Sâmia Bomfim: Não admitimos que os poderosos se apropriem das riquezas e arranquem nossos direitos!

Intervenção de Sâmia Bomfim no Painel de Mulheres do Acampamento Internacional das Juventudes em Luta, em 15/04/2017

Boa tarde a todas e todos, sou a Sâmia Bomfim pra quem não me conhece, sou a vereadora feminista do Juntos! e do Juntas! na cidade de São Paulo. O nosso mandato só foi possível graças a luta dos militantes não só de São Paulo mas de todo o Brasil. Queria dizer que eu prefiro 1000 vezes estar em um espaço como esse do que na câmara corrupta machista cheia de mafiosos, cheia de pessoas conservadoras, e dizer que é nesse lugar, junto de pessoas como vocês que a gente consegue de fato transformar a política e arrancar as conquistas necessárias pra melhorar a vida do povo. O parlamento é um instrumento necessário de visibilidade e de atuação, mas é através da organização coletiva, principalmente através do exemplo das mulheres do Juntas! vêm dando no último período que a gente consegue arrancar conquistas, estremecer as estruturas e botar medo nos poderosos.

Queria dizer que desde ontem muitas pessoas vieram me elogiar e fazer menção ao vídeo que eu estou em confronto com o Fernando Holiday do MBL. Aquilo é inevitável, porque é inadmissível que alguém na minha frente faça um elogio ao projeto “Escola sem Partido”, porque isso é tentar se colocar contra a juventude que está aqui que ocupou as escolas, é tentar enfrentar o que tantos de vocês fizeram que foi emparedar os poderosos, enfrentar a polícia, enfrentar as diretorias e arrancar conquistas. Com esse projeto que o MBL tenta captar a juventude para um política reacionária e defende não só o Escola sem Partido, mas que utiliza de um negro pra tentar combater a luta anti-racista, de um menino LGBT para dizer que tem que ser contra a luta do movimento LGBT, que utiliza de mulheres para tentar negar a luta feminista. Esse movimento é a antítese do que é o Juntos!, que é um processo que a gente vem construindo desde a nossa fundação e que eles tentam se utilizar dos símbolos das ruas, do símbolo de Junho de 2013 para disputar o seu significado. Não podemos deixar que o símbolo das ruas seja dominado para uma saída reacionária para organizar a juventude, para uma saída que negue nossos direitos e que, no limite, negue nossa história, nossa organização e a nossa mobilização.

O “Escola sem Partido” é na verdade a escola do partido da Odebrecht, do partido dos corruptos, porque afinal de contas o Fernando Holiday e todos eles estão no DEM, estão no PSDB, estão nos partidos da ordem que há muito tempo estão no poder para anular nossos direitos. Nós não vamos admitir, enquanto eu estiver na Câmara de Vereadores nós vamos sim falar de uma educação libertadora, nós vamos sim falar de debate de gênero na sala de aula, nós vamos sim falar do salários dos professores e das professoras, e vamos sim falar nas mulheres na linha de frente não admitindo que os conservadores tentem nos colocar medo e nos fazer retroceder.

Tenho muito orgulho de fazer parte do Juntas! e de fazer parte desse processo lindo de construção desde 2011 na época em que a Giulia ainda era de São Paulo junto com outras companheiras e dizer que eu aprendi uma série de coisas nesse processo. Uma delas é que a força das mulheres tem muita capacidade de abalar as estruturas e emparedar os poderosos.

Nesse contexto, nessa conjuntura que a gente vive no país, essa tarefa tem que ficar muito clara para todos nós, porque no Brasil, vocês sabem, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada, 500,000 mulheres são assassinadas todos os anos por pura e simples misoginia, a cada 15 segundos, uma de nós sofre algum tipo de violência. Isso são os dados contabilizados, o maior problema é a subnotificação, porque infelizmente muitas de nós ainda tem medo, vergonha ou não tem condições de denunciar, e quando denunciam elas tem que voltar pra casa porque o Estado não garante condições para que elas possam se libertar, não garantem casas-abrigo, não garante centro de referências, não garante autonomia, independência econômica para que elas possam viver em liberdade. Porque o Estado é dominado por esses poderosos, por esses donos do poder que se utilizam da nossa riqueza, se utilizam do nosso trabalho pra embolsar os bolsos dos poderosos ao invés de investir em políticas públicas e utilizar o nosso orçamento para investir em políticas, por exemplo, de combate à violência contra as mulheres. Enquanto bilhões são saqueados, enquanto bilhões enchem os bolsos dos milionários, apenas 15 centavos são investidos por mulher no combate à violência, nós não podemos admitir isso.

A luta contra a casta política, a luta contra a corrupção é a nossa luta, de que modo a política vai ser ocupada. Quando nós emparedamos o Cunha, um político corrupto e um dos chefes do PMDB nós cumprimos um papel fundamental porquê não foi só desmascarar aquele sujeito que naquele momento defendia o PL 5069, que tirava parte dos nossos direitos sexuais e reprodutivos, foi dizer que nós não vamos admitir que os poderosos continuem se apropriando das riquezas do povo para oprimir e arrancar cada vez mais nossos direitos. Nós vamos fazer nossa própria história, nós vamos fazer nossa própria política e é isso que as mulheres tem demonstrado. Por isso eu estou muito feliz de estar aqui junto a várias mulheres de vários processos de luta e de mobilização de todo o mundo.

Eu trouxe aqui um adesivo do dia 8 de março, que foi o dia da greve internacional de mulheres, e para mim é muito importante estar presente com tantas companheiras, e infelizmente as nossas companheiras do Curdistão não puderam estar presente mas também são parte da nossa luta e parte do nosso exemplo. Porque a luta feminista é uma luta essencialmente uma luta anticapitalista. Porque a gente precisa construir uma nova sociedade para que as mulheres tenham direito, e é por isso que eu gostaria de reivindicar a fala que a companheira Fernanda Melchionna fez, porque muitas vezes quando nos dizem: “Vocês são feministas, legal ,também me sensibilizo com o problema da violência contra as mulheres eu também acho que as mulheres tem que ter mais espaço”, mas qual é a consequência que esse setor quer dar na luta estrutural e estruturante que mantém a desigualdade entre homens e mulheres? A gente não compreende a nossa sociedade se a gente não compreender que as mulheres ganham menos, tem os piores postos de trabalho e que a violência é utilizada como um instrumente de controle e de poder para que as mulheres não possam ocupar os espaços públicos, não possam viver em plenitude e não possam estar amarradas na luta política e na luta revolucionária.

Nesse momento aqui no Brasil a gente vive uma série de ataques que são estruturais e é muito importante que assim como a gente vivenciou vários processos políticos seguir na linha de frente, nós mulheres, nesse dia 28 de abril. Temos uma oportunidade de construir uma Greve Geral em todo o país, com diversos setores, com os estudantes e com os trabalhadores e é fundamental que o Juntas! seja o setor das mulheres piqueteiras que vão estar desde manhã na porta do metrô, na porta das fábricas ao lado dos trabalhadores porque essa reforma da previdência é uma reforma que quer acabar com a vida dos trabalhadores e essencialmente com a vida das mulheres.

Não dá pra desconsiderar a dupla e a tripla jornada de trabalho. As mulheres trabalham em média 20,6h por semana em trabalho doméstico, enquanto os homens trabalham 9,8h por semana. O machismo nos coloca nessa situação, então nós temos que dizer pra esse governo, que é um governo machista e reacionário que todas nós vamos protagonizar esse processo de luta e vamos barrar a Reforma da Previdência, e a tentativa de terceirização de todas as funções no Brasil. A terceirização atinge principalmente as mulheres, e ainda mais as mulheres negras e LGBT, isso serviu de laboratório para que esse governo quisesse implementar esse modelo para todos os trabalhadores. Mas nós temos que dizer que não vamos permitir que esse regime que explora os negros, as mulheres e as LGBTs se amplie para todos os trabalhadores do país. Nós vamos dizer que o papel das mulheres, negros e LGBT é ser linha de frente no combate à terceirização e retirada de todos nossos direitos.

Queria dizer que queria aproveitar esse momento para saudar os companheiros que são do Juntos! e que também constroem o PSOL. Eu decidi me filiar ao PSOL em 2011, na época eu era militante do movimento estudantil na USP, era do DCE, do Centro Acadêmico, eu resolvi me filiar porque eu percebi que eu precisava estar junto de outras pessoas para lutar por um projeto que era muito maior do que as lutas locais, que era um projeto nacional, um projeto global capaz de construir uma alternativa política para um mundo novo. Eu sei que às vezes dá um pouco de receio em construir um partido político, que a gente é muito pequeno perto da magnitude que um partido político significa, mas eu acho que é hora da gente tomar partido sim! Se a gente não ocupar a política alguém vai ocupar a política para a gente e dependendo de como a gente ocupa a política a gente é capaz de abalar as estruturas e arrancar direitos, então esse é o convite que eu queria fazer para vocês, principalmente para as mulheres feministas que estão aqui presentes, vocês sabem da atuação do PSOL, não só no parlamento, mas principalmente nas ruas e como foi nosso papel com a Luciana Genro no ultimo processo eleitoral, que enfrentou Aécio Neves, enfrentou Everaldo, enfrentou um série de conservadores, em pleno processo eleitoral defendeu a legalização do aborto, o direito da população LGBT. O PSOL há poucas semanas protocolou uma ação no STF exigindo a legalização do aborto no Brasil.

Nesse momento onde muitos querem nos conter pois dizem que existe o avanço de forças reacionárias, nós dizemos que nós mulheres não temos o que temer, as mulheres estão numa ofensiva e por isso que estamos na ofensiva também no STF, porque é urgente, porque todos os dias as mulheres morrem em abortos clandestinos, ou ficam feridas em métodos não seguros para poder ser dona da própria vida, e escolher ser dona da maternidade como um direito, como uma escolha e não como uma imposição. É por isso que eu faço esse convite à vocês, pois o PSOL é o lugar das feministas, das lutadoras, daqueles que não tem medo de lutar contra os poderosos, e que sabem que o papel nas mulheres é na luta política, é transformando o mundo. Obrigada!

Dejá un comentario

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos necesarios están marcados *