A PRIMAVERA FEMINISTA DEVE OCUPAR O PSOL

Leia e assine nossa contribuição de mulheres para o VI Congresso Nacional do PSOL.

“Nós reconhecemos que somos agentes coletivos da história e que a história não pode ser apagada como páginas da Internet.” (Angela Davis, na Marcha das Mulheres contra Trump)

É incontestável que na presente década a luta das mulheres atingiu um novo patamar. Não há como entender este novo momento do feminismo sem ter um olhar internacionalista sobre o tema.

Desde 2011, as mulheres passaram a protagonizar as mais importantes lutas sociais recentes em todo o mundo. A Primavera Árabe, os Indignados da Espanha, o Ocuppy Wall Street, as Jornadas de Junho são exemplos de processos políticos fundamentais dos nossos tempos que tiveram nas suas primeiras fileiras de lutas as mulheres e a juventude. A retomada do feminismo e de suas pautas por uma nova geração de mulheres foi forte e contundente tanto no cotidiano de jovens comuns, como nas as redes sociais. As redes foram essenciais para a popularização do feminismo alcançando, inclusive, grandes figuras da cultura pop e possibilitando, por exemplo, que o enorme movimento latinoamericano Ni Una a Menos fosse bem sucedido em diversos países e uma greve internacional das mulheres, sob o chamado de Angela Davis e feministas de todo o mundo, se tornasse uma notícia internacional.

O fortalecimento das pautas feministas veio acompanhado do protagonismo deste setor nos principais embates políticos que se deram no último período. No Brasil, o grande exemplo foi a Primavera das Mulheres, que pela primeira vez emplacou a palavra de ordem “Fora Cunha” com centenas de milhares de mulheres nas ruas de todo o país, pauta que depois foi abraçada pelo conjunto dos movimentos sociais. A Marcha das Mulheres Negras que ocupou a Esplanada dos Ministérios em Brasília fortaleceu o importante protagonismo que essas mulheres tem tido em nossas lutas. Neste ano, o dia 8 de março deu início, sob comando das mulheres, à luta pelo Fora Temer. Também saudamos a luta cotidiana das mulheres que estão nos bairros periféricos, trabalhadoras autônomas, domésticas, jovens estudantes, mães, negras, LBTs.

O descontentamento dessa geração de mulheres com a casta política que rege nosso país é flagrante. Uma demonstração disso foi a eleição de diversas jovens e feministas pelo Brasil em 2016. O sucesso das candidaturas e a organização da Bancada Feminista do PSOL é a mais forte demonstração de que as mulheres querem também ter voz nos parlamentos e grandes palácios do país.

Por um feminismo para os 99%

Acreditamos que as mulheres do PSOL devem ser parte ativa na disputa dentro do feminismo. Sabemos que, ao mesmo tempo em que o feminismo se fortalece como ideia, é preciso intensificar o debate sobre que concepção de feminismo defendemos. Desde seu surgimento, o feminismo não constitui um campo homogêneo. Possui diferentes concepções, estratégias políticas e matrizes teóricas.

O atual momento exige uma política feminista interseccional, que identifique as interações das diferentes formas de dominação e de discriminação com as estruturas de poder e que capture as consequências do patriarcado, do sexismo, do racismo e da discriminação à mulher lésbica e trans. Um feminismo que seja sensível aos processos internacionais e à construção de alternativas sociais e políticas frente à crise que assola a vida do povo.

O “Feminismo dos 99%” é uma síntese de um tipo de feminismo que conecta a luta das mulheres aos processos de luta anticapitalista em escala global, muito inspirado nas manifestações que surgiram em 2011, a partir da consigna dos 99% contra a desigualdade social encarnada no 1% que concentra a riqueza global.

Assim, o feminismo é entendido como uma força social e política que trabalha em concerto com outros movimentos sociais na luta pelo fim das desigualdades, e que combina as preocupações econômicas com o aspecto cultural da diversidade daqueles que propriamente compõe os 99% — mulheres trabalhadoras, negras, trans, imigrantes, refugiadas, desempregadas, etc. — combinando o problema do machismo ao do racismo, LGBTfobia, transfobia, xenofobia. Em nossa opinião, isso significa que o feminismo precisa ter lado na luta de classes e ser protagonista deste embate.

É importante recuperar e atualizar as elaborações oriundas do feminismo classista e sua trajetória histórica. Ter havido uma greve internacional de mulheres no centenário da Revolução Russa é mais do que simbólico, e deve nos inspirar. Em um momento de tanta dispersão nos movimentos sociais, inclusive no feminismo, a tradição marxista é fundamental para conectar as partes com o todo. Isso não deve significar retroceder para um estágio onde as diferenças eram solapadas. Devemos cada vez mais entender a pluralidade que existe no termo “mulheres”. Ao mesmo tempo, é importante ganhar as feministas para um projeto global de emancipação da humanidade que unifique suas pautas. Nos inspiramos em Ângela Davis por um feminismo de classe e raça.

O movimento feminista deve contagiar o PSOL

O movimento de mulheres promoveu um terremoto político na esquerda no último período, em especial com a Primavera Feminista em 2015. O feminismo mobilizou as ruas e as redes ultrapassando os muros dos debates acadêmicos ou do campo progressista.

A Primavera das Mulheres também contagiou o PSOL. Elegemos uma combativa bancada feminista de vereadoras. Algumas estiveram entre as mais votadas das suas cidades, como Áurea Carolina, Marielle Franco, Fernanda Melchionna e Talíria Petrone. Com Sâmia Bomfim, conquistamos pela primeira vez um mandato feminista na maior cidade da América Latina. Apesar da falta de uma política de mulheres da direção do PSOL, a eleição dessas vereadoras é uma grande vitória.

Essa bancada mostrou sua combatividade, levando às Câmaras e às ruas a luta das mulheres. Chegou até o STF, ao articular com o ANIS a ADPF pela descriminalização do aborto, apoiada por movimentos de mulheres e tendo como advogadas nossas companheiras Luciana Genro e Luciana Boiteux. Este foi um movimento jurídico histórico para a luta feminista.

Mas durante esse período de fortalecimento da luta das mulheres, o impulsionamento de pautas feministas por parte da direção do nosso partido foi muito aquém do seu potencial e do que a conjuntura pede. A greve internacional das mulheres, por exemplo, foi um dos maiores feitos históricos recentes do feminismo e esta direção não encarou como prioridade a necessidade de impulsionar essa construção. O PSOL precisa estar conectado com as pautas feministas e valorizando seus espaços.

Nos orgulhamos da campanha de Luciana Genro em 2014, que defendeu em rede nacional o combate à transfobia, a legalização do aborto e as pautas históricas do movimento feminista. É central que nossa próxima campanha presidencial não recue destas formulações. Além disso, é preciso enegrecer e trazer cada vez mais diversidade ao PSOL. O racismo estrutural existente na nossa sociedade impõe às mulheres negras uma carga ainda maior de discriminação e violência. Nosso feminismo precisa ser negro ou não será. As mulheres trans, rejeitadas por um setor do movimento feminista, precisam ser abraçadas e ter a sua luta reconhecida pelo PSOL como uma luta de mulheres por dignidade e reconhecimento.

Em um país onde 60% dos 14 milhões de desempregados são mulheres e em sua maioria, negras, precisamos ter seriedade com a pauta feminista no nosso partido. Fortalecer e ampliar os fóruns de mulheres dentro do PSOL conectando-os às lutas em curso, sem sequestrar os organismos históricos de organização das nossas mulheres, como a Setorial Nacional.

É preciso construir um calendário de formação política para nossas militantes e fortalecer mecanismos de resolução sobre casos de violência às mulheres dentro do partido. Os avanços da primavera das mulheres são irreversíveis. É necessário que a política de mulheres seja prioridade no nosso partido para que ele possa se oxigenar. A Primavera Feminista deve ocupar cada vez mais o PSOL!

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