Por Gustavo Capela – Doutorando em Direito na Universidade de Brasília e Eduardo d’Albergaria – cientista social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (MP) 

Política é a arte de simplificar o complexo. A arte de abrigar, em poucas palavras, tudo o que pulsa nos diferentes corações, que vive nas diferentes mentes e que se concretiza nos diversos cotidianos do “povo”. Portanto, em períodos eleitorais, o sucesso de um candidato está, também, nesta capacidade de compreender momentos, de abordar problemas e, mais do que tudo, de dar soluções aos problemas complexos de milhões de pessoas. É inegável que Donald Trump foi capaz de fazer isso.  expor alguns dos problemas vividos pela população estadunidense. E, em grande medida, isso explica porque hoje ele é o presidente eleito.

Já a análise de um fenômeno político não pode ter o mesmo simplismo ou fazer a mesma simplificação que políticos fazem quando expõem suas ideias. Uma análise precisa ser complexa. Precisa compreender as diversas  nuances contraditórias que estão presentes nas simplificações do político. Porque, conforme aponta Ernesto Laclau, os processos políticos normalmente conjugam demandas diferentes e diversificadas sob um único nome. E essa conjugação normalmente nos leva a entender, erroneamente, o processo total como algo monolítico, como se fosse fruto de um único desejo, de uma única interpretação sobre o mundo, de uma única consciência. Isso não podia estar mais longe da verdade. Ainda mais neste caso específico.

E é por esta razão, dentre outras, que precisamos ir um pouco mais a fundo nas relações de causa e efeito no caso Trump. Ainda mais para entendermos esse fenômeno de “aumento de uma direita anti-establishment” pelo mundo. Não podemos visualizar somente a superfície, sob pena de continuarmos remando em direções diversas, colhendo resultados impressionistas e pouco eficazes.

Assim, ao longo deste artigo, nós apontaremos os diferentes contingentes populacionais que votaram em Donald Trump. Porque é importante entender a complexidade por trás da simplificação que foi – e continua sendo – este candidato. Ainda mais quando se crê, como nós cremos, que é um erro entender este  de maneira isolada, resumida aos Estados Unidos da América, ou a uma sociedade “nitidamente racista, xenófoba, machista e homofóbica”.

Basta lembrarmos que 5 dos Estados-chave nos quais Donald Trump venceu Hillary, em 2016, foram vencidos por Obama, em 2012: Wisconsin, Iowa, Michigan, Ohio e Pensylvannia.

Basta lembrarmos que Trump foi um candidato com piores resultados entre brancos do que Mitt Romney (o candidato republicano que disputou a presidência com Obama em 2012). E melhor que ele (que Romney) entre negros, latinos e asiáticos[1]. Sim, apesar da grande diferença que Hillary teve em relação a Trump nos grupos minoritários, Trump foi melhor entre eles do que os últimos dois candidatos do Partido Republicano (Mccain e Romney).

Para entendermos Trump, consequentemente, é preciso conhecer, também, a administração Obama. E será necessário entender Bernie Sanders e Hillary Clinton. Além de explorar, claro, o quem “são” o Estados Unidos da América.

Quem “são” os Estados Unidos da América?

Os Estados Unidos tinham, em 2015, uma população em que 77% das pessoas se auto-identificavam como brancas. Dentro desse contingente chamado “branco”, 38% tem origem latina ou hispânica, sendo os brancos de descendência europeia um contingente de 62%.

13% do país é composto por negros e negras; 5,6% de asiáticos e asiáticas; e 17,6% são hispânicos[2] “puros”. Segundo o Pew Research Center 2015 report[3], no entanto,  os Estados Unidos não serão majoritariamente “brancos” por muito tempo. Seguindo as tendências estatísticas, em 2065 o país terá mais diversidade do que “branquitude”. Isso, graças à enorme quantidade de imigrantes que chegam aos Estados Unidos todos os anos. Cerca de 59 milhões de imigrantes se mudaram para os EUA nos últimos 50 anos[4]. Em sua maioria, da América Latina e da Ásia. E, atualmente, 14% da população estadunidense nasceu em outro país.

Fica evidente, portanto, que os Estados Unidos, sendo fiel à sua história, continua sendo um país de imigrantes. A história dos Estados Unidos é uma história de imigração (algo que já abordamos em outro texto, quando falamos do fenômeno Bernie Sanders[5]). Não por acaso  a maioria do povo estadunidense enxerga essas imigrações como enriquecedoras para o país. Mesmo grande parcela dos que votam no Partido Republicano defende a continuidade das imigrações (ainda que numa perspectiva elitista: só os “melhores” devem poder imigrar)[6].

Mas há, é claro, uma preocupação de parte da população de “perder o país” para esses contingentes populacionais crescentes. O slogan “Make America Great Again”, de Donald Trump, toca nesse medo. Porque ele invoca, ao mesmo tempo, uma busca por um passado economicamente mais interessante, mas também, por um país mais homogêneo do ponto de vista racial e étnico.

Isso para dizer que, não obstante toda essa multiplicidade e diversidade, e apesar da sensação generalizada de que tal característica é positiva ao funcionamento do país, a plataforma mais antiquada e resistente ao plural acabou vencendo. Não é de se surpreender, logo, o choque que levou a elite “liberal” estadunidense (que lá tem, diferentemente do Brasil, um perfil mais socialdemocrata). Como que uma nação plural e aberta à imigração vota num xenófobo racista? Hillary não era a ampla favorita? A mais capaz, a mais experiente, a mais ‘presidenciavel´? Trump não passa de uma caricatura de estudante que pratica “bullying” travestido de candidato presidencial?  Os EUA não acabaram de eleger, por 2 vezes, um candidato negro e, até hoje, muito bem avaliado?

Tamanho foi o choque que a própria CNN, na cobertura do resultado, não conseguia esconder sua confusão com tudo que estava acontecendo. Foram inúmeros os artigos e as matérias de jornal que previam uma vitória do Partido Democrata não só nesta eleição, mas nas subsequentes também. Tudo, segundo os articulistas, em razão dessa crescente pluralização da demografia estadunidense.

Essa previsão de vitória eterna do Partido Democrata[7] não se cristalizou, mas tem raízes em duas perspectivas que se comunicam. Tanto para explicar a confusão na análise quanto para ilustrar a surpresa com o resultado.

Em primeiro lugar, há uma relação promíscua entre a imprensa dominante e a elite “liberal” dos EUA. A realidade dos meios de comunicação nos EUA, é de hipercontentração[8] e de massivo apoio ao Partdo Democrata em geral. Neste caso, de apoio descarado à Hillary em detrimento de Trump. E de Bernie Sanders durante as prévias, diga-se de passagem.

Em segundo lugar, deve-se entender que há um foco sobre as pautas identitárias[9] que naturaliza o capitalismo como único regime econômico possível, cabendo um ajuste aqui e outro acolá para melhorar as relações sociais (ou pelo menos havia esse pensamento hegemônico, já que até Obama precisou vir a público defender o capitalismo recentemente[10]).

Assim, parece-nos que os olhares do establishment democrata, cegos pela burocratização e pela disputa do “poder pelo poder”, não percebeu a mobilização feita pelo tea party em torno da “identidade branca; as dificuldades da classe trabalhadora do “middle américa”; ou até as fissuras que existiam na administração Obama.

Quais eram as fissuras na administração Obama?

A análise da administração Obama é deveras complexa. Em Janeiro de 2014, o Washington Post publicou um artigo que ilustrava a probabilidade de alguns estados-chaves mudarem de afinidade partidária (do azul-democrata para o vermelho-republicano) em razão da situação econômica do país[11].

Não é por acaso. Houve uma dificuldade do Partido Democrata em se reconfigurar depois da crise de 2008. Apesar da campanha de “mudança” de Barack Obama,  a relação direta do establishment do partido com Wall Street continuou extremamente forte..

Isso se evidencia pela margem de vitória de Barack Obama em 2012, que foi reduzida pela metade em relação ao que ela tinha sido em 2008. Menos pessoas votaram, em termos absolutos e percentualmente, nele – e nas eleições como um todo –[12] em 2012.

O candidato da “mudança”, do “yes we can”, da renovação do Partido Democrata, chegou ao final de seu governo sem responsabilizar os bancos pela crise de 2008 (na verdade, os lucros da “corporate america” cresceram em 166%[13] durante seu governo); tendo deportado mais imigrantes ilegais do que qualquer outro presidente na história estadunidense[14] e que acabou por aumentar a participação militar dos Estados Unidos em conflitos armados pelo mundo (de 2 países no ano de 2009 para 8 neste ano de 2016[15]).

Apesar da avaliação popular majoritariamente positiva do reinado Obama, esses dados indicam dois aspectos interessantes para entendermos Trump: 1) a atuação contra imigrantes tem se tornado institucional, estando o  discurso de Trump consonante com o que tem ocorrido nos últimos 8 anos; e 2) o persistente descontentamento da população com a farra do capitalismo financeiro que gerou a crise de 2008 persiste.

Basta olhar os principais ataques de Trump a Hillary para ver que ele focou, em grande medida, nesses dois pontos durante toda sua campanha: tornar “América” segura contra imigrantes e tornar “América segura em relação aos banqueiros[16].

Não obstante o cinismo generalizado que incorporou o establishment do Partido Democrata (e que impediu uma autocritica mais profunda), alguns representantes minoritários manifestavam suas discordâncias. Uma dessas pessoas foi, como sabemos, Bernie Sanders.

O que Bernie Sanders tem a ver com isso?

Em um programa de TV após o resultado das eleições, Bernie Sanders se disse extremamente chateado com o resultado. Em especial, porque “quem” tinha decidido as eleições, segundo ele (e segundo os dados), foi a classe trabalhadora branca. Nos termos de Bernie, essa classe é a sua classe de origem, sendo doloroso ver que a escolha deles foi a favor de Trump.

Mais do que a origem de classe, Bernie tem especial relevância nesta análise porque dentre os 22 Estados em que ele ganhou de Clinton – nas primárias do Partido  – Donald Trump foi vitorioso em 14 deles nas eleições gerais.

Dentre esses Estados estão Michigan e Wisconsin que, desde as eleições de Bill Clinton, e passando pelas eras Bush, sempre foram dos democratas. Al Gore venceu nesses dois estados, Kerry venceu nesses dois estados, Obama venceu nesses dois estados e Bill Clinton venceu esses dois estados. Desde 1992 (24 anos) que o Partido Democrata não perdia Wisconsin e Michigan – , casa das montadoras de carro e – portanto – de grandes sindicatos tradicionais. Como apontou Bernie, esta é a classe trabalhadora “branca” que sempre esteve do lado do establishment democrata e que, não obstante, decidiu por Trump, dessa vez.

Como a campanha de Bernie demonstrou, e – por mais incrível que possa parecer, a de Trump também – existe um fosso se abrindo na sociedade estadunidense. Hoje, as 400 famílias mais ricas concentram mais riquezas do que 61% dos lares americanos combinados (veja bem, não estamos falando de uma economia do tamanho de Botsuana ou Suriname, mas metade do pais mais rico da história da humanidade)[17].  Em 30 anos, a classe média foi reduzida de 2/3 da sociedade para metade dela.

 

É bom lembrar que nos Estados Unidos – diferentemente do Brasil – “classe média” e “classe trabalhadora” são conceitos assemelhados. Eles se permeiam no imaginário social.  Ser “classe trabalhadora” nos EUA significa, em grande medida, ser de classe média. Acontece que, com o fortalecimento das políticas neoliberais, nas décadas pós muro de Berlin, uma parte dessa classe trabalhadora está retornando à pobreza, principalmente nas áreas rural-urbanas do interior do país. Lugares onde Trump venceu em larga escala[18]

 

Empobreceram, em grande medida, porque: 1) a agricultura, intensamente mecanizada, proporciona poucos postos de trabalho; 2) porque grandes corporações, como a Walmart, canibalizaram toda a pequena economia local, pagando um salário irrisório, enquanto realizam lucros estratosféricos; e 3) porque as indústrias locais, pós sucessivos tratados de livre comércio, mudaram para países que ofertam isenções fiscais e onde a exploração do trabalho é ainda mais intensa.

 

Todos esses pontos foram exaustivamente levantados por Trump durante a eleição. Tanto que, dentre aqueles que disseram votar por uma mudança radical, 83% votaram nele[19].

 

Também é nessas áreas onde vivem muitos dos chamados “veteranos” de guerra. Os Estados Unidos da América tem um contingente, hoje, de 20 milhões de ex-combatentes, sendo o interior da Florida a região onde mais se alistam jovens para as forças armadas estadunidenses[20]. 84% desses ex-combatentes são homens, 75% são brancos ou brancas, 59% deles e delas tem menos de 30 anos e 78% não tem ensino superior[21]. São números que chamam atenção em qualquer sociedade.

 

Nessa “América profunda” é onde a maquina carcerária também transforma milhares de vidas em lucro – os EUA têm, hoje, encarcera 5 vezes mais que qualquer outro país do mundo. É ali também que vivem milhões de dependentes químicos – dos ansiolíticos às metanfetaminas – e onde inexiste qualquer política de saúde mental.

 

Esses são os e as “esquecidas da Globalização”, e elas almejavam uma  mudança que valorizasse suas vidas para além de um discurso pronto e já antiquado do “neoliberalismo com face humana” dos democratas. Bernie Sanders tentou dar respostas “diferentes” a esses anseios. Trump Também.

 

Sanders demonstrou, ao longo de sua campanha, como a economia americana estava organizada para favorecer os 1% (ou 0,1%) mais ricos da sociedade americana e questionou a capacidade de Hillary, uma notória aliada de Wall Street, para enfrentar esta Classe. Um questionamento reverberado pelo bilionário Trump, nas eleições gerais, que dizia inclusive ter sido um dos antigos“compradores”das decisões de Hillary, ao financiar sua candidatura em eleições anteriores.

 

Sanders constantemente denunciou a subserviência dos governos com a elite financeira do país, o que ficava evidente pelo apoio milionário da elite financeira à campanha de Hillary Clinton. Tal como Bernie, Trump não teve como principais financiadores de sua campanha os banqueiros de Wall Street. Na verdade, Trump arrecadou e gastou muito menos que Hillary no geral. E a origem das doações de Hillary explicam os ataques que ela sofreu tanto de Trump quanto de Sanders.

 

 

Apesar de ser um bilionário, a campanha de Trump custou a metade do que custou a campanha da candidata dos Democratas. Enquanto Trump gastou $247 milhões de dólares, Clinton gastou $497.8 milhões de dólares[22].

Hillary arrecadou mais que o candidato republicano nos setores da agroindústira[23], construção civil[24], defesa-militar[25], energia[26], transporte[27], e nos médios e grandes negócios[28]. E, mais importantemente, ela trucidou Trump e os outros candidatos nos setores de comunicação e eletrônicos; financeiro, securitário e imobiliário; saúde; advogados e lobistas; sindicatos; e dentre as organizações sociais que trabalham com temas específicos, como aborto ou legalização das drogas.

 

Os meios de comunicação doaram para a campanha de Hillary $55 milhões de dólares. O segundo candidato que mais arrecadou neste setor foi Marco Rubio (republicano), com $8 milhões. Trump arrecadou $1 milhão apenas[29].

 

O setor financeiro, securitário e imobiliário doou $104.5 milhões de dólares para a campanha da democrata. O segundo que mais arrecadou neste setor foi Jeb Bush (republicano), com $63.9 milhões. O terceiro, Marco Rubio (republicano), com $32.6 milhões. Donald Trump arrecadou $5 milhões[30].

 

O setor de saúde doou à Clinton $28 milhões de dólares. O segundo que mais arrecadou foi, novamente, Marco Rubio, com $5 milhões. Trump, arrecadou $2 milhões[31].

 

Os lobistas e advogados decidiram também apoiar financeiramente a candidata democrata, dando $38 milhões à Hillary. Trump recebeu $1 milhão[32] deste setor.

 

Tal como os patrões, os sindicatos também preferiram Hillary, doando $15 milhões a ela. À Bernie, entregaram U$234 mil.  Já Trump, se contentou com U$6 mil. Por fim, as organizações sociais e aquelas que atuam no “terceiro setor” (focadas em temas específicos) doaram $44 milhões a Hillary, $22 milhões a Bernie e $1,5 milhões a Trump.

 

Os números demonstram que Hillary, tal como apontaram Trump e Sanders, era a candidata do establishment. De todo ele. Desde Wall Street, passando por Washington, Hollywood, Detroit, Chicago, o Silicon Valley e Miami. Ela defendia os interesses dessas megacorporações que apostaram grande em sua campanha.

 

Foi nesse contexto, inclusive, que Sanders teve que enfrentar barreiras dentro do próprio Partido Democrata durante as primárias (já descrevemos estas barreiras em outro artigo[33]). Ele necessitou de uma massa de doadores individuais imensa para contra-atacar a arrecadação de Clinton. Sua movimentação foi tamanha que, ao fim das primárias, Sanders havia arrecadado, no geral, mais que Hillary (demonstrando que receber dinheiro das corporações é uma opção política e que é possível sim financiar uma candidatura com o apoio de cidadãos).

 

Em sua grande maioria, os apoiadores de Sanders eram mais jovens, com mais anos de educação formal e…. branco – sobretudo no eleitorado adulto.

 

E o que viria a ser um presságio do resultado final: Sanders foi capaz de vencer em Michigan: um local muito abatido pelo neoliberalismo e cuja raiva se manifestava neste voto contrário ao establishment e à estrutura política como um todo. Conforme destacou Michael Moore, Sanders conseguiu tirar uma diferença de 20 pontos percentuais em 2 semanas. Principalmente em razão de  seu discurso radical, que enfrentava frontalmente as elites econômicas.

 

Sanders foi capaz de explicar de forma didática, sem ser panfletário, como se dá o domínio das elites americanas sobre a sociedade. Mesmo tendo sido rotulado como candidato irrelevante no início das prévias, Bernie Sanders conquistou impressionantes 45% dos votos democratas.

 

 

Então Trump e Sanders se assemelham?

 

Apesar de algumas semelhanças, inclusive no que tange a uma parcela do eleitorado, existem diferenças grandes entre Sanders e Trump que precisam ser pontuadas.

 

Para começar, em contraposição à perspectiva de Trump, Sanders rechaçou a subalternização dos mais pobres e das minorias – sobretudo imigrantes – como explicação para os problemas econômicos da classe trabalhadora.

 

Bernie também questionou a falência da Guerra às Drogas e o encarceramento e a deportação em massa – que separam famílias que há anos vivem e produzem nos Estados Unidos.

 

Rejeitou a ideia de que o desemprego e a pobreza seriam resultado de um suposto agigantamento do Estado. Defendeu a redução do Estado sim, mas no que diz respeito ao seu trilhardario orçamento militar.

 

Se opôs às politicas de intervenção politico-militar em outros países em nome dos interesses americanos (ou melhor, da corporate américa).

 

E, no que diz respeito a gastos e investimentos, Sanders defendeu mais Estado, para reconstruir a infra-estrutura do país, gerar empregos, investir na formação superior da mão de obra e garantir saúde como um direito gratuito e universal.

 

Sanders, em resumo, defendia um programa assemelhado ao New Deal, da década de 40, liderado por Franklin Delano Roosevelt.

 

Trump, por sua vez, utilizou-se do medo e do descrédito total com as instituições para elencar outros culpados, para além da elite financeira. Segundo ele:

 

1) os e as imigrantes seriam um problema à segurança pública que poderia ser sanado com deportação em massa e a construção de um muro na fronteira com o México;

 

2) as empresas que estavam se beneficiando da mão de obra barata em países como a China deveriam voltar a contratar estadunidenses, além de voltar a operar no país. Ele, em suma, invocou o isolacionismo, o protecionismo e o nacionalismo para combater a crise econômica;

 

3) os e as Islâmicas seriam um risco de terrorismo iminente, devendo haver um programa que analisasse cada praticante do islam para possível deportação em massa – ainda que estes estivessem vivendo regularmente ou nascido nos EUA;

 

E é importante entender que o discurso de Trump não invocava uma raiva somente contra a elite econômica e financeira do país. Ele sinalizava uma raiva contra a elite em geral. Inclusive a elite intelectual dos EUA, que normalmente se concentra na costa Leste, ou na Califórnia, lugares tipicamente “liberais”. Essa elite intelectual, em sua maioria, é atéia, anti-racista, anti-machista, anti-homofobia. Os valores tradicionais do “make america great again” mobilizaram uma campanha anti-establishment e anti-elitista[34], por isso a relação tão direta entre o conservadorismo por um lado e o ataque ao estabelecido por outro. Recentemente, Michael Moore apontou algo que ilustra essa realidade. Ele  narrou uma situação ocorrida em um programa de TV que caçoava dos gastos da Campanha de Trump, que investiu centenas de milhares de dólares em bonés. Os apresentadores não entendiam como Trump, o incapaz, o ignóbil, o louco, gastava tanto dinheiro numa peça de roupa tão brega. Enquanto todos no programa riam, Michael Moore explica, a classe trabalhadora olhava no espelho para se ver com os tradicionais bonés que usavam.

 

A campanha de Trump, portanto, era completamente diferente dos moldes tradicionais: tanto do lado Democrata quanto do lado Republicano. Enquanto Hillary tinha uma equipe de quase 700 pessoas, Trump tinha 82[35].  Aliás, como se sabe, ele se candidatou e venceu a nomeação apesar  da vontade do establishment Republicano. Figuras conhecidas do Partido, tal como a família Bush, John Mccain (Senador e ex-candidato à presidência do Partido – contra Obama) declararam voto em Hillary.

 

Trump contrariava a quase todos.

 

E, afinal, quem elegeu Donald Trump?

 

Para entender Donald Trump, é preciso ver e escutar Donald Trump. Donald Trump não discursa como um político profissional. Ele não usa palavras de difícil compreensão. Ele não sorri falsamente. Donald Trump fala diretamente com a população. Sem mediação, sem se preocupar com fatos, sem se preocupar com o politicamente correto. Sua jogada de marketing era fingir não tê-la. Assim, ele dialogava com uma massa enraivecida dos Estados Unidos que, em sua grande maioria (grandiosíssima maioria, é verdade), eram homens brancos da classe trabalhadora.

 

Mas não só.

 

Na divisão de gênero, Trump foi mais bem votado entre homens do que entre mulheres. Mas muitas mulheres votaram em Trump também, assim como muitos homens votaram em Hillary. Entre homens, em geral, Donald Trump venceu 53-41; entre mulheres, ele perdeu 54-42. Uma diferença que se iguala: 12%. No quesito “raça”, enquanto Trump vence por uma margem confortável entre brancos (58-37), Hillary vence categoricamente entre negros e negras (88-8). Tanto entre hispânicos quanto entre Latinos, Hillary vence com a mesma margem (65-29).

 

No que tange à educação, os dois candidatos praticamente empataram em todos os níveis de educação, com uma vantagem maior à Hillary (58-37) entre aqueles com pós-graduação. Os mais novos votaram em Hillary, os mais velhos, em Trump. E, enquanto os mais pobres, em geral, votaram em Hillary por uma pequena margem (52-41) (graças ao voto dos mais pobres das regiões metropolitanas), a classe média preferiu Trump (50-46). Entre os ricos, os votos foram semelhantes na divisão dos dois candidatos.

 

O interessante é notar que as famílias que pensam estar em uma situação economicamente pior hoje do que estavam há um ano atrás votaram em peso no candidato republicano (78-19).

 

Talvez um dos dados mais importantes, porém, está na preferência daqueles que não se consideram nem democratas e nem republicanos,  os independentes. Em geral, votaram em Trump (48-42).

 

Tendo todos esses números em vista, mas especialmente os que apontam para a clara escolha por parte das minorias, é normal que percebamos um claro viés conservador, xenófobo, racista, misógino e homofóbico nos votos de Trump. Isso nós já sabíamos só de ouvir suas ideias e pronunciamentos ao longo do ano.

 

Avaliação que se reforça pela forma com que os setores mais fascistas reagiram ao resultado eleitoral, aliás. A vitória de Trump os estimulou a mostrar a cara: seja em comentários nas redes sociais, agressões à minorias ou mesmo manifestações públicas (como a marcha da KKK anunciada para celebrar a vitória de Trump na Carolina do Norte).

Mas será que a vitória de Trump se viabilizou só pelo voto reacionário? 

 

Ao longo do texto, tentamos mostrar que essa resposta é um pouco mais complexa que “sim” ou “não”.  Mas, sim, ele foi eleito pelo voto reacionário e conservador…também.

 

Não só.

 

Há uma significativa parte do eleitorado de Donald Trump que não o elegeu por se identificar com o conservadorismo, com o racismo, com a misoginia ou a homofobia. E é importante entender isso. Porque, como dissemos no início, é difícil (e equivocado) categorizar monoliticamente, e em um único bloco, a preferência política numa eleição. Ainda mais numa em que só existem 2 candidatos viáveis.

 

Muitos votaram nele para sacudir o sistema, para protestar contra o estabelecido, contra o posto, contra os projetos elitistas da sociedade estadunidense. Conforme apontamos, as contribuições milionárias de todos os setores para Hillary Clinton apenas corroboram que seu projeto econômico e social estavam em total consonância com a vontade dos  1% reinante nos Estados Unidos.  É equivocada a análise que enxerga os votos em Trump apenas por seu viés de conservação, já que existe, neste voto, uma vontade engrandecida de reformular a política como um todo – ainda que essa vontade tenha sido canalizada para uma candidatura conservadora.

 

Pode-se dizer, portanto, que a eleição de Trump nos mostra, sobretudo, que a institucionalidade do capitalismo liberal tem se tornado cada vez menos capaz de lidar com os anseios da população em geral. De modo que muitas pessoas preferem votar em candidatos excêntricos, completamente fora das caixinhas pré-moldadas,  do que reafirmar seu compromisso com o que está posto.

 

Como Marx aponta no 18 Brumário, existem situações em que a classe trabalhadora diz “não” ao que lhe é apresentado e produz algo novo. Aqui, há um voto de destruição, de negação, sem, no entanto, instaurar uma reorganização própria, como aconteceu na Comuna de Paris. Isso envolve alguns riscos, é verdade, já que se deixa na mão de pessoas como Trump um cheque semi-em-branco – com poder de redefinir a Suprema Corte e moldar o aparato de guerra (Exercito, arsenal nuclear, CIA, NSA etc).

É deveras relevante lembrar, nesse contexto, que no regime eleitoral estadunidense é mais importante ganhar a maioria nos Estados do que ganhar o voto popular. Hillary ganhou o voto popular, mas perdeu por grande margem no colégio eleitoral. Trump venceu a eleição ao promover o realinhamento político de Estados como Ohio, Pensylvannia, Michigan e Wisconsin, onde os Democratas haviam vencido com Obama e onde Hillary julgava ganhar com folga. Não venceu. E não só pelo racismo ou outros preconceitos (embora eles existam) na sociedade estadunidense.

 

Esses que “mudaram de ideia” nos Estados acima citados fazem parte do eleitorado que resolveu rechaçar todos os que se identificaram com os 30 anos de neoliberalismo à americana. Eles derrotaram, primeiro, Jeb Bush nas prévias republicanas e, depois, Hillary nas eleições gerais. Hillary perdeu porque nem o eleitorado democrata acreditava mais em suas promessas ou as do partido (o volume de votos dos democratas se reduziu nessa eleição[36]. Nos termos do que apontou David Axelrod, entendido por muitos como o gênio estrategista por trás da campanha de Obama, Trump conseguiu se apresentar como o candidato mais anti-establishment da eleição, apesar de, paradoxalmente, ser um bilionário antes muito bem acolhido por este mesmo estabilishment.

 

Quem mais perdeu com a eleição de Trump?

 

Como apontou Tariq Ali, o grande derrotado dessas eleições foi o “centrão político”, ou, como ele aponta, o “extremo-centro”. Isto é, o segmento de políticos profissionais que não estão dispostos a apostarem em mudanças drásticas e vivem do meio termo. Os políticos do “mais do mesmo”. Os políticos “vaselina”, do bom-mocismo quase caricato, do discurso pronto e da maquiagem feita. Esses políticos (como Bush e Hillary) perderam espaço. Do outro lado, enquanto o excêntrico Trump e uma ala conservadora do Partido Republicano ganhou a Casa Branca, o ranzinzo Bernie Sanders e a incisiva Elizabeth Warren (a ala mais à Esquerda do Partido Democrata) saem fortalecidos.  Sem contar a ampla mobilização popular que vem crescendo em oposição à vitória trumpista.

 

A derrota da Hillary é a derrota de um capitalismo financeiro vinculado às guerras e ao armamentismo; vinculado a Wall Street de maneira umbilical. O problema é pra quem o capitalismo financeiro perdeu. E quem conseguiu dirigir a massa descontente. Trump foi tosco, cru…real. Algo que o establishment e os políticos profissionais tem deixado de ser faz tempo.

 

Trump derrotou também, de quebra, o esforço de ultra-neoliberais, como os irmãos Koch e sua rede de Think Thanks, como o Catho Institute, de financiar forças conservadoras, como o Tea Party para fazer valer sua agenda ultra-neoliberal (ou conservadora fiscal). Ao final, foi eleito um candidato que se posiciona contra os tratados de livre comércio e defende investimentos estatais em infra-estrutura.

 

Mas a interrogação Trump continuará viva: qual agenda ele implementará? Eleito sem a intermediação de partidos, sindicatos, mídias, ele recebe um mandato sem intermediações sociais (questionando a efetividade dos “pesos e contra pesos” para controlar os excessos de um presidente que opte por caminhos autoritários).

 

E como muitos já apontaram no passado: a crise societária abre espaços amplos para projetos ousados que não se acovardam diante dos limites impostos pela epistemologia dominante. Desde as colocadas pela ciência quanto as colocadas pelo regime capitalista. Tanto saídas que podem buscar reestruturar a forma que produzimos e circulamos riquezas – como presente nas propostas de Sanders -, como saídas que reforcem os instrumentos de controle e autoridade – saídas com as quais Trump perigosamente flerta.

Nos EUA, com uma maioria republicana no Congresso, caberá às forças de esquerda resistirem nas ruas, retomando a tradição norteamericana de desobediência civil como pressão externa ao Congresso.  Tradição que já teve Martin Luter King, Emma Goldman, Cesar Chavez, Malcom X, Angela Davis, Harvey Milk e tantas outras.

 

Por isso, agora, mais do que nunca, é necessário entender este processo como um aviso à institucionalidade democrática moldada no Capitalismo. As soluções não serão necessariamente as mais inclusivas e as mais progressistas, apesar de serem esses os nossos desejos. É preciso reconhecer essa realidade e produzir, criativamente, novos métodos de solução de problemas. Porque as pessoas votam de acordo com seu cotidiano e de acordo com suas demandas mais imediatas, devendo haver um projeto materialmente alternativo e não apenas discursivamente diverso. Precisamos, portanto, fortalecer os polos de resistência, é verdade, mas também incrementar nossos polos de unidade e de construção. Porque a hiperfragmentação e o hiperindividualismo são faces da mesma moeda. Pela centralidade dos EUA na geopolítica mundial, essa radicalização tende a influenciar o mundo inteiro. E, por isso, oremos.

[1] https://www.washingtonpost.com/news/monkey-cage/wp/2016/11/11/trump-got-more-votes-from-people-of-color-than-romney-did-heres-the-data/

[2] https://www.census.gov/quickfacts/table/PST045215/00

[3]http://assets.pewresearch.org/wp-content/uploads/sites/12/2016/01/FT_16.01.25_NextAmerica_1965_20651.png

[4] http://www.pewresearch.org/fact-tank/2016/03/31/10-demographic-trends-that-are-shaping-the-u-s-and-the-world/

[5] http://portaldelaizquierda.com/2016/04/o-fenomeno-bernie-sanders/

[6] 52% dos que votam neste partido vêem como positiva a imigração – http://www.people-press.org/2015/11/23/9-views-of-the-nation-how-its-changing-and-confidence-in-the-future/

[7] http://www.forbes.com/sites/joelkotkin/2016/11/09/donald-trumps-presidenti-victory-demographics/#7dc4e5ff79a8

[8] Em 1983, 50 firmas dominavam o mercado dos meios de comunicação nos EUA.

Em 1987, esse número caiu para 29. Em 90, 23; em 97, sobraram 10, em 2000, eram 6; e em 2004 tínhamos 5. Cinco. Essa é uma tendência mundial: a concentração generalizada de toda a informação produzida. A Disney, a Time Warner, a NBC, a Fox e a Viacom produzem 79% de todos os filmes no mundo e distribuem 55% deles.  CASTELLS, Manuel.  O Poder da Comunicação. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2015

[9] https://www.washingtonpost.com/news/monkey-cage/wp/2014/04/16/can-the-republican-party-thrive-on-white-identity/?tid=a_inl

[10]http://www.economist.com/news/briefing/21708216-americas-president-writes-us-about-four-crucial-areas-unfinished-business-economic

[11] https://www.washingtonpost.com/news/monkey-cage/wp/2014/01/18/the-democratic-partys-uphill-battle-to-270-electoral-votes-in-2016/

[12] http://edition.cnn.com/2016/11/11/politics/popular-vote-turnout-2016/

[13] http://www.factcheck.org/2016/01/obamas-numbers-january-2016-update/

[14] Entre 2009 e 2015 a administração Obama removeu mais de 2.5 milhões de pessoas por imigração illegal, o que não inclui o número de pessoas que saiu por conta própria devido às ameaças da polícia aduaneira. http://abcnews.go.com/Politics/obamas-deportation-policy-numbers/story?id=41715661

[15] http://www.theatlantic.com/international/archive/2016/03/obama-doctrine-wars-numbers/474531/

[16] http://graphics.wsj.com/elections/2016/where-do-clinton-and-trump-stand-on-wall-street/

[17] https://www.thenation.com/article/20-people-now-own-as-much-wealth-as-half-of-all-americans/ 21% dos menores de idade norte-americanos vive em condições de pobreza, segundo a OCDE, uma porcentagem superior apenas a de Turquia, Romênia, México e Israel http://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/28/internacional/1390932443_019703.html

[18] 63% dos que moram em zonas rural-urbanas votaram em Trump – https://www.washingtonpost.com/graphics/politics/2016-election/exit-polls/

[20] http://www.businessinsider.com/us-military-demographics-2014-8#enlistment-rates-vary-widely-throughout-the-united-states-with-florida-and-maine-being-notably-overrepresented-4

[21] http://www.businessinsider.com/us-military-demographics-2014-8#slightly-over-half-of-all-active-duty-members-are-married-19

[22] https://www.opensecrets.org/pres16/candidate.php?id=N00023864

[23] http://opensecrets.org/pres16/select-sectors

[24] http://opensecrets.org/pres16/select-sectors?sector=C

[25] http://opensecrets.org/pres16/select-sectors?sector=D

[26] http://opensecrets.org/pres16/select-sectors?sector=E

[27] http://opensecrets.org/pres16/select-sectors?sector=M

[28] http://opensecrets.org/pres16/select-sectors?sector=N

[29] http://opensecrets.org/pres16/select-sectors?sector=B

[30] http://opensecrets.org/pres16/select-sectors?sector=F

[31] http://opensecrets.org/pres16/select-sectors?sector=H

[32] http://opensecrets.org/pres16/select-sectors?sector=K

[33] http://www.esquerda.net/artigo/esquerda-americana-feel-bernie/42153

[34] https://www.washingtonpost.com/news/monkey-cage/wp/2016/11/09/five-key-lessons-from-donald-trumps-surprising-victory/

[35] http://fortune.com/2016/08/22/trump-campaign-spending/

[36] http://www.politicususa.com/2016/11/09/graph-shows-hillary-clinton-lost-democrats-vote.html