Intervenção de Zeneide Lima no Painel de Mulheres do “Acampamento Internacional das Juventudes em Luta” em 15/04/2017.

Em primeiro lugar eu gostaria de dizer que eu estou muito emocionada, porque como a Giulia falou, essa mesa representa muito pra nós mulheres do Juntas. Porque estamos numa conjuntura hoje na qual boa parte das mulheres vem protagonizando as lutas em frente à toda essa crise que existe em nosso país, toda crise econômica que existe no mundo. Mas grandes marchas de mulheres se levantaram contra o feminicídio, contra a cultura do estupro. Aqui no Brasil a primavera feminista teve muita força através de um movimento que a gente protagonizou pelo Juntas que é o “Pílula fica, Cunha sai”.

Foram pautas que nos representaram muito e que colocaram para nós a necessidade de organizar e fortalecer o nosso coletivo de mulheres, o Juntas. E não só porque nós achamos que é importante lutarmos contra o patriarcado, não só porque achamos importante lutar contra o assédio, não só porque achamos importante lutar para que as mulheres possam ter direitos iguais. Porque o feminismo tem a ver com isso, nós mulheres queremos ter direitos iguais, nós mulheres não queremos ter mais direitos que os homens. Nós queremos ter acesso a direitos. E essa confusão que aparece que o feminismo é inimigo, que o feminismo não é importante… Para nós é fundamental debater isso. Por que nós do Juntas nos consideramos um coletivo feminista, classista, interseccional. Achamos que o debate das mulheres trabalhadoras, que o debate classista e o debate racial são fundamentais para chegarmos realmente na raiz do que é necessário. Ter um feminismo que possa debater todas as pautas de um movimento necessário pra transformação da sociedade. Um movimento necessário pra de fato emancipar não só as mulheres, mas a classe trabalhadora como um todo e a negritude como um todo.

Então eu gostaria de começar minha fala dizendo justamente sobre isso. Que hoje no mundo inteiro existe um protagonismo das mulheres que não estão apenas nas lutas específicas das mulheres. É claro que isso é fundamental: a necessidade da auto-organização das mulheres. Porque as mulheres ainda estão morrendo por violência e pelo feminicídio. As mulheres ainda recebem menos do que os homens. Existe sim o avanço representado pelas mulheres que ocupam vários cargos de importância. Mas eu acredito que a maioria das mulheres que ocupam grandes cargos ainda têm uma grande problemática de não receberem salários iguais. Ainda têm os seus direitos como se eles fossem algo sem importância. Isso fica muito evidente quando vemos, por exemplo, os “bolsominions” da vida. Eles dizem: “ah, mulher tem que receber menos sim já que o empregador, o capitalista, tem que pagar licença maternidade…” e mais uma série de direitos que estão colocados aí pelas mulheres.

E então nós não conseguimos perceber o quanto é difícil para para as mulheres trabalhadoras sairmos de nossas casas, irmos até o trabalho e enfrentar o assédio. Porque os homens saem de casa e vão ao trabalho, mas eles não têm que enfrentar o assédio para chegar ao trabalho. E a quantidade de mulheres precarizadas hoje. As próprias mulheres negras que têm os piores cargos de trabalho, que são as que vão enfrentar principalmente a lei de terceirização e que são a maioria que estão desempregadas no nosso país. No nosso país existe atualmente um alto índice de desempregados e a maioria destes desempregados são mulheres e são mulheres negras. E são essas mulheres que hoje estão ocupando grande parte de um setor que as vezes nós não olhamos e que está invisibilizado. Que é a senhora que vende o hot-dog, a moça que está no comércio, por exemplo. Então são esses setores concretamente que hoje, com essa reforma que está aí, não conseguem enxergar de fato o que a reforma de previdência e o que a reforma trabalhista vão causar diretamente em suas vidas. Por que são pessoas que de fato não estão colocadas no mercado de trabalho e não conseguem compreender quanto essas reformas são maléficas para a classe trabalhadora.

Porém, a nossa tarefa enquanto mulheres de um coletivo político é debater esta retirada de direitos e quem é esse governo, ou melhor, quem são estes governos do mundo inteiro que retiram direitos das mulheres e que retiram direitos da classe trabalhadora. O governo Temer faz uma reforma da previdência que nos ataca, principalmente a nós mulheres, quando ele coloca a idade igual para aposentadoria de homens e mulheres em 65 anos. Não estão levando em consideração o que significa a dupla jornada de trabalho da maioria das mulheres. A dupla, a tripla e quem é militante tem mais do que isso, não é? Então para nós é crucial a nossa luta contra essa reforma da previdência. É crucial para nós, pois ela nos invisbiliza e acaba por não debater o sistema.

O que significa a dupla jornada de trabalho? Nós mulheres temos nas nossas costas um patriarcado que é colocado para gente desde os períodos iniciais. Que coloca pra gente que nós temos que lavar roupa, que nós temos que cuidar da casa, cuidar dos filhos, cuidar do lar.

E a necessidade que nós temos de debater isso inclusive com nossos companheiros homens é que eles têm que estar na luta conosco para que de fato a dupla jornada de trabalho não seja tratado como nós vemos muito. Por exemplo, quando dizem: “ah, as mulheres estão contra a equidade de 65 anos pois estão reivindicando a dupla jornada de trabalho”. Não, nós não estamos reivindicando a dupla jornada de trabalho. Mas são fatos reais, já que na nossa sociedade não existem restaurantes públicos, não existem lavanderias públicas. E que boa parte das mulheres têm sim que trabalhar o dia inteiro, e precisam cuidar do filho. E nós sabemos que boa parte da composição das famílias hoje infelizmente são mulheres que estão à frente disso. E que boa parte dos homens acaba não assumindo a paternidade e são mulheres que são as donas de casa, chefes de família, que têm que levar o alimento pra casa.

Então todas essas condições que estão colocadas hoje para gente, a reforma da previdência que crucialmente não levam em consideração o que significa a dupla jornada de trabalho, nos dói muito. Nos dói não porque não queremos igualdade. Por exemplo, quando dizem: “Vocês querem igualdade? Então 65 está aí para vocês que querem igualdade. 65 anos pro homem, 65 anos pras mulheres…” E a gente quer dizer que p**** nenhuma. Não é essa igualdade que queremos.

Queremos igualdade de direitos, salários iguais. Nós queremos ter o direito de chegar no nosso trabalho, nos nossos empregos e ter o caminho livre sem ser assediada. Nós queremos ter o direito de ter autonomia de fato e de ter poder ter decisão como os homens. E sermos reconhecidas por isso. Esta é a tarefa principal de homens e mulheres mostrando que queremos construir uma sociedade igual e que estamos na luta por isso.

E eu quero dizer o seguinte: o 8 de março deste ano nos representou muito. O 8 de março representou e transbordou muito deste protagonismo feminino e da necessidade das lutas das mulheres. A greve internacional das mulheres colocou a tarefa, e as mulheres assumiram a tarefa vestindo a camisa e indo pras ruas: nós vimos um 8 de março gigante.

E como todas as pautas que são colocadas em todos os 8 de marços que nós já vimos, só que a pauta principal das mulheres foi a de que nós não vamos aceitar a reforma da previdência. E nós paramos para dizer que nós não aceitamos a reforma da previdência. Nós paramos para dizer que não aceitamos mais violência doméstica. Nós paramos para dizer que não aceitamos feminicídio. E nós temos que parar no próximo dia 28/04, nós mulheres, para dizer que nós queremos derrubar o governo Temer e que nós queremos ir contra a reforma da previdência.

Nós seremos as mulheres piqueteiras que irão lutar na porta das fábricas e dizer que nós vamos para junto com a classe trabalhadora desse país e protagonizarmos a luta de frente. Por que este é o nosso papel. Lugar de mulher é na luta! Nós do Juntas já demonstramos. E eu quero que muitas mulheres se fortaleçam para isso para que sejamos de fato as piqueteiras da greve geral. Que o Juntas continue enegrecendo e que acreditamos muito no nosso papel e no papel de nossas mulheres. Cada vez mais seremos ouvidas pelos homens e que cada vez mais nós sejamos muito reconhecidas por toda a nossa luta e por tudo isso que estamos vendo aqui.

Muito obrigada!