por Alfons Bech (La Aurora) – 06/10

Custa muito ver o quão complexa é a realidade quando se está no meio do redemoinho. Mas tratarei de fazer uma análise o mais objetiva possível, para além dos meus próprios sentimentos e emoções.

Creio que a Catalunha está numa situação revolucionária desde 20 de setembro. O povo saiu às ruas massivamente neste dia para defender suas instituições e não chegou a uma situação de enfrentamento por puro autocontrole. Nem os Mossos nem a polícia nacional, nem a Guarda Civil estavam preparados para fazer frente a tamanha massividade. Dezenas de milhares de cidadãos e cidadãs que se aglomeraram nas portas das respectivas circunscrições quando iam fichar e deter altos funcionários do Govern. Ao final, de madrugada, depois de um dia inteiro de cercar a Caosellería de Economía, os líderes de ANC e OMNIUM conseguiram a duras penas convencer aos manifestantes para que voltaram a suas casas. Somente assim pôde sair a Guarda Civil.

O Estado não pôde reagir no momento adequado. E o povo catalão o fez com ausência de violência (só o vidro de um carro quebrado). Mas os que dirigem esse Estado monárquico, semi-franquista, sim sabem de ódio e de vingança para os catalães. Puseram em marcha a maquinaria midiática, judicial e policial para exercer uma repressão jamais vista desde tempos da ditadura franquista. Isso fizeram em 1 de Outubro e muitas dessa imagens estremeceram o mundo.

Não lhes importou o que viesse e dissesse Europa, nem o mundo. O Estado espanhol de 78 é assim. Remonta à brutalidade fascista do golpe de 36. Remonta aos massacres de 1640 e 1714. Remonta ao genocídio e ao saque imperialista das colônias depois do ‘descobrimento’ da América. É ‘sua’ lei. É ‘sua’ ordem. Todo povo que pretenda discuti-lo ou negociá-lo é considerado traidor a ‘sua’ sacrossanta ideia de ‘unidade de Espanha’. O direito à autodeterminação reconhecida pelas Nações Unidas é para os demais, não para Espanha “Una, Grande e Livre”. E quem tente esse ‘desafio’ só pode esperar guerra. Europa aguentará, pensam, porque tampouco lhes interessa o desmembramento da Espanha por uma revelação democrática no Sul. E o certo é que até agora a Europa olhou para o outro lado. Reagiram os trabalhadores e povos europeus?

Não é um tema somente do semifranquista PP. É uma Santa Aliança Reacionária. Manda-chuvas supostamente ‘socialistas’ assinaram um documento pedindo mão dura e ‘aplicação da lei’. Alfonso Guerra, ex-vice-presidente socialista, rivaliza com Aznar em exigir de Rajoy que ‘não tire a mão’ e acusando-o que é um frouxo. Bom, outro ‘socialista’ ex-ministro da Defesa, pede a cárcere para Puigdemont. E o secretário-geral do PSOE, Pedro Sánchez, fica mudo.

As hostes fascistas que sempre houve na Espanha, até hoje tranquilas trabalhando desde dentro do PP, agora já saem às ruas a dizer “A por ellos!” (NdT: “Para cima deles!”). Cada discurso do jovem falangista Albert Rivera, líder dos Ciudadanos, é uma contenda para esmagar a rebelião catalã. De fato, a Santa Aliança Anticatalã, monárquica, vai de PP, PSOE e Ciudadanos. Os socialistas catalães se debatem entre a traição a Catalunha e a lamúria de pedir uma mediação.

Não é um tema só dos políticos. Já começou a ‘operação esvaziada de empresas’. O Banco Sabadell já mudou sua sede oficial de Catalunha para outra sede em Alicante, Espanha. A Caixa Bank, mais importante ainda, um dos grandes da Espanha, está decidindo isso hoje em seu conselho de administração. O governo Rajoy está mudando leis para que bancos e empresas possam fazer essa mudança, por meio da decisão de poucas pessoas, os conselhos de administração, em lugar das assembleias de acionistas onde participam muitos setores populares no caso de Caixa Bank. Outra lei para favorecer aos bancos e sua falta de transparência.

O argumento dos líderes destes bancos é que se não o fazem ‘ficariam sem cobertura’ do Banco Central Europeu, coisa que muitos especialistas discutem. Na realidade, facilitam as ‘saídas expressas’ para meter medo. E os mais ricos burgueses e banqueiros catalães aproveitam a ocasião. Jamais estiveram a favor de uma República catalã. Com a monarquia, desfrutaram de maravilhas. Sobretudo quando o Governo espanhol resgatou a banca, o que estamos pagando com cortes na Saúde, Educação, Serviços Públicos, investimentos produtivos. Espanha está endividada pela maior crise social jamais ocorrida. Mas resgatar os bancos com 50 bilhões de euros era ‘legal’.

A greve geral, chamada ‘paralisação regional’, de terça-feira (3/10) demonstrou a potencialidade do movimento revolucionário. Em poucos dias mobilizaram milhões. Cerca de três milhões no domingo. Mas na terça-feira aos já mobilizados se somaram os que, sem ser independentistas, já não querem viver sob um regime que reprime tão brutalmente.

As mobilizações seguem. Constituem-se Comitês de Defesa do Referendo – CDR. Pois disso é o que se trata. Puigdemont rebateu o Rei bourbon: ‘assim não”. Todos os partidos espanholista se escandalizaram porque Puigdemont, embora com bons modos, lhes pede diálogo, sendo recriminado que não tenha dito nada sobre os 900 feridos pela Guarda Civil e porque… fala de igual para igual com o rei! ‘Que atrevimento!’ exclamou a vice-presidenta Sáez de Santamaría, da ala mais dura.

Várias iniciativas foram colocadas em marcha para entabular um diálogo entre Govern e Governo espanhol. Ninguém se atreve a mencionar a palavra ‘negociação’. Mas Rajoy segue em sua ladainha: ‘não há diálogo com os que desrespeitam a lei e querem romper a unidade da Espanha’. Nem as iniciativas da Suíça, nem os Arcebispos e Vaticano, nem os Juristas onde também estão os sindicatos CCOO e UGT… e seguramente há muitas mais, puderam até agora fazer raciocinar aos que dirigem o Estado espanhol. Puigdemont parece que estaria disposto a não propor já a declaração de independência na próxima segunda-feira… se o Estado advém a celebrar outro referendo com mais garantias. Mas, o que se pôde celebrar é o válido. Isso é o que grita o povo ao final do dia 1: “votamos!”. O povo catalão não vai aceitar um passo atrás.

Entretanto, começa a haver defecções dos dois lados. Um conseller do Govern,, o de Empresas e Cultura, pediu num artigo no diário ARA alguns meses para poder negociar uma saída. A posição dos sindicatos na greve foi muito tíbia. Mais importante foi o povo, a juventude e até a uma boa disposição dos empresários. Mas tudo isso está provocando muito debate interno. Também mandos intermediários da polícia nacional apresentaram um escrito muito crítico com seus superiores e responsáveis políticos do operativo do 1-O, denunciando que eles foram ‘levados ao matadour’ e que não entendem nada do que passa na Catalunha, pedindo perdão pela atitude de alguns companheiros.

A tensão que provoca a repressão e ameaças de suspensão da autonomia ante o que possa ser este pleno do Parlament de segunda-feira, 9 de outubro, polariza a sociedade catalã desde o ponto de vista política. Ainda não houve uma fratura social, mas pode havê-la. De fato, o PP e os Ciudadanos, junto com alguns líderes ‘socialistas’ estão promovendo e difundindo falsidades e mentiras sobre os catalães e chamando a parar o ‘golpe de Estado’ de uma declaração de independência.

No domingo haverá uma manifestação em Barcelona contra a independência promovida por uma plataforma que reúne diversos setores, mas cujo cimento é o anticatalanismo. Os fascistas comparecerão a ela, mas os discursos finais ficarão a cargo de uma cineasta e e de um ex-ministro socialista, catalães. A consigna das organizações soberanistas é não ir a contramanifestação por medo de cair em provocações que justifiquem a instauração do Estado de exceção por ‘tumultos’. No outro extremo, também há ações e reuniões preparatórias desses comitês de defesa unitários por bairros e povos.

Ontem em Sant Boi del Llobrega houve uma dessas concentrações dos comitês, silenciosa, contra o arranjo de uma velha caserna militar para acolher mais policiais. Também há assembleias operárias de sindicalistas favoráveis à independência. Em algumas cidades, os socialistas são tirados de muitos governos municipais ao realizar-se alianças entre os demais partidos. Em outras os socialistas apoiaram a celebração do referendo. Em Terrassa, cidade operária importante onde houve das maiores mobilizações nesta greve geral, o prefeito socialista já anunciou que vai se demitir e sairá do partido se o PSOE apoiar a aplicação do artigo 155 de suspensão da autonomia.

Tudo segue cada vez mais rápido e se prepara a tormenta. O tempo para a mediação se esgota. A segunda-feira, 9 de outubro, pode ser outro dia decisivo. Seguiremos informando.