Israel Dutra, da direção MES e do PSOL

No dia 20 de dezembro último se completaram 15 anos da rebelião popular conhecida como Argentinazo. Por coincidência estive na Argentina também na mesma semana. Foi muito interessante construir pontes entre o passado e o presente; a Argentina mudou muito nos últimos anos, mas o espírito do Argentinazo se nota em cada rua, cada manifestação, cada notícia. São recordações da minha geração, de um levante que abriu uma nova etapa na história da América Latina.

Jamais esqueço das notícias daquelas noites dos  dias 19/20, quando o povo enfrentou em plena Praça de Maio o Estado de Sítio decretado por Fernando De La Rua.

Meses depois fui bom Bernardo Correa para ver de perto os enfrentamentos  de rua, as assembleias populares, as fábricas recuperadas e todo repertório combativo que movia a Argentina de então;  essa sensação de encontro com um polo dinâmico da situação mundial foi decisiva para nossa geração- uma geração que conheceu a luta política anos antes, marcado pelas incertezas do neoliberalismo e pela luta de Seattle, na rodada da OMC de 1999.

Também não posso deixar de mencionar a enorme solidariedade gerada pelo Argentinazo. O Fórum Social de 2002, na sua segunda edição, trouxe à Porto Alegre centenas de ativistas da Argentina. Organizamos como MES, a partir do mandato de Luciana Genro, com apoio de correntes como CST, PSTU, uma grande marcha que terminou com a inauguração de uma placa em homenagem aos mortos do Argentinazo, justo na praça que leva o nome de Argentina, no centro de Porto Alegre. O ato contou com expressiva concorrência da esquerda argentina, com nomes de peso como as mães da praça de Maio e Luiz Zamora. Naquela praça, durante a ditadura miltar, tinha se erguido um monumento em homenagem ao genocida Videla, que foi derrubado ainda à época por grupos de ativistas combativos.

O gesto da rebelião do Argentinazo determinou uma mudança na situação política do continente, colocando em xeque o neoliberalismo, abrindo uma nova etapa.

A longa década de noventa

Se apropriando das definições históricas de Eric Hobsbawn, não é exagero definir que nos dias 19/20 de dezembro se concluiu a longa década de noventa.

Foram anos onde o que predominou na América Latina foi o neoliberalismo, inclusive com base de massas para ideias como privatizações, estado mínimo e meritocracia.  Anos de governos como FHC, Menem,  eternizados na foto que celebra o estabelecimento do Mercosul(1991) com Collor, Lacalle(Uruguai), Rodrigues(Paraguai), e o próprio Menem.

Houve pontos de inflexão como o Levante zapatista (1994), derrota da ditadura Fujimori(2000), a insurreição indígena do Equador (2000) e  a guerra da água em Cochabamba(2000).

Na própria Argentina,  o movimento de reversão foi lento, mas marcado por ações combativas, como o levante dos fogoneiros de Cutral-có, seguido de “pobladas” no interior do país e em bairros populares da Grande Buenos Aires como La Matanza.

O governo Memen foi devastador do ponto de vista neoliberal, privatizando, arrebentando direitos dos trabalhadores,  tendo como sócios uma parte da burocracia sindical.

Com o projeto de Menem desgastado, as esperanças de um novo governo como De La Rua primaram no terreno eleitoral.  Ao contrário da esperança,  De La Rua aprofundou o modelo, terminando odiado em apenas seis meses.

O levante nos dias 19/20

De la Rua foi eleito como parte de uma aliança ‘mudancista” com verniz de centro-esquerda, numa coalizão entre a UCR e a Frepaso, batizada de Aliança.

A Argentina de De la Rua rapidamente se deteriorou, com a burocracia sindical passando à oposição moderada e os índices econômicos chegando ao fundo do poço.

A situação se agravou ao longo do ano, configurando um dezembro altamente explosivo. Os planos de  De la Rua e seu todo-poderoso ministro Cavallo desvalorizaram rapidamente a moeda, apelando para medidas inusitadas como o uso de bônus com moedas paralelas.

O número de desempregados e subempregados superou a cifra de cinco milhões em todo país. A crise foi aumentando de uma forma insuportável, com o crescimento da fome e da indigência em grandes bairros populares.

A expressão política e social da resistência foi a organização do movimento “piqueteiro” que unificou as organizações de desempregados que lutavam por trabalho, renda, assistência social e dignidade. Se multiplicaram por todos os cantos do país, movimentos de desempregados, bebendo da fonte da combatividade histórica da vanguarda operária argentina para dar voz e vez a um importante sujeito social.  Com o método de corte/interrupção de grandes vias, os piqueteiros ganharam notoriedade, entrando na cena nacional como um contraponto radicalizado às medidas de Cavallo e De la Rua.

O caldo foi engrossando ao longo de dezembro, com paralisações nacionais e sindicais de várias categorias, em que pese que a burocracia sindical mesmo opositora atuou para conter a conflitividade, tentando manter seu controle por cima. A grande paralisação nacional do dia 13 de dezembro anunciava o que estaria por vir.

As medidas bancárias e fiscais do final de dezembro, com restrições aos saques e depósitos de centenas de milhares de correntistas desatou uma corrida enfurecida aos bancos. O “corralito” golpeou em cheio a classe média que se empobrecia e os aposentados.

A combinação desses fatores explosivos levaram ao que se chamou da unidade entre “piquete e cacerola/a lucha es una sola”.  Se uniam as duas pontas mais intensas do processo: a luta dos desempregados com a luta dos setores médios. E o governo central era o catalisador do ódio.

Entre os dias 17 e 19 na região mais pobre da grande Buenos Aires disparam inúmeros saques em grandes lojas e centros comerciais.

No dia 19, multidões tomam os arredores da praça de Maio, no coração do centro de Buenos Aires; se somam aos centenas de saques e conflitos de rua que acontecem nas periferias. O governo utiliza um expediente extremo: De la Rua insta as forças repressivas e anuncia Estado de Sítio.  O povo não se dobra e desafia a medida de força do governo. Os conflitos no coração da cidade são tramsmitidos por todo o país. Um longo enfrentamento conhecido como a “batalha da praça de Maio”.

Isso só foi possível pela enorme conquista do povo argentino que foi: a queda da ditadura militar pela via da  revolução democrática. Um dos seus efeitos foi a derrota das forças armadas, as forças de repressão e a inviabilização por um longo período na Argentina de saídas burguesas contrarevolucionarias, via os  tradicionais golpes militares. Em 2001 o estado de sítio de De La Rua foi um ensaio precário de uma política de repressão institucional como política central. Foi desmanchado em horas. De lá Rua fugiu de helicóptero. Em semanas outros quatro presidentes foram derrubados um a pós outro. A derrota da repressão nas ruas foi contundente.

Uma rebelião do século XXI

Além de retomar o método “a quente” de se fazer política, com corte de ruas, ocupação de fábricas e incipientes experiências de poder popular como as assembleias barriais, o Argentinazo foi  a primeira crise de representatividade, onde o ‘ fora todos’ antecipou em muito o ‘não me representa’ do movimento dos  indignados, 10 anos depois.

Também consagrou a autodeterminação das assembleias populares como afirmação da praça como espaço de poder político.

Em relação a seus efeitos , o Argentinazo afirmaria  três características fundamentais que marcariam a situação: esgotamento do ciclo neoliberal/ reposição progressista;  ação política de rua marcando o cenário; o modelo  “K “como filho bastardo do processo.

Com base no processo de rejeição do neoliberalismo, se espalhou pelo continente o repúdio a governos e partidos afinados diretamente com o neoliberalismo, abrindo caminho para alguns anos depois inviabilizar o plano da Área de Livre Comércio das Américas(ALCA).

Também se seguiram rebeliões populares que derrubaram governos e derrotaram golpes contrarrevolucionários, expressando caminhos independentes das grandes potências, com picos altos na Bolívia(03/05), Venezuela(2002), Equador(2005), onde as rebeliões populares voltaram a cena no século XXI, a partir desses países.

E por fim, o governo dos Kicnher serviu para estabilizar o país, concedendo importantes conquistas democráticas e econômicas, como as leis de Diretos Humanos e condena dos genocidas, o subsidio às tarifas públicas e a recuperação dos padrões salariais e de emprego. O modelo “K’ com ficou conhecido se alinhou a governos como o de Lula no Brasil para freiar o processo de enfrentamentos na América Latina, utilizando a recomposição nacional para desviar o ascenso e assim tentar construir uma nova estabilidade, sem romper com os grandes monopólios nem utilizar mecanimos de democracia direta ou sequer uma nova constituinte democrática.

Uma das grandes fragilidades do processo do Argentinazo foi o ausência de um maior protagonismo da classe operária- tanto do ponto de vista subjetivo quanto do ponto de vista de atividade enquanto sujeito prioritário. As fábricas recuperadas como a

Zanon e Brukman foram uma exceção em meio ao ascenso popular.

Macri e Temer: Retorno ao neoliberalismo?

Editamos um pequeno folheto no ano de 1997, quando afirmamos que a Argetina seria um espelho da América Latina. O Argentinazo de 2001 também foi marcante por conta de seu impacto direto sobre o conjunto dos país. 15 anos depois, estão no poder governos neoliberais, que apesar de suas diferenças, tem a responsabilidade de garantir um ajuste e baixar o custo do trabalho.  Eles terão êxito na sua tarefa?

Os ataques contra o povo trabalhador acontecem nos dois países. Ambos estão a serviço dos empresários e do capital rentista. Ambos tem relações “carnais” com os grandes grupos imperialistas e tem na sua agenda privatizações e retirada de direitos previdenciários e do trabalho.

A resistência também acontece, apesar de fragmentada, dos pactos que a burocracia sindical busca impor.

Macri acaba de demitir seu ministro da economia, em meio a uma crise grande de seu projeto. E ao contrário de Temer, tem uma base parlamentar mais dividida.

Para passar o ajuste Macri  vai precisar derrotar as lutas de resistência dos trabalhadores, isso vai gerar um ambiente de mais conflito e radicalização. A classe trabalhadora e o povo argentino nos servem de exemplo também no terreno da resistência.

Por um novo Argentinazo

A saída para a crise está longe de aparecer nas estatísticas do governo dos “executivos” de Macri. As condições de vida do povo argentino começam a piorar e o governo conta ainda com algum apoio popular- perdeu nos últimos meses quase 10 pontos de popularidade.

Ainda estamos muito longe do nível de vida dos trabalhadores daquele 2001. Para defender essas conquistas, o povo argentino conta com sua recente experiência de lutas, mas também com novos fenômenos como a retomada de direções sindicais por correntes classistas como o caso do sindicato nacional do ramo pneumático.  E em muitas outras comissões de fábrica e corpo de delegados. A juventude ainda não entrou em cena como o fez em países vizinhos como o Chile e mesmo o Brasil desde 2013. E existe uma força de esquerda presente no conjunto da sociedade argentina, como se verifica nas manifestações e nas votações à esquerda do Kichnerismo.

Infelizmente, a FIT( frente eleitoral entre os partidos PO, PTS e IS) não consegue ser um polo de unidade entre todos os setores de esquerda, capaz de construir uma resistência de massas ao ajuste.  Seu sectarismo não deixa confluir para além do seu espaço eleitoral conquistado.

Como uma importante novidade do aniversário da rebelião popular, se apresentou uma nova frente – entre o MST e o Novo MAS-  batizada de “Izquierda al Frente- Por el Socialismo’, com nutridas colunas nas passeatas.

É preciso abrir caminho para a entrada em cena da classe trabalhadora, destravando e defendendo as conquistas de 2001.

Como saída para o futuro do continente seguimos honrando à memória dos mártires do 19/20, levantando a bandeira de um novo Argentinazo, dessa vez com a classe trabalhadora a frente para produzir mudanças de fundo.