Crónica /1/2/  VOTAR EM MEIO A UM ESTADO POLICIAL//PREPARAR GREVE GERAL DO 3-O

Alfons Bech

 

Escrevo esta crônica de maneira urgente. São seis da tarde e tenho que voltar ao colégio eleitoral para garantir as urnas até as 8 da noite. Se conseguir estarei em outra de noite.

O povo catalão está votando em meio a um Estado policial. Centenas já foram aos mais de dois mil colégios eleitorais já durante a noite, dormindo lá. Até as 5, seguindo as orientações, se concentraram muitos mais.

Os Mossos, que são a polícia catalã, têm feito visitas aos colégios desde a madrugada. No meu colégio vieram às 4 mas foram embora. Voltaram às 7 e, diante da impossibilidade de acessar o colégio por conta das centenas de pessoas que os impediam, optaram por retirar-se e ficar a metros do colégio. Cumpriram as ordens de não provocar males maiores e garantir a segurança das pessoas acima de tudo, tal qual havia ordenado-lhes o Governo catalão e o Chefe dos Mossos, o Major Trapero.

Por respeito aos Mossos esse tem sido seu tom de atuação por todas as partes. Ao contrário, as tropas da Guarda Civil, que é um corpo militar, e da polícia nacional espanhola saíram a partir das 5 da madrugada por ondas do porto de Barcelona e outros lugares com grupos de dezenas decaminhonetes. Antes das 7 já se via o que seria sua atuação durante o dia: repressão pura e dura. Na Catalunha estão agora concentrados três quartos de todos os corpos especiais antidisturbios. O Governo de Madri tem claro a todo momento: “A por ellos!”

Durante o dia inteiro estas tropas policiais estiveram reprimindo, perseguindo, derrubando portas com marretas, quebrando ossos, retirando manifestantes aos empurrões ou atirando-os pelos ares. Também lançaram gases em algum colégio e em outros atiraram balas de borracha (proibidas no território da Catalunha pelo Parlamento) e cartuchos. No total até agora constam 465 pessoas feridas e com contusões, algumas de forma grave, como um homem com um tiro de bala de borracha em um olho.

No entanto a população segue firme, a postos. Se fecham um colégio porque levam as urnas e as cédulas vão a outro, pois o Governo habilitou esta opção de ter o censo via internet. A Guarda Civil e a Polícia concentraram seus primeiros esforços em impedir a votação em determinados colégios de Barcelona e também nos três que votam o Presidente, Vice-presidente e Presidenta do Parlamento, onde foram vistas cenas muito violentas. Em qualquer caso não puderam impedir que estas autoridades votassem e o fizeram em colégios próximos, sendo também entrevistados pela televisão catalã. As televisões espanholas ignoraram a batalha que estava acontecendo bem como a TVE seguia com seus noticiários nacionalistas espanhóis justificando todas as atrocidades policiais.

 

O mais admirável é ver como o povo aguenta o peso, como resiste, como enfrenta com as mãos para o alto. Uma mulher jovem da qual um policial quebrou um por um os dedos de sua mão, foi ao hospital e logo voltou a votar. Outros fizeram o mesmo depois de tratar de seus ferimentos. As imagens desse enfrentamento entre o Estado armado e o povo desarmado mas seguro, valente, com a cabeça fria, com certeza darão a volta ao mundo.

1 de Outubro 19.30

Cronica /2/ PARA A GREVE GERAL

O Conselheiro porta-voz do Governo, Jordi Turull, acaba de fazer um breve pronunciamento.  Com seus dados encerro esta crônica de urgência. Catalunha votou como é: um povo livre, cívico, democrático. Ao contrário a Guarda Civil e Polícia espanhola atuaram como autênticos selvagens, sem “resposta proporcional”. Há 465 feridos. Dos dois mil e pouco fecharam só 319 colégios. A Espanha se mostrou a vergonha da Europa, violando os direitos humanos mais elementares. Irá aos Tribunais internacionais. O dia será longo, ainda nos falta a contagem e pedimos paciência, dadas as circunstâncias. Não sei quantos votamos mas posso dizer que poderemos contar com milhões.

 

A recontagem está já feita em quase todos os povos e bairros das cidades. Entretanto ainda não há cifras. Sem dúvida esta votação foi a que mais obstáculos teve que todas as que vi. O presidente Puigdemont falou que milhões. O porta-voz do Govern disse 3 milhões. Parece que a afluência tenha superado a da consulta do 9 N. Para mim, só que se aproximasse da cifra de 8 de novembro de 2015 seria uma vitória: 2 milhões 300.000.

A cifra de feridos vai em aumento: 844. A luta foi dura, muito dura. Mas a sensação é de vitória. E que o Estado espanhol se afundou no mais fundo da vergonha democrática internacional. Na verdade Rajoy, o PP, seu escudeiro Cidadãos e muitos líderes do PSOE jamais tiveram vergonha democrática. Para terla teriam que saber no que consiste a democracia e essa gente vem do franquismo.

Os observadores internacionais se ficaram chocados. Jamais tivessem imaginado que a Espanha era assim: “isto não é democracia”, hão dito muitos deles. Outros advertiram já que denunciarão a Espanha ante o Tribunal Europeu de Direitos humanos. Até os jornalistas do canal de televisão espanhola manifestaram sua “vergonha” ante a programação que tem feito do acontecimento. Entretanto a Comissão Européia segue considerando a violação das normas elementares da democracia na Espanha, como um “assunto interno”. Se parece tanto ao que fez a Europa quando abandonou a República espanhola a sua sorte ante Franco, Hitler e Mussolini… Isso é a Europa atual: hipocresia.

portanto agora aos catalães só cabe consolidar sua vitória contando com suas próprias forças. As esquerdas espanholas chegarão…mas vão um pouco tarde. E o apoio internacional ainda é reduzido. Todo isso muito valioso, mas insuficiente para parar o golpe de estado que estão dando PP, Cidadãos e com o PSOE olhando para o outro lado. portanto se trata de organizar as forças para seguir na segunda-feira, na terça-feira…e toda a semana que segue. Possivelmente haja mais detenções. Possivelmente tentem aplicar o artigo 155 de suspensão da Autonomia. E o Govern tem que reagir e cumprir o que aprovou o Parlament: declarar a independência e abrir o processo constituiente da República Catalã.

Por isso não há mais remedeio que contra com os grandes sindicatos operários, inclusive se tiverem ido arrastando os pés na defesa do direito a decidir. Agora têm uma cobertura: é a Taula em defesa da democràcia (Mesa em defesa da democracia). Hoje acordou e apresentou a proposta de realizar concentrações nas empresas e na Universad de Barcelona amanhã segunda-feira às 12. E na terça-feira realizar uma “parada de país”.

Terá que utilizar tudo o que sirva para organizar-se. A luta segue. A classe trabalhadora deve discutir em Assembléias o que passa, o que se joga, como se organiza. Terá que preparar a greve geral, quão única pode realmente parar o golpe de estado incluso se detiverem o Puigdemont e se declararem o Estado de exceção, agora de maneira aberta. Será uma semana decisiva. Terei que fazer mais crônicas.

23’30 de 1 de outubro

Alfons Bech