Por Leandro Fontes – MES/PSOL

 

Segundo Karl Marx “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. Apesar de aparentar ser simples e até um pouco obvia, essa frase está carregada de significados políticos.

Desde a revolução francesa, em certa medida, os revolucionários de distintas matizes debatiam quem é o sujeito social revolucionário? Isto é, quem pode protagonizar a revolução. Nesse ponto chave, Marx e Engels irão enfatizar que o proletariado é sujeito social revolucionário. Pois o proletariado, em essência, é a classe antagônica a burguesia. Portanto, segundo Marx e Engels, o proletariado é a classe que produz o capital e a única classe não parasita no modo de produção capitalista.

Evidentemente, ao logo do tempo o proletariado se diversificou, mas o cerne da ideia da luta de classes – explorados versus exploradores – permaneceu. Isso ainda significa para os marxistas, que a classe trabalhadora é sujeito social capaz de derrotar a burguesia. Essa caracterização é aparentemente consensual, mas na verdade ela se tornou hegemônica no calor de anos de luta político-ideológica no movimento operário e se consolidou como um padrão com o triunfo da revolução russa de 1917.

Esse debate se expôs na Europa do século XIX e teve seu principal expoente na Comuna de Paris, processo no qual deu a largada para a luta socialista nas décadas seguintes. A Comuna deixou lições e conclusões pilares.

No seio do processo revolucionário francês surgiu uma corrente política substitucionista que ficou conhecida como blanquista (referência nominal de Louis Auguste Blanqui[1], seu principal dirigente). Essa corrente revolucionária não tinha expectativa no protagonismo dos trabalhadores mobilizados, pois para os blanquistas, a classe trabalhadora não iria se rebelar violentamente contra a burguesia. Por isso, se forjaram em uma organização separada do proletariado, com membros determinados a cumprir uma tarefa que (para eles) a classe trabalhadora não iria cumprir.

A corrente blanquista se propunha, portanto, ser uma organização dos abnegados que estão dispostos a substituir a ação da classe trabalhadora para derrubar o poder estabelecido. Acreditavam que um pequeno grupo conspirativo, bem instruído, com uma estratégia definida e com membros dispostos a cumprir esta estratégia era superior à ação das massas.

Já os marxistas entendiam que as propostas blaquinstas eram honestas, corajosas e voluntariamente revolucionárias, mas insuficientes e incapazes de ter futuro. Pois, para Marx “cada passo do movimento efetivo é mais importante que uma dúzia de atentados e ações individuais”. Mais adiante, em “A História da Revolução Russa, III volume, capitulo: A arte da insurreição”, Trotsky irá destacar:

“A insurreição é uma arte e, como toda a arte, ela tem as suas leis. As regras de Blanqui eram as exigências de um realismo de guerra revolucionária. O erro de  consistia não no seu teorema direto, mas na sua reciprocidade. Do fato que a incapacidade táctica condenava a insurreição ao fiasco, Blanqui deduzia que a observação das regras da táctica insurrecional era capaz, por ela própria, de assegurar a vitória. Foi somente a partir daí que é legítimo opor o blanquismo ao marxismo. A conspiração não substitui a insurreição. A minoria ativa do proletariado, mesmo bem organizada que seja, não pode amparar-se do poder independentemente da situação geral do país: nisso, o blanquismo é condenado pela história. Mas somente por isso. O teorema direto conserva a sua força. Na conquista do poder, ao proletariado não lhe basta uma insurreição das forças elementares. É preciso uma organização correspondente”.

Na Rússia czarista, os marxistas revolucionários também polemizaram com um setor de essência substitucionista. A expressão russa foi representada no primeiro momento pelos chamados populistas – a primeira organização foi Zemlya i Volya (Terra e Liberdade) e depois Narodnaia Volya (A Vontade do Povo), os narodiniks corrente política que negava o papel das massas no desenvolvimento histórico e afirmavam que só as grandes personalidades, só os “heróis”, fazem a história da humanidade e não a multidão inerte, como chamavam às massas. E no segundo momento pelos Socialistas Revolucionários (SR), partido pequeno-burguês que surgiu na Rússia nos fins de 1901 e princípios de 1902, em resultado da fusão de vários grupos e círculos populistas. No celebre “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo”, Lênin grifa a polêmica: 

“o bolchevismo cresceu, formou-se e temperou-se, durante muitos anos, na luta contra o revolucionarismo pequeno-burguês, parecido com o anarquismo, ou que adquiriu dele alguma coisa, afastando-se, em tudo que é essencial, das condições e exigências de uma conseqüente luta de classes do proletariado”.(…) “Ao surgir em 1903, o bolchevismo herdou a tradição de luta implacável contra o revolucionarismo pequeno-burguês, semi-anarquista (ou capaz de “namoricar” o anarquismo)”, (…) “O bolchevismo fez sua e continuou a luta contra o partido que mais fielmente representava as tendências do revolucionarismo pequeno-burguês (isto é, o partido dos “socialistas revolucionários”) em três pontos principais. Em primeiro lugar, esse partido, que repudiava o marxismo, obstinava-se em não querer compreender (talvez fosse mais justo dizer que não podia. compreender) a necessidade de levar em conta, com estrita objetividade, as forças de classe e suas relações mútuas antes de empreender qualquer ação política. Em segundo lugar, esse partido via um sinal particular de seu “revolucionarismo” ou de seu “esquerdismo” no reconhecimento do terror individual, dos atentados, que nós, marxistas, rejeitávamos categoricamente”. 

Portanto, apesar das diferenças de cada especificidade exemplificada, a essência é a mesma. Isto é, um pequeno grupo tentando substituir a ação de massas. Na polêmica, ação individual ou de um pequeno grupo versus ação de massas, a vida comprovou que os marxistas revolucionários tiveram a melhor resposta e por isso hegemonizaram ideologicamente as principais revoluções no século XX.

Opinamos que essa breve introdução histórica nos aporta para ajudar a compreender o fenômeno Black Bloc (grupo ou não grupo que se agrupa) e a posição dos marxistas em nosso tempo. Em primeiro lugar, para não cometermos anacronismos, é importante indagar: os BBs são uma organização conspirativa blanquista? São anarquistas? São uma derivação dos narodiniks russos? Não! Tirando um leve tempero anarquista e, em menor escala, maoista, propagado por alguns setores que tentam influenciar ideologicamente suas ações, os Black Blocs não se enquadram globalmente em nenhuma dessas correntes políticas. Porque os mesmos não possuem um programa, organização e não tem uma estratégia revolucionária de tomada do poder. Essa é uma diferença determinante em relação aos outros grupos citados.

Sua ação prioritária, a tática BB[2], se expressa contra símbolos capitalistas (principalmente bancos) e o enfrentamento físico com as forças de repressão. O conjunto desses elementos são denominados pelos próprios Black Blocs como ação direta.  A pesar de ser um tema controverso no que diz respeito a este tipo de ação direta, no caso brasileiro, os BBs acabam por sua forma “alegórica e performance” aparecendo para um setor da vanguarda como os mais radicais na prática.

Suas afirmações públicas do tipo: “protesto pacifico não adianta nada, só com a violência que o governo enxerga nossa revolta” [3] e/ou “a violência é uma ação onde a desobediência não é passiva (…)” [4], acabam instigando parcelas da juventude que não enxergam grandes possibilidades organizativas e identificam a PM como o seu inimigo central. Contudo, esse setor (grupo ou não grupo que se agrupa) de fácil infiltração e sem estratégia, vem se perdendo em ações erronias que contribuíram diretamente para a ofensiva repressiva e midiática contra o conjunto do movimento social organizado.

Todavia queremos enfatizar, que as críticas que levantamos não se enquadram num debate moral ou de algo do gênero. Mas, se emolduram na reflexão de qual é o melhor método para fortalecermos e massificarmos o movimento nas ruas no atual estágio da luta de classes no Brasil. Assim sendo, não aceitamos a criminalização do movimento social e defendemos o conjunto do ativismo frente à repressão do Estado.

O que estamos salientando e iremos desenvolver, portanto, é que em grande medida a tática BB, da forma que foi aplicada, acabou servindo de munição aos setores da ordem burguesa. Mais ainda, queremos refletir que não há possibilidade real de um pequeno grupo (sem organização, sem planejamento e sem estratégia) espontaneamente derrotar um setor militar treinado e fortemente armado com pedras, dezenas de rojões e um punhado de coquetéis molotov. Aqueles que insistem ingenuamente que essa ação é viável para derrotar um braço armado do Estado ou para subverter a ordem acabam desprezando a reação da repressão e o impacto negativo que essa ação pode ter na maioria do povo. Em síntese, repetem erros de essência substitucionista. Pois, propõem uma ação que a correlação de forças não permite. E por essa razão lógica, essa ação não conta, em regra, com o apoio e a adesão digna de nota.

Gostaríamos de apresentar alguns exemplos, com recorte temporal do biênio que concentrou as maiores mobilizações do país – 2013 e 2014 – e com recorte espacial, o Rio de Janeiro. Portanto, não trabalharemos na baliza da abstração e sim com elementos empíricos de grande envergadura.

Nos frequentes atos massivos no Rio de Janeiro esse setor (grupo ou não grupo que se agrupa), sem debater nos espaços/fóruns coletivos e democráticos do movimento, por sua própria vontade aplicou à tática BB de modo unilateral. A consequência, em grande medida, foi à repressão policial ao conjunto dos ativistas presentes nos atos. Sendo que, a grande maioria dos ativistas não havia discutido e deliberado por aquela ação. Esse é o ponto concreto de equivoco de método que gera confusão, divisão e desmobilização. Se pensarmos em um critério minimamente razoável, 1% dos presentes num ato não pode impor sua vontade sob os 99% dos ativistas. Nem 10% sobre 90%. Nem 20% sobre 80%. Ou seja, opinamos que não seja aceitável um pequeno grupo impor uma ação contra a vontade do conjunto do movimento a revelia do mesmo.

De modo sutil ou mais acentuado essa distorção ocorreu em inúmeras mobilizações, como no ato do dia 7 de outubro de 2013. Nessa data, foi convocado o ato: “1 Milhão pela Educação”, em apoio a heroica resistência da greve dos educadores do Rio e contra a violência policial aos grevistas. O ato em si, da largada até seu ponto de chegada, havia sido extremante vitorioso, mais de 50 mil pessoas ocuparam a Av. Rio Branco. Um clamor do povo (buzinaços, aplausos nos pontos de ônibus, chuva de papel picado nos prédios, adesão de outras categorias ao ato, etc) em prol os profissionais de educação. Entretanto, as ações isoladas no final da passeata por parte dos Black Blocs deu o combustível necessário para a PM antecipar uma nova repressão.

O saldo no dia seguinte foi “uma tonelada” de noticias na grande mídia enfatizando a violência, os rojões explodindo nos portões da Câmara de Vereadores, a quebradeira de vidraças e a tensão dos que não tinham nada haver com aquela ação. Portanto, uma ação equivocada e deslocada do objetivo central do ato, isto é, a defesa dos profissionais de educação. Mais uma vez a tática BB, aplicada num momento inadequado, proporcionou a burguesia um caminho curto para a reação.

Aqui abrimos um parêntese: não vamos gastar energia analisando o porquê a PM reprimiu. Essa obviedade não pode delimitar nossa caracterização. A polícia existe para reprimir. E ponto.

Para nós, o movimento deve ser pautado pela unidade de ação e por eixos políticos nítidos que sejam capazes de nutrir a vanguarda e mobilizar as massas. Quando o movimento ganha confiança em suas próprias forças os resultados são impactantes, assim sendo, a consciência dos trabalhadores e do povo dá saltos significativos, como foi em grande medida nas Jornadas de Junho. A massa na rua: “não foi por 20 centavos!”.

Assim sendo, a ação dos marxistas não está baseada na sua vontade individual deslocada da situação política e da classe trabalhadora, mas da “análise concreta da situação concreta” (Lênin).

Para organizar nossa ação, o marxismo revolucionário incorporou dois conceitos da ciência militar: a estratégia e a tática. Na essência, a estratégia tem a ver com o objetivo final e as táticas são os inúmeros meios para chegar a esse objetivo. Na política do dia-a-dia, frequentemente nos utilizamos às táticas, pois esse instrumento político nos permite intervir na realidade e dialogar com parcelas da classe trabalhadora, da juventude e dos setores médios, possibilitando apresentarmos pontos de nossas ideias, independente da situação política vigente.

Além das mobilizações massivas de Junho, outros processos que germinaram no Rio nos deram ainda mais instrumentos para a direção dessa caracterização. De modo cronológico tivemos: a greve dos bombeiros em 2011 (movimento que deu o gatilho para o inicio do fora Cabral); a “primavera carioca” – campanha/movimento Freixo prefeito em 2012; a greve dos profissionais de educação em 2013; a greve dos garis em 2014. Do ponto de vista dos trabalhadores organizados, a greve dos educadores e o movimento grevista dos bombeiros foram os principais exemplos de mobilização e táticas acertadas nos últimos anos no Rio. Pois, souberam conectar a luta específica de sua categoria com a luta política contra os governos e encontraram a mobilização nas ruas como principal método de ação.

Mas, os educadores e os bombeiros radicalizaram? Sim! A ocupação da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro pelos educadores foi um momento de ação direta radicalizada da greve, porém essa tática foi aplicada num momento de esgotamento das negociações com o governo e com a opinião pública majoritariamente favorável à greve. Do mesmo modo, foi à ocupação do Quartel General dos Bombeiros, após muitas tentativas frustradas de solução do impasse e com uma forte adesão da categoria, os bombeiros resolveram por uma ação radicalizada que culminou com o enfrentamento direto com o BOPE. Mesmo com a forte narrativa contraria aos bombeiros por parte da grande mídia, a maioria da opinião pública ficou ao lado dos bombeiros com fitas vermelhas nos pulsos, nos carros e nas janelas.

 Ou seja, os educadores e os bombeiros acertaram politicamente, organizaram sua autodefesa, souberam utilizar a greve como instrumento de mobilização e dialogo com a opinião pública a seu favor, sua ação serviu para dar mais confiança as suas categorias e colocar na mira de tiro os governos peemedebistas de Cabral e Paes.

Evidentemente que no interior desses dois processos ocorreram erros no varejo. Porém, acertaram no atacado. Por isso, o exemplo irradiou. E no mais, podemos concluir que não há uma ação direta “canonizada”, mas sim tipos e momentos para tal ação.

Em suma, a história demonstra e Junho de 2013 (em certa medida) ratificou que só a ação de milhões pode fazer os “de baixo” impor sua vontade sob “os de cima”. Opinamos que esse é o eixo no Rio de janeiro, no Brasil e no mundo. Aqueles que acham que podem inverter essa equação propondo um atalho mais curto e direto podem impressionar um punhado de ativistas no primeiro momento. Entretanto, não irão conseguir sustentar essa posição por muito tempo. Por isso, o mais correto nesse momento é nos diferenciarmos desse setor (grupo ou não grupo que se agrupa), sem criminalizá-los, e seguir nas ruas pautando o fortalecimento da luta imediata, ininterrupta, conectando-a com a necessidade estratégica de organizar a indignação. Assim sendo, um setor ou um ativista que no primeiro momento simpatizou com as fileiras BB, pode enxergar as colunas organizadas um espaço sério e coerente capaz de dar respostas mais contundentes e objetivas a luta contra o Estado opressor. Desse modo, concluímos que não é suficiente se pautar somente no quadrante das demandas imediatas e na ação espontânea dos trabalhadores, da juventude e dos setores médios. Todavia é relevante frisar: a espontaneidade combativa do povo é fundamental e deve ser referenciada, mas não passa dos “primeiros rounds” numa ação mais aguda da luta de classes. Por isso, é necessário que o instrumento canalizador e organizativo da consciência do movimento se desenvolva. Para tanto, de nossa parte, o PSOL enquanto ferramenta universal de luta segue sendo um excepcional referencial para atrair parcelas dos trabalhadores, do povo e da juventude indignada que está à procura de respostas.

NOTAS

[1] Blanqui é essencialmente um revolucionário político, socialista apenas por sentimento, que simpatiza com o sofrimento do povo, mas não tem nem uma teoria socialista nem propostas práticas determinadas de remédios sociais. Na sua actividade política, foi essencialmente «homem de acção», acreditando que uma pequena minoria bem organizada que no momento correcto tente um golpe de mão revolucionário pode, por um par de primeiros sucessos, arrastar consigo a massa do povo e fazer assim uma revolução vitoriosa (Engels. Literatura dos Refugiados).

[2] A tática surgiu na Alemanha, nos anos 80, como tática utilizada por autonomistas e anarquistas para defender ocupações contra a ação da polícia e de ataques de grupos neonazistas. Posteriormente essa vertente se expressou durante as manifestações contra o encontro da OMC em Seattle, em 1999, quando grupos com a mesma identidade e alegorias destruíram fachadas de lojas e escritórios do McDonald’s, da Starbucks, da Fidelity Investments e outras instalações de grandes empresas. [Esse é a versão mais conhecida e difundida dos blacks blocs].

[3] www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/134346-violencia-black-bloc-visa-chamar-atencao-de-um-estado-ausente.shtml

[4] Manuel Anonymous Ação Direta (parte 1 – desobediência civil).