Sergio García*

Finalmente, ocorreu a votação para a Constituinte de Maduro. O que era previsível aconteceu. Em meio a jornadas prévias de ações da direita da MUD – que não compartilhamos nem apoiamos – chegou-se à votação do domingo. O Conselho Nacional Eleitoral, próximo ao governo, anunciou que mais de oito milhões de pessoas votaram. O anúncio não; deram os resultados que ao governo parecesse melhor. Por sua vez, a MUD mente em sentido contrário ao falar de uma votação quase inexistente no domingo e ao exagerar a que eles tiveram no plebiscito. Uns e outros inventam números para tratar de demonstrar quem fez votar mais gente. Em sua guerra de números falaciosos deixam de lado a realidade.

A jornada do domingo mostrou um governo debilitado, que por sua vez mantém um aparato estatal e certa base de apoio, ainda que é surpreendente o grau de desproporção e irrealidade do anúncio do CNE. Se comparamos os números oficiais, implica que no domingo Maduro teve mais gente ou igual o apoiando do que Chávez em 2012, ou que Maduro recuperou cerca de dois milhões e meio de votos desde sua última eleição de 2015 onde foi derrotado. Alguém honesta e objetivamente pode crer nestes números, quando o governo perdeu tão evidente apoio social?

A realidade da votação está longe dos números do CNE e também das mentiras da MUD. O grande ganhador do domingo foi a abstenção, uma clara maioria inclusive nos bairros populares, não votou. Foi uma mensagem silenciosa de milhões, que expressaram uma vez mais seu descontentamento crescente. Como se nada, o governo saiu dizendo que foi a mais alta votação em muitos anos, e assentado nessa falácia se prepara para avançar em seus planos de maiores restrições democráticas e maior entrega do país.

Não à ingerência estrangeira

Querendo aproveitar o desastre visível do governo, Trump nos EUA e os governos aliados da região não hesitaram em questionar buscando um trampolim para seus planos. Nos opomos a toda sua estratégia e sua política que seriam mais que nocivas para o povo venezuelano. Rechaçamos as ameaças, as sanções e tudo o que venha do norte ou de seus organismos internacionais cúmplices. É o povo venezuelano quem deve resolver seu futuro e não um império decadente nem seus governos sequazes e ajustadores como o de Macri ou Temer.

Também rechaçamos a política e ações da MUD. Como bem explicam nossos companheiros venezuelanos de Marea Socialista: «o elitismo manifesto da cúpula da MUD e sua aposta descarada por um foquismo violento e pela ingerência gringa, deixou sem possibilidades de conquistar um triunfo democrático aos que de modo sincero, porém equivocado, os seguiram, arriscaram suas vidas e inclusive as perderam, crendo que assim se chegaria a uma mudança progressiva». O enfrentamento a seus propósitos é um ponto nodal de uma política de esquerda e revolucionária na Venezuela. Denunciamos seus planos e não apoiamos suas operações, como equivocadamente fez um setor da esquerda na Venezuela, cuja corrente integra a FIT em nosso país; foram parte do plebiscito charlatão e da paralisação convocada pela MUD dias atrás, colocando-se no campo da direita.

Rumo um regime mais antidemocrático

Nesta sexta-feira está previsto que a Constituinte se instale. Desde sua convocatória todo o processo é antidemocrático: não houve consulta ao povo via referendo como marca a constituição bolivariana, não houve regras claras nem liberdade real de participação, não se sabem os alcances da Constituinte nem se colocarão a votação seus resultados, como Chávez fizera no passado.

Vem com a Constituinte uma melhor Venezuela, mais direitos sociais, mais liberdades democráticas? Não. Esta constituinte não é para dar um salto progressivo adiante senão para assegurar a continuidade como administradores do negócio petroleiro. Vem a tentativa de consolidar um modelo antipopular e uma maior regimentação e retirada de direitos políticos e sociais, mais perseguição à oposição de esquerda, ao chavismo crítico e a genuínas referências sociais aos que são acusados no melhor estilo stalinista de ser «agentes da CIA».

A esquerda e Maduro

Esse é o plano regressivo que têm Maduro e Diosdado. Quando eles são apoiados, esse plano também são apoiado. Daí que chame a atenção que alguns setores de esquerda sigam desempenhando o papel de porta-vozes dóceis do madurismo. Ler agora referências ou intelectuais repetindo «na Venezuela votaram mais de oito milhões», «o povo relegitimou o governo», «revive a revolução bolivariana», gera uma mescla de vergonha alheia e indignação. Quanta falta de independência intelectual, quanta adaptação a um aparato burguês stalinizado e enriquecido desde um estado petroleiro.

A realidade se evidencia na rua, em vídeos, áudios, imagens e relatos independentes que mostra o desastre cotidiano do governo e a perda notória de apoio social, a qual voltei a presenciar estas semanas estando em Caracas. Frente à decadência de um governo que rompeu com o melhor do movimento bolivariano e frente aos planos da MUD, o objetivo necessário é construir um terceiro espaço desde as próprias raízes do processo bolivariano. São milhões de pessoas que não votaram no domingo e não se sentem representados nem pela MUD nem pelo governo. Corretamente a eles se dirigiram nossos companheiros de Marea Socialista em 31 de julho, quando escrevem em sua carta aberta: «Há um terceiro setor que foi tomando força nos últimos meses, foi crescendo e foi formando sua personalidade e começa a aparecer como uma nova referência política por fora destes dois campos. E que, de fato, tornou-se um fenômeno político, é o que na imprensa local e internacional chamou primeiro ‘chavismo crítico’, e que agora tentam etiquetar como “chavismo não-madurista”. Este setor inclui militantes e grupos de esquerda ou democráticos que talvez por não provir do chavismo foram inviabilizados pela mídia. A uma parte substantiva deste setor é que nos dirigimos, incluindo sua parte de esquerda, crítica, autônoma e que mantém os sonhos emancipadores que percorreram a primeira década do século XXI em nosso país e na América Latina, que é capaz de enfrentar sem temores o balanço crítico necessário do processo bolivariano e de Chávez…

Aos que se começaram a organizar contra a burocratização brutal que levou à cúpula do PSUV e seus ‘aliados’ do GPP a pôr um sinal de igualdade entre o partido e o Estado. Aos que deram uma passo para enfrentar o decreto do Arco Minero do Orinoco, e decidem lutar contra a entrega expressa nas Zonas Econômicas Especiais e a ampliação da fronteira extrativista, o aprofundamento da primarização do país e a submissão ao capital financeiro… A aqueles que repudiam a continuidade do pagamento de uma dívida externa ilegítima ao custo da fome e da saúde do povo. Aos que estão cansados da impunidade das cúpulas e do desfalque corrupto da nação. Aos que rechaçam a ingerência estrangeira porque mantêm os sonhos bolivarianos de lutar por uma nova independência. Aos que se localizam no terreno de uma esquerda nova, crítica de seu próprio legado, que assinala e busca propostas para superar a gravidade da crise civilizatória a que nos levou o sistema do capital. Aos que lutam contra a opressão de gênero, a segregação racial, a opressão cultural e material sobre os povos originários, a destruição da natureza e a vida, e a exploração do trabalho…

… Somos muitos, mas estivemos separados por um longo tempo. Tentaram, muitas vezes com êxito, nos inocular desconfiança para nos manter divididos. Cada a um a nosso turno fomos retaliados, perseguidos e acusados de traidores e agentes da CIA ou de fazer o jogo da direita. Mas tudo tem um limite e cada um de nós foi encontrando o seu… hoje estamos chamando a pôr de pé outra iniciativa. Uma de alcance mais integral e estratégico… Trata-se de construir um movimento de esquerda, democrático, plural, inclusivo das correntes do pensamento e da ação emancipatória. Com respeito às identidades particulares e na busca por avançar desde a articulação na luta para a construção de uma nova síntese de elaboração e ação política…»

*Jornalista político e dirigente do MST en Izquierda al Frente.
Viveu na Venezuela, foi co-fundador da principal corrente do chavismo crítico “Marea Socialista”. Estava em Caracas nas últimas semanas.