Fernanda Melchionna: estamos construindo o feminismo dos 99%

Intervenção de Fernanda Melchionna, vereadora do PSOL de Porto Alegre, no Acampamento Internacional das Juventudes em Luta no Painel de Mulheres em 15/04/17

Boa tarde companheiras, companheiros. Vou falar de pé, é muita alegria e muito café! Muita agitação de estar aqui no nosso Acampamento Internacional das Juventudes em Luta nessa mesa tão importante.

Essa mesa por um lado é a afirmação de qual feminismo nós estamos construindo, com mulheres tão valorosas: Joanna Maranhão, uma ativista, atleta, militante de esquerda valente e valendo, recentemente filiada ao PSOL. Muito orgulho pra nossa militância!

A minha querida Sâmia Bomfim, que é a expressão de um desafio que nós nos demos como Juntos e Juntas que era não só ocupar as ruas, mas também ocupar a política e ocupa a Câmara dos Vereadores lá de São Paulo, enfrentando a extrema direita.

A Bárbara Aires que trouxe com muita propriedade, muita força a necessidade do feminismo que nós construímos que é o transfeminismo, que é óbvio que numa atividade do Juntos e da Juntas a Bárbara tá aqui junto com a mesa de mulheres debatendo a questão da transfobia e pautando que nós não aceitamos um feminismo que exclui, um feminismo que reproduz preconceitos contra as mulheres trans, contra as travestis. E ao mesmo tempo quero reafirmar o nosso compromisso também com a luta das mulheres lésbicas que muitas vezes reclamam da invisibilidade – nós também precisamos trazer essa bandeira.

Com a Giulia, com a Ana Laura da Juntas que são a nossa mesa; a Nat um exemplo de mulher secundarista que luta, que enfrenta e que está na linha de frente desse processo de ocupação que é fruto também da Primavera das Mulheres e das Jornadas de Junho; e a Zeneide que traz o corte fundamental do feminismo que nós queremos construir, que é o feminismo que tem lado, o feminismo que tem classe porque para nós é fundamental unir  a luta das mulheres por igualdade com a luta anticapitalista, a luta contra a exploração e ao mesmo tempo que diga que nós acreditamos que a verdadeira emancipação das mulheres é a derrota completa do capitalismo que nos explora, que nos oprime, que nos sub-julga, que trata de reproduzir e aprofundar essa opressão de classe e de gênero para fazer com que se tenha cidadãs e cidadãos de “segunda categoria”.

Mas nós não somos de segunda categoria. Nós estamos promovendo uma revolução nas ruas em todo mundo. Nesse momento, nós estamos vivendo uma nova onda do feminismo. Uma nova onda do feminismo que quando nós formamos o Juntos lá em 2011, nós colocamos no primeiro congresso nacional do Juntos a necessidade de construir um movimento de juventude que pudesse fazer frente aos novos desafios, uma ferramenta aberta no sentido de unificar as lutas anticapitalistas, internacionalistas, das mulheres, dos LGBTs, das negras e negros, da classe trabalhadora diante de uma crise brutal do capitalismo.

Essa crise brutal aumentou a repressão, aumentou o conjunto de ataques à classe trabalhadora do mundo inteiro, que promove os programas de austeridade que aumentam a desigualdade salarial e que precariza ainda mais a vida das mulheres trabalhadoras, mas que também encontrou nas ruas uma resposta da resistência. Nas ruas da Primavera Árabe, quando as mulheres, os jovens trabalhadores foram linha de frente de processos de luta que derrubaram ditaduras durante dias, ditaduras que perduraram durante décadas; linha de frente de processos de resistência como o que tivemos na Espanha com o 15M que depois se tornou um sujeito político com o Podemos, mas que também teve as mulheres na linha de frente nessa resistência. Das mulheres do “Ocuppy Wall Street”, das mulheres que estiveram na linha de frente em Portugal, das mulheres que estiveram na linha de frente nas Jornadas de Junho, aqui no Brasil como parte de um movimento intenso internacional de uma nova vaga e oportunidade histórica daqueles e daquelas que querem destruir esse sistema.

E nós, quando formamos o Juntos!, fizemos esta aposta justamente no sentido de que é necessário organizar nossa indignação, que é necessário identificar esses elementos que permitem nós estarmos vivendo nesse momento da história. As Jornadas de Junho de 2013 no Brasil, quando milhares de jovens estiveram nas ruas primeiro com o tema da tarifa, mas depois denunciando a farsa da democracia, trazendo o tema dos direitos, trazendo o tema das mulheres que nos empoderou para que vivêssemos a Primavera Feminista, e que tivéssemos emparedado o Cunha. Vemos esse empoderamento quando a gente chega numa escola ocupada a gente vê que ali a linha de frente são as mulheres secundaristas, jovens de 15 e 16 anos, ou na ocupação das universidades contra a PEC 55. Ou quando a gente vê a força da luta das mulheres da Polônia que de maneira multitudinária derrotaram o projeto de um governo extremamente conservador que queria revogar a “lei do aborto”. Ou quando nós vemos a dimensão da luta das mulheres argentinas que com o “Nem Uma A Menos” fizeram mobilizações históricas no país influenciando o Chile, influenciando o Peru, influenciando os nossos países latino-americanos. Ou quando nós vemos a dimensão da luta nos Estados Unidos que tem muito peso a luta dos negros e negras “Black Lives Matter” ou com outros movimentos como o “Ocuppy” e que tem uma dimensão histórica agora com o movimento das mulheres a partir de um dos maiores atos na história das lutas dos Estados Unidos, convocado por mulheres um dia depois da posse do misógino, machista, de extrema direita, racista, Donald Trump.

E nós, nesse momento da história, sabemos que as mulheres estão na linha de frente desse processo; desse processo de resistência, desse processo de mobilização e que ao mesmo tempo tem combinado duas coisas fundamentais: a primeira, a mobilização como método e, segundo o chamado feito pelas mulheres argentinas lá no ano passado ainda quando o “Se nossas vidas não importam, produzam sem nós” chamando uma greve de mulheres, uma paralisação de mulheres. Depois com o chamado do 8 de Março desse ano com uma greve internacional, nós falamos como é o nosso feminismo e que devemos unificar a luta de classes com a luta das mulheres porque nós sabemos que não basta ser mulher, é preciso estar do lado das mulheres contra esse sistema.

Nós, nos Estados Unidos, estávamos com o Bernie Sanders, esse sim representava a luta pela igualdade das mulheres e não a Hillary que representava o interesse do regime. Nós precisamos afirmar que tipo de feminismo nós precisamos construir. E é por isso que é muito importante estar aqui nessa mesa que traz a dimensão internacional. Nós precisamos unificar ainda mais as nossas organizações irmãs, fazer um coletivo de mulheres que faça a luta por um mundo sem fronteiras, por um mundo em que haja de fato liberdade, pelas defesas dos direitos das mulheres, contra a violência de gênero, a favor das nossas liberdades democráticas e também que essa conexão internacional para fazer a frente necessária desse sistema que nos explora internacionalmente.

Nós podemos afirmar com todas as vozes que nós queremos construir um feminismo dos 99% contra 1%, um feminismo que defenda os imigrantes contra as leis xenófobas e racistas do Donald Trump; um feminismo que defenda os indígenas e as indígenas do nosso país. Um feminismo que não só chora pela morte da Dandara, mas que luta todos os dias para destruir a transfobia que mata Dandaras, que mata travestis e transexuais todos os dias como nos trouxe a Bárbara. Um feminismo, que é um feminismo negro não só porque está unido com a luta anti-racista, porque as mulheres trabalhadoras negras são as mais exploradas por esse sistema e é fundamental que o nosso feminismo tenha cor, tenha raça, tenha classe. Um feminismo que tem a capacidade de unir todas essas dimensões. Um feminismo que tenha a capacidade de defender a necessidade de organizar esta indignação, de potencializar a luta das mulheres contra a cultura do estupro, de potencializar a luta das mulheres contra o assédio, de potencializar a luta das mulheres contra a violência de gênero construindo esta unidade e ao mesmo tempo fortalecendo este feminismo que neste momento da história está acontecendo.

Nós estamos vivendo uma nova onda do feminismo. E nessa nova onda do feminismo nós temos a convicção de que é fundamental que para essa nova onda seja capaz de conquistar a emancipação da classe trabalhadora de juventude, de derrubar os governos de extrema direita e os governos capataz do capital é fundamental que nós mulheres socialistas, nós mulheres trans, nós mulheres negras, nós mulheres secundaristas, nós mulheres atletas, nós mulheres todas reafirmemos de que lado nós estaremos na história. E eu tenho a convicção de que todas nós estamos do lado da luta dos trabalhadores e das trabalhadoras. Todas nós vamos construir um 28 de Março na Greve Geral fundamental para derrotar os ataques do Temer. Todas nós, todas nós vamos potencializar esse movimento maravilhoso que é o Juntos, que é o movimento capaz de fazer frente e dar essa organização necessária da juventude.

Eu quero fazer um convite companheiros e companheiras, fundamental que eu não posso deixar de fazer aqui: vocês sabem que nós fundamos o Juntos em 2011 e esse plenário está lotados, nós crescemos na regional, regionais, e foram dias de viagem para muitos que vieram do Pará, que vieram de Minas Gerais, que vieram lá do Nordeste, que vieram do Rio Grande do Sul, meu Estado. E nós animamos esse movimento com muita força porque nós temos a convicção de que neste momento é fundamental criar uma alternativa para a juventude, capaz de unir essas lutas. Mas é também fundamental criar alternativas políticas para que nós possamos ter porta-vozes capazes de unificar o mosaico de reivindicações dos movimentos sem dividir ou diminuir nenhum deles, postulando a unidade da defesa das bandeiras e das lutas desses movimentos em torno de um programa político que nos permita sair da resistência e partir pra ofensiva, que nos permita derrotar os governos que governam contra nós, mas que construa uma verdadeira alternativa dos trabalhadores e trabalhadoras do mundo inteiro. Isso a gente faz tomando o lado no melhor sentido que é tomar lado. Então, além daqueles companheiros que estão conhecendo o nosso movimento de juventude, eu deixo o convite para que se filie junto conosco no PSOL para que a gente possa criar essa ferramenta partidária capaz de dizer que essa política não nos representa, capaz de dizer como em 2014 em plena Rede Globo a nossa candidata Luciana Genro pela primeira vez na história falou em defesa do aborto e combate a transfobia e combate a lgbtfobia e a defesa de um governo que não esteja a serviço dos interesses do capital.

Então, eu quero agradecer muito o convite para estar aqui nessa mesa, dizendo que é uma satisfação enorme participar desse Acampamento Internacional das Juventudes em Luta com vocês porque é uma forma da gente potencializar essas esperanças e essa vontade que a gente tem de derrotar esse sistema e construir um mundo verdadeiramente livre, um mundo verdadeiramente igualitário e um mundo verdadeiramente socialista. Em vários momentos célebres da história, se a gente olhar a revolução Russa, por exemplo, as mulheres também estiveram sempre na linha de frente e sempre foram retiradas dessas narrativas. Nós estávamos lá. Na Revolução Francesa lutando lado a lado pelos direitos das mulheres, nesse momento é fundamental essa ferramenta que nos permite resgatar esse passado e construir esse futuro.

Nada causa mais horror à ordem do que as mulheres que lutam e sonham, e parafraseando a Angela Davies, a luta das mulheres vai ser fundamental para destruir essas narrativas do hetero-patriarcado como nós vemos em vários governos do mundo. Sobretudo o Trump como ela fala falava lá no discurso de 21 de Janeiro. Mas nós temos a convicção que nós todas podemos fazer uma revolução das mulheres combinando a luta das mulheres com as lutas democráticas e a luta anti-capitalista portanto, tomemos lado nessa história; fortaleceremos o anti-capitalismo e construiremos ferramentas capazes de empoderar os movimentos, mas ao mesmo tempo fornecer uma alternativa de poder. Nós do PSOL estamos nessa luta e contamos com vocês e juntos nós somos mais fortes.

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