Pedro Fuentes

 1 – A revolução tecnológica da eletrônica, e com ela a invenção de novas ferramentas revolucionárias de comunicação, informação e conhecimento, significaram um avanço no desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo nesta fase de globalização. Este avanço é o mais contraditório que se produziu no sistema de domínio das grandes corporações e do rentismo. É possível refletir, se é produtivo ou destrutivo na mão dos capitalistas, ainda que este não seja o eixo deste texto.

Sem essa revolução não seria possível ter produzido o rápido e imparável movimento do capital financeiro à serviço do rentismo, a cadeia mundial de produção, os bombardeios e matanças nas guerras com drones que destroem famílias e populações (não por acaso a internet foi uma invenção das forças armadas dos EUA), e a vigilância estrita que o estado (em particular os EUA) realiza da vida das pessoas através dos donos destas corporações. Junto ao desenvolvimento da biotecnologia, que pode incidir nas condutas e no comportamento humano de forma seletiva (se somamos aos “fatos alternativos” do Governo Trump), é possível pensar na extraordinária visão do livro “1984” de George Orwel, trotskista combatente da guerra civil espanhola que tem sido muito lido por demonstrar os perigos reais que tem para a humanidade.

2 – Ao mesmo tempo, dotaram o movimento de massas de novas formas de comunicação conhecimento e ação, para nos voltarmos contra as classes dominantes e seu estado. É verdade que sem internet não seria possível compreender a velocidade e coordenação que tiveram as revoluções árabes do Egito e Tunísia, os indignados da Europa e EUA, ou mesmo o Argentinazo. Essa rapidez de informação, e o desenvolvimento de meios alternativos de informações tem que ser também (e é), rapidez para a organização. Estamos a utilizando e temos que fazê-lo melhor para combater nossos inimigos de classe. Basta imaginar o que teria sido a internet nas mãos de Lenin e Trotsky!! Ao mesmo tempo, é importante refletir sobre como sem internet, as massas e o partido bolchevique conseguiram fazer a revolução de outubro!

3 – É inquestionável a melhora da qualidade dos métodos de informação, comunicação e organização dos marxistas revolucionários. Temos internet para nos comunicarmos e informarmos! Temos Skype para reunirmos! Isso não substitui nossa essência: a totalidade do marxismo como ciência, a teoria da revolução e do partido, de sua organização, o caráter de militante e militante profissional que são nossas ferramentas principais. Devem ser meios que facilitam as ferramentas que mencionamos. A internet os enriquece: melhora a ação dos partidos perante o movimento de massas, melhora a organização dos revolucionários, a capacidade de comunicação e informação dos militantes, a capacidade de trabalho de todos; os militantes profissionalizados, os profissionais por vocação e os que ajudam de uma ou outra maneira.

4 – Neste marco, que indica que temos que utilizá-la e utilizá-la cada vez melhor, de forma cada vez mais profissional (como falava Lenin sobre superar os métodos artesanais e ter os especialistas, que neste terreno são decisivos) temos que fazer um debate fraterno sobre certas deformações que a internet está provocando em nossa militância. Como não são todas do mesmo nível, vamos enumerar primeiro e em seguida focar nas mais importantes, que são de vida ou morte para a organização. A lista inclui facilidade de contato que debilita as reuniões de núcleo ou célula; frouxidão organizativa; diminuição de importância de documentos escritos e sua periodicidade; perda de controle de organismos, balanço dos organismos, dos militantes e cotização financeira. Todas essas são questões importantes que fazem a essência da militância revolucionária e sua organização.

Mas queríamos insistir em um só ponto que parece ser o mais importante: a despolitização. O que é a despolitização? Significa um pacote de coisas, em essência para um marxista significa militar com déficits do que deve ser o combustível fundamental que move a ação do militante; sem consciência do que se está fazendo, do porquê e para que, de seu dia-a-dia, desde sua rotina até seus objetivos estratégicos. Sem politização acaba primando o pragmatismo e/ou o empirismo que nos leva (ou pode nos levar) para fora da curva, à adaptação a pressões de outras classes, outros setores e também da institucionalidade.

Nos parece que as ferramentas de internet foram transformadas em um hábito mal utilizado que está ajudando a despolitização. Isso não significa dizer (voltamos a insistir) que é uma ferramenta ruim. O que estamos dizendo é que cria hábitos de vício que não tem compensação ou retroação. E este não é um problema de um ou outro militante, em primeiro lugar, é um problema de direção.

5 – O marxismo se concretiza em um programa, e este em política e organização para levar-lhe adiante. É uma praxis, e a praxis é a síntese entre a teoria e a ação. Não se trata de um jogo de palavras. Não há ação sem teoria e não há teoria sem ação, o que se concretiza na organização como um todo e em cada militante como sujeito da mesma.

O que estamos querendo dizer é que para essa dialética o Facebook, o Whatsapp e outros, criam um modo de pensar ruim, deformado, que não ajudam na ação consciente. O Facebook é uma boa ferramenta de comunicação e mais relativamente de informação, porque não supera a leitura metódica dos meios de comunicação (gerais e da esquerda) para que cada militante se informe sobre o que acontece no mundo e no Brasil. Mas não servem para a politização, que tem que ter como base de sustentação a formação, e para isso a ferramenta principal é o estudo. O Whatsapp serve para comunicação e informação, mas não serve para pensar sobre situações e objetivos. Pelo contrário, cria um pensamento imediatista e repentista, que vai contra a ferramenta fundamental do conhecimento que é o pensamento científico.

 6 – O marxismo é uma ciência totalizante: que revolucionou a história e a fez científica a através do materialismo histórico; que revolucionou a forma de compreender os mecanismos da economia, despindo-a do fetichismo para vê-la como relação entre mulheres e homens; que revolucionou a sociologia (toda a outra sociologia era charlatã); que revolucionou a filosofia e a lógica, criando a lógica dialética ou lógica marxista que revolucionou a maneira de pensar. É uma totalidade que permite compreender o mundo para transformá-lo e isso significa também compreender cada situação concreta que se apresenta para nós. É combustível imprescindível para que um quadro ou dirigente de núcleo possam atuar perante uma mobilização, a uma direção para ter caracterização e política concreta para seu setor, etc.

7 – Há dois grandes mestres e monstros da lógica, ou seja do conhecimento, que tem como sua ferramenta principal o pensamento científico. Nos referimos a Hegel e Marx. Hegel – Marx ou Google – Facebook? Eis a questão, usando um dilema shakesperiano. Sem Marx e Lenin (e em menor medida Hegel) não podemos enfrentar o pragmatismo e o empirismo. Eles nos mostram a força do pensamento e da praxis. Hegel é muito rico pois de todos os seus textos flui a “terrenalidade”, é dizer a força que tem o pensamento em si mesmo. E Hegel foi quem descobriu o pensamento dialético, a plasticidade, a reflexão, a abstração o movimento através do contraditório e da totalidade. Ele fez um sistema no qual elevou o pensamento ao absoluto (o converteu em realidade), mas não por isso sua dialética deva ser verdadeira.

O pensamento não muda nem produz a realidade, mas é a força mais importante que temos para modificar a realidade via a praxis. Relendo algumas partes (com o tempo incorporo outras): “ então como o pensamento subjetivo é nosso mais próprio ato íntimo , e o conceito objetivo das coisas constitui sua natureza, não podemos sair daquele ato, não podemos nos sobrepor a ele e tampouco podemos sobrepassar a natureza das coisas”. Hegel ensina que para não sairmos desse ato (do pensamento científico), devemos tomar distância do contingente, do imediatismo, para saber abstrair, refletir e encontrar a essência dos processos que enfrentamos.

Marx superou Hegel. Negou seu sistema absoluto, mas conservou sua dialética. Para superar o idealismo hegeliano que transformava o pensamento em um sistema em si mesmo (no absoluto), a filosofia teve que passar pelo materialismo insuficiente de Fuerbach. Foi uma estação de passagem para afirmar o materialismo dialético, única lógica que permitiu descobrir as leis do movimento do pensamento. Uma síntese brilhante de seu método que temos de tratar de utilizar está na introdução dos Grundisses “O método da economia política”. Talvez esse extrato que trazemos seja insuficiente e por isso seja necessário estudar individualmente e em grupo este capítulo completo, além da “Lógica dialética” de Novak e “Lógica marxista e ciências modernas” de Moreno. Essa frase que segue é histórica, desatou e desata muitas polêmicas entre os marxistas e Moreno nos ensinou a interpretar.

Referindo-se a por onde começar na economia política, disse Marx nos Grundisses (manuscritos, 1858): “Parece ser correto começar pelo real e pelo concreto, pelo pressuposto efetivo, e, portanto no caso da economia política por exemplo começar pela população, que é o fundamento e o sujeito do ato social da produção como um todo. Mas considerando de maneira mais rigorosa isso se mostra falso. A população é uma abstração quando deixo de fora as classes que a constituem. Essas classes, por sua vez, são uma palavra vazia sem os elementos sobre os quais se baseiam. Por exemplo trabalho assalariado, capital, etc. Desta maneira, se eu fosse partir da população, se trataria de uma concepção caótica do todo; e então, por meio de uma determinação mais precisa, pela análise, se chegará até conceitos cada vez mais simples do concreto representado (figure em francês) um passará para abstrações cada vez mais simples (mincé, valiosas em francês). A partir daí se deverá fazer a viagem de retorno para finalmente chegar na população, mas desta vez não como representação caótica do todo, senão como uma rica totalidade de múltiplas determinações e relações (…) Este último é manifestamente o método científico correto. O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas abstrações, e por isso a unidade na diversidade. Por essa razão o concreto aparece no pensamento, como um processo de síntese, como resultado, não como ponto de partida, não obstante seja o ponto de partida efetivo (o real) e, como consequência também o ponto de partida da intuição e da representação”.

“No primeiro caminho (o velho método da economia política) a representação plena foi volatilizada em uma determinação abstrata (se refere a valor, dinheiro, etc. as representações simples); na segunda, as determinações abstratas levam a reprodução do concreto por meio do pensamento” (um concreto pensado). “É por isso que Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento, que se concentra nele mesmo, se aprofunda nele mesmo, e se move por si mesmo, enquanto o método de elevar-se do abstrato ao concreto (pelo pensamento) é somente a maneira de apropriar-se do concreto, de reproduzi-lo sobre a forma de um concreto pensado”. (parênteses nossos). Moreno era um especialista em Hegel e dizia que essa frase de Marx sintetizava seu método. Do concreto representado que é a primeira realidade caótica que se apresenta em nossa cabeça ao concreto pensado que é a verdadeira captação da realidade e que só é possível com o pensamento científico. Assim como materialistas afirmamos que a realidade existe por sim mesma, mas que só com o pensamento científico é possível captá-la como a verdadeira realidade.

8- Dizemos tudo isso para mostrar a importância de pensar, o que necessita tempo de estudo, de muito estudo marxista (não acadêmico) e de muita reflexão. E parece que a internet, o Facebook e o Whatsapp nos tira tempo para eles quando teria de ser o contrário: ferramentas para nos facilitar a militância, para ter mais tempo para estudar e nos politizarmos.

Nos politizarmos significa também fazer reuniões de núcleo que sejam políticas, nas quais se debatam textos, se discuta sobre eles, para que não se leiam individualmente na internet. Nos politizarmos é também acompanhar muito a situação internacional. Não se trata de ler as notícias filtradas do Facebook ou textos dispersos, senão de ter foco, exigir informes, debater com profundidade os países. Nos politizarmos é também utilizarmos nossa revista movimento. Não se trata de um material para vender e/ou só ler, mas também para estudar e debater.

9 – Para nossa sorte hoje em dia se tem militantes profissionais, companheiros que não trabalham sobre a ditadura alienante da exploração capitalista, senão que seu trabalho consiste em fortalecer a mobilização e o partido. Esse “privilégio” é também extensivo a muitos outros militantes que estão por fora da exploração patronal, mas que esta “financia” para que se trabalhe contra ela, como professores, metroviários, etc.

Em relação aos profissionais no partido argentino havia a tradição de que, em sendo profissional, deveria estudar (marxismo por óbvio) no mínimo duas ou três horas por dia. Moreno tentava obrigar a se dedicar toda a manhã ao estudo, coisa muito difícil de cumprir. Mas era uma política. Hoje são poucos os militantes que seguem essa metodologia. Temos que pensar como estes poucos se transformam em muitos.