Entrevista exclusiva com Pedro Castillo, dirigente nacional da greve dos professores no Peru

Entrevista realizado por Tito Prado, dirigente nacional do Movimento Novo Peru, com Pedro Castillo Terrones, Presidente do Comitê Nacional de Luta das Bases Regionais do SUTEP (Sindicato Unitário dos Trabalhadores da Educação do Peru) para o Portal de la Izquierda, editado no Brasil em português, inglês e castelhano e difundido a nível internacional.

Há muito interesse, não só no Peru, mas na América Latina – e por que não em outras partes do mundo – por inteirar-se, em primeira mão, dos motivos desta greve que adquiriu transcendência internacional. Você poderia nos explicar, brevemente, quais são as razões fundamentais desta greve e por que ela se desenvolveu à margem da representação oficial do sindicato?

Sim! Primeiramente, boa noite e obrigado pelo espaço. Desde o Peru, saudamos todos os países da América Latina e do mundo. Eu sou Pedro Castillo Terrones, quem encabeça essa greve nacional indefinida, única e histórica no Peru. Por mais de 40 anos, o sindicato oficial, chamado de Comitê Executivo Nacional do SUTEP, foi tomado por um partido político chamado Patria Roja e cada vez que eles baixavam para as bases perdiam representatividade, porque seu fim tem sido meramente político. Estes últimos anos, participaram de eleições e se descuidaram enormemente do seu papel de atuar em função do grêmio. Nesse contexto, quando se implementaram diferentes reformas educacionais no país, por exemplo, a Lei de Reforma do Magistério, entre outras, o CEN do SUTEP não respondeu como esperavam os professores. Assim, não havia outro caminho senão apelar para os próprios agremiados, aos mesmos professores das escolas com quem sempre estivemos permanentemente em contato direto, já que nunca rompemos o vínculo laboral com nossos alunos e os pais de família. Não havia outra saída que não nos auto-convocarmos para enfrentar o ataque dos governos que desejam professores baratos, pouco se importando com a educação pública. A partir disso, com reuniões nas escolas, com reuniões através de núcleos em escolas próximas, chegou-se a eventos em assembleias de caráter distrital e provincial, assembleias e convenções regionais, eventos macrorregionais e, no final, uma assembleia nacional em 17 de junho, aqui em Lima, onde saí eleito como Presidente do Comitê Nacional de Luta para decretar e sancionar a greve nacional indefinida, iniciada em 12 de julho deste ano.

Esta convocatória encarna uma problemática sintetiza em 7 pontos: como primeiro ponto, defender a educação pública toda vez que os governos, durante todos os anos nestes últimos tempos, demonstraram falta de vontade política para aumentar o orçamento destinado à educação. É vergonhoso que, em termos de América Latina, tenhamos um orçamento menor que 3%, o que leva a que tenhamos professores mal pagos, professores contratados em outro regime laboral, auxiliares de educação esquecidos, professores cessantes e aposentados pedindo esmolas, infraestrutura educativa caindo aos pedaços, alunos abandonados, com chumbo no sangue, com fome e com sono na aula. Faltam até kits escolares.

Por outro lado, quero lembrar que no Acordo Nacional, durante o governo de Toledo e do qual PPK era ministro da economia, acordou-se que o orçamento da Educação seria elevado para 6%, algo que ficou só na promessa, pois viraram as costas para a Educação. Não há vontade política de concretizar esse compromisso. Se alguém pergunta a qualquer pessoa no país, esta dirá que não está de acordo que os professores sejam mantidos com salários de fome. Por isso, estamos pedindo que o piso salarial seja equivalente a uma UIT [Unidade Intensiva Tributária], mas não imediatamente; é necessário que isso seja trabalhado numa mesa de conversa, onde nós apresentamos que se programe até o bicentenário nacional com um cronograma anual com valores e datas claros. Aos professores contratados, sem um regime laboral, são cortados os direitos por escolaridade e nascimento; se ficam doentes entre janeiro e fevereiro, o direito de ESALUD é cortado, seu tempo de serviço não é reconhecido, nem sua licenciatura, sua pós-graduação ou doutorado. O professor contratado faz o mesmo serviço que um professor nomeado, por isso nós exigimos que para um igual trabalho, igual remuneração. Há uma dívida social também, pois na década de 1990 privou-se um direito ao professor e este já não recebe pela preparação da aula. Pedimos isso também. Por essa dívida, o professor se vê obrigado a acudir ao poder judicial para que se reconheça o que lhe é devido. Exigimos que a dívida social seja paga sem necessidade da judicialização e que o governo crie um fundo específico para assumir esse pagamento.

Quanto ao que foi conquistado até agora. Que sabor lhes dá?

Bom, é um sabor desagradável. Primeiro, porque a ministra da educação se naga a conversar conosco dizendo que não somos os professores que representamos ao magistério. Você entenderá que o magistério está 100% paralisado, o que passa é que sempre negociou com seu próprio sindicato que está nas mãos do CEN do SUTEP, que está nas mãos de Patria Roja. Dizem que eles têm a legalidade, mas a legalidade tem que estar em função da legitimidade; quer dizer que se os professores estão conosco, nós temos a legitimidade. Nós somos as pessoas que devemos ter a representatividade para solucionar nossa pauta de exigências. Eu represento às 25 regiões do país, cada região elegeu seu representante regional através do voto universal: um professor, um voto. Eles são os que fizeram a eleição para poder representá-los neste Comitê de Luta e, portanto, nos aproximamos do Ministério da Educação, mas nos vimos na necessidade de optar pela formação de uma comissão mediadora, formada pelos porta-vozes das bancadas do Congresso para buscar uma saída desta problemática.

O fato de que eles não tenham recebido e não tenha tido um tratamento direto é uma das coisas mais desagradáveis para vocês?

Sim, é uma falta de respeito, não somente em relação ao magistério, mas em relação a todo o país. A ministra tem que prestar contas ao povo peruano, por respeito e dignidade deveria nos receber e falar diretamente conosco. Os problemas precisam se solucionar dialogando, conversando. Isso não quer dizer “soluciona-me esta pauta imediatamente”. Numa negociação, há coisas que podem ser cedidas, tanto uma como a outra parte.

Há possibilidade de que se retome o diálogo?

Sim, batemos nas portas da Igreja, também das bancadas do Congresso. Por outro lado, estamos buscando uma relação direta com o Executivo, com a Presidência do Conselho de Ministros. Buscamos um espaço de abertura do diálogo. Estamos lutando contra a versão de que os professores nos opomos à avaliações. Esclarecemos que nesta lei de Reforma de Magistério, no artigo 23, menciona-se que a avaliação de desempenho docente é condição para sua permanência na carreira. Nós, os professores, estamos obrigados e exigimos que se faça uma avaliação permanentemente, mas que seja uma avaliação formativa, que não se faça desde o painel, que se faça contextualizada de acordo com a realidade dos povos. Não obstante, existe o interesse de fazer uma avaliação com algumas condições com as quais nos quer levar ao abismo. O fim desta avaliação é demitir, deixar milhares de professores na rua.

Durante a greve, qual papel desempenho o CEN do SUTEP?

Primeiramente, se somaram a cantar o mesmo huayno [dança e canto andino] que o Ministério da Educação, existe uma cumplicidade porque nada os diferencia num momento em que se reforça esta orientação neoliberal. Nesse contexto, juntos, eles satanizaram a greve, dizendo que não somos reconhecidos, que somos minoritários e nos pintaram com várias cores, como um arco-íris. Todas essas coisas, na prática, foram caindo. Nós estamos demonstrando que não somos como nos pintaram. Acreditamos importante que assim como temos sido recebido pelas bancadas e pelo ministério, fique claro que não somos o que eles diziam que nós éramos. Foi dito, por exemplo, que fazemos parte de uma fração radical, que temos vínculos com movimentos radicais, senderistas. Pois bem, eu procedo da província de Chota, berço das rondas campesinas do país; além de ser professor, sou rondero, trabalho com filhos de ronderos, meu pai é rondero, meus irmãos são ronderos. Eu cumpro com meu turno de ronda. Ali não há espaço para estas opções radicais, contribuímos com a pacificação do país, aí não espaço para estas frações. Ratificamos aqui que nós não somos violentistas, não somos grupos radicais porque nesta greve nacional indefinida temos limpado também nosso sindicato. Nesta greve, não há oportunidade para caudilhos e oportunistas. Por trás desta greve não há um interesse pessoal, nem social, nem político; mas sim demarcarmos com grupos que sempre traíram nossa causa, que venderam nossas greves.

Com relação a isso: quais as tarefas para depois da greve? Porque, de fato, surgiu uma nova direção a nível regional e nacional.

Em outro momento, pensaremos nisso. Agora estamos concentrados nessa greve, deve-se resolver nossa pauta de exigências. Primeiro, estão nossos alunos e, depois, se as bases nos derem essa faculdade, convocaremos a um Congresso Nacional para ver o destino, a organização e a institucionalização de nossos grêmios sindicais. Somos respeitosos, a nós nos incumbe dirigir esta greve, mas sou um professor de aula e voltaremos às aulas e demonstraremos que estamos cumprindo com a tarefa encarregada. E bom, pedir aos pedimos aos professores que precisamos nos manter firmes, não somente nas ruas mas também nesta grande unidade.

O governo usou o argumento de que eram grupos radicais para deslegitimar a luta. Não conseguiu seu objetivo. Qual é a resposta mais contundente a esse ataque?

São ataques e cada vez que o governo saiu para falar disso, alimentou e fortaleceu nossa unidade porque é mentira. Acreditamos ser importante também o fato dos que vão à mídia para dizer que não temos razão são pessoas que nunca passaram por uma escola rural ou por uma educação pública. Por isso, não só o magistério esteve nesta luta: jovens universitários, profissionais, grupos étnicos, a CGTP, as rondas campesinas, também os pais de família, nossos próprios estudantes estiveram conosco em todos cantos da pátria. Ou seja, quando você sai pra lutar por uma causa justa do povo, não está só. Mas desgraçadamente também terá que responsabilizar ao governo, que não somente demonizou esta greve mas que, como produto disso, deixou dois professores no caminho, uma num acidente de trânsito e outro por um infarto a caminho de Lima. Também temos vários professores hospitalizados. Ou seja, no Peru, quando os trabalhadores saímos às ruas para pedir nossos direitos, dizem que somos terroristas, violentistas, mas quando estamos nas campanhas políticas ou num processo eleitoral, somos cidadãos.

Em que momento está a greve?

Pensamos que chegamos no auge. Vamos ver de que maneira nesta semana se desenvolve a greve. O Comitê Nacional de Luta está vendo que toda vez que não fomos escutados, não descartamos nos submeter a uma greve de fome. Por outro lado, pedimos também aos professores que nos mantenhamos firmes. Acreditamos importante que nossas reivindicações que sejam resolvidas, nossas reclamações são justas.

Uma mensagem final para os professores da América Latina?

Aos professores do Chile, Argentina, Colômbia, Brasil, Equador, agradeço as mostras de solidariedade que recebemos. Acreditamos ser importante que os professores latino-americanos nos sentemos para conversar num evento também orgânico e chamar a todos os professores, não só na América Latina mas em todo o mundo para comparar nossas experiência e nos unirmos, porque este é o momento em que as fronteiras nacionais não devem nos isolar.

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