Alfons Bech (La Aurora) – 11/10

Hoje, 10 de Outubro, consumou-se a independência da Catalunha. O presidente Puigdemont compareceu ao Parlament e proclamou o resultado da votação do referendo de 1 de outubro. Em conseqüência, o resultado foi a proclamação da Catalunha como Estado independente em forma de República.

Mas imediatamente o Presidente suspendeu esta declaração de independência “durante algumas semanas”, com o objetivo de buscar uma mediação com o Estado espanhol.

A sessão parlamentar criou uma expectativa internacional, nunca vista na Espanha. Mil jornalistas de quase todas as nações e continentes assistiram ao ato parlamentar e à concentração de milhares de pessoas que houve no Paseo Lluís Companys (nome da rua do Presidente catalão assassinado por Franco), seguindo o acontecimento por meio de telões gigantes. Os camponeses foram à concentração com seus tratores.

A intervenção de Puigdemont foi muito boa em toda a primeira parte. Deixou claro o caráter antidemocrático das atuações judiciais e policiais do Estado. Rememorou a luta dos milhões de pessoas que participaram na votação, aguentando as brutais cargas policiais. Mostrou como a chamada “transição” foi um engano para o povo catalão (engano do qual seu partido participou). Um discurso pulcro, democrático. Muito aplaudido na rua, com emoção contida.

No entanto, na segunda parte não convenceu a muitos dos espectadores que vaiaram quando apresentou a “suspensão” da declaração de independência. A maioria era composta por jovens da CUP. A sessão já havia começado uma hora mais tarde precisamente porque a CUP queria revisar o discurso de Puigdemont com o qual não estava de acordo. Houve momentos de tensão que logo se plasmou no discurso da parlamentar Anna Gabriel, da CUP. O que não me convenceu foi a falta de referência a uma República avançada socialmente. Lógico: Puigdemont é do PDCAT, partido burguês. Entre os milhares de espectadores, as esquerdas independentistas compartilharam cartazes que chamam a “abrir o processo constituinte”. Foram muito bem acolhidos.

O objetivo declarado da suspensão é a busca da mediação e o reconhecimento internacional do direito à autodeterminação. O primeiro, apesar de que haja ainda muitas sólidas ofertas de mediação internacional, não se sabe se vai conseguir. O segundo já está sendo conseguido. Os meios de comunicação internacionais destacaram essa atitude aberta de Puigdemont e criticaram a intransigência de Rajoy.

A vice-presidenta Sáez de Santamaría saiu imediatamente depois da sessão do Parlament a dizer que amanhã se reúne excepcionalmente o Governo espanhol “para estudar se aplica o artigo 155” de suspensão da autonomia.

Amanhã analisaremos o conteúdo da declaração de independência e proclamação da República catalã, assim como as reações de sua suspensão temporal. A última proclamação de uma República catalã durou 10 horas. Foi em Outubro de 1934.