Carta de Marea Socialista à esquerda autônoma e ao chavismo crítico: é hora de forjar um novo movimento emancipador!

Marea Socialista, 31/07

Escrevemos esta Carta Aberta no momento em que se consuma uma fraude colossal contra o povo venezuelano. A eleição da constituinte madurista representa o colapso do país tal qual o conhecemos no último século, a bancarrota de um Estado rentista esgotado e o desmonte da República. Igualmente, coloca em sério risco a integridade da Nação e a ameaça de sua dissolução.

Desta maneira, abre a porta para um período de cruel rapina imperial e do capital financeiro e mafioso, sob qualquer uma de suas atuais “bandeiras nacionais”. Onde a violência e a repressão crescentes serão a lei e onde as penalidade e sofrimentos dos mais humildes, dos oprimidos e dos excluídos, alcançarão picos não-conhecidos na história moderna da Venezuela.

Duas cúpulas políticas irresponsáveis e criminosas cavaram as trincheiras a partir das quais se lançam à disputa pelo saqueio, controle e negociação com o grande capital, de nossos recursos naturais e as condições de vida de nosso povo. Fazem isso ainda que para isso devam provocar um carnaval sangrento.

A falsa polarização que têm buscado e que em alguma medida têm conseguido estas cúpulas pretende levar amplos setores da população a defender os espúrios interesses que cada uma delas persegue. E estão dispostos a fazê-lo, como hoje voltou a ficar demonstrado, ao custo da vida de milhares, a integridade de centenas de milhares e a miséria de milhões.

É importante compreender, em primeiro lugar, que a tênue luz de expectativas pela volta a uma normalidade relativa, que poderia haver existido até a véspera da falsa eleição constituinte, desvaneceu-se completamente. O madurismo e a cúpula do PSUV cruzaram o umbral que separava sua vocação autoritária com máscara “democrática” e “pacífica” para levá-lo ao terreno de uma tentativa de contrarrevolução aberta, com métodos de guerra civil seletiva, que já estão sendo aplicados. Em segundo lugar, a incapacidade, a soberba e o elitismo manifesto na cúpula da MUD e sua aposta descarada por um foquismo violento e pela ingerência gringa deixaram sem possibilidades de conquistar um triunfo democrático aos que de maneira sincera porém equivocada os seguiram, arriscaram suas vidas e inclusive as perderam, crendo que assim se chegaria a uma mudança progressiva.

Além da guerra dos números e imagens com a qual durante hoje e nos próximos dias se tentará legitimar a eleição dos supostos delegados constituintes, o fato é que este 30 de julho de 2017 será recordado como o dia em que entramos plenamente em um período obscuro, de tempos tumultuosos, cada vez mais violentos e difíceis, que exigem definições individuais e coletivas contundentes.

Os próximos meses ou semanas determinarão o tabuleiro político, social, cultural e econômico, inclusive a integridade territorial do país, para os próximos anos ou décadas. Ante isso, ninguém pode permanecer indiferente ou crer que estará a salvo das consequências que estes tempos trarão à Nação e ao povo.

Mas estes também são tempos de rupturas, de quebras de velhas hegemonias, de derrubada de crenças ilusórias e do final de falsas lealdades, e são, sobretudo, tempos de gestação e parto de novas esperanças.

Hoje, de um lado se localizam aqueles que frente às ameaças com que o imperialismo norte-americano e a cúpula da MUD chantageiam à cúpula do governo/PSUV e ao país, ou que achacados pela pressão, pelas coações e pelo maltrato do aparato de controle estatal, subordinam-se ou lançam um solidariedade automática, vergonhosa e acrítica com o madurismo. De outro, aqueles que rechaçam o autoritarismo, a repressão descarada, a entrega, a miséria, a tudo isso que o PSUV/governo está nos levando, e equivocadamente acreditaram, frente à falta de alternativas, que a cúpula da MUD era útil para resgatar a Constituição de 99 e a democracia, pondo um fim à violência.

Entretanto, há um terceiro setor que tem ganhado força nos últimos meses, vem crescendo e formando sua personalidade, e começa a aparecer como uma nova referência política por fora destes dois campos. E que, de fato, converteu-se num fenômeno político, o que a imprensa local e internacional chamaram primeiro de “chavismo crítico”, e que agora tentam rotular de “chavismo não-madurista”. Este setor inclui militantes e grupos de esquerda ou democráticos que talvez por não provir do chavismo ou ter-se separado dele há bastante tempo, foram invisibilizados pela mídia.

A uma parte substantiva deste setor é que nos dirigimos, incluindo a sua parte de esquerda crítica e autônoma, que mantém os sonhos emancipadores que percorreram a primeira década do Século XXI em nosso país e na América Latina, que é capaz de enfrentar sem temores o balanço necessário do processo bolivariano e de Chávez.

Aos que começaram a se organizar contra a burocratização brutal que levou à cúpula do PSUV e seus aliados do GPP a pôr um signo igual entre o partido e o estado. Aos que deram um passo para enfrentar o decreto do Arco Minero do Orinoco, e decidem lutar contra a entrega expressa nas Zonas Econômicas Especiais e a ampliação da fronteira extrativista, o aprofundamento da primarização do país e a submissão ao capital financeiro. Aos que rechaçam o avanço autoritário, o avassalamento de direitos humanos, econômicos, sociais e buscam restabelecer a Constituição de 99, que é hoje, no país, a única forma de defender a democracia que agoniza.

A aqueles que repudiam que se continue pagando uma dívida externa ilegítima às custas da fome e da saúde do povo. Aos que estão cansados da impunidade das cúpulas e do desfalque corrupto da nação. Aos que rechaçam a ingerência estrangeira porque mantêm os sonhos bolivarianos de lutar por uma nova independência. Aos que se localizam no terreno de uma esquerda nova, crítica de seu próprio legado, que assinala e busca propostas para superar a gravidade da crise civilizatória a que nos levou o sistema do capital. Aos que lutam contra a opressão de gênero, a segregação racial, a opressão cultural e material sobre os povos originários. A aqueles que se opõem à destruição da natureza e da vida e que propõem e buscam alternativas sustentáveis ao modelo extrativista e predatório. Aos que lutam contra a exploração do trabalho, aos sindicatos e conselhos de trabalhadores honestos que se posicionam contra o patrão, seja este privado ou estatal. Aos jovens e estudantes que com valentia defendem seu futuro nas ruas, nas universidades públicas e privadas, inclusive nas do governo apesar da retaliação e das intimidações.

Somos muitos, mas estivemos separados por um longo tempo. Tentaram, muitas vezes com êxito, nos inocular desconfiança para nos manter divididos. Cada um de nós, por sua vez, fomos retaliados, perseguidos e acusados de traidores e agentes da CIA ou de fazer o jogo da direita, e que seguiríamos sendo isso. Mas todo tem um limite e cada um de nós foi encontrando o seu próprio. Hoje temos que vencer a desconfiança, processar as matizes produto de nossa procedência ideológica diversa e construir, reconhecendo e respeitando a diversidade vital que expressamos, um espaço comum de reflexão, elaboração e ação.

Nos últimos meses, temos compartilhado espaços e plataformas de luta por pontos comuns. Espaços que foram úteis, ademais, para nos reconhecer e aprender a processar, não sem tropeços, alguns de nossos diferentes pontos de vista em busca das sínteses que ajudaram essa luta. Espaço que é preciso manter e ampliar porque a luta que lhes deu origem e sentido é agora mais necessária do que antes.

Entretanto, hoje estamos chamando a colocar de pé outra iniciativa. Uma de alcance mais integral e estratégico. Uma que ajude a superar a orfandade de orientação e de liderança global, na qual ficou nosso povo pela derrota a partir de dentro de um projeto que sonhou libertador e pela traição ou pela defecção daqueles que acreditou serem seus dirigentes.

Trata-se, a partir de uma revisão crítica e auto-crítica dos erros do processo bolivariano, de reconstruir desde os cimentos de um projeto nacional e latino-americano. Trata-se de construir um movimento de esquerda, democrático, plural, inclusivo das correntes do pensamento e da ação emancipatória. Com respeito às identidades particulares e na busca de avançar desde a articulação na luta para a construção de uma nova síntese de elaboração e ação política.

O que propomos é uma tarefa árdua e complexa. Porém, a hora é árdua e complexa. É uma hora de definições e de assumir desafios, de conquistar a autonomia e de nos independentizarmos de todo tipo de tutela. É a hora das fornalhas, de pôr as mãos na massa e de colocar na forja um novo movimento emancipador.

Equipe Operativa Nacional de Marea Socialista.

Caracas, 31 de Julho de 2017.

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