Joanna Maranhão: “Vou usar o espaço que tenho para desconstruir tudo que eu puder desconstruir”

Intervenção de Joanna Maranhão no Painel de Mulheres do Acampamento Internacional das Juventudes em Luta, em 15/04/2017.

Boa tarde galera. Gostaria de agradecer quem me chamou pra estar aqui. Eu tenho participado de eventos assim e cada vez que eu sento eu fico pensando “o que eu estou fazendo aqui?”, porque eu escutei a Bárbara falando e eu matei uma dessas 45 mulheres trans com o discurso que eu tinha. Eu violentei muita gente. Eu sou uma pessoa pública desde os 15 anos de idade, eu entrei na seleção brasileira com 14 anos de idade e até 2 ou 3 anos atrás eu pensava que transexual não ia ser mulher de jeito nenhum e eu falava isso no Twitter porque eu achava engraçadíssimo. Eu fazia piada de negro, eu competia com outras mulheres que eram mais ou menos magras do que eu. Eu fazia piada de homossexual e depois dos 13 (anos) meu irmão caçula chega pra mim falando que é gay…

E tem um lado bom nisso tudo: eu finalmente acordei. Mas como as pessoas que eu violentei, né?! Então na verdade eu não mereço estar aqui, eu mereço estar naquele cantinho ali calada, escutando, aprendendo e tentando me redimir de tudo que eu sempre fiz, e fiz muito.

Eu acho que eu só acordei sobre o que é ser mulher porque, eu não sei quantos sabem, mas aos 9 anos eu fui abusada sexualmente pelo meu técnico. E por um poder incrível eu retraí Eu falei pra mim que não tinha acontecido aquilo, e só fui acordar pra isso na maturidade, quando tive a minha primeira relação e pensei “isso aqui é muito ruim”. Aí eu não sabia se eu era lésbica ou o que estava acontecendo comigo.

Minha mãe entrou em pânico quando eu cortei o cabelo, tirei o brinco e não queria ser reconhecida enquanto mulher porque aquilo pra mim era inseguro quando eu estava na rua. Ainda adolescente, quando alguém me olhava na rua e pensava “aquilo é uma menina ou um menino?” aí eu suspirava e pensava “a dúvida vai me dar tempo de correr”.
Então assim gente, eu acordei porque a vida fez com que eu acordasse. Então eu primeiro preciso agradecer a todos vocês que me perdoaram por isso, os que não me perdoaram, Barbara, eu peço perdão.  E eu acho que nosso maior desafio é como é que a gente vai dialogar com pessoas que pensam como eu pensava. Porque se tem muita gente… No meu esporte, por exemplo, (que é um esporte elitista, se eu não fosse classe média e branca eu não tinha chegado a quatro Jogos Olímpicos) tem muita gente que pensa como o Bolsonaro pensa; mas muita gente, e essas pessoas estão com o uniforme do Brasil e a gente está batendo palma pra elas. Aí eu fico me perguntando que tipo de ídolos a gente tá criando, mas isso ainda é outra coisa.

Mas acho que o maior desafio é este. É o que eu venho tentando fazer, mas eu não tenho propriedade pra falar. Eu não tenho propriedade para abraçar essa luta. Acho que enquanto atleta, pra cumprir com o meu papel, o que tenho que fazer é me redimir. Mas é uma pergunta que eu sempre me faço: como é que a gente vai chegar pra pessoas que pensam como o Michel Temer, como o Bolsonaro, ou que pensam como eu pensava? Como é que a gente vai chegar pra essas pessoas? Eu acho que o desafio é este.

Eu sei que é muito difícil, porque muitos de vocês passaram por violências a vida inteira. Mas não sei quem foi que falou que o movimento não pode ser sectarista – palavra nova pra mim, eu acabei de aprender. E eu acho que é exatamente isso.

Então novamente eu peço desculpas e eu prometo que vou continuar usando minha imagem de pessoa pública para desconstruir tudo que eu puder desconstruir. Eu tive e continuo tendo bastante privilégios, então enquanto eu puder estar falando, estar verbalizando sobre isso eu estarei fazendo. E peço que vocês me ajudem me ensinando. Ouvir essas mulheres aqui falando, me ensina muito. Obrigada por isso, me desculpe ter falado pouco, mas eu realmente não tenho o que falar. Vocês são muito f***!!!

 

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