Rivera e tantas outras para hoje estar aqui entre tantas pessoas trans, eu mesma não sabia quantas pessoas trans tinha aqui. Por favor, todas as pessoas trans que estão neste acompamento – homens, mulheres trans e travestis – eu gostaria que elas se levantassem. Muito obrigada, uma salva de palmas.
Nós não podemos nos apropriar do discurso do inimigo para atacar nossos iguais. O determinismo biológico inferioriza a mulher quando diz que ela só é mulher se ela menstrua e tem útero para dar a luz. Nós temos mulheres que nascem sem útero, nós temos mulheres que não querem dar a luz, nós temos mulheres que não menstruam, ou por opção ou por motivos de saúde. Então o determinismo biológico não pode ser usado para as pessoas trans. Não pode, não deve.
Isto é cruel, porque a partir daí que estão nos matando. Hoje 105 dias do ano, nós temos em média 45 travestis que são assassinadas. Uma a cada dois dias, e estou falando apenas das travestis e mulheres transexuais. Eu não coloquei nesta conta homens trans, não coloquei mulheres lésbicas, não coloquei gays. 45 travestis e mulheres transexuais assassinadas em 105 dias no nosso país. O Brasil ainda é o primeiro lugar. Não adianta ter “Quem Sou Eu” no Fantástico enquanto as pessoas transexuais e travestis não forem reconhecidas como cidadãs e cidadãos. Enquanto IBGE não nos reconhecer como pessoas, nós não seremos contabilizados e contabilizadas para as políticas públicas do nosso país. Ainda não sabem o quanto do nosso dinheiro influencia na política porque nós não existimos no Brasil. As políticas públicas que nós temos são municipalizadas ou de estados perante ONGs ou movimentos que se faz.
Nós precisamos lutar para que isso acabe, para que as pessoas trans sejam reconhecidas como pessoas. Como? Um pai não pode colocar um filho para fora porque ele é uma pessoa trans. A escola tem que estar aberta a receber pessoas trans com respeito à identidade de gênero da pessoa trans. Porque a pessoa trans não pode só entrar na educação para se qualificar e se formar, ela tem que ser mantida. O nome social tem que ser respeitado, existem pessoas trans que não querem fazer retificação de registro civil. O Thamy – é “o” Thamy porque ele se disse homem – o nome dele não faz dele homem ou mulher. O nome dele é Thamy, mas ele é “o” Thamy. Assim como nossa amiga é “a” Lucci. Existem pessoas inclusive que não querem ser chamadas de “o” ou de “a”, não se reconhecem nessas definições de gênero.
Justamente por esta ideologia de gênero fascista e fundamentalista. Porque a “ideologia de gênero” ela existe, mas ela é fascista e fundamentalista, ela não é LGBT. Quem diz o que é ser homem ou mulher são os fundamentalistas, e por isso muitas pessoas não se reconhecem. A gente tem que entender que é aí que o machismo nos afeta.
Outra pauta que a gente tem que se apropriar e não usar para atacar é a socialização. Muito me entristece quando eu vejo companheiras, manas de luta que deveriam ser nossas irmãs, tentando inferiorizar pessoas trans pelo argumento da socialização. Quer falar de socialização? Vamos falar de socialização.
Eu fui estuprada quando criança. Eu apanhava todos os dias do meu pai porque eu era afeminada, por ser feminina. Eu ouvia todos os dias “vira homem!” “senta igual homem!”, “fala igual homem!”, “seja homem!”. Isso nada mais é do que o machismo impondo como eu deveria me comportar como criança por performar, ou por esperarem que eu performasse enquanto masculino. A diferença da socialização é porque tentam impor que a mulher deve ser reprimida e o homem deve ser livre. Só que enquanto criança que não representa a masculinidade esperada você também fica reprimmida, por representar o feminino. E aí nisso o machismo nos afeta enquanto travesti e mulheres trans. Assim como os homens trans, quando crianças, não podem sentar de perna aberta, não podem andar sem camisa, não podem cortar o cabelo. O machismo e a misoginia também afeta igualmente as pessoas em sua socialização. Isso não é um argumento que vai fazer as pessoas entenderem que é travesti ou mulher trans.
É óbvio, é lógico, é nítido e transparente que existe uma diferença entre travestis e mulheres trans e mulheres cis. Mas essas diferenas não podem servir para nos afastar, elas precisam servir para nos unir, porque travesti e mulheres trans não querem se apropriar do lugar das outras mulheres. Nós queremos apenas ser reconhecidas enquanto pessoas trans, eu não tenho problema nenhum de ser uma mulher trans.
Eu encerro trazendo todas essas reflexões. Eu preferi não trazer dados de lutas de direitos porque eles são dados contabilizados apenas informalmente. Nós não temos dados estatísticos de quantas pessoas trans vereadoras ou vereadores nós temos hoje no país, de quantas pessoas trans nós temos na política, então seria um apanhado informal. Eu queria trazer a reflexão porque acho que a discussão fica mais rica quando a gente traz a reflexão. Eu vou me apropriar da fala da companheira de ontem, de que as pessoas brancas tem que refletir onde está o racismo delas, como elas se comportam perante uma pessoa negra, com todas estas questões sociais que eu coloquei, então eu faço a mesma fala para vocês, para que você reflitam onde está a transfobia de vocês. Até onde é o limite de vocês enquanto pessoa trans?
Em dois anos de produtora Globo, do programa Amor e Sexo nunca fui convidada para um aniversário de uma pessoa da equipe, nunca fui convidada para um churrasco na casa de uma pessoa da equipe, nunca fui convidada no próprio Projac por mais de dois anos para almoçar junto com meus colegas de trabalho. Eu era obrigada a vê-los saindo para almoçar e nenhum olhava para minha cara e perguntava “Bárbara, quer almoçar com a gente?”. Então pensem qual é o limite da transfobia de vocês. Porque todos nós temos preconceito, a questão é como nós lidamos com este preconceito. É como externalizamos este preconceito, se ofendemos a outra pessoa por causa do nosso preconceito.
Obrigada.

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