Alfons Bech (La Aurora)

Hoje houve uma grande manifestação antiindependência em Barcelona. Os organizadores dizem que compareceram quase um milhão de pessoas. A polícia local diz 350 000. Atendendo às cifras que se deram pela ocupação das ruas do centro na última manifestação da Diada, a estimativa está mais perto da segunda do que da primeira. Em qualquer caso, foi grande. E ainda que tenham vindo de todas as partes do Estado ‘apoiar’ que Catalunha não se independentize, uma boa parte eram catalães.
É curioso que muitas pessoas catalãs entrevistadas disseram que ‘era a primeira vez iam a uma manifestação’. Algumas insistiam em que ‘nunca’ tinham participado em nenhuma. Em Barcelona e na Catalunha, centenas de manifestações ocorreram nos últimos anos: em favor da acolhida dos refugiados, em solidariedade com as vítimas dos atentados, em favor das pessoas que lutam por moradia, seu pão, seu teto… Mas algumas dessas pessoas acusavam os catalães de não serem solidários. Outras, fascistas, agrediam um africano, Mossos e cidadãos.
Ontem, sábado, houve também manifestações ‘brancas’ em Madri, Barcelona e outras cidades. A mídia disse que eram ‘espontâneas’, convocadas pelas redes. Pelas reações favoráveis me parece que as ‘brancas’ estiveram pessoas próximas aos socialistas, Izquierda Unida e Podemos. Manifestações a favor do diálogo entre os governos. Boas intenções.
Mas a de hoje de Barcelona foi uma manifestação convocada tanto pela extrema-direita fascista (VOX, por exemplo), quanto por socialistas do PSC e do PSOE, por assinantes de uma manifesto intitulado “Izquierdas não-nacionalistas”, além do PP e dos Ciudadanos. Líderes de todos esses partidos e agrupações participaram juntos e estiveram nos discursos finais. Estamos, portanto, ante uma operação ampla, não-improvisada. Foi a manifestação da União Sagrada para combater o indepedentismo, com discursos duros. Todos juntos, “a por ellos!” (‘para cima deles!”)
Correspondentes de imprensa britânicos mostraram sua preocupação com que em tal manifestação tenham se visto fascistas com o braço para o alto, sem que ninguém lhes tivesse admoestado. Também se viu confraternização com as tropas da polícia nacional e com a Guarda Civil. E até uniformizados da Legião Espanhola com seus tambores e corneta, tocando hinos patrióticos.
Tudo isso enquanto mais de dez grandes empresas e bancos, de comum acordo e graças a um decreto do Governo Rajoy, deslocaram-se com urgência suas sedes a outras localidades, mostrando sua ‘ameaça’ à proclamação da independência na Catalunha,
E então, é possível a mediação entre a Catalunha e Madri? Muitos países através de consulados, muitos meios de comunicação internacionais em suas páginas, inclusive ofertas abertas como a da Suíça ou do influente grupo de especialistas The Elders, tratam de abrir um diálogo entre ambos os governos. Puigdemont disse que está disposto a sentar e conversar ‘até o último minuto’. E Rajoy? As declarações a El País são sua resposta: “Não necessitamos de mediadores”. Ainda que para manter esta posição fale de manter as tropas da polícia e da Guarda Civil, de suspender a autonomia e até a possibilidade de um governo de concentração nacional. Sim, um governo de União Sagrada, como a manifestação.
Os independentistas e soberanistas deixaram as ruas para essas pessoas. Um grito destacou-se por cima dos demais: “Prisão para Puigdemont”. Na terça-feira, haverá reunião plenária do Parlament onde comparecerá Puigdemont. Em princípio, fará uma declaração de independência. É o que aprovou o Parlament com sua lei uma vez celebrada a consulta. As mais de 2 milhões e 200 mil pessoas que votaram (mais outras 700 000 que não puderam) fizeram isso desafiando os porretes e os golpes. Apesar de todas as dificuldades, o espírito é de que não marcha para trás.
Alfons Bech
8 de outubro de 2017