Por: Emiliano Teran Mantovani |

Não há prioridade mais alta na Venezuela na atualidade: evitar, desativar (ou deter) a guerra. O horizonte de paz mais próximo é apenas o não transbordamento massivo de todas as estratégias e pulsões de morte que se reproduzem no país. Expressões extremas de violência e barbárie; destruição do entorno cotidiano; setores radicalizados e fascistizados da oposição venezuelana que, a nosso juízo, são o principal detonante da situação; declarações e políticas governamentais soberbas, desafiantes e irresponsáveis; repressão, subida de tom e excessos dos corpos de segurança do Estado; atores armados informais; a política exterior estadunidense mais agressiva e frontal contra a Venezuela em toda a história republicana de nosso país; os senhores da guerra. Todo um cúmulo de atores que unido a condições materiais e diversos fatores sociais nos aproximaram à beira do abismo no qual nos encontramos.

Os dramáticos custos do transbordamento de uma guerra seriam carregados principalmente nos ombros do campo popular, nos tecidos sociais, na vida em seus territórios. Os ‘ganhadores’ seriam outros, no fundamental (ainda que não unicamente) atores estrangeiros e transnacionais. E as condições para a subsistência e lutas dos povos e comunidades ficariam arruinadas. O fim de ciclo progressista na Venezuela teria se coroado com esta fase superior do “capitalismo do desastre”. (Naomi Klein dixit).

Nesta situação é urgente e essencial recuperar o sentido, resgatar as facetas mais democráticas que se evidenciaram nas expressões populares nos últimos anos no país, reencontrá-las, articulá-las, fazê-las massa crítica. Somar rapidamente sensatezes, configurar novas alianças, reabrir caminhos para a política. Criar desfechos para a cadeia de agressões políticas que desde a oposição e o Governo nacional nos trouxeram à situação atual. Denunciar claramente e com força os fatores externos que promovem a violência com suas políticas e declarações, os brutais cercos midiáticos internacionais contra a Venezuela e a política intervencionista do governo estadunidense, que ameaça nos fazer muitos danos. Enfim, organizar-se para a paz, em vez de seguir avançando até o precipício ao qual nos dirigimos. Ninguém disse que é coisa fácil, mas não temos outro caminho.

Não obstante, convém pensar também no que está se desenvolvendo nas entranhas deste processo. Se no curto prazo sofremos o transbordamento da beligerância, é necessário reconhecer que essa construção da paz na realidade será um longo caminho. Pactos, acordos e negociações, grupos de interesse em disputa e requerimentos de estabilidade política interna, a potencial construção de novas hegemonias, estão também no cenário próximo, porém se sustentam sobre um fato ineludível: as bases materiais que geram as condições para uma alta intensidade do conflito político e social persistem. A grave crise do modelo rentista petroleiro não é, a nosso juízo, uma circunstância conjuntural:

– há enorme volatilidade dos preços internacionais do petróleo, o que volatiza a economia venezuelana;
– o país está inexoravelmente atrelado aos menos rentáveis e demandantes petróleos crus pesados e extra-pesados (Faixa Petrolífera do Orinoco);
– estão se desenvolvendo importantes mudanças no mercado energético global – dominado pelos hidrocarbonetos – ao mesmo tempo em que a OPEP tem cada vez menos incidência geopolítica;
– isso implica que cada vez há maiores dificuldades para a captação da renda petroleira, o que ademais se veria agravado ante um processo de flexibilização econômica que favoreceria ainda mais as corporações transnacionais, em detrimento da captação de excedentes do Petro-Estado venezuelano;
– mas não só isso: as dificuldades também se registram na retenção da renda captada, a qual deve dirigir-se em parte ao pagamento da dívida e seus serviços, ou bem migra por fuga de capitais, entre outros fatores;
– a debilidade política do Petro-Estado e a crise hegemônica potencializam ainda mais a corrupção como forma de distribuição da renda, o que dificulta sobremaneira uma centralização da mesma, e a colocação em marcha de políticas coerentes para sair da crise;
– a severa crise política, social e institucional também desestruturou boa parte dos canais de distribuição de renda da economia doméstica formal, prevalecendo ao invés disso distribuições discricionárias e a economia informal;
– o exercício da violência passa cumprir um papel mais determinante nas capacidades políticas, institucionais e sociais para apropriar-se desta renda;

Estas condições materiais são inelutáveis, evidenciam os nexos entre a instabilidade econômica e a turbulência política e ao mesmo tempo nos assinalam a configuração de novos esquemas de governabilidade e governança. Neste sentido, é necessário ressaltar a relação que existe entre a reestruturação do regime de apropriação da natureza (o relançamento e a reformulação do extrativismo no país), dos mecanismos de captura e distribuição da renda (mudanças na arquitetura do capitalismo rentista) e dos padrões de governabilidade e controle social. Esta relação sofre transformações significativas em períodos de mudança histórica. O chamado “Pacto de Punto Fijo” (1958) se estabelecia na Venezuela sobre a base de fazer coerente os princípios de uma nova governabilidade com os processos de apropriação e acumulação de capital domésticos e transnacionais.

Entretanto, os tempos mudaram. A recente aprovação do processo Constituinte do dia 30 de julho convocado pelo Governo Nacional, ou ainda chamado “Compromisso Unitário para a Governabilidade” [1] apresentado em 19 de julho passado pela Mesa da Unidade Democrática (MUD), dão conta explicitamente de sua necessidade de construir um novo marco de dominação e controle social. Somente que agora devem adaptá-lo às condições da profunda crise do modelo histórico petroleiro rentista, inaugurado no começo do século XX; e aos marcos de uma crise econômica global e de perigosas tensões geopolíticas.

O capital se filtra nas brechas da crise: rotas e coordenadas de uma nova fase do extrativismo

Apesar de nossos dramas sociais e políticos, do caos existente, da crueza do conflito, o capital estrangeiro negocia, com baixo perfil, posiciona-se, avança, ganha concessões, rompe obstáculos, deita raízes em nossos territórios. A beligerância e o desastre não lhe são alheios; se por um lado é instabilidade, pelo outro é também oportunidade de negócios. Nos acordos vão sendo traçadas rotas e coordenadas de novos ciclos de acumulação, vão sendo delineados novos códigos, estruturas e geografias do extrativismo na Venezuela.

Podemos fazer um inventário geral: nem a instabilidade dos preços internacionais do cru e o mercado energético mundial, nem o conflito político nacional detiveram os acordos e os investimentos na Faixa Petolífera do Orinoco, cinturão de petróleos não-convencionais (pesados e extra-pesados) que, por seus custos e níveis de investimento e instalações requeridos, necessitam em troca preços altos e estáveis. O objetivo: aumentar a produção. Desde o início de 2016, anunciou-se a colocação em marcha de um projeto para investir cerca de US$ 9.000 milhões para a perfuração de 480 poços, sobre o qual vem se avançando em anúncios e acordos deste então até a data.

China National Petroleum Corporation, Rosneft, Schlumberger, Horizontal Well Drillers, Baker Hughes, Halliburton, entre outras, ressaltam-se entre as corporações que subscrevem os últimos acordos. A chave do negócio está em aprofundar a flexibilização econômica dos marcos que os regulam, o que o presidente de Petróleos de Venezuela, Eulogio Del Pino, chamou “regime especial de investimentos” para que os projetos consigam seu pleno desenvolvimento [2]. Facilidades econômicas, taxas de câmbio flutuantes, zonas de desenvolvimento econômico especial, sócios estrangeiros que não só participam acionariamente mas que agora trazem o financiamento necessário para os negócios (em lugar dos desembolsos de caixa que assumia o PDVSA) [3], e algo importante: a cobertura dessas retribuições e dívidas com as corporações se baseia nos barris que provenham do aumento da produção [4]. Isto é, mais extrativismo para poder pagá-los. É o modelo de negócios da Faixa do Orinoco, que se projeto ao restante dos setores de nossa economia extrativista.

Conta-se também: a busca de reconexão de poços no ocidente da Venezuela (como os do Lago de Maracaibo), área de velhas explorações convencionais; relançamento dos grandes projetos gasíferos offshore (como Rafael Urdanetta), com o projeto Cardón IV na península de Paraguaná como ponta de lança, destacando a exploração do mega-campo “Pérola” na qual o investimento foi 100% privado (Del Pino dixit) – Repsol (50%) e Eni (50%) [5] -; reimpulsonamento e reativação de obras de infraestrutura para a exportação de commodities como o Porto de Águas Profundas da península de Araya (13/6) orientado ao comércio petroleiro principalmente no mercado asiático [6], a nova fase de construção do gasoduto Venezuela-Colômbia, o acordo do gasoduto entre a Venezuela e Trinidad y Tobago (PDVSA-NGC-Shell) [7] ou os portos para a produção de Carbozulia; nova fase histórica da mineração, com o processo de certificação de reservas, reativação de minas que caíram no período de crise ou abertura de outras novas em todo o país, como o Arco Minero do Orino e a conformação da empresa mista ‘Siembra Minera’ (Gold Reserve, ouro e cobre, empresa a que o Estado Venezuelano tem um dívida aproximada de 992 milhões de US$) [8] para a exploração do projeto “Las Brisas”; empresas mistas e memorandos de entendimento com companhias como Faoz (uma incógnita), Afridiam (Congo) ou China CAMC Engineerig para explorar coltan no município Cedeño, estado Bolívar; Endiama (Angola) [9], Guaniamo Mining Co. (EUA) e empresas sul-africanas não-anunciadas para explorar diamantes – em geral, as mineradoras menores costumam abrir caminho para a posterior aparição das grandes corporações mineradoras-; mas também destaca a reativação das minas do projeto de Lomas de Níquel (China Camc Engineering e Yankuang Group – sul de Aragua-Miranda)[10], reativação de Carbozulia (maio 2017) com vistas à estabilização e posterior expansão da produção de carvão [11] (Inter American Coal, China CAMC Engineering e Yankuang Group), seja nas minas já existentes ou em novas, como ‘Las Carmelitas’[12]; ou finalmente projetos menores de mineração não-metálica para a extração de fosfato em Táchira, mármore em Anzoátegui (empresa Canteras y Mármoles) ou silício em Lara.

Mas estas redes do capital que crescem e se expandem, estes novos métodos e marcos de negócios, não só evidenciam uma reestruturação econômica em desenvolvimento – certamente instável, contingente e maleável-, mas também revelam uma específica correlação de forças muito negativa para regimes de intervenção e protecionismo estatal, formas de nacionalismo econômico, e para o campo popular e a natureza. Neste cenário vão prevalecendo cada vez mais os interesses e agendas do capital transnacional, que traçam as rotas mais estáveis e previsíveis do rumo econômico a partir do mapeamento dos “recursos naturais”.

Nesta específica correlação de forças a Mesa da Unidade Democrática (MUD) não esteve à margem nem foi espectadora passiva. Muito ao contrário, tem sido ator principal para ir configurando-a, através de métodos cada vez mais extremistas que impulsionam este cenário do ‘capitalismo do desastre’. Porque, ainda que se declare no “Compromisso Unitário para a Governabilidade” que “a justiça social é a prioridade” e os “desfavorecidos e vulneráveis serão o objetivo central”, o horizonte constituinte desta coalizão política direitista conservadora foi neoliberal. Em muitos casos sem segredos (como o chamado ‘capitalismo popular’ de Maria Corina Machado). Em outros, que são a maioria dos casos, se escondem atrás de uma retórica vaga e generalista sobre o progresso, bem-estar e desenvolvimento, sem mencionar a prevalência de mecanismos de mercado, cortes, corporativização e desregulação. Mas apesar das sutilezas e tentativas de hermetismo a respeito, sempre afloram estas vontades e políticas neoliberais.

Para citar dois exemplos recentes, o conhecido empresário venezuelano Gustavo Cisneros apresentou que o modelo impulsionado por Mauricio Macri na Argentina pode ser o idôneo para a Venezuela pós-chavista [13]; e ainda que tenham criticado e sancionado até a saciedade o entreguista e devastador projeto do Arco Minero do Orinoco, em maio deste ano o presidente da Assembleia Nacional, Julio Borges, assegurava às transnacionais mineiras que assistiam ao ‘Latin American Downunder Conference’ na Austrália que “uma vez a democracia tenha sido restaurada… as portas estarão abertas para receber os investimentos” – our doors will be open to receive the investments–[14], o que segue em consonância com numerosas das propostas do bloco opositor de expandir o extrativismo no país.

A pergunta que surge ante esta entrada em cena e o desenvolvimento e expansão desta rede de capitais estrangeiros na Venezuela, é que tipo de modelo de governabilidade e controle social pudesse estar se gestando a partir da mão deste processo, e qual poderia ser o papel da violência no mesmo.

Adeus ao ‘neo-extrativismo progressista’: violência e novas governabilidades

Replicando o padrão histórico-colonial da divisão internacional do trabalho e a natureza, os investimentos estrangeiros na crise atual seguem dirigindo-se em proporções consideráveis aos setores extrativos – como se evidencia por exemplo no anúncio de ‘Alianças Estratégicas’ entre o Governo Nacional e empresas estrangeiras (21 de julho), onde cerca de 92% dos investimentos era para mineração e 8% para turismo [15]-. Não só não aparece o giro produtivo para poder paliar a situação de precariedade econômica interna, mas que o capital e as elites políticas locais estabelecem acordos de longo prazo que nos parafusa a um horizonte de extração e despojo, vinculado a cortes e desregulação.

Marcha-se o chamado “neo-extrativismo progressista”. O padrão que o caracterizou se dissolve: a possibilidade de construir consenso social pela via da distribuição massiva das rendas apresenta extraordinários limites; a programática governamental segue modificando-se progressivamente; como já se mencionou, continuam se produzindo mudanças significativas na correlação de forças; e o contexto internacional vai recrudescendo ainda mais a concorrência global pelos “recursos naturais”.

Neste sentido, e em relação à governabilidade deste provável novo extrativismo, cabe se perguntar se as diversas formas de violência que se desenvolveram no país são somente expressões de um conflito político conjuntural ou em troca estas também se instalam e se incorporam aos dispositivos de dominação, traçando as coordenadas de um regime de controle social em formação. Suas origens provêm de ao menos três escalas geográficas diferentes: uma violência imperial-geopolítica, uma estatal-nacional e uma social-molecular.

O contexto de intensa conflitividade e o colapso da economia nacional fizeram prevalecer os marcos de um estado de exceção (que até o momento foi setorizado), políticas de emergência e comoção, a crescente militarização de todos os âmbitos da vida junto a mecanismos de intervenção policial direta em bairros urbanos e rurais (como a chamada ‘Operação de Liberação do Povo’ – OLP). Isso não só se expressa nas atuais políticas do Estado, mas que se apresenta como o horizonte de ‘segurança’ dos partidos da MUD. Recordemos que o líder da oposição venezuelana, Leopoldo López, assinalou a necessidade de aplicar o modelo “exitoso” de segurança do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe Vélez, o qual poderia empregar-se de maneira imediata [16]. No “Compromisso Unitário para a Governabilidade” 2017 da MUD expressa-se como um dos primeiros objetivos de “um próximo governo” o “Plano efetivo e contundente contra a insegurança” (ponto 1.3).

Ressalta também o emprego de atores armados informais por parte dos grupos políticos em disputa, que exercem formas subterrâneas de controle social, gerando formas diretas de repressão e terror na população.

Ao mesmo tempo, o leque de operações de intervenção que foram impulsionadas ao menos desde 2002 pelos Estados Unidos para conseguir a ‘mudança de governo’ na Venezuela se fizeram cada vez mais explícitas e incisivas – veja as recentes declarações do diretor da CIA, Mike Pompeo, sobre seus esforços para obter a ‘transição’ no país [17]– e têm notável incidência no desenvolvimento da violência no país. Um potencial avanço e triunfos desta política norte-americana na Venezuela apresentaria uma transição desde mecanismos de financiamento de operações de inteligência e desestabilização até formas de militarização de impacto regional (em conexão com acordos como o Plano Colômbia) e estratégias de contra-insurgência como forma de controlar territórios.

Por último, mas não menos importante, também se registra o aproveitamento das crescentes formas de violência social-molecular produto das contradições sociais e territoriais (pobreza, exclusão, massificação da corrupção e a impunidade), em especial através da cooptação de grupos criminosos (urbanos e rurais) e a canalização de expressões de fascistização social (evidentes basicamente em setores de oposição ao governo) que não só geram crimes de ódio e tentativa de aniquilamento do ‘inimigo’ (chavista) mas uma profunda intimidação e terror na população em geral.

A imposição da ordem e a luta contra ‘agentes perturbadores’ serão apresentadas como os meios para a consecução da ‘paz’ – a ‘pacificação’. Nestes casos, é quando a paz e a guerra se confundem mais. Poderíamos nos apresentar reflexivamente a frase de Hannah Arendt quando afirmava em 1970 que a paz é a continuação da guerra por outros meios. Para o caso venezuelano, abriram-se já novas perguntas sobre novas formas de poder, sobre a evolução da estabilidade, sobre disputas territoriais pelos bens comuns. E sobretudo, perguntar-nos se terminaria de emergir uma nova versão da economia de enclave do século XXI. Perguntas que ademais, tocam e interpelam a todo o resto da América Latina.

Ressurgir do colapso do rentismo: reexistências e a recuperação das agendas próprias dos movimentos populares

Na Venezuela, todos os territórios e âmbitos da vida cotidiana estão em disputa. Qual é o horizonte, a estratégia, quando a guerra e o estado de exceção vão avançando como regime biopolítico para a acumulação de capital?

Quando a paz é invadida de guerra, vai se fazendo mais difícil saber que é e onde se encontra. Apesar disso, esta se converte numa prioridade. Mas é necessário ressaltá-lo: organizar-se para a paz implica reconhecer que esta também se tece desde abaixo, que supõe que é preciso ir fiando-a e expressando-a na vida nos territórios, recreando-a nas formas mínimas de convivência, respeito, consensos, deslocando para a guerra dos espaços que busca ocupar, através de resistências e vida. Trata-se do exercício das re-existências (como o colocara Adolfo Albán), na medida na qual se resiste aos diversos dispositivos de violência, exploração, exclusão e despojo da expansão capitalista, através também da reprodução da vida, de sua reafirmação através das práticas cotidianas e a construção de alternativas concretas.

No entanto, como se pode enfrentar semelhantes desafios quando o tecido social foi tão profundamente afetado, quando se vai transbordando o contrato social, quando a barbárie vai se normalizando, quando se extraviou de tal forma o sentido no país?

Novamente, é preciso olhar adiante. Ainda há muito o que resgatar. Ainda que este enfraquecimento do tecido social nos atravessa, não é uma condição estrutural ou definitiva. Toca voltar a olhar e a inventariar todas essas potencialidades existentes no campo popular venezuelano, suas expressões de democracia radical, suas experiências produtivas, suas narrativas e agendas próprias, as formas emancipatórias de seu dinamismo político aluvial. Apesar de que existam enormes obstáculos e debilidades, são finalmente estes fatores o substrato, a essência de qualquer processo alternativo a desenvolver-se nos próximos tempos.

Mas também os tempos convidam a reinventar-se. O giro histórico-político das lutas populares na Venezuela poderia estar na recuperação e re-centramento da dimensão territorial – abrindo-se intempestivamente caminho ante a irresistível primazia dos objetivos de escala nacional-; isto é, territorializar as lutas. Reconfigurar as localidades. E tecer comunidade, em meio das dificuldades. Construir desde já, alianças com outros setores do popular. Promover a criatividade, as éticas populares e o valor da dignidade. Sem todas estas bases materiais, estas expressões contra-hegemônicas seguirão carecendo de organicidade, se evidenciarão débeis ante os números dispositivos de guerra, terão uma alta dependência econômica do Petro-Estado e os setores privados e seguirão necessitando de resultados concretos em seus territórios para testemunhar esse mundo que sonham transformar.

O que nos resta para reivindicar quanto às grandes narrativas políticas? Não há um panorama claro a respeito. Mas ao menos, recuperar o sentido no âmbito nacional aponta em princípio retomar as demandas econômicas e políticas que uniram historicamente aos de baixo, união que reconfiguraria a polarização, que seria apresentada novamente entre os de cima e o vasto conjunto das classes desfavorecidas. E a isso teria que acrescentar as demandas de sustentabilidade e justiça ambiental, ante a crescente e dramática piora da situação dos ecossistemas, bens comuns e a vida ecológica que nos constituem. As dimensões da crise estrutural do capitalismo rentista venezuelano evidenciarão mais claramente estas rotas a transitar.

Convém ressaltar a situação de potencial não-pagamento da dívida externa unido à descomunal corrupção que devorou as contas públicas pode fazer convergir a numerosas organizações populares, movimentos e comunidades em torno a uma campanha nacional pela auditoria de todas estas contas do país. Se apresentaria além de uma oportunidade para evidenciar os vínculos da dívida e o desfalque com o extrativismo, na medida em que o respaldo material destes processos de despojo financeiro global contra a Venezuela são precisamente seus ‘recursos naturais’ e seus territórios. O relançamento do Arco Minero do Orinoco e todo o conjunto de projetos que buscam recolonizar velhas geografias e as novas fronteiras das commodities se realiza sob esta racionalidade. Desta maneira, poderíamos ter a convergência de lutas pela justiça na distribuição econômica e ecológica ao mesmo tempo. Algo nunca visto na história das lutas populares venezuelanas.

Estão para vir extraordinários desafios. A busca da paz navega em águas turbulentas. Toca não perder o centro e tomar o timão com força.

Caracas, julho 2017

*Emiliano Teran Mantovani é Sociólogo da Universidade Central de Venezuela, ecologista político e mestrado em Economia Ecológica pela Universidade Autônoma de Barcelona. Pesquisador em cieências sociais e menção honrosa do Prêmio Libertador ao Pensamento Crítico 2015 pelo livro “‘El fantasma de la Gran Venezuela’. Participa no Grupo Permanente de Trabalho sobre Alternativas ao Desenvolvimento organizado pela Fundação Rosa Luxemburgo, no Grupo de Trabalho CLACSO sobre ecologia política e colaborou com o projeto EjAtlas – Justicia Ambiental com Joan Martínez Alier. Faz parte da Red Oilwatch Latinoamérica.

[1] http://www.asambleanacional.gob.ve/documentos_archivos/compromiso-de-gobernabilidad-de-la-mud-47.pdf

[2]http://www.avn.info.ve/contenido/proponen-para-faja-petrol%C3%ADfera-del-orinoco-r%C3%A9gimen-especial-inversiones

[3] https://www.youtube.com/watch?v=ECFjxwNUmfU&feature=youtu.be

[4] http://www.avn.info.ve/contenido/consejo-nacional-econom%C3%ADa-productiva-se-re%C3%BAne-palacio-miraflores

[5]https://www.repsol.energy/es/sala-prensa/notas-prensa/2015/07/06/repsol-pone-en-marcha-el-megacampo-perla-en-venezuela

[6]http://www.eluniversal.com/noticias/economia/venezuela-china-acuerdan-inversiones-petroleras-por-4250-millones_656744

[7]http://www.telesurtv.net/news/Venezuela-y-Trinidad-y-Tobago-construiran-gasoducto-20170315-0063.html

[8]http://vtv.gob.ve/siembra-minera-se-perfila-como-empresa-mixta-no-petrolera-mas-grande-en-venezuela/

[9]http://vtv.gob.ve/presidente-maduro-sostendra-encuentro-con-representantes-de-angola/

[10]http://avn.info.ve/contenido/venezuela-y-china-firman-acuerdo-400-millones-d%C3%B3lares-para-actividades-mineras

[11]https://www.aporrea.org/economia/n309632.html

[12]https://www.aporrea.org/actualidad/a243086.html

[13]https://www.efe.com/efe/america/ame-hispanos/cisneros-cree-que-fin-de-la-crisis-venezolana-pasa-por-cuba-colombia-y-eeuu/20000034-3263847

[14] https://laradiodelsur.com.ve/2017/05/17/ministro-arreaza-denuncio-intento-de-boicot-por-parte-de-julio-borges-hacia-desarrollo-minero-de-venezuela/

[15] http://vtv.gob.ve/inversion-extranjera-631-millones-370-mil-dolares-firmaron-empresas-privadas-en-alianzas-estrategicas-de-motores-turismo-y-mineria/

[16] https://www.youtube.com/watch?v=L-MQIeCOPCY

[17] Pompeo afirmou em 20 de julho passado que esperava que se produzisse uma ‘transição’ na Venezuela e que trabalhavam duro para compreender as coisas que ali ocorrem e comunicá-las ao Departamento de Estado e aos governos da Colômbia e do México de maneira que obtivessem os melhores resultados possíveis https://www.youtube.com/watch?v=e1vFn3_5Xbw. Várias fontes revelaram as diversas operações de intervenção que se têm aplicado desde o início da Revolução Bolivariana. Por exemplo, dezenas de milhares de telegramas revelados pelo Wikileaks revelaram apoio a opositores ao governo, desde a época do presidente Chávez. Citando um caso, a contratista USAID/OTI  ‘Development Alternatives Incorporated’ (DAI) reconhecia que os que organizavam os protestos contra o presidente Chávez em 2009 eram “nossos financiados’ – ‘are our grantees’.

https://wikileaks.org/plusd/cables/09CARACAS1132_a.html